O beijo do amado

Rumi

O ladrão de corações

Deu-me um único beijo e partiu.

O que seria de mim

Se me tivesse dado sete ?

 

Todo lábio que o meu amado beija
Guarda sempre a sua marca:
Rachaduras abertas na ânsia de sugar
A doçura de seus lábios.

 

Guarda ainda outra marca:
O desejo louco da água da vida
Que a cada instante força o amor
A remover mil fogueiras.

 

E outra marca mais: o corpo,
Assim como o coração, desembestado,
Corre de encontro ao beijo
Para tornar-se leve e delicado
Como os lábios do meu amado.

 

Ah, que suavidade inebriante vem
Desse amor que desconhece limites !

rumi

Assassinato culposo

Fiquei tão feliz por, após tantos anos, te reencontrar.

Surgiste como que por geração espontânea

Em meu humilde lar;

A ostentar tuas coloridas

E pintalgadas e aladas partes

Produzidas com delicada arte.

 

Se daí do teu céu _ se ele há _ puder me anistiar,

Talvez, eu mesma consiga me perdoar por assassinar-te.

Sem intenção, vejo que tu partes,

Senhora dos insetos, Joanhinha-ladybug!

Que essa notícia não se divulgue,

Para que tuas irmãs eu não assuste!

 

30-12-2012

Joaninha
Joaninha

A Divina Comédia – Dante Alighieri

Divina Comédia IX, Gustave Doré
Divina Comédia IX, Gustave Doré

E a ambos me dirigindo, eu disse, atento:
“Francisca, a triste história que narraste
move-me ao pranto e a grande sofrimento.

Revela-me a razão porque passaste
do puro anelo e do inocente amor
à culpa amarga que tão cedo expiaste”.

“Não existe”, falou-me, “maior dor
que recordar, no mal, a hora feliz;
e bem o sabe, creio, esse doutor.

Mas já que o nosso amor desde a raiz
ansiosamente queres conhecer,
narrá-lo vou, como quem chora e diz.

Estávamos um dia por lazer
de Lancelote a bela história lendo,
sós e tranqüilos, nada por temer.

Às vezes um para o outro o olhar erguendo,
nossa vista tremia, perturbada;
e a um ponto fomos, que nos foi vencendo.

Divina Comédia - Inferno - Canto V, Gustave Doré
Divina Comédia – Inferno – Canto V, Gustave Doré

Ao ler que, perto, a boca desejada
sorria, e foi beijada pelo amante,
este, de quem não fui mais apartada,

os lábios me beijou, trêmulo, arfante.
Galeoto achamos nós no livro e autor:
e nunca mais foi a leitura adiante

Enquanto aquela sombra o triste amor

lembrava, a outra gemia em desconforto;
e quase à morte eu fui, de tanta dor.

E caí, como cai um corpo morto.*

* Fonte: Prof. Dr. Sílvio Medeiros e o link para o site http://www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros.

Bernardo  e Francesca