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Para Conselho Federal de Economia, Reforma da Previdência de Bolsonaro é injusta para os pobres

NOTA SOBRE A PROPOSTA DE REFORMA DA PREVIDÊNCIA 📜🖋

O Conselho Federal de Economia (Cofecon), cumprindo as funções que lhe são atribuídas em nosso ordenamento jurídico, vem apresentar sua avaliação sobre pontos relevantes da proposta de Reforma da Previdência do Governo. Entendemos que o principal objetivo deveria ser promover a justiça social. Não podemos apoiar mudanças que provoquem retrações nos fluxos de transferências governamentais para os estratos de menores rendas, com a promessa de que isto viabilizará ritmo maior de crescimento, baseada em hipóteses como a chamada “contração fiscal expansionista”, atualmente desacreditada pela grande maioria dos macroeconomistas dos meios acadêmicos internacionais. E, mesmo que funcione, crescer concentrando renda melhoraria a qualidade de vida de poucos, não sendo o que o economista deve buscar.

Em relação à proposta de Reforma da Previdência do governo:

  • Repudiamos a desconstitucionalização da Previdência Social, a qual propõe transferir para as leis complementares, mais fáceis de instituir e alterar, regras fundamentais do que deve ser uma inalienável função do Estado.
  • No mesmo sentido, é inaceitável o uso do montante esperado de recursos economizados como base para a especificação e negociação da Reforma. A Previdência Social precisa ser sustentável e compatível com o crescimento econômico inclusivo do país, mas os ajustes podem e devem ter efeitos graduais ao longo do tempo. Não existem riscos iminentes de dificuldades financeiras do setor público que não possam ser minimizados com a retomada mais robusta da atividade econômica e uma adequada reforma tributária.

  • Não se justifica a manutenção de privilégios para algumas castas do serviço público, como aposentadoria para os militares, com integralidade e paridade sem qualquer consistência com os princípios atuariais – sem gerar um montante em contribuições previdenciárias, ao longo da vida laboral, suficiente para pagar o valor de suas aposentadorias. Os servidores civis, que ingressaram no serviço público a partir de 2013, só recebem valores acima do teto previdenciário geral, atualmente em R$ 5,8 mil, de acordo com o montante de contribuições que acumularam. Os que entraram anteriormente possuem direitos adquiridos, em geral sem consistência atuarial; por isso, apoiamos elevações de contribuição e de tempo de acesso à aposentadoria, para aquelas acima do teto.

  • A participação do Governo no financiamento da Previdência, hoje assegurada pela Constituição com o Orçamento da Seguridade Social – que agrega despesas com previdência, assistência social e saúde, e receitas com contribuições previdenciárias, do empregado e empregador, a de alguns tributos, principalmente Cofins e CSLL – precisa ser preservada, assim como reconstituída, devido a perdas como as decorrentes da reforma trabalhista e de desonerações, em particular a DRU. Apenas as contribuições previdenciárias não seriam suficientes para financiar todos os benefícios, principalmente os dos cidadãos de baixa renda, inclusive por grande parte passar períodos extensos da vida economicamente ativa desempregados ou no setor informal.

  • Os efeitos do crescente tempo de sobrevida da população sobre os gastos previdenciários não precisam ser compensados de forma imediata, pois os resultados do Orçamento da Seguridade Social não têm apresentado desequilíbrios, como ocorre com “orçamentos de previdência”, sem a obrigatória contribuição do Estado, com que o Governo costuma impressionar a opinião pública.

  • Esses efeitos também não devem ser compensados por medidas que aumentem as desigualdades, tais como elevações intempestivas de idades e tempos de contribuição mínimos e reduções nos valores das aposentadorias por invalidez, pensões por morte, benefícios previdenciários acumulados – quando incidentes sobre os estratos de menores rendas – e benefícios de prestação continuada. Mesmo com a incidência gradual de várias dessas medidas, decorrente da instituição de regras de transição, as alterações seriam muito mais rápidas que a elevação da sobrevida da população, levando a perdas injustificadas de renda.

  • Em termos de desequilíbrios de curto prazo, tais efeitos seriam totalmente superados com a elevação do ritmo de crescimento e a recuperação dos vultosos créditos, que não têm sido cobrados satisfatoriamente.

  • Alíquotas por faixa salarial sem regra permanente de ajuste periódico pelas perdas inflacionárias podem transformar-se em mecanismo de confisco, como tem ocorrido com a tabela de imposto de renda.

  • A retirada da obrigatoriedade de recolhimento de FGTS e de pagamento de multa de 40% do FGTS, em demissões sem justa causa, dos empregados já aposentados pela Previdência Social, representa uma perda de direito do trabalhador e também contribui para o aumento das desigualdades.

  • Em sua Exposição de Motivos, o Governo deixa claro que pretende “introduzir, em caráter obrigatório, a capitalização, tanto no RGPS quanto nos RPPS”. Mesmo declarando ser um objetivo de longo prazo, o período pode ser abreviado, se vier a estabelecer condições mais vantajosas para as empresas com o sistema de capitalização, fazendo com que quase todos os empregos oferecidos passem a ser nesse sistema. Em todo caso, a proposta de capitalização apresentada é inaceitável, porquanto: (i) Veda a transferência de recursos públicos, abolindo o sistema de financiamento tripartite; (ii) Estabelece piso não inferior a um salário mínimo, garantido por um fundo solidário. Desta forma, como é vedado o financiamento com recursos públicos, não haveria outra fonte para o fundo solidário manter o piso, senão os recursos dos que contribuíram mais e teriam direito a aposentadoria superior ao piso.

  • O resultado seria um empobrecimento em massa, com grande parte se aposentando com valores inferiores aos que acumulariam com suas contribuições, devido às transferências para o fundo solidário. E não apenas as aposentadorias mais altas seriam penalizadas, alcançando também valores como de mais de um até três salários mínimos, que, em 2018, representavam um quarto dos benefícios do RGPS.

Com base nessas disfunções encontradas na proposta de capitalização do Governo e ainda no competente estudo da Organização Internacional do Trabalho (ONU/OIT) sobre o fracasso das experiências de privatização da Previdência Social, realizada em trinta países desde os anos oitenta [Reversing Pension Privatizations: Rebuilding public pension systems in Eastern Europe and Latin America], inclusive o caso chileno, tão elogiado por alguns, rejeitamos enfaticamente essa proposta de capitalização. A melhor solução é manter o atual sistema, com modelo de repartição simples obrigatório até o teto e modelo de capitalização facultativo complementar. Para os servidores públicos com aposentadoria acima do teto, sem consistência atuarial, apoiamos elevações de contribuições e do tempo para acesso.

CONSELHO FEDERAL DE ECONOMIA

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Eu ressurgirei

Eu ressurgirei!
Das cinzas vou me levantar,
Em meio à escuridão que me prendia
Eu serei a luz em meio às Trevas.
Eu vou encontrar a saída neste caminho;esta escuridão não é mais forte que eu.
As pessoas à minha volta mais próximas
me incentivaram e me mostraram que existe saída, que eu sou forte e capaz de me levantar.

Eu ressurgirei,
Apesar de todos os malogros.
Apesar de um passado sofrido, quando fui muito magoada.
Agora sou ou tentarei ser como um rio límpido.
Forte, onde nada pode me abalar.

Eu ressurgirei,
Como galhos de uma árvore,
Que, quando quebrados, florescem novamente.

Eu ressurgirei,
Como azul do céu depois da tempestade.
Vai passar, sou forte, consigo lutar.

Se a vida me bater em uma das faces,
Eu ofereço a outra.
Porque de certa forma a dor nos fortalece.
Devemos saber lidar com ela.
Somos muito mais fortes do que ela.

Eu ressurgirei,
Mais forte que um trovão,
Mesmo com meu jeito sensível.

Eu ressurgirei,
Como o sol depois da noite.
Como sol depois da trovoada.

Talvez, ainda exista um vazio,
Mas desta vez sou forte.

Eu ressurgirei,
Como o dia.

Eu ressurgirei,
Sem medo do que me espera!
Eu ressurgirei,
Me levantarei mil vezes se for necessário.
Sou forte!

Eu ressurgirei.

Anne Galindo Requerer

 

Anne Galindo

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O que os outros pensam de você reflete quem eles são, não quem você é

Em Provocações Filosóficas

Os Sioux têm um provérbio muito interessante: “Antes de julgar uma pessoa, caminha três luas com seus sapatos”. Se referem ao fato de que julgar é muito fácil, entender o outro é um pouco mais difícil. Ser empático é muitíssimo mais complicado. E o julgamento só será justo se vivermos experiências iguais.

Entretanto, com frequência pretendemos que os outros nos entendam, que compreendam nossas decisões e as compartilhem, ou que, ao menos, nos apoiem. Quando não fazem o que queremos, nos sentimos mal, nos sentimos incompreendidos e até rejeitados.

É evidente que isso é difícil de aceitar, todos necessitamos que, em algumas situações, alguém acolha nossas emoções e decisões. É perfeitamente compreensível. Contudo, sujeitar nossa felicidade à aceitação dos demais ou tomar decisões com base no medo de que os outros não vão nos entender é um grande erro. Um grande e inominável erro.

 

Porque os que os outros pensam sobre você na realidade diz mais sobre eles do que sobre a sua pessoa. O que pensam reflete, com certeza, o que são eles, não quem é você.

Quando criticamos alguém sem usar a empatia de nos colocarmos em seu lugar e sem, ao menos,  tentar compreender o ponto de vista do outro, na realidade expomos nossa forma de ser.  Quando alguém diz ao mundo que você é uma má pessoa esta atitude revela que ela é insegura, tem um pensamento duro e cheio de estereótipos.

Quem critica o que não é, não compreendeu ou não quer aceitar

O mais certo é que por trás de uma crítica destrutiva quase sempre se esconde o desconhecimento ou a negação de si mesmo. Na verdade, muitas pessoas lhe criticam porque não compreendem suas decisões, não caminham com os seus sapatos, não conhecem a sua história e não entendem a verdadeira razão de ter escolhido o caminho que escolheu. Muitas pessoas ainda vão lhe criticar por desconhecimento mais profundo sobre o seu jeito e, sobretudo, por serem arrogantes e pensarem que são os donos absolutos da verdade.

Em outros casos, as pessoas lhe criticam porque veem refletidas em você certas características ou talentos que não querem reconhecer. O escritor francês Jules Renard afirmou com precisão:“Nossa crítica consiste em reprovar nos outros  as qualidades que cremos ter”.  Por exemplo, uma mulher que é maltratada pelo seu marido pode criticar duramente o divórcio. É uma forma de reafirmar sua posição. Diz a si mesma que deve seguir suportando essa situação. E o curioso é que quanto mais tóxica seja a crítica, mais forte se revela a negação dos seus sentimentos.

Na prática, em algumas ocasiões, a crítica destrutiva não é mais do que um mecanismo de defesa conhecido como projeção. Neste caso, a pessoa projeta nos outros os mesmos sentimentos, desejos ou impulsos que lhe são muito dolorosos. E com os quais não é capaz de conviver. De maneira que os percebe como algo estranho e que deve ser castigado.

Como sobreviver às críticas?

Ninguém gosta de ser criticado, principalmente se as críticas se transformam em duros ataques verbais. Infelizmente, nem sempre podemos evitar estas situações, mas devemos aprender a lidar com elas sem que as mesmas nos afetem em excesso.

Como faço para resolver isso? Aqui estão algumas estratégias diferentes, porém eficazes:

  1. Coloque-se no lugar de quem lhe critica. A empatia é um poderoso antídoto contra a raiva. Não podemos ter raiva de alguém quando compreendem8os como se sente. Por isso, da próxima vez que alguém lhe criticar, tente se pôr no seu lugar. Ainda que essa pessoa não seja capaz de se colocar no seu. Assim verá que é provável que se trate de alguém míope dos olhos da alma. Ou quem ainda não teve a sua experiência de vida e guarda muita amargura e ressentimento. Dessa forma, perceberá que não vale a pena se aborrecer pelas palavras ditas com raiva.
     
  1. Entenda que é somente uma opinião, nada mais.O que os outros pensam sobre você é a realidade deles, não a sua realidade. Tais pessoas estão lhe julgando segundo as suas experiências, valores e critérios. Se tivessem caminhado com os seus sapatos, talvez andado pelos mesmos caminhos que você percorreu, é provável que pensariam diferente. Portanto, assuma de vez que essas críticas, na realidade, são apenas opiniões jogadas ao vento, nem mais nem menos. E que são absolutamente tendenciosas. Por outro lado, você pode valorizá-las se perceber que pode tirar proveito delas. Mas você pode, simplesmente, desprezá-las; jamais permita que as críticas arruínem o seu dia.
  1. Devolva a crítica com graça. Quando se tratam de críticas destrutivas o mais conveniente é fazer “ouvidos moucos”. E saiba que essa pessoa não está aberta ao diálogo. Pois se estivesse, em vez de julgar e atacar, mostraria uma atitude mais respeitosa e compreensiva. Não obstante, haverá casos em que seja necessário dar um basta na situação. Depois de tudo, quando tivermos que enfrentar males extremos, devemos recorrer a soluções mais incisivas. Nestes casos, responda sem se alterar e com frases breves que não deem motivos às réplicas.  Por exemplo, você pode dizer: “Não pode dar opinião sobre coisas que você não conhece” ou “Creio que não entendeu e tampouco deseja viver em paz. Dessa forma, não aceito que me critique”. Não critique sem pensar antes

“Em geral, os homens julgam mais pelos olhos do que pela inteligência, pois todos podem ver, mas poucos compreendem o que veem”, disse Maquiavel, séculos atrás. Podemos fazer nossa própria frase e, ainda assim, mantermos sua vigência: “Criticar por criticar significa que temos a língua fora do cérebro”.

Texto de Jennifer Delgado – Extraído de Rincón de la psicología 

 

 

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Não te rendas

Mario Benedetti

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Grafite representando protesto dos coletes amarelos, releitura do quadro “A liberdade guiando o povo”, Delacroix

 

 

Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos,
largar o lastro,
retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
continuar a viagem,
perseguir os teus sonhos,
destravar os tempos,
arrumar os escombros,
e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento:
ainda há fogo na tua alma
ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,
porque o quiseste e eu te amo,
porque existe o vinho e o amor,
porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
tirar os ferrolhos,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto,
baixar a guarda e estender as mãos,
abrir as asas
e tentar de novo
celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:
mesmo que o frio queime,
mesmo que o medo morda,
mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo na tua alma,
ainda existe vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo início,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, por eu te amo.

 

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A Montanha Mágica

O teu repouso, pedra, enquanto passo,

Faz o sonhar mais lento ao deus que dança.

Temo o fim do que avança pelo espaço,

Mas o teu sono lasso o tempo amansa.

 

Tudo o que vive neste mundo cansa:

Já nem meço a extensão do meu cansaço.

O amor inclina os seres à esperança

E a quem vive da espera o tempo é escasso.

 

Jacó serviu sete anos, e mais sete,

Labão, pai de Raquel. E mais servira…

Comigo a conta se repete.

 

Imoto, sofro ao Tempo que me fira,

Sem que te arremedar me desinquiete.

Espero, e fiz-me pedra que delira.

29-06-2012

Ascher-Cliff-Restaurant-Suíça

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Profissão professor

Desabafo de uma professora sobre as mudanças das regras na aposentadoria do magistério

Eu amo dar aulas, mas dar de 30 a 60 aulas semanais, como muitos de nós precisam fazer para se sustentar por 40 anos é desumano. Nossa profissão exige demais.

Alguns professores se esforçam muito para ensinar mais de 600 crianças e adolescentes semanalmente, alguns em mais de 3 escolas. Sem contar o trabalho nas horas vagas: preparo de aulas, correção de provas e trabalhos. O estresse se agrava porque sacrificamos nossas horas de lazer ao longo de todo ano letivo.

Continuamos sim, por amor à profissão. Afinal foi o que escolhemos, mas conforme os anos passam nossa paciência e energia vão se esgotando e doenças profissionais começam a aparecer. Minha mãe, por exemplo, adquiriu pelo menos quatro. Ela se aposentou, pela compulsória aos 70, sem saúde para desfrutar da aposentadoria.

Além dessas dificuldades, convivemos diariamente com o tráfico de drogas e a violência de e em todas as direções. Perdemos muitos alunos para o mundo que não lhes deu uma chance. Alguns também se matam quando as mordidas deste mundo lhes arrancam alguns pedaços imprescindíveis e faltam-lhes as forças para continuar.

O que muitos professores pensam é: o que eu não consegui fazer por eles? O sentimento de impotência é diário.

Muitos professores continuam na profissão pela gratificação de ver que alguns alunos conseguem alcançar os sonhos dele. Apesar disso, as dificuldades não resolvidas pesam ao longo de muito tempo, por isso muitos professores contam com a aposentadoria especial e precisam dela.

As mudanças que o governo pretende fazer nas regras para aposentar tiram nossas esperanças de conseguir suportar tais dificuldades numa fase da vida em que precisaríamos, no mínimo, reduzir muito nossa carga horária.

Portanto precisamos agora repensar se vale mesmo a pena continuar nessa carreira tão nobre, quanto desvalorizada e desrespeitada no Brasil. Neste momento, apesar das conquistas nos resultados do Idesp em nossa escola, que bateu sua meta em 120%, meu desejo é mudar de profissão.

GODOY

A paixão de ler

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O apocalipse nosso de cada dia

Todos os dias é o fim do mundo de alguém:
Amores são perdidos
Impérios novos e antigos se esfacelam
Hospitais, médicos, doentes são bombardeados
Cidades arrasadas
Mulheres estupradas
Refugiados afogados
Escravos torturados
Crianças mutiladas
Atletas incinerados

Todos os dias um mundo se acaba:
Florestas são arrasadas
Doces rios doces enterrados vivos
Sob as lamas de várias Samarcos
Genocídios de todos os tipos
Contra todos os diferentes
Contra todas as minorias
Contra todos os vulneráveis, rejeitados, dissidentes,
Com todos os tipos de armas,
Empalados, estripados, degolados, eletrocutados, fuzilados,
Dizimados…

Há infinitos apocalipses diariamente.
Seu mundo acabou algumas vezes?
Até gigantes estrelas se apagam
Corpos celestes se precipitam na vastidão do nada
Do qual nem a luz escapa

Porém os astros não têm sangue, músculos,
Terminais nervosos, medula, mente.
Nada sentem, criam, aprendem
Pelo, sobre e com seu implacável fim.

Leve um instante, leve um milhão de anos,
As constelações nada sentirão diante do abismo.
Por isso, perdoe-me o poeta:
Somos algo mais que filhos do carbono e do amoníaco.
Perdoe-me o astrônomo:
“Somos feitos da mesma matéria das estrelas” e muito, muito além…

Godoy – 2017

CaronteAlmasEstigeLytovchenkoOlexandr
Caronte e as Almas no Estige de Lytovchenko Olexandr

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Manir e Cyro

São Paulo, 9 de fevereiro de 2006.

Manir de Godoy
Recebi entre lágrimas a notícia do seu falecimento e entre lágrimas me ocorreu apenas dizer:
_ Era muito grande a expectativa do Manir, por essa viagem que ele está agora iniciando.
Sofreu muito esperando. E finalmente quando consultado por médicos, concordou em dormir. Para ele seria apenas dormir.
Para dividir comigo um fato que o consolava, ele me contou a história da barbearia do Chico Xavier.
Alguém que admirava o homem que tinha intimidade com a eternidade, descobriu onde estava o barbeiro que o servia e quando ele estaria lá. A cabeleira do Chico Xavier era uma peruca e havia um barbeiro que não cortava os cabelos que ele não tinha, mas tratava sua calva que tinha um problema dermatológico. Naquela data e hora essa pessoa que queria vê-lo adentrou a barbearia e sentado como se fosse usar os serviços dos profissionais da barba e do cabelo, ficou esperando. Em alguns minutos Chico Xavier chegou gozando dos olhares daqueles para quem ele era uma figura sagrada, e cumprimentando a todos como se os abençoasse. Sua figura era também algo bizarra, por sua peruca e seus lábios continuamente úmidos. Sentou-se na cadeira de seu barbeiro que retirou sua peruca e começou a aplicar-lhe um óleo perfumado, como se fosse mirra aplicada a um homem santo.
Criando coragem, quem esperava levantou-se e quase curvado pela reverência exagerada, pediu licença para aproximar-se dizendo:
_ Sr. Chico o senhor me dá licença de roubar-lhe um minuto? Queria apenas fazer uma pergunta.
Iniciando o diálogo que consistiria de apenas uma pergunta e uma curta resposta, disse:
_ O sr. acha mesmo que há uma vida após a morte?
Chico Xavier virando para ele a cabeça que era tratada, olhou nos olhos o seu interrogador e sorrindo disse:
_ Não meu filho, não existe outra vida após a morte: é a mesma.
Talvez a resposta sucinta, respondendo a tantos mistérios, exaustivamente examinados por Manir, o tenha comovido e movido muito. Ele me contou essa histórinha comovido como se Newton tivesse reinventado uma teoria da luz.
Menino da Rua Virgílio do Nascimento no Brás, morava com sua mãe em uma casa muito pequena nos fundos de outra casa. E havia lá um violino e uma admiração muito grande pelo concerto de Beethoven para aquele instrumento. Juntamo-nos, os amigos, como peregrinos do bairro, da noite, da devoção pelas artes e pela cultura. Sobretudo pelo Teatro.O bairro do Pari tem ainda hoje uma grande igreja, no largo que chamávamos de larguinho. Esta igreja da ordem franciscana com uma arquitetura românica, possuidora de um órgão com grandes pulmões, coroava nosso desejo de um templo para a amizade e para nossas sagradas devoções humanísticas.
Manir supria a doçura, o respeito por nós que tínhamos mais do que ele apenas uma formação mais burguesa e informada. Mas competia conosco com sua finíssima sensibilidade. E era firme quando nos censurava um ponto de vista frouxo, desatento, rude.
Era um operário gráfico e como todo gráfico, aos pés do linotipo, era informado e politizado. Admirador da esquerda que então ainda era heróica. Inocentes e ingênuos, sem as facilidades tecnológicas atuais – nem mesmo um gravadorzinho de pilha – nos satisfazíamos assobiando o Concerto para a Noite de Natal, de Corelli. Só parávamos de assobiar quando alguém
introduzia com os lábios um Albinoni. Sob a lua e a igreja. Contei ao Manir, há alguns anos atrás, que fiquei muito impressionado com o disco voador que havíamos visto na várzea de Vila Guilherme. Manir sorriu e me informou que eu não tinha visto o disco voador. Eu insistí que estava lá com ele e o Rudy. E ele me disse que eu estava enganado porque eu só sabia do fato porque eles me haviam descrito a experiência.
Tal era o partilhar de nossas emoções e a divisão que fazíamos entre nós dos acontecimentos maravilhosos. A experiência de um de nós era patrimônio de todos.
E há o capítulo da Discoteca Municipal. Cabines para dois nas quais nos trancávamos para ouvir música. Manir e os duos sonatas para violino e piano de Beethoven. “A Primavera” era uma peça essencial para Manir. Eu repetia infinitamente a audição só para mim de “Dido e Enéias” de Purcell. A discoteca era um refrigério, era para a nossa fantasia, fazer arte. Maynardi ocupava a cabine sózinho para ouvir o Carnaval opus 9 de Schumann e saia comovido sem cumprimentar ninguém, em linha reta e rápida para a porta. Schumann ia com ele. Um dia convidei Violeta Abramo, violinista amadora para ouvirmos o meu Purcell. E ela me perguntou se isso não seria perder tempo e se não seria melhor ouvirmos logo Bach? Éramos os anjos do último andar do Teatro Municipal. Tão alto que se a orquestra tocasse dentro do palco não a veríamos por inteiro. Então apenas ouvíamos, ou descíamos varando portas fechadas, invadindo os andares inferiores. Vimos naquele teatro passar a cultura do século: os pianistas Rubinstein, Kempf, Badura-Skoda, Paderewsky, Brailowsky, e muitos mais; os balés de Monte Carlo, o Sadlers-Well, Jean Babille e Natalie Filipard, Serge Lifar no Espectro da Rosa, o teatro de Paul Claudel e Kafka com Jean Louis Barrault e Madeleine Renault, os balés americanos, os balés étnicos da Polonia, da Rússia, da Romênia. E, naturalmente Vitório Gassman com Seis Personagens à procura de um Autor de Pirandello, La Vedova Scaltra de Goldoni e Orestes de Alfieri. E assistimos o repertório operístico do mundo todo – alemão, francês e italiano.
Assistimos a chegada de Gianni Ratto – que nos deixou dois dias antes de Manir nos deixar – na revista Carrosello Napolitano e Maurice Vanneau no espetáculo Barrabás.
E não pagávamos por isso tudo. Servíamos – em tese – como comparsas nas temporadas líricas – graças a um agente do teatro que se chamava Aielo. Manir e eu vestidos de guardas medievais, entramos para arrancar de cena o Vitório Gassman em Orestes de Alfieri e éramos comparsas da Madame Buterfly, sendo eu o cozinheiro chinês.
Lá em cima na galeria haviam os jovens judeus que devoravam conosco o banquete da cultura. Um dia eles desapareceram quase totalmente. Haviam se decidido por um kibutz de Israel e partiram para uma viagem cujo final desconhecemos.
Na volta do Teatro Municipal, tínhamos que andar da Praça Ramos de Azevedo
até o Brás. E falávamos, criticávamos, idealizávamos, sintetizávamos, nos ilustrávamos e começávamos a nos separar no Largo da Concórdia e eu descia muitas vezes com Manir até a rua Bresser que era nossa geografia, acompanhados por Maurício Tragtenberg que corajosamente continuava a marchar até o Belém. No dia seguinte, tudo de novo, numa liturgia do conhecimento anárquico e sem método: pois não haveria faculdade que contivesse nossa capacidade para aprender. Conhecimento foi para nós a sede diária.
Manir estava impedido durante o dia porque trabalhava na Saraiva da Rua Sampson com os tipos gráficos de chumbo. Mas lia, lia muito. E sonhava música para violino. Logo mais, à noite, seria no larguinho.
Rudy morreu, Hélio foi preso durante a revolução e ensinou filosofia, Maneco fazia televisão e eu tomei um navio para a Grécia.
Nestes últimos meses estive por telefone com Manir que não queria revelar a visão do flagelo que tomara seu corpo. Me pediu que não fosse vê-lo. Apenas falávamos sobre valores aos quais dávamos crédito e seu ritornelo era a espera do imprevisível, do inominável, do destino, de uma vida que afinal seria apenas a mesma.
Deixou em nós uma memória do amor fraterno e viril. E há um segredo sobre o Manir. Ele gozou da maravilhosa dádiva que o carregou por toda a vida: ele foi o filho muito amado de sua mãe. Este milagre é gozado por alguns e serve a eles de estrutura existencial e confiança no bem e no belo.
Sua ausência já se apressou em levar consigo um pedaço dos seus amigos.
Todos nós vimos com clareza o disco voador, mesmo que poucos estivessem lá.
Dividimos tão inteiramente tudo e agora um pedaço se apaga.
Ficamos aqui nesta inexplicável e transitória peregrinação imaginando se essa viagem do Manir coincide com a definição de Chico Xavier: é a mesma.

Cyro del Nero

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Eurídice e Orfeu

Quando tudo parecia perdido

Quando tudo eram cinzas

E o mal do mundo invadia sua vida,

Não podia ver através de suas cicatrizes

Quanta luz havia fora de sua caverna.

O tempo parou e a poeira se acumulou sobre seus ombros

Como em mobília há muito esquecida

Porque você só desejava dormir.

 

Mas um dia a luz entrou por um engano:

Palavras que numa encruzilhada se desviaram do seu curso

Original por acaso

Um mal-entendido bom

Um mal-entendido bom o guiou até mim.

 

Orfeu enfim resgatado do abismo.

E bastou ver a luz do meu sorriso

E acreditar que eu precisava de você,

Mesmo sabendo que não.

Orfeu foi bom com a ninfa porque ela não olhou para trás.

Então, vários e antigos nós se desataram.

É o Universo recompensando por uma Temporada no Inferno?

O Tempo surgiu do Caos?

Nada sabe, só sabe que sorrir é resistir.

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Morte de Orfeu

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ONE

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Para ninguém mais neste mundo tal imagem tem sentido e sentimento igual!

Homenagem à minha irmã Alcyone em seu aniversário.

 

One, one, meu Deus! Quanto amor!

Nem sei ter palavras para abarcar.

Só me resta com seu nome brincar

E assim recordar sua infância.

All- começa com A de amigos que tinham preguiça de, a palavra inteira, pronunciar!

Mesmo assim: por todos os olhares,

Que atrai em todos os seus dias, é All!

Cy – só esse pedaço é igual

Ao da amada de Macunaíma:

Cy – que também virou a estrela mais

brilhante, como o todo do seu nome.

One – no final é uma, única, una,

Embora em outro idioma.

Seu progenitor quis que fosse chamada assim,

nos dias em que, com o dom da vida, nos uniu!

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“Carece de ter coragem”

In memoriam de Faris Odeh, morto com apenas 13 anos, no dia 8 de novembro de 2000, por um sniper israelense

 

Sempre repetia minha madrinha:

“O medo não é de Deus”!

Olhos arregalados, completava ainda:

“O medo é a ausência de fé em Deus.

Falta de uma fortaleza interna!”

Mesmo que minha fé me abandonasse

Vez ou outra, quando conseguia

Reconhecer minha covardia, lembrava:

“O medo não é de Deus!”

Tememos muitas coisas.

“Hesito, logo existo”

É o bordão modernizado.

Por isso surpreende o gesto heroico.

Num átimo, o ser não duvida de nada.

Não duvida do que tem

de fazer imediatamente,

Mesmo que isso seja irracional.

Mesmo que isso seja loucura

Porque, naquele instante,

Mesmo o mais vacilante

passa a ter certeza do que deve,

precisa e deseja fazer.

Ergue-se nele essa fortaleza.

De onde ela vem?

Nem sempre da fé em um Deus,

Mas simplesmente da fé:

Fé na mudança,

Fé no fim da injustiça,

Fé em si mesmo,

Fé em poder mudar o mundo.

Mesmo que seja apenas um menino

e sua única arma uma ingênua pedra

diante de um tanque,

diante de toneladas de ferro,

diante  de incalculável ódio

E, finalmente, diante do medo.

Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

Nasceu a 08 Fevereiro 1888
(Alexandria, Egito)
Morreu em 01 Junho 1970
(Milão, Itália)
Giuseppe Ungaretti foi um poeta italiano. Foi professor da Universidade de São Paulo.

À MEMÓRIA DE


Chamava-se
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria

Amou a França
e mudou de nome

Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café

E não sabia soltar
o canto
do seu abandono

Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida

Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.

E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.

Sorrir

Anne Galindo

Como é bom sorrir
E aproveitar os bons momentos.
Como é bom jogar conversa fora,
E esquecer nossos problemas!

Sorrir, gargalhar, rir, pular, dançar
Aproveitar aquele dia alegre,
Que jamais irá voltar.

Como é bom sorrir para afastar a dor.
Ao menos bloqueia o sofrimento por um instante,
Trazendo um sorriso ao nosso semblante.

Sorrir, brincar, aproveitar.
Observar a beleza do céu.
Sorrir sem pensar…
Sorrir sem se preocupar.

Felicidade é tão boa.
Por que não é eterna?
Ela sempre faz falta,
Mas vai saber o que ela nos reserva!

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