Destaque

Ai, quem me dera

Vinícius de Moraes

Ai quem me dera, terminasse a espera
E retornasse o canto simples e sem fim…
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai quem me dera percorrer estrelas
Ter nascido anjo e ver brotar a flor
Ai quem me dera uma manhã feliz
Ai quem me dera uma estação de amor

Ah! Se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais

Ai quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afins
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir o nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguém chamar por mim…

7 de setembro: Brotas Eco Resort tem programação especial e ...

 

 

Poesia III

Poética de Botequim

Tirei minha Tristeza pra dançar.
Dançamos uma valsa de silêncios dolorosos,
Rodopiei por salas habitadas
Por todas as partidas prematuras
Em que ela me guiava, me girando pelos ares.

Com um nó preso bem no fundo da garganta,
Entreguei, sem luta e por cansaço,
Minhas fibras à cadência de seus passos.

Olhando bem no fundo de meus olhos, ela me dizia:
_ Eu sou sua! Você é minha!

Sobre lustres refletidos em espelhos multicores,
A Tristeza, me estreitando em seus braços,
Embalou-me numa nuvem luminosa
Onde vive a poesia.

José de Godoy

2018

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Pandemia da imbecilidade

Coluna do Antonio Prata na Folha de S. Paulo, edição de hoje, p. B3.

PANDEMIA DA IMBECILIDADE

Em que momento, exatamente, decidimos globalmente que ser legal não era legal? Em que ano, que mês, que dia, ficou decretado que o burro do fundão que bota tachinha na cadeira da professora tinha mais autoridade do que a professora? Que mecanismo esdrúxulo da psicologia social nos fez (e faz) crer que a busca pela paz, pelo respeito, pela tolerância, pela preservação do meio ambiente e contra a desigualdade são frescuras de gente fraca ou um complô comunista para destruir a sociedade?

Pois são estas distorções mentais que a ascensão de Trump, Bolsonaro, Orbán, Erdogan, Salvini e tantos outros ogros coroa, muito mais do que uma onda da direita. Bolsonaro foi eleito repetindo vez após outra que seu ídolo era o torturador Brilhante Ustra. Não Margaret Thatcher. Não Ronald Reagan. Não os economistas Mises ou Hayek.

Ustra. Um açougueiro que levou crianças de cinco anos para verem os pais destruídos após uma sessão de tortura. (O menino não reconheceu a própria mãe, desfigurada). Bolsonaro dedicou o voto do impeachment de Dilma ao torturador e declarou no programa Roda Viva que seu livro de cabeceira era a biografia do carrasco. Admiradores de ditaduras costumam mentir para esconder a selvageria. Bolsonaro, não: parece ter uma fixação justamente pelas sevícias. Fez da ação humana mais abjeta a sua bandeira —e foi eleito.

Como toleramos tamanha excrescência? Admitir que uma pessoa que aplaude torturadores seja nosso presidente porque fará reformas econômicas necessárias é como levar os filhos num pediatra sabidamente pedófilo porque é um médico competente. “Abusou do meu filho? Sim, abusou, é o jeitão dele, mas a febre, ó, baixou que é uma beleza!”.

A maior crise que enfrentamos, globalmente, não é a pandemia de coronavírus e nem a recessão mundial que ela provavelmente trará, ambas passarão: é uma crise de valores. Valores estes que os próprios ostrogodos que nos desgovernam fingem defender. O sujeito que repete como um papagaio “Brasil acima de tudo” incentiva manifestações no meio de uma pandemia e mesmo estando em quarentena, sai do palácio e dá a mão para centenas de aduladores. Coloca em risco, assim, a vida de milhares de brasileiros. O mesmo sujeito que repete como um autômato “Deus acima de todos” rasga os evangelhos toda vez que abre a boca ou faz arminha com a mão.

Escrevi na última crônica que a quarentena, turbinada pelas redes sociais e suas fake news, iria mandar o mundo de vez para a cucuia. Depois de dez dias em casa, porém, a sensação tem sido outra. É cedo pra fazer qualquer previsão, as notícias mudam a cada hora e ninguém sabe o que nos aguarda, mas existe uma chance de ouro de que este circuit breaker global faça com que paremos de correr como ratinhos numa roda de egoísmo e imbecilidade e nos dediquemos a alguma reflexão.

Precisamos repensar profundamente a sociedade. Não falo aqui da idade mínima para aposentadoria de tal ou tal categoria ou das alíquotas de imposto de renda desta ou daquela faixa de remuneração. Tais discussões são importantes, é claro, mas antes delas temos que recriar uma linha entre o que é tolerável e o que é intolerável. Antes dos marcos regulatórios, temos que estabelecer os marcos civilizatórios.

Por tudo que nos ameaça, 2020 pode entrar para a história como o pior ano das nossas vidas. O que significa que, depois dele, as coisas devem melhorar. Não se trata de otimismo, mas de instinto de sobrevivência. Se não trocarmos o ódio e a violência pela esperança e pelo amor, já, a humanidade não chega até a esquina. Tá ok?

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O país “quebrado”

Hugo Oliveira
·
O Brasil está mesmo quebrado?

De 2015 pra cá todo dia algum jornal mostra um político ou economista de direita falando que o Brasil está quebrado graças ao PT. Por isso Dilma sofreu impeachment, por ter quebrado o país, e Bolsonaro – leia-se Paulo Guedes – foi eleito para reerguer a economia. Não tem dinheiro pra saúde, nem pra educação, obras, nada. É preciso fazer reformas e mais reformas, senão afundaremos de vez.

Mas eis que chega o coronavírus!

Repentinamente surgem R$ 10 bilhões pra socorrer os planos de saúde, outros R$ 55 bilhões do BNDES pra socorrer as empresas. Há até dinheiro pra socorrer companhias aéreas. Isso sem falar nos mais de US$ 300 bilhões em reservas internacionais que estão sendo torrados.

Que país quebrado é esse que do nada mostra dinheiro de todos lado?

 

Vejam os lucros dos bancos do “país quebrado” só no último ano:

Lucro do Itaú em 2019: R$ 26,5 bilhões
Lucro do Bradesco em 2019: R$ 22,6 bilhões
Lucro do Santander em 2019: R$ 14,1 bilhões
Ajude a espalhar: quantos bilhões de reais os bancos Itaú, Bradesco e Santander doarão para contribuir no controle da pandemia, para que o Brasil não viva a esperada calamidade? #QuantoOsBancosDarãoParaAjudar?
Vamos entupir os e-mails e redes sociais dos bancos cobrando sua contribuição!

O país só está quebrado como pretexto para precarizar a mão de obra dos assalariados e taxar os microempresários porque as grandes empresas e bancos conseguem perdão de suas dívidas e incentivos fiscais.

 

 

Discurso de uma verdadeira Estadista diante da iminente catástrofe

Verti do inglês para o português o discurso de Angela Merkel. Deve conter imperfeições, visto que não sei alemão e esta é a versão de uma versão, de modo que correções serão bem vindas. Sim, tenho diferenças ideológicas com Merkel, mas ESTE é o discurso de uma estadista. Eu já disse – e repito agora – que, mesmo sendo de centro-esquerda, a ideia de ser governado pela direita não me causa emoções terríveis. É possível discordar racionalmente de alguém como Merkel. O que eu não tolero e jamais tolerarei é ser governado por um pateta ignorante e alucinado. Ao terminar de ler o discurso, comparem-no com os discursos do presidente do Brasil. Lembrem-se dele dizendo que a crise atual é “fantasia”, “histeria”, lembrem-se das piadas inconvenientes, da burrice, lembrem-se dele contrariando determinações do próprio ministério. Lembrem-se dele invocando o nome de Deus em vão, como fez recentemente: “profetizo o fim do coronavírus”, como se tivesse poderes mágicos. Lembrem-se dele sendo irresponsável e mantendo contato físico com manifestantes que ele estimulou SIM. Lembraram? Pois é, cara direita brasileira. Veja quão pequeno, quão medíocre e patético é o seu representante, ainda mais quando comparado a esta mulher:

“Caros cidadãos,

O coronavírus está atualmente mudando a vida em nosso país de modo dramático. Nosso conceito de normalidade, de vida pública, de interação social – tudo está sendo testado como nunca antes.

Milhões dentre vocês não podem ir trabalhar, seus filhos não podem ir para a escola ou para a creche, teatros e cinemas e lojas estão fechadas e, talvez, o mais difícil: nós todos perdemos os encontros que são normalmente considerados usuais. Evidentemente, em uma situação como esta, cada um de nós está repleto de perguntas e preocupações sobre como seguir em frente.

Eu me dirijo a vocês hoje, deste modo incomum, porque eu quero dizer a vocês o que me guia como Chanceler e o que guia todos os meus colegas no Governo Federal nesta situação. Isto faz parte de uma democracia aberta: que nós também tomemos decisões políticas transparentes e as expliquemos. Que nós justifiquemos e comuniquemos nossas ações o melhor possível de modo que elas sejam compreensíveis.

Acredito firmemente que nós seremos bem sucedidos nesta tarefa se todos os cidadãos a entenderem verdadeiramente como tarefa deles. Deste modo, deixem-me dizer: isto é sério. Levem a sério também. Desde a unificação alemã… não, desde a Segunda Guerra Mundial, não houve desafio para nosso país em que nossa ação conjunta fosse tão importante.

Eu gostaria de explicar para vocês em que pé as coisas estão no que diz respeito à epidemia, o que o Governo Federal e as demais instâncias de governo estão fazendo para proteger todo mundo em nossa comunidade e limitar os danos econômicos, sociais e culturais. Mas eu também gostaria de explicar a vocês por que vocês são necessários e o que cada um e todos podem fazer para contribuir.

Sobre a epidemia – e tudo o que eu posso dizer pra vocês sobre isso vem do Governo Federal após consultas com os especialistas do Instituto Robert Koch e outros cientistas e virologistas: pesquisas estão sendo conduzidas ao redor do mundo sob alta pressão, mas ainda não há uma terapia nem uma vacina contra o coronavírus.

No que tange a este tema, há apenas uma coisa que nós podemos fazer, que é desacelerar a disseminação do vírus, esticar isso por meses e ganhar tempo. Tempo para pesquisas e para o desenvolvimento de remédios e vacinas. Mas, principalmente, tempo para que aqueles que ficarem doentes possam receber o melhor cuidado possível.

A Alemanha tem um excelente sistema de saúde, talvez um dos melhores do mundo. Isso nos dá confiança. Mas nossos hospitais ficariam completamente sobrecarregados se tantos pacientes com infecções severas causadas pelo coronavírus fossem admitidos em um tempo tão curto.

Eles não são apenas números abstratos em uma estatística, mas sim um pai ou um avô, uma mãe ou uma avó, um companheiro. Eles são pessoas. E nós somos uma comunidade em que cada vida e cada pessoa importa.

Nesta ocasião, eu gostaria de primeiramente me dirigir a todos aqueles que trabalham como médicos, enfermeiros, equipe ou em qualquer outra função em nossos hospitais e no sistema de saúde em geral. Eles são a linha de frente desta batalha. Eles são os primeiros a entender a doença e quão severos são alguns cursos de infecção. E a cada dia vocês vão para o trabalho e estão lá pelas pessoas. O que vocês fazem é tremendo e eu quero agradecer vocês do fundo do meu coração por isso.

Deste modo, o objetivo é desacelerar o vírus em seu caminho pela Alemanha. E, para fazer isso, nós devemos – e isto é existencial! – nos concentrar em uma coisa: desligar atividades públicas o mais rápido possível. Naturalmente, nós devemos fazer isso com racionalidade e senso de proporção, porque o Estado continuará a funcionar, os suprimentos com certeza continuarão a ser assegurados e nós queremos preservar a atividade econômica do melhor jeito que pudermos.

Mas nós devemos reduzir tudo que possa colocar pessoas em perigo, tudo que possa ferir o indivíduo ou a comunidade. Nós devemos limitar, o máximo que pudermos, o risco de um infectar o outro.

Eu sei o quão dramáticas já são as restrições: sem eventos, sem feiras, sem concertos e, por enquanto, sem escolas, sem universidade, sem escolas infantis, sem brincadeiras no pátio. Eu sei quão difíceis são esses fechamentos, os quais foram feitos a partir de acordos entre o governo federal e os estaduais. Eles interferem com nossas vidas e também com nossa autoimagem democrática. São restrições jamais vistas na República.

Permitam-me assegurar a vocês: para alguns como eu, para quem a liberdade de viajar e de movimento foi um direito duramente conquistado, tais restrições podem apenas ser justificadas quando são uma necessidade absoluta. Em uma democracia, eles nunca deveriam ser decididas levianamente e devem ser apenas temporárias – mas no momento elas são indispensáveis para salvar vidas. Desde o começo da semana, os controle de fronteira reforçados e restrições de entrada para alguns de nossos mais importantes países vizinhos estiveram em vigor.

Já é muito difícil para a economia, para as grandes empresas assim como para os pequenos negócios, para lojas, restaurantes e trabalhadores independentes. As próximas semanas serão ainda mais difíceis. Eu posso assegurar vocês: o governo Alemão está fazendo todo o possível para mitigar o impacto econômico – e, sobretudo, para preservar empregos.

Nós podemos e iremos fazer tudo o que pudermos para socorrer nossos empregadores e empregadoras ao longo desta difícil provação.

E todos podem ter certeza de que o suprimento de comida está assegurado nestes tempos, e se as prateleiras ficarem vazias por um dia, elas serão preenchidas novamente. Eu gostaria de dizer a todos que vão a supermercados: estocar produtos faz sentido, sempre foi assim. Mas com moderação. Acumular como se nunca mais fosse haver insumos novamente não faz sentido e, no fim das contas, é uma completa falta de solidariedade.

Deixem-me também expressar meus agradecimentos aqui para pessoas a quem raramente agradecemos. Alguém que se senta no caixa do supermercado ou preenche as prateleiras está fazendo um dos mais difíceis trabalhos neste momento. Obrigado por estarem lá para seus concidadãos e literalmente manter o lugar funcionando.

Agora vamos ao que eu acho que é o mais urgente, hoje: todas as medidas do governo terão sido em vão se nós não usarmos os mais eficientes meios de prevenir o vírus de se disseminar tão rapidamente. E esses meios somos nós mesmos. Assim como cada um de nós pode indiscriminadamente ser afetado pelo vírus, cada um de nós também pode ajudar. Primeiramente, e o mais importante: levem a sério o que estamos falando aqui, hoje. Não entrem em pânico, mas também não pensem nem por um momento que o outro não importa. Ninguém é dispensável. Todo mundo conta, e isso conduzirá todos os nossos esforços.

Isto é o que uma epidemia nos mostra: quão vulneráveis nós todos somos, quão dependentes nós somos do comportamento dos mais vulneráveis, mas também como nós podemos proteger e fortalecer uns aos outros, agindo juntos.

Isto depende de todos. Nós não estamos condenados a aceitar passivamente a disseminação do vírus. Nós temos um remédio: por consideração, devemos manter distância uns dos outros. O conselho dos virologistas é claro: não apertem as mãos dos outros, lavem suas mãos frequentemente, fiquem a pelo menos um metro e meio de distância do outro e, de preferência, dificultem qualquer contato com os muitos idosos, porque eles estão em situação especial de risco.

Eu sei o quão difícil é fazer o que está sendo requerido. Nós queremos estar perto uns dos outros, especialmente em tempos de necessidade. Nós entendemos afeto como proximidade física ou toque. Mas neste momento, infelizmente, o oposto é que é verdadeiro. E isso é o que todos precisamos entender: neste momento, distância é o único modo de expressar que você se importa.

Visitas bem intencionadas, passeios que não deveriam ser feitos, tudo isto pode ser contagioso e deveria realmente não ocorrer. Há uma razão para os especialistas dizerem que avós e netos não deveriam ficar juntos agora.

Aqueles que evitarem encontros desnecessários ajudarão todos aqueles que têm que lidar com mais casos todos os dias em hospitais. Isto é como nós salvamos vidas. Isto será difícil para muitos, e é nisso que tudo se resume: não deixar ninguém sozinho e zelar por aqueles que precisam de encorajamento e confiança. Como família e como sociedade, nós encontraremos outros meios de ajudar uns aos outros.

Já existem muitas forma criativas que desafiam o vírus e suas consequências sociais. Já há netos que estão gravando podcasts para seus avós, de modo que eles não fiquem sozinhos. Nós todos temos que encontrar meios de demonstrar afeto e amizade: Skype, telefonemas, e-mails e talvez escrever cartas novamente. O correio está funcionando. Nós agora ouvimos falar sobre maravilhosos exemplos de ajuda entre vizinhos para os mais velhos que não podem fazer compras por si mesmos. Eu tenho certeza de que há muito mais por vir e nós mostraremos, como comunidade, que nós não deixamos uns aos outros sozinhos.

Eu apelo a vocês: cumpram as regras que solicitamos agora pelos próximos tempos. Como governo, nós sempre vamos verificar o que pode ser corrigido e, a partir daí, o que ainda é necessário. Esta é uma situação dinâmica, e nós seremos capazes de aprender com tudo isso, então o que sempre podemos fazer é repensar e reagir com outros instrumentos. Nós então explicaremos isso também.

Então, por favor, não acreditem em rumores, mas apenas em comunicações oficiais, as quais nós traduzimos para várias línguas.

Nós somos uma democracia. Nós não vivemos pela força, mas pela partilha de conhecimento, pela participação. Esta é uma tarefa histórica e só pode ser cumprida se nos unirmos.
Estou absolutamente convicta de que iremos superar esta crise. Mas quão altos serão os sacrifícios? Quantos entes amados iremos perder? Isto está em nossas mãos. Nós podemos agora, de forma resoluta, reagir juntos. Nós podemos aceitar as limitações atuais e cuidar uns dos outros.
Esta situação é séria e está em aberto.
Isto significa que dependerá não apenas de, mas também de quão disciplinadamente cada um seguir e implementar as regras.

Nós podemos demonstrar, ainda que nunca tenhamos experimentado algo como isto antes, que nós agimos cordialmente e razoavelmente e então salvamos vidas. Sem exceção, isso depende de cada indivíduo e, por conseguinte, de todos nós.

Cuidem-se bem e cuidem de seus entes queridos. Muito obrigada!

A aprovação do fim do mundo

Para não esquecermos de como chegamos até aqui:

O texto analisa uma cartilha do Banco Itaú criada para defender a PEC, que cortou investimentos nas áreas da saúde, educação e segurança, a fim de sobrar mais dinheiro dos nossos impostos para os Bancos lucram com os juros da dívida pública.

“Por fim, a parte da “consequência de decisões de governos passados” é o trecho mais filosófico de todos. Marx disse que a “tradição das gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. Essa expressão, que era apenas uma formulação crítica denunciando a falta de liberdade (não importando a vontade) do sujeito, agora se realiza de modo mais objetivo possível, demonstrando ao mesmo tempo o fundamento social de toda heteronomia moderna (as leis cegas da economia de mercado) e o limite dessa máquina incontrolável – a destruição do futuro. (…)

A PEC do Fim do Mundo é a liquidação total, de antemão, das garantias sociais da futura geração. Até mesmo o serviço público mais rasteiro e de qualidade funesta de hoje parecerá um Total Welfare diante do que está por vir (assim como já parece ao míope petismo que suas políticas compensatórias eram a fina flor do Estado do Bem-Estar Social Brasileiro).

A PEC do Fim do Mundo é o sacrifício antecipado da reprodução social frente ao fim em si do dinheiro. É o círculo da forma mercadoria e forma monetária que encerra o seu processo histórico: o dinheiro não apenas não aceita nenhum outro Deus que não ele mesmo, como se mostra indiferente ao mundo que o rodeia.”

Blog da Boitempo

pec-do-fim-do-mundo-meirelles

Por Maurilio Lima Botelho.

Há uma espécie de cartilha “explicando“ a PEC 241 através de perguntas e respostas. Criada pela InfoMoney, que nada mais é do que uma agência de notícias daquele que se apresenta como maior grupo “independente” de corretagem mobiliária do Brasil, a cartilha é um defesa da PEC do Fim do Mundo realizada por consultores do Banco Itaú, responsáveis pelas respostas. Isso confere um tom impessoal ao texto devido a expressões como “o Itaú responde“, o “Itaú reforça“ ou “o Itaú ressalta”.1

Como se sabe, o Banco Itaú é o maior banco privado do Brasil graças a sua fusão, em 2008, com o Unibanco. Apesar das várias críticas ao processo que levaria a uma cartelização financeira, a fusão foi autorizada pelas instituições reguladoras e abençoada por Henrique Meirelles, presidente do Banco Central da Era Lula e hoje Ministro da Fazenda. Ilan Goldfajn, economista-chefe do banco…

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Arnaldo Antunes em um não-poema contra o fascismo

via Arnaldo Antunes em um não-poema contra o fascismo – contraofascismo – Medium

isto não é um poema

desabafo
que não pude não
fazer e não pude fazer
de outra forma
que não fosse
assim
fatiando as frases
no espaço
aqui
hoje
eu vi
aterrorizado
um artista assassinado
Moa do Catendê,
mestre de capoeira,
autor do Badauê —
por conta de uma divergência política num bar
da Bahia
depois corri o dedo
sobre a tela e
vi e ouvi
arrepiado
Luiz Melodia
(também negro e compositor,
também com o cabelo rastafari,
como a vítima do post anterior)
cantando
“no coração do Brasil”
e repetindo muitas vezes
esse refrão
“no coração
do Brasil”
“no coração do Brasil”
que tento sentir
pulsar ainda
entre a luz de Luiz
e a treva
desse buraco vazio
que não pulsa mais no peito
de Moa do Catendê
e “não existe amor em SP”
ou “no coração do Brasil”
fraturado
nesses dias
brutos
de coturnos
chucros
a chutar a cara
de quem
ama
arte
cultura educacão
liberdade de expressão
diversidade
cidadania
solidariedade
democracia
mas não se dá
a mínima
o que importa é se subiu
a bolsa
caiu
o dólar
se todos vão prosseguir
seguindo
docilmente para o abismo
nessa insanidade coletiva
em que o Brasil nega
qualquer Brasil
possível
cega
qualquer futuro possível
e o ódio
o horror e o
ódio
e nada que se diga faz sentido
mais
para quê
expor na cara desses caras
a palavra explícita
(gravada em vídeo e repetida, repetida, repetida)
do seu “mito”
dizendo
“eu apoio a tortura”
“eu defendo a ditadura”
“eu vou fechar o congresso”
“não servem nem para procriar”
“não te estrupro porque você não merece”
“a gente vai varrer esses vagabundos daqui”
“o erro foi torturar e não matar”
“viadinho tem que apanhar”
etc etc etc etc etc
e tudo mais
que repete incansavelmente
há anos
ante câmeras e microfones
para quê mostrar de novo
e de novo
o mesmo nojo
se é justamente
por isso
que o idolatram?
e sempre haverá
os que vêm disfarçar
dizendo:
“estamos entre dois extremos”
“sim, mas veja a Venezuela”
“é para acabar com a corrupção”
“nós queremos segurança”
ou
“não é bem assim…”
enquanto constatamos cada vez mais
que sim,
é assim
mesmo, é assim
que é
mas
como li por aí:
“como explicar a lei Rouanet para quem
ainda não assimilou a lei Áurea?”
ou: como explicar a lei da gravidade
para quem ainda crê
que a terra é plana?
e querem defender sua ignorância com dentes
e garras
querem
matar atirar vingar
a quem?
em nome de quem?
(pátria, família, propriedade, segurança?)
se nessa seara não há direitos
nem respeito
ensino ou dignidade
só horror e
ódio, ódio
e horror
as palavras perdem a clareza
os valores perdem o valor
a vida perde o valor
Marielle
remorta remorrida rematada
por sua placa
rompida rasgada desonrada
pelas mãos truculentas de
brutamontes prepotentes
com suas camisetas estampadas
com a face do coiso
que redemonstra sua monstruosidade
quando vende
em seus próprios comícios
camisetas de outro
ultra-monstro
ustra

aquele que além de torturar
levava crianças para verem
suas mães torturadas

e esses mesmos
abomináveis
que, diante de uma claque vergonhosa,
se orgulham
de terem
rasgado as placas
com o o nome Marielle Franco
estão sim
agora
eleitos
satisfeitos
mas não saciados
de todo o sangue
de inocentes
que há de correr
só por serem
diferentes
excitando em outros
o desejo de exercer
seu obscuro
poder
de milícia polícia esquadrão da morte
e o anúncio da Rocinha metralhada
como solução
a barbaridade finalmente
institucionalizada
como diversão
o Brasil finalmente
sem coração
fora da ONU
e dos acordos internacionais pelo
meio-ambiente
sem controle
de sensatez ou mentalidade
sem limite humanitário
“não vai ter ong!”
“não vai ter ativismo!”
“não vai ter mimimi!”
bradam
cheios de si e de ódio
criminosos contra o crime
opressores pela família
amorais pela moral
apesar de todos
os alertas
da imprensa internacional
de esquerda, de centro, de direita
só não vê quem não quer
a tragédia anunciada
divulgada
não como boato
mas escancarada
-mente
enquanto
empoderados pelo discurso
de ódio
de horror e ódio
seus eleitores
já saem pelas ruas
dando tiros
e gritos
enxurradas de fakes
suásticas nazistas gravadas com canivete
na pele da menina
que usava “ele não” estampado na blusa
e a promessa de violência desmedida
se concretizando
antes mesmo de começar o segundo turno
e nem um centímetro de terra para os índios
e nem um pingo de direitos civis ou humanos
e a volta da censura e o ódio,
o ódio, o horror
e o ódio
pra encerrar de vez
o sonho de uma nação
que tem a chance
de dar ao mundo
sua contribuição
original
agora fadada a repetir o que de pior já houve
na história
sem história agora
sem Museu Nacional
nem cultura nem educação
abolir filosofia e arte
em seu lugar:
moral e cívica
escola militar
religião
geografia dos lucros e dividendos
massacre das minorias
horror e ódio
e ódio
e horror
crescente permanente enquanto dure
pois ninguém larga o osso assim tão fácil
depois de um golpe
que precisa parir outro golpe
ou autogolpe
alimentado por todas as fakes e facas
contra as costas de artistas
como Moa
mas na cabeça de quem apóia
tudo se justifica:
o fascismo
a tortura dos presos
o sumário julgamento sem juri
autorização dada à polícia
para matar
e o ódio aos pobres
as blitzes ostensivas
a guerra declarada
dos que aceitam assassinos para combater bandidos
se está tudo invertido mesmo
pobre elegendo milionário,
pelo avesso e ao contrário
então se autoriza a sórdida
barbárie
dos fortes contra os fracos
algo está muito doente
no Brasil
no descoração do Brasil
que mente, se omite, agride, regride
para avançar sem freios
em direção ao fascismo
seguindo a música hipnótica do
ódio,
horror e ódio
pregados em igrejas
em nome de Deus
e de Cristo
só desamor em nome de Cristo
violência e brutalidade em nome de Cristo
armas e tortura
e preconceito em nome de Cristo
de Deus e de Cristo
armar a população
para metralhar os adversários
os diferentes
os miseráveis
os favelados
os do outro lado
os que se manifestam
ou contestam
ou pensam de outra forma
ou se vestem
de outra cor ou tem
outra cor ou
qualquer pretexto
que se crie
para espalhar o ódio, o horror
e o ódio
do machismo ao estupro
da mentira ao linchamento
do homicídio ao genocídio
(“tinha que ter matado pelo menos trinta mil!”)
já sem democracia
palavra vazia
em boca
de quem compactua
(e não são poucos)
pensando ser
possível
alguma forma de
neutralidade
nesse momento
como Pilatos
lavando as mãos
a chamada mídia
tenta fazer média
ao dizer que os dois lados são igualmente
extremistas e perigosos
mas então
onde estavam nos últimos três mandatos
e meio
antes do pesadelo Temer?
estavam numa ditadura comunista
e não sabiam?
na verdade
todos sabem muito bem
que o extremismo
vem de um só
lado, que
quer se eleger para acabar
com eleições
e que o grande perigo é mesmo
esse jogo
de equivalências que,
na verdade
serve ao monstro
pois a omissão é missão impossível
neste agora
impossível
mascarar o sol
da ameaça
hostil e explícita
do nazismo
crescente
com a peneira furada
de um bom senso
mediano hipócrita indiferente
que sempre
vai dizer:
sim, mas a Venezuela…
como se não tivéssemos ouvido exatamente isso
em 64,
quando diziam:
— Sim, mas Cuba…
para justificar a ditadura militar
que tanto elogiam
hoje em dia
e que o atual
presidente
do nosso Supremo Tribunal Federal
decidiu
que agora vai chamar
de “movimento”
em vez de
“golpe militar”
para adoçar um pouco a boca
amarga
do sangue
impregnado
que não vai sumir assim
mudando a nomenclatura
desnomeando a já tão dita
“ditadura”
mas esse des-
-equilíbrio
ético
que diz
preferir uma autocracia
perfeita
a uma
defeituosa
democracia
esse
erro
que nenhum arrependimento será
capaz de reparar
quando for tarde
demais
ainda dá
para evitar
ainda
é tarde
de menos
para
conter
o ódio,
o horror e o ódio
ainda

dd
a
d

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The Wall, Pink Floyd