A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Pedro Nava e Carlos Dummond de Andrade de máscara em Belo Horizonte

Carlos Drummond de Andrade , “Farewell”. Rio de Janeiro: Editora Record, 1996.

Destaque

Nós

Thaís de Godoy

Chegamos até aqui

fomos longe demais…

nossa vida tripla, ano após ano, nos uniu

eu você e nós e os nossos nós

nós dos nossos dedos tortos

apontam um futuro incerto

nos esquecemos de duvidar das nossas dúvidas

de questionar nossos questionamentos…

Alexandre ainda procura com sua espada aquele nó górdio

que criamos para honrar nossas origens:

o princípio, o fundamento

afinal à nossa frente está o fim dos tempos,

então voltamos ao começo

o nó da madeira

o nó na madeira

o diário nó na garganta

do garrote dos supliciados.

Quantas Portas de Não-Retorno se fecharão atrás de nós

antes de assumirmos nossa iminente ruína?

Carta aos reitores

Antonin Artaud

Basta de jogo de palavras,
de artifícios de sintaxe,
de malabarismos formais;
precisamos encontrar – agora –
a grande Lei do coração,
a Lei que não seja uma Lei, uma prisão,
senão um guia para o espírito perdido
em seu próprio labirinto.
Além daquilo que a ciência jamais poderá alcançar,
Ali onde os raios da razão se quebram contra as nuvens,
esse labirinto existe,
núcleo para o qual convergem todas as forças do ser,
as últimas nervuras do espírito.

Coração

O direito à tristeza – Contardo Calligaris

Laboratório de Sensibilidades

As crianças têm dois deveres. Um, salutar, é o dever de crescer e parar de ser crianças. O outro, mais complicado, é o de ser felizes, ou melhor, de encenar a felicidade para os adultos.Esses dois deveres são um pouco contraditórios, pois, crescendo e saindo da infância, a gente descobre, por exemplo, que os picolés não são de graça. Portanto, torna-se mais difícil saltitar sorrindo pelos parques à espera de que a máquina fotográfica do papai imortalize o momento. Em suma, se obedeço ao dever de crescer, desobedeço ao dever de ser feliz.A descoberta dessa contradição pode levar uma criança a desistir de crescer. E pode fazer a tristeza (às vezes o desespero) de outra criança, incomodada pela tarefa de ser, para a família inteira, a representante da felicidade que os adultos perderam (por serem adultos, porque a vida é dura, porque doem as costas, porque o casamento é tenso…

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Destaque

Interregno

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Em memória de Paulo de Godoy

Na hora da Lua Vazia, você nos abandonou!

A lua cheia era uma cabeça pendurada no ar

Perfeitamente alinhada a dois pingentes de diamantes.

Você escolheu um lindo dia

Você escolheu um lindo lusco-fusco

Uma linda noite de indescritível silêncio capsular

Você escolheu absoluto o silêncio

Sem despedidas

Sem avisos

Sem escândalos como deve ser

Você escolheu o silêncio primordial

Que nos precedeu

Você escolheu o silêncio terminal

Que nos espera

Mas, naquele momento de tormenta,

nós também pedimos silêncio,

À Nossa Grande Mãe,

O silêncio nos protegeu

O silêncio nos encobriu

Em nossas mentiras brancas…

Ainda agora pedimos silêncio às nossas entranhas que gritam:

Por que meu Deus?

Procuramos os culpados

Procuramos as respostas em todas as ciências dos deuses

Procuramos as respostas em todas as ciências dos homens

Mas só o silêncio nos abraça

Pedimos silêncio para nosso inquieto coração

Afogado em tanta ternura sem eco…

Por favor, silêncio! Não convém esquadrinhar o mistério,

O abismo também nos espreita nas esquinas

O abismo também nos olha pelos corredores escuros e pelas janelas abertas.

Do fundo dos precipícios à sombra das altas pontes

Das entranhas do mar profundo cortado por nossas naves barulhentas,

A música silenciosa do início dos tempos

Chama irresistivelmente nosso nome,

Quando nos demoramos no entremeio dos mundos.

Godoy

Caminhada de Lua Cheia na Serra de Sintra - GreenTrekker.pt

Vozes D’África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé!…
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé…

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas…
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia…
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais …
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
— Pagodes colossais…

A Europa é sempre Europa, a gloriosa!…
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã!…

Sempre a láurea lhe cabe no litígio…
Ora uma c’roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela — doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.
………………………………

Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro… bebe o pranto a areia ardente;
talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão…

E nem tenho uma sombra de floresta…
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador…
Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
“Abriga-me, Senhor!…”

Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz…
Quando eu passo no Saara amortalhada…
Ai! dizem: “Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz… ”

Nem vêem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim …
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim
…………………………………

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?…
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!
………………………………….

Foi depois do dilúvio… um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará…
E eu disse ao peregrino fulminado:
“Cam! … serás meu esposo bem-amado…
— Serei tua Eloá. . . ”

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o nômade faminto corta as plagas
No rápido corcel.

Vi a ciência desertar do Egito…
Vi meu povo seguir — Judeu maldito —
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d’Europa — arrebatada —
Amestrado falcão! …

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal…

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais… irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p’ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito…
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

São Paulo, 11 de junho de 1868

Coluna | Proteção à saúde mental em tempos de | Brasil de Fato

Uma das faces pouco reveladas ainda dos impactos da pandemia da covid-19, sobretudo como o governo federal lida com a pandemia é o tema da saúde mental: os impactos psicossociais e o aumento cada vez mais frequente desses episódios.Primeiro porque não existe nenhuma diretriz e coordenação por parte do Ministério da Saúde do funcionamento dos serviços na área do SUS de cuidado com pessoas com transtornos psicossociais nesse momento. Aliás, o SUS não tem qualquer orientação por parte do Ministério da Saúde para o funcionamento das equipes de Saúde da Família, dos agentes comunitários de Saúde e dos vários equipamentos de base comunitária do campo da saúde mental. Isso é gravíssimo porque temos milhões de pessoas que são acompanhadas regularmente e tiveram esse acompanhamento absolutamente suspenso, desmontado, sem qualquer orientação por parte do Ministério da Saúde.Segundo por conta da ausência de políticas públicas do governo federal, de governos estaduais e municipais, para lidar com as vulnerabilidades das pessoas diante da situação crítica da pandemia e da crise econômica, ampliam-se cada vez mais os transtornos mentais, os episódios de saúde mental, e seus impactos na vida das pessoas.Terceiro é absolutamente já registrado a relação entre crise econômica, desemprego, aumento da pobreza e aumento dos transtornos mentais, sobretudo a depressão, aumento de suicídios. A relação é registrada não só no Brasil como nos países europeus.Por isso, estamos muito preocupados que possam existir ações preventivas, mediações, gestão dos transtornos mentais, sobretudo depressão em cima dos trabalhadores, do ambiente estressante que é o espaço de trabalho. Esta necessidade está ainda mais forte agora no momento onde várias atividades econômicas são reabertas em meio a pandemia expondo os trabalhadores do risco, não só da infecção da covid-19 mas do aumento das atividades estressantes e de impactos psicossociais.Eu, inclusive, apresentei um projeto de lei (3588/2020) buscando mudar a CLT nesse sentido para introduzir as ações de promoção, prevenção, mediação de transtornos psicossociais e de risco as doenças psicossociais no ambiente de trabalho. Deve ser algo a ser assumido pelos patrões,  empresários, assim como deve ser assumido e já foi estabelecido na CLT, ações de prevenção em relação a outros riscos.A depressão e os transtornos psicossociais são os principais mal do século e a covid-19 como principal pandemia desse século vem só reforçar o risco desse problema.   Edição: Rodrigo Durão Coelho

Fonte: Coluna | Proteção à saúde mental em tempos de | Brasil de Fato

Ai, quem me dera

Vinícius de Moraes

Ai quem me dera, terminasse a espera
E retornasse o canto simples e sem fim…
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai quem me dera percorrer estrelas
Ter nascido anjo e ver brotar a flor
Ai quem me dera uma manhã feliz
Ai quem me dera uma estação de amor

Ah! Se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais

Ai quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afins
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir o nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguém chamar por mim…

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