Rumi
O ladrão de corações
Deu-me um único beijo e partiu.
O que seria de mim
Se me tivesse dado sete ?
Todo lábio que o meu amado beija
Guarda sempre a sua marca:
Rachaduras abertas na ânsia de sugar
A doçura de seus lábios.
Guarda ainda outra marca:
O desejo louco da água da vida
Que a cada instante força o amor
A remover mil fogueiras.
E outra marca mais: o corpo,
Assim como o coração, desembestado,
Corre de encontro ao beijo
Para tornar-se leve e delicado
Como os lábios do meu amado.
Ah, que suavidade inebriante vem
Desse amor que desconhece limites !
Dia: 1 de janeiro, 2013
Assassinato culposo
Fiquei tão feliz por, após tantos anos, te reencontrar.
Surgiste como que por geração espontânea
Em meu humilde lar;
A ostentar tuas coloridas
E pintalgadas e aladas partes
Produzidas com delicada arte.
Se daí do teu céu _ se ele há _ puder me anistiar,
Talvez, eu mesma consiga me perdoar por assassinar-te.
Sem intenção, vejo que tu partes,
Senhora dos insetos, Joanhinha-ladybug!
Que essa notícia não se divulgue,
Para que tuas irmãs eu não assuste!
30-12-2012

A Divina Comédia – Dante Alighieri

E a ambos me dirigindo, eu disse, atento:
“Francisca, a triste história que narraste
move-me ao pranto e a grande sofrimento.
Revela-me a razão porque passaste
do puro anelo e do inocente amor
à culpa amarga que tão cedo expiaste”.
“Não existe”, falou-me, “maior dor
que recordar, no mal, a hora feliz;
e bem o sabe, creio, esse doutor.
Mas já que o nosso amor desde a raiz
ansiosamente queres conhecer,
narrá-lo vou, como quem chora e diz.
Estávamos um dia por lazer
de Lancelote a bela história lendo,
sós e tranqüilos, nada por temer.
Às vezes um para o outro o olhar erguendo,
nossa vista tremia, perturbada;
e a um ponto fomos, que nos foi vencendo.

Ao ler que, perto, a boca desejada
sorria, e foi beijada pelo amante,
este, de quem não fui mais apartada,
os lábios me beijou, trêmulo, arfante.
Galeoto achamos nós no livro e autor:
e nunca mais foi a leitura adiante
Enquanto aquela sombra o triste amor
lembrava, a outra gemia em desconforto;
e quase à morte eu fui, de tanta dor.
E caí, como cai um corpo morto.*
* Fonte: Prof. Dr. Sílvio Medeiros e o link para o site http://www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros.

