Vou; venha

 Colher o pomo de adão de seu

Pomar de prazeres impensáveis.

 

Escale o monte e depois, cansado,

Se enterre na cova que de Vênus nasce!

 

Podar a planta do meu pé para alçar voo

E atingir o céu estrelado de sua boca.

 

Atravessar a maçã do rosto com seus dentes

Até fazer brotar a fonte de meus olhos d’água.

Sonho

Sonho

Com o diabo se contorcendo,

Ensanguentado  dos pés à cabeça,

Como se tivesse saído de uma placenta.

Ora corcoveava ora se esticava,

Tentando ser liberado!

Bem perto de mim.

Bem longe de mim.

 

E alguém me dizia:

_Pegue-o e leve-o a boca!

Imaginei-me fazendo isso

E, assim, ele se tornava

Pequeno como um canapé.

 

_Se quer ser grande, deve engoli-lo!

Repetia a voz, não sei de onde.

Mas o nojo me fez regurgitá-lo.

"Do aflito reino o imperador eu via", Divina Comédia de Dante
“Do aflito reino o imperador eu via”, Divina Comédia de Dante

 

Parte V – Escarrando no próprio prato

Bem, já disse que não havia esperanças de solucionar esses crimes, por isso o que sucedeu em seguida espantou a todos que tiveram notícias desta história. Nunca, nunca o assassino seria preso, não havia nenhuma pista, nenhuma testemunha, então o que aconteceu, até hoje é um mistério para qualquer um que é mau e quer sempre continuar praticando seus crimes, suas atrocidades impunemente e até para quem é bom e não vê coerência nas atitudes deste assassino.

Um dia, ao raiar do sol, como uma besta escapara de um sítio próximo a Bragança, um dos seus peões foi incumbido de encontrá-la e trazê-la de volta no laço. Quando a procurava pela estrada por onde seus passos indicavam que ela havia passado, o peão deu de cara com um rapaz que trazia uma moça da vida em cada braço. Estava meio alto da farra de uma boa noitada.

Como estava vindo do mesmo lado das pegadas, perguntou-lhe:

_Vosmecê não viu uma besta que escapou do sítio do Seu Tonico?

Sem mais nem menos, o outro respondeu:

_A única besta que há por aqui sou eu, porque fui eu que matei os dois irmãos do sítio do nhô Ciccilo!

Ele se deixou laçar e ser levado ao distrito. Todos ficaram sem saber o que pensar novamente. Como podia um criminoso, se entregar assim sem mais nem porquê; sem se preocupar com a própria pele.

Chamaram a nona e quem pôde vir dos irmãos para ouvir seu relato. Lá, Isaias contou tudo como havia acontecido.

Como sabia que era a época da venda da colheita e que a mãe ia rezar o terço com as comadres, aproveitou a ocasião para tentar a riqueza rapidamente. Só não esperava que os manos estivessem lá. Quando chegou, eles estavam na varanda proseando. Para separá-los, pediu a Nicola que fizesse um café fresco.

Assim que teve oportunidade, perguntou onde a mãe guardava o dinheiro. Surpreso, Nicola indagou o motivo daquela pergunta suspeita. Tomado de fúria, Isaias pegou a foice atrás da porta e, num único golpe, desferiu-a na garganta de Nicola.

Ao ouvir o estrondo do corpo caindo, Pedro acudiu, mas foi dominado na porta sob ameaça de acontecer-lhe o mesmo se não mostrasse onde estava o dinheiro. Isaias pegou o que queria, e saiu com o irmão pelos campos, até se distanciar o suficiente para seus gritos não serem escutados. Depois que liquidou com Pedro, ainda teve tempo de voltar ao sítio e consolar a mãe pra não levantar suspeitas.

A riqueza, que daria para sustentar modestamente toda família por um ano, durou muito pouco nas esbórnias das zonas dos arrabaldes.

Continua: Desfecho

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