Michael Löwy: O privilégio da servidão

•19 jun 2018 • Deixe um comentário

Blog da Boitempo

Por Michael Löwy.

O conjunto da obra de Ricardo Antunes se distingue por uma rara qualidade: seu autor consegue combinar a pesquisa sociológica concreta, rigorosa e empiricamente fundamentada com um compromisso social intransigente, a saber, a tomada de partido pelos explorados e oprimidos. Isso vale também, obviamente, para seu novo livro O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital (Boitempo, 2018).

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Pessoa, meu amor

•13 jun 2018 • Deixe um comentário

Pessoa, meu amor

 

Como declarar meu amor neste dia querido

em que você nos presenteou com o dom de sua vida?

Feliz aniversário, pessoa complicada e complexa!

“Louco porque também quis grandeza qual a sorte não dá.”

Você é o Encoberto também neste mesquinho mundo.

 

Quando voltará nosso messias da poesia?

Estamos órfãos de seus muitos eus.

Amado das musas, apesar de suas loucuras ou talvez por causa delas.

Foi nada, é todos, é tudo.

 

13-06-2018

Godoy

Fernando

Bizarro

•13 jun 2018 • Deixe um comentário

Dói tanto em mim a dor da sua solidão,

Dói tanto, que se, para si,

Tomasse outra pessoa qualquer,

Através dela, sentiria que estamos

juntos numa perfeita comunhão.

 

Como gêmeos siameses que habitam o mesmo corpo

Ou entidade que incorpora alguém,

através dela, moveria meu ser

E sentiria que você me possui também.

 

Ao sentir essa mulher,

Porque serei uma, se lhe convêm,

Formaríamos uma fraternidade,

Uma santíssima trindade

tão sagrada, que todos teriam de dizer amém.

Até mesmo você, que não acredita em ninguém…

 

Godoy

24-09-2012

FoujitaCafe

 

Meu filho, você não merece nada

•8 jun 2018 • 1 Comentário

Meu filho, você não merece nada

Eliane Brum

Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um I-pad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

 

Outras colunas de Eliane Brum: “O amor que sabe do tempo e do vento”; “A coluna que (quase) ninguém lê”; “Minhas raízes são aéreas”; “Na pele do outro”.

 

Vladimir Saflate fala sobre a democracia no Brasil

•6 jun 2018 • Deixe um comentário

Muito importante assistir a essa entrevista para conseguir enxergar uma saída no fim do túnel da atual crise e refletir sobre outras formas de democracia.

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=218042368802211&id=163618174244631

 

Os homens explicam tudo para mim, de Rebecca Solnit — Degrau de Letras

•30 maio 2018 • Deixe um comentário

Sinopse:

Em seu ensaio icônico “Os Homens Explicam Tudo para Mim”, Rebecca Solnit foca seu olhar inquisitivo no tema dos direitos da mulher começando por nos contar um episódio cômico: um homem passou uma festa inteira falando de um livro que “ela deveria ler”, sem lhe dar chance de dizer que, na verdade, ela era a autora. A partir dessa situação, Rebecca vai debater o termo mansplaining, o fenômeno machista de homens assumirem que, independente do assunto, eles possuem mais conhecimento sobre o tema do que as mulheres, insistindo na explicação, quando muitas vezes a mulher tem mais domínio do que o próprio homem. Por meio dos seus melhores textos feministas, ensaios irônicos, indignados, poéticos e irrequietos, as diferentes manifestações de violência contra a mulher, que vão desde silenciamento à agressão física, violência e morte. Os Homens Explicam Tudo para Mim é uma exploração corajosa e incisiva de problemas que uma cultura patriarcal não reconhece, necessariamente, como problemas. Com graça e energia, e numa prosa belíssima e provocativa, Rebecca Solnit demonstra que é tanto uma figura fundamental do movimento feminista atual como uma pensadora radical e generosa.

Confesso que a sinopse desse livro me ganhou logo de cara e o comprei achando que conteria uma coletânea de histórias cômicas (de tão trágicas tornaram-se cômicas), mas me enganei. De certo modo esse desvio nas minhas expectativas foi bom, pois Rebecca trouxe ensaios sobre a condição feminina ao longo dos anos e em diferentes setores da sociedade.

Apontarei aqui algumas ideias que Rebecca expõe ao leitor e que, pelo menos para mim, foram colírios para enxergar o mundo de maneira mais lúcida.

Casamento igualitário

Um dos termos trabalhados pela autora foi o de casamento igualitário, alcunha utilizada para denominar casamento entre pessoas do mesmo sexo. Eu nunca havia parado para pensar que essa denominação pressupõe que casamento heterossexual não é um casamento igualitário, semanticamente falando, mas bem que poderia ser, pois um casal que, independente do sexo, se respeita e trata um ao outro como um igual poderia ser denomina sim casamento igualitário. Não seria o sexo, mas as atitudes entre o casal que determinaria se um casamento é ou não igualitário ?!?

Desaparecimento gradativo

Fazer as mulheres sumirem ao longo da história é fichinha, a exemplo os nomes das famílias das mulheres que sumiram para dar espaço ao sobrenome do esposo. Essa história de ser chamada pelo nome do marido me lembrou algo estranho na língua brasileira: no ato do casamento hétero, as partes tornam-se ‘marido’ e ‘mulher’, não seria a mulher ‘mulher’ antes do matrimônio?

“É fácil chamar de crimes os desaparecimentos da guerra suja na Argentina; mas como devemos chamar os milênios de desaparecimento das mulheres – da esfera pública, da genealogia, do status legal, da voz, da vida?” P. 96

Clamamos por voz!

O chamado feminino mais claro é a necessidade de voz, isso fica explícito em notícias diárias que lemos nos jornais, como no caso da adolescente de 16 anos assediada na UFC e como uma enxurrada de outras garotas sentiram-se a vontade para relatar assédios sofridos ao longo da graduação depois de UMA ter sido ouvida. O motivo de não ter feito os relatos antes? “Falar? Ninguém vai ouvir”.

As mulheres precisam de voz nessa luta diária para alcançar a igualdade, cansamos de ser chamadas de loucas, de colocarem a culpa nas nossas roupas, de pensar mil vezes antes de ser simpática por medo de parecer outra coisa.

“‘Ela é louca’ é o eufemismo padrão para “Eu estou desconfortável com o que ela está dizendo”. P. 138

Rebecca faz um paralelo dessa falta de crédito com Cassandra, da Mitologia Grega:

“E mais uma coisa sobre Cassandra: a descrença com que suas profecias eram recebidas era resultado de uma maldição lançada sobre ela pelo deus Apolo, quando ela se recusou a fazer sexo com ele. A ideia de que a perda de credibilidade está ligada a reivindicar os direitos sobre o seu próprio corpo estava ali presente o tempo todo. Mas com as Cassandras da vida real que há entre nós, podemos desfazer a maldição, tomando nossas próprias decisões sobre em que acreditar, e por quê.” P. 151


A autora apresenta diversos outros pensamentos ao longo do livro que aguça o pensamento crítico do leitor sobre a questão feminina. Aqui ela faz links com alguns de seus outros livros e traz casos reais para ilustrar sua linha de raciocínio.

Algo que senti falta nessa obra foram referências, pois diversos casos citados por Rebecca eu já havia lido em outros livros, mas os que eu não conhecia, gostaria de saber mais sobre os relatos e de ser encaminhada por meio de referências, como nos livros da Angela Davis .

É isso, Os homens explicam tudo para mim é uma leitura rápida, rica, alterna entre leve e pesada por causa do seu conteúdo e a escrita da Rebecca faz o livro fluir de maneira ímpar.

via Os homens explicam tudo para mim, de Rebecca Solnit — Degrau de Letras

Parente: entreguismo desenfreado, incompetência — Jornal A Pátria

•24 maio 2018 • 2 Comentários

A Petrobras e o Brasil são vítimas de uma péssima gestão. Os neoliberais, chamados jocosamente de “cabeças-de-planilha”, consideram-se gestores eficientes, que cortam gastos e aumentam lucros. Mas, realidade, são administradores míopes e irracionais, sem nenhuma visão estratégica. O caso da atual administração da Petrobras é típico. Ela assumiu a empresa com a intenção clara de […]

via Parente: entreguismo desenfreado, incompetência — Jornal A Pátria

A limpeza étnica da Palestina

•15 maio 2018 • Deixe um comentário

Poética de Botequim

DANIEL AVELAR
DE SÃO PAULO
27/04/2017 07h00

Israel não conseguirá manter o sistema ideológico que o sustenta para sempre. Quem faz o prognóstico é o historiador israelense Ilan Pappé.

Estamos em uma encruzilhada: as pessoas em Israel sabem do que o país fez no passado e faz no presente, mas a maioria ainda aceita isso e parece não se importar”, afirma o historiador, para quem pressões externas e “novas gerações” provocarão mudanças em Israel.

Pappé, 62, é um dos principais nomes dos chamados “novos historiadores israelenses”, grupo que analisa criticamente os eventos que levaram à fundação do Estado de Israel, em 1948, a partir do estudo de arquivos militares mantidos em sigilo até a década de 1980.

Ele escreveu o livro “A Limpeza Étnica na Palestina”, no qual argumenta que houve um processo planejado de expulsão e massacre de milhares de palestinos que viviam no território que…

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Revista Sincronistas – 3ª Edição

•12 maio 2018 • Deixe um comentário

Saiu a 3ª edição da Revista Sincronistas, cujo tema é o Trabalho, em homenagem ao dia 1º de Maio. O coletivo Sincronistas é composto por escritoras do Vale do Paraíba, com a  colaboração da ilustradora Alcy de Godoy da cidade de São Paulo.

capa revista 3

Coletivo Sincronistas

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Trabalho. Palavra tão pequena, mas com tão grandes implicações. Em nossa sociedade, é algo que nos define, que nos acompanha até a velhice, tão emaranhado em nossas vidas que fica difícil imaginar uma existência sem a obrigatoriedade de produzir algo.

Enquanto assistimos ao sucateamento dos direitos trabalhistas, à exploração desenfreada (dos seres humanos e da natureza) em nome do dinheiro, a pergunta que fica é: o que podemos fazer para mudar esse cenário? Embora não tenhamos as respostas, fazemos o que está ao nosso alcance, lutando com palavras, com a nossa arte e com resistência.

Na 3ª edição de nossa revista, abordamos o tema do trabalho sob diversos aspectos, trazendo reflexões sobre o papel da mulher trabalhadora, mães e o mercado de trabalho, desigualdade de gênero no trabalho, entre outros.

Esperamos que essa…

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Mancebo

•11 maio 2018 • Deixe um comentário

Poética de Botequim

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Jacó trabalhou como pastor para Labão

Durante sete anos para merecer a mão

de sua filha Raquel, serrana bela.

Mas se não a visse novamente,

antes de a Terra girar quatro

vezes mais ao redor do Sol,

Jacó, dela, se lembraria?

Tudo o que os olhos não viram,

naquela época remota da juventude,

o peito, agora maduro, ainda desejaria?

Nosso menino, ao crescer, nem das saias

De sua impúbere menina se esqueceu.

Ao contrário do pai de Raquel _que não

premiou Jacó, matando-o por dentro

ao entregar-lhe a outra filha mais velha, Lia,

_ o remendo das pontas soltas da vida

É o presente que receberá por sua espera.

Febre de mancebo dura a vida toda!

06-09-2012

Contraponto a:

Trecho do texto de Gian Luca para ler o texto completo acesso o link – Clamor do Sexo

Poema de Wordsworth declamado por Deani no fim do filme:

“What though the…

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Poesia III

•8 maio 2018 • Deixe um comentário

Recordando meu estado confuso de seis anos atrás.

Poética de Botequim

Jaraguá, exata 1980, de Evandro Carlos Martins

O espírito da poesia me acordou?

Ou escrevo para poder dormir?

Ou será que estou com fome?

Leite morno, biscoito Nestlè Classic Duo!

Calmantes conseguem explicar

E entender o que sentimos?

Só dá para identificar com

Certeza aquilo que dói

porque o pretérito imperfeito

é o meu tempo.

22 de novembro de 2012.

 

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À Síria

•5 maio 2018 • Deixe um comentário

Palmira, tuas palmeiras há muito não balançam ao vento!

O vento só traz até ti pó, cinzas, farelos

Que sobram das ambições de todos os tempos.

Culpada por demorar-te no meio do caminho.

 

Como tua irmã, anciã entre as localidades;

Lar dos fundadores da Acádia,

Essa coroa de fogo da deusa do amor e da guerra.

 

Alepo, algo mais nefasto que o mais nefasto

Dos terremotos perscruta teus filhos;

Sonda tuas antigas ágoras,

que viraram catedrais

que agora são mesquitas!

Em vão perguntas “por quem definho?”

 

Como tua vizinha Ebla, rocha branca,

Berço de onde partimos, nosso ninho!

Nem 5 milênios tanto dano causou à tua ancestral alegria.

Ser ruína de ruínas é teu destino?

 

Tua terra é a desejada de todas as gentes:

Persas, macedônios, romanos, árabes,

Bizantinos, cruzados, mongóis, mamelucos,

Turcos, franceses, ingleses,

Russos, estadunidenses,.

Foi o que os ventos trouxeram a teus pés

E sobre tua cabeça, pobre Síria, louco desatino!

 

Lares divididos, subdivididos,

Todos somos teus descendentes.

Quebra-cabeças de venais interesses!

Joias deste Oriente, quem sentirá tua agonia?

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Os aromas da cidade

•4 maio 2018 • Deixe um comentário
Campos 093

Maria Fumaça

Godoy

Na cidade que rescende à resina de araucária,

Delicados beija-flores duelam ferozmente

com os floretes de seus bicos.

Na cidade que exala a flor de cerejeira,

Os habitantes da construção holandesa,

adornada pelo jardim japonês, são nipônicos.

Na cidade que cheira a chocolate,

Coelhos assustados cruzam estradas;

Nuvens de algodão envolvem

casas, árvores, cabeças.

Marias-fumaça encorpam nuvens baixas

E evocam tempos antigos.

Na cidade que ostenta aroma de forno a lenha,

Barracos, pousadas, Palácios

nos lembram de coisas que nunca

existiram em seu tempo certo ali.

Telhados inclinados esperam

para sempre a neve que nunca virá.

Numa estrada da cidade que exala a cerveja feita a mão Baden Baden,

cai um homem…

Os montesinos não o socorrem.

Na cidade de pesadelos e sonhos,

Numa dança de aromas doces e acres,

Os enamorados se escondem.

 

Campos do Jordão, outubro de 2012.

Contos da Lua Vaga

•31 mar 2018 • Deixe um comentário

Eurico de Barros

Há um tema contínuo e unificador na filmografia de Mizoguchi: a mulher, a sua situação na sociedade japonesa e a sua relação com os homens. O interesse dele pela condição feminina radica em dados biográficos: a mãe e a irmã mais velha, Suzuko, eram maltratadas pelo pai, que acabou por vender a filha para tornar-se gueixa

Foi com “Contos da Lua Vaga” (1953), exibido e premiado no Festival de Veneza, que Kenji Mizoguchi se deu a conhecer ao Ocidente, mostrando que Akira Kurosawa, que dois anos antes havia ganho o mesmo festival com “As Portas do Inferno”, não era o único grande realizador a trabalhar no cinema japonês e a divulgá-lo e popularizá-lo no estrangeiro. Só um terço da vasta obra de Mizoguchi (1898-1956) sobreviveu e está disponível hoje. Oito desses filmes, alguns já vistos em Portugal e outros inéditos, e exibidos em cópias restauradas, compõem o Ciclo Kenji Mizoguchi que estará no Espaço Nimas, em dois tempos. O primeiro, que pode ser visto até 10 de Maio, inclui “Contos da Lua Vaga”, “Os Amantes Crucificados” e “A Mulher de Quem se Fala”. O segundo, a partir de 11 de Maio, apresentará “Festa em Gion”, “A Senhora Oyu”, “A Imperatriz Yang Kwei Fei”, “O Intendente Sanshô”, “Rua da Vergonha” e “O Conto dos Crisântemos Tardios”, mantendo em cartaz “Os Amantes Crucificados”.

Depois da morte da mãe, foi Suzuko quem cuidou dele e dos irmãos mais novos, e lhe arranjou os primeiros empregos. A devoção e os sacrifícios da irmã marcaram profundamente Mizoguchi, que inscreveria a dedicação, a capacidade de amor e o sofrimento feminino nos seus filmes, de época (“jidaigeki”) ou contemporâneos. Estes sentimentos estão presentes em “Contos da Lua Vaga”, talvez o mais representativo do realizador, do seu estilo, das suas preocupações, do seu humanismo, do seu poder cinematográfico e do seu gênio.

Inspirado em dois contos fantásticos do escritor Ueda Akinari e num outro de Guy de Maupassant, “Contos da Lua Vaga” passa-se no Japão em guerra civil do século XVI e é ao mesmo tempo uma fábula moral, um filme realista e uma história sobrenatural, onde se revela uma tensão presente em toda a obra de Mizoguchi, entre o respeito pelos valores tradicionais e o impulso individualista. Tal como sucede nos filmes dos maiores mestres do cinema nipônico, como Kurosawa, Ozu, Naruse ou Ichikawa, “Contos da Lua Vaga” é uma narrativa intrínseca e inconfundivelmente japonesa, nas circunstâncias históricas, na realidade cultural, nos temperamentos e no plano mental, mas que assume ressonâncias universais, exemplo de um cinema que expressa a identidade mais própria e funda de um povo, mas que se transcende para uma representação de toda a humanidade.

Escrito por Mizoguchi e pelo seu habitual colaborador Yoshikata Yoda, e fotografado pelo lendário Kazuo Miyagawa, que também trabalhou com Kurozawa, Ozu e Ichikawa, “Contos da Lua Vaga” é a história de um oleiro ganancioso, da mulher, do seu filho pequeno, do seu vizinho — um camponês que sonha ser samurai — e da mulher deste. A guerra civil obriga-os a fugir da aldeia e separa uns dos outros.O oleiro deixa-se seduzir por uma bela aristocrata, que na realidade é um fantasma, e esquece a mulher e o filho, enquanto que o camponês rouba a cabeça decapitada de um general e consegue tornar-se samurai, mas a sua mulher é violada por um grupo de soldados e forçada a prostituir-se numa casa de gueixas para conseguir sobreviver.

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Em “Contos da Lua Vaga”, os homens concentram em si todos os defeitos, são gananciosos, violentos, inconscientes, ingratos e arrogantes, enquanto que as mulheres, com as quais Mizoguchi se identifica e apresenta como modelos, são vítimas. Sofrem, sacrificam-se, nunca deixam de amar os maridos e temer por eles, e personificam o bom senso. A simpatia e a compaixão do realizador estendem-se até aos espectros, já que a aristocrata fantasma que seduz o oleiro, a bela Senhora Wakasa, longe de ser um espírito maligno, é ela também vítima da guerra e morreu sem conhecer o amor, que agora procura entre os vivos, sem o qual estará condenada a penar para sempre, acompanhada pela sua fidelíssima serva (duas das atrizes favoritas de Mizoguchi, Tanaka Kinuyo e Michiko Kyô, desempenham dois dos principais papéis femininos).

Realizador pictórico por excelência, e avesso a malabarismos e exibicionismos, Mizoguchi enche “Contos da Lua Vaga” de momentos visuais inesquecíveis, uns belíssimos na sua poesia etérea, como a fuga dos camponeses de barco num rio amortalhado em nevoeiro, o piquenique dos amantes numa natureza irreal de tão idílica, ou ainda o sublime plano final do menino junto à campa da mãe; outros tremendos na sua crueza, caso do ataque dos soldados à mulher que carrega o filho às costas, ou do exorcismo no solar assombrado. A sua câmara tem uma eloquência reservada, uma elegância eficiente e uma fluidez invisível. Com ela, dizia o cineasta, procurava “retratar o extraordinário de forma realista”.Filme realista e extraordinário, poético e cruel, de rosto humano e textura sobrenatural, “Contos da Lua Vaga” é a melhor porta de entrada para a obra de Kenji Mizoguchi.

Viver poeticamente traz felicidade

•26 mar 2018 • Deixe um comentário

A poesia da vida – Edgar Morin

Porque querem assassinar Marielle pela segunda vez? Chomsky explica.

•25 mar 2018 • Deixe um comentário

Cinesofia

Existem dois Noam Chomsky,  (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) no mínimo: o linguista e o filósofo político e ambos são geniais, para dizer pouco. E por gênio, não me entendam mal, quero dizer alguém que adquiriu um grande conhecimento sobre uma ou mais áreas no decorrer da vida.

Sobre o Chomsky linguista eu sempre caminho em casca de ovos: sua teoria consegue ser tão ou mais complexa e fantástica quanto a de Wittgenstein ou Frege. O modo como Chomsky estruturou sua tese sobre o aprendizado da linguagem ou sobre a sua estrutura comum é realmente elegante ao mesmo tempo que complexo. De qualquer forma, deixo como indicação para quem se interessar Logical Structure of Linguistic Theory de 1955, para quem quiser se interessar.

Quero falar hoje do Chomsky filósofo político, que não é menos brilhante, porém enganadoramente mais simples. Enganadoramente porque de uns tempos pra cá acredita-se que…

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Som e fúria

•9 mar 2018 • 2 Comentários

Sound and fury

Macbeth:

“Tomorrow and tomorrow and tomorrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.”

Som e Fúria

 

Seyton:

A rainha, meu senhor, está morta.

Macbeth:

“Ela deveria ter morrido mais tarde. Teria havido uma hora para essa palavra. Amanhã, e amanhã, e amanhã
Arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia,
Até a última sílaba do registro dos tempos.
E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos
o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve!
A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator
Que se pavoneia e se aflige sobre o palco –
Faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz:
É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria
Significando nada”.

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Conspiradores como os Macbeths caem mais cedo ou mais tarde.

Refugiados

•18 fev 2018 • Deixe um comentário

Você, que é tão erudito,

recite-me versos suaves, por piedade,

para recuperar de viver a vontade!

 

Você, você que é tão ajuizado,

Por misericórdia, me dite os santos escritos,

Nos templos ouvidos,

Para alimentar desgraçados proscritos!

 

Você, que é tão são,

por compaixão, reze-me uma oração

para alentar a quem vive ao relento;

a quem se negou a terra de onde tirar o sustento;

a quem nunca recuperou seu pródigo rebento.

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Meus olhos

•16 fev 2018 • 1 Comentário

 

Aainy, meus olhos!

Aainy, meu amado!

Meu olho d’água num deserto de humanidade!

Minha devoção, feito cachoeira, transborda e cai dos meus olhos,

Em você, meu lago translúcido, no oásis em que sempre vou beber,

Depois de atravessar estes ermos.

Beba, então, também estas águas

Porque elas o refrescarão do seu deserto.

Depois vamos rir juntos de tudo;

Vamos rir como só são capazes os loucos.

Não porque desconhecemos o mal,

E somos ingênuos, imaginando que tudo está certo,

Mas sim porque, em meio a girassóis e miosótis, estamos um no outro.

 

Feliz aniversário, Fernando!

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Cântico negro

•16 fev 2018 • Deixe um comentário

Cântico negro

José Régio

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

 

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

 

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

 

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

 

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Para quê?!

•30 jan 2018 • Deixe um comentário

F. Espanca

Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, esta canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!

Beijos de amor! Pra quê?! … Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…

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Sonho de Verão

•27 jan 2018 • Deixe um comentário

Agora é verão,

Mas é primavera em meu coração!

Recolho safiras que caem dos céus.

Piso rubis que brotam pelas estradas.

Apanho esmeraldas espalhadas nos prados.

 

Douradas borboletas e libélulas,

Anjos de asas translúcidas,

Em meus ombros e braços vêm pousar.

 

À sua descuidada mãe, as devolvo.

Nos brilhantes cabelos, porém, duas ficam perdidas.

E, quando são descobertas,

De papel e espelho, tentam se disfarçar.

 

Thaís GM

 

Jacareí, 27 de janeiro de 2018

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O harém ao rés do chão

•25 jan 2018 • Deixe um comentário

No imaginário ocidental o harém primeiro fascina pelo mistério. Com efeito, a compreensão lendária das culturas do Médio Oriente incorpora uma visão de mulheres isoladas e restritas, à disposição da lascívia de seu senhor. E ainda que, em tempos mais recentes, estudos, relatos e ações tenham adentrado as questões postas pela condição feminina em países de cultura islâmica, contudo a imagem de sedução e dominação associada ao harém perdura com resiliência perturbadora.

A historiadora Marina Soares procede a uma inovadora arqueologia desses conceitos, imagens e permanências. Ela percorre narrativas de viagens de europeus ao Império Otomano, Pérsia e Norte da África, publicadas em língua inglesa e francesa, remontando ao final do século XVI e prosseguindo até o final do século XVIII. Nesse cenário textual é possível seguir os rastros das representações do harém que ensejaram o imaginário de luxúria a compor a figuração das sociedades islâmicas. Dentre essas fontes cuidadosamente reunidas e analisadas, o último relato, publicado em 1791, destaca a experiência médica de um viajante inglês em dois haréns do Reino de Marrocos. Trata-se de documento privilegiado que permite recuperar nessa questão pontual o confronto das culturas: os pressupostos médicos europeus encontram as práticas médicas mouras – um encontro de perplexidades e trocas que a argúcia da investigadora traz à luz com fina maestria.

O tema é muito pouco explorado pela pesquisa acadêmica sobre o Oriente, em geral mais voltada para estudos que, de alguma forma, possam instruir as questões políticas do presente. E, contudo, é na longa duração que a economia dos costumes enreda pacientemente o tecido da cultura – urdidura que dá sentido aos acontecimentos que convocam a atenção para as relações entre os povos.

Este livro propicia o delicado desenlace dos atados mais profundos de nossa simbologia sobre o harém, um mistério desvelado como uma ficção instigante que nos convida a mirar em espelho nossas próprias quimeras.

Sara Albieri

Professora Titular de História FFLCH USP

 

Autora:

Marina de Oliveira Soares possui bacharelado e licenciatura em História pela Universidade de São Paulo, com Mestrado em “Língua, Literatura e Cultura Árabe” e Doutorado em História Social, ambos na FFLCH USP.

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A cidade de Ulisses

•25 jan 2018 • Deixe um comentário

A melhor frase que ouvi recentemente sobre os brasileiros é de Teolinda Gersão, autora portuguesa do livro “A cidade de Ulisses”: mesmo diante do abismo, os brasileiros sorriem, ficam alegres, parecem pensar que são tão grandes que não caberão nele.

Se essa aparência reflete o que realmente sentimos, eu não sei. Acho que simplesmente não pensamos. A  maioria é inconsequente e prefere se drogar assistindo BBB ou usando outra distração qualquer, para não pensar no abismo, ao invés de tentar escapar dele.

Como o personagem kafkiano de A Metamorfose, que, ao se transformar em um inseto gigantesco, só consegue se preocupa se vai conseguir chegar ao trabalho na hora.

De qualquer forma, essa é uma bela frase, não é?

via “A cidade de Ulisses”, de Teolinda Gersão, é um prato cheio para o leitor amante de narrativas híbridas – Jornal Opção

Desfecho – São Sebastião

•20 jan 2018 • Deixe um comentário

São Sebastião – Continuação de Causos de família
Isaias ia ser removido para São Paulo, para o julgamento. Quando a colônia italiana de Bragança soube, se reuniu em peso na pequena estação para um linchamento. As autoridades, com muita dificuldade, escoltaram-no sob os gritos de assassino. A turba enfurecida se dependurou nos vagões tentando inutilmente virá-los.
Chegando à capital, o rapaz foi condenado à pena máxima. O tempo foi passando, mas a dor não: Maria Leiteira chorava dia e noite. Segundo diziam os que voltavam da capital, Isaias era torturado diariamente também: uma goteira pingava continuamente sobre sua cabeça. Isso é de enlouquecer.
Maria benzia crianças com quebranto, tornou-se a Maria Benzadeira. Quem sabe se, ajudando os mais necessitados, sua dor passaria, porém nada resolvia. Até que um dia ela teve um sonho muito vívido, uma comunicação. Seus dois filhos, Pedro e Nicola, vinham por uma longa estrada carregando dois baldes pesadíssimos cada um. Quando se aproximaram, andando com muita dificuldade, ela lhes perguntou o que era aquilo que levavam.
_São suas lágrimas. Vamos carregá-las até que pare de chorar por nós. Faça algo em nossa intenção que tudo passará.
A partir desse dia, 20 de janeiro, dia de São Sebastião, minha tataravó passou a pedir esmolas de casa em casa e a entregá-las a crianças carentes. Um dia Maria decidiu visitar Isaias na prisão. Ele pediu desculpas à mãe que perdoou o assassino de dois de seus filhos. Conta-se que ele, por bom comportamento, passou a ser muito querido na prisão onde tornou-se cozinheiro, mas nunca foi solto.
Para viver, ela passou a plantar verduras no seu quintal e vendê-las na feira. Maria Verdureira um dia falou que sabia o dia em que ia morrer. Meses antes falou ao sogro de sua neta Lúcia, Francisco Boccuzzi, que não queria ninguém triste em seu velório e ele, por ser muito divertido, deveria ser o encarregado de animar seu passamento.
Na data prevista, tomou banho, foi ao quintal e agradeceu-lhe pelo alimento nele gerado, escolheu suas roupas e um par de meias com as quais queria ser enterrada. Conforme havia previsto, no dia 6 de maio de 1947, Maria Caporrino Linardi deitou-se em sua cama e faleceu tranquilamente.

No velório, meu bisavô teve que beber muito para ser o palhaço da festa.

 

Thaís de Godoy

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Martírio de São Sebastião de Giuseppe Giorgetti, 1671.

 

A flor de Coleridge

•5 jan 2018 • Deixe um comentário

De Jorge Luis Borges

 

Em 1938, Paul Valéry escreveu: “a história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes da sua carreira ou da carreira de suas obras, mas a história do Espírito como produtor ou consumidor de literatura”. Não era a primeira vez que o Espírito formulava essa observação; em 1844, na aldeia de Concord, outro de seus amanuenses havia anotado: “Dir-se-ia que uma única pessoa redigiu todos os livros que há no mundo; tamanha unidade central há entre eles que é inegável que sejam obra de um só cavalheiro onisciente” (Emerson: Essays, 2, VIII). Vinte anos antes, Shelley sentenciou que todos os poemas do passado, do presente e do porvir, são episódios ou fragmentos de um único poema infinito, erigido por todos os poetas do orbe (A Defence of Poetry, 1821).

 

Essas considerações (implícitas, naturalmente, no panteísmo) permitiriam um inacabável debate; eu, agora, as invoco para executar um modesto propósito: a história da evolução de uma ideia, através dos textos heterogêneos de três autores. O primeiro texto é uma nota de Coleridge; ignoro se este a escreveu ao final do século XVIII ou a princípios de XIX. Diz, literalmente:

“Se um homem atravessasse o Paraíso num sonho, e lhe dessem uma flor como prova de que havia estado ali, e se ao despertar ele encontrasse essa flor na sua mão… e então?”

Não sei o que pensará o leitor desta imaginação; eu a julgo perfeita. Usá-la como base para outras invenções felizes parece de antemão impossível; ela tem a integridade e a unidade de um terminus ad quem, de uma meta alcançada. Está claro que é assim; na ordem da literatura, como nas outras, não há ato que não seja coroação de uma infinita série de causas e manancial de uma infinita série de efeitos. Por trás da invenção de Coleridge está a geral e antiga invenção das gerações de amantes que pedem como prenda uma flor.

O segundo texto que apresentarei é uma novela que Wells esboçou em 1887 e reescreveu sete anos depois, no verão de 1894. A primeira versão intitulou-se The Chronic Argonauts (neste título abolido, chronic tem o valor etimológico de temporal); a definitiva, The Time Machine. Wells, nessa novela, dá continuidade e reforma uma antiquíssima tradição literária: a previsão de fatos futuros. Isaías vê a desolação da Babilônia e a restauração de Israel; Enéias, o destino militar de sua posteridade, os romanos; a profetisa da Edda Saemundi, a volta dos deuses que, depois da cíclica batalha em que nossa terra perecerá, descobrirão, jogadas no pasto de uma nova pradaria, as peças de xadrez com que anteriormente haviam jogado. O protagonista de Wells, à diferença desses espectadores proféticos, viaja fisicamente ao porvir. Volta cansado, empoeirado e machucado; volta de uma remota humanidade que se bifurcou em espécies que se odeiam (os ociosos eloi, que habitam em palácios dilapidados e em ruinosos jardins. os subterrâneos e nictalopes morlocks, que se alimentam dos primeiros); volta com as têmporas grisalhas e traz do porvir uma flor murcha. Esta é a segunda versão da imagem de Coleridge. Mais incrível do que uma flor celestial ou que a flor de um sonho é a flor futura, a contraditória flor cujos átomos agora outros lugares e ainda não se combinaram.

A terceira versão que comentarei, a mais trabalhada, é invenção de um escritor fartamente mais complexo do que Wells, embora menos dotado dessas agradáveis virtudes que é costume chamar de clássicas. Refiro-me ao autor de A humilhação dos Northmore, o triste e labiríntico Henry James. Este, ao morrer, deixou inconclusa uma novela de caráter fantástico, The Sense of the Past, que é uma variação ou elaboração de The Time Machine1. O protagonista de Wells viaja ao porvir num inconcebível veículo que avança ou retrocede no tempo como os outros veículos no espaço; o de James regressa ao passado, ao século XVIII, à força de compenetrar-se nesta época (os dois procedimentos são impossíveis, porém o menos arbitrário é o de James). Em The Sense of the Past, o nexo entre o real e o imaginativo (entre a atualidade e o passado) não é uma flor, como nas ficções anteriores; é um retrato que data do século XVIII e que misteriosamente representa o protagonista. Este, fascinado por essa tela, consegue trasladar-se à data em que a executaram. Entre as pessoas que encontra figura, necessariamente, o pintor; este o pinta com temor e com aversão, pois intui algo incomum e anômalo nessas feições futuras… James cria, assim, um incomparável regressus in infinitum, já que seu herói, Ralph Pendrel, se traslada ao século XVIII. A causa é posterior ao efeito, o motivo da viagem é uma das consequências da viagem.

Wells, verossimilmente, desconhecia o texto de Coleridge; Henry James conhecia e admirava o texto de Wells. Claro está que se é válida a doutrina de que todos os autores são um autor2, tais fatos são insignificantes. Rigorosamente falando, não é indispensável ir tão longe; o panteísta que declara que a pluralidade dos autores é ilusória encontra inesperado apoio no classicista, segundo o qual essa pluralidade importa muito pouco. Para as mentes clássicas, a literatura é o essencial, não os indivíduos. George Moore e James Joyce incorporaram em suas obras páginas e sentenças alheias; Oscar Wilde costumava presentear enredos para que outros executassem; ambas as condutas, embora superficialmente contrárias, podem evidenciar um mesmo sentido da arte. Um sentido ecumênico, impessoal… Outro testemunho da unidade profunda do Verbo, outro negador dos limites do sujeito, foi o insigne Ben Jonson, que empenhado na tarefa de formular seu testamento literário e os ditames propícios ou adversos que mereciam seus contemporâneos, limitou-se a combinar fragmentos de Sêneca, de Quintiliano, de Justo Lipsio, de Vives, de Erasmo, de Maquiavel, de Bacon e dos escalígeros.

Uma observação, última. Aqueles que minuciosamente copiam um escritor o fazem impessoalmente, o fazem porque confundem esse escritor com a literatura, o fazem porque suspeitam que apartar-se dele num ponto é apartar-se da razão e da ortodoxia. Durante muitos anos, cri que a quase infinita literatura estava num único homem. Esse homem foi Carlyle, foi Johannes Becher, foi Whitman, foi Rafael Cansinos-Asséns, foi De Quincey3.

Jorge Luis Borges, Otras Inquisiciones (1957)

De A Bacia das Almas, notas de Paulo Brado, 2011

NOTAS
1. Não li The Sense of the Past, mas conheço a suficiente análise de Stephen Spender, em sua obra The Destructive Element (páginas 105-110). James foi amigo de Wells; para sua relação se pode consultar o vasto Experiment in Autobiography deste.
2. Em meados do século XVII o epigramista do panteísmo Angelus Silesius disse que todos os bem-aventurados são um (Cherubinischer Wandersmann, V. 7), e que todo cristão deve ser Cristo (op. cit., V, 9).
3. Esse homem, naturalmente, nunca vai deixar de ser Borges. (Nota do tradutor)

A mulher mais linda da cidade

•24 dez 2017 • 1 Comentário

O conto “A mulher mais bela da cidade”, de Bukowski, é horrível e belo, como seus personagens. Ainda estou digerindo porque é muito impactante.  Agora percebo que alguns amigos da faculdade imitavam esse autor. Eu me pergunto por que demorei tanto para ler as obras dele. Acho que tinha medo de conhecer esse mundo, ou submundo, como dizem. Não gosto dessa palavra, submundo. Essa associação com o inferno me parece injusta, já que alguns personagens desse universo apenas tiveram muito azar na vida. Outro motivo de nunca ter lido era a fama que os textos dele têm de serem escatológicos, o que me enojaria bastante se lesse, mas esse não é muito.

O conto parece uma releitura marginal do conto de fadas “A Bela e a Fera” pois o tema da beleza externa e da beleza interior é o mesmo, contudo com uma visão totalmente diferente e menos convencional sobre o assunto. O conto apresenta o momento em que o narrador, um homem feio, conhece a mais bela jovem local, a qual se mutila para ficar feia pois quer que gostem dela por outros motivos e não apenas porque querem fazer sexo com ela. A bela não gosta de homens bonitos, pois são só belos e mais nada. O narrador crê que, um dia, um homem irá destruí-la, e gostaria que não fosse ele mesmo. Os episódios com cenas de sexo são bonitos, comoventes e decadentes, bem diferente do que eu imaginava.  O final é terrível, de arrepiar. A condição da mulher é uma droga mesmo, e o narrador-personagem sabe que ele faz parte do problema, mas nada pode ser feito para mudar isso pois ele não podia prever as consequências de seus atos e de suas palavras. Não é conformismo,  nem alienação, mas sim uma tragédia humana, como nas tragédias gregas, a personalidade do herói em conflito com o estado de coisas, leva-o, inexoravelmente, ao abismo. Enfim, as belas também sofrem, pois não querem ser só belas, ou como dizem vulgarmente por aí apenas “alguém comível”, ou pior ainda, como disse Bolsonaro “uma mulher feia não merece ser estuprada”. Sejamos todas o mais feias possível, então, por proteção46ba30737ea90eda.

 

Leitura ostentação

•23 dez 2017 • Deixe um comentário

Acabei de adquirir Crônica de um amor louco: ereções, ejaculações, exibicionismos – Parte I, do Bukowski. Exibicionismo é a cara da nossa era e não posso ficar de fora, então aí está. Não acredito que só agora resolvi ler sua obra. Vamos ver se é um livro “maldito” mesmo ou um maldito livro. É provável que seja as duas coisas. Já vou tomar um dramin antes, por via das dúvidas. Depois de ler, farei uma resenha, se alguém estiver interessado na obra do “Velho Safado”* ou na droga da minha opinião (já estou ficando com o jeitão dele).

*  Essa expressão maldosa não é minha, é como Bukowski ficou conhecido no meio literário.

Primeiro conto: A mulher mais linda da cidade

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Embriague-se

•3 dez 2017 • Deixe um comentário

Charles Baudelaire

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: É hora de embriagar-se!

Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

27. vinho

 

Schaudenfrewde

•2 dez 2017 • Deixe um comentário

Schaudenfrewde

 

Com uma gilete na jugular,

O encanto acabou.

A euforia acabou.

Acabou-se a alegria.

Acabou-se a folia.

E tudo aquilo que poderia e deveria ter sido

_ por força de lei, por decreto, por magia legítima,

formando uma absoluta rima,

criando simetria onde antes havia uma metade distorcida

_ agora se suicida!

 

Godoy

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Net heart, Alcy de Godoy

 

Como é por dentro outra pessoa

•24 nov 2017 • Deixe um comentário

Fernando Pessoa

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

 
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

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Desaforismos de Oscar Wilde

•22 nov 2017 • Deixe um comentário

Penso que seria muito mais adequado chamar algumas tiradas de Wilde de “desaforismos”, visto que era um provocador, seu humor era uma embalagem para seus chistes.  Como ele próprio dizia, para não ser assassinado, deve-se dizer a verdade com um toque de humor.

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“Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio neste mundo.”

“Amar é ultrapassarmo-nos.”

“Há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos.”

“A diferença entre a literatura e o jornalismo é que o jornalismo é ilegível e a literatura não é lida.”

“Toda a arte é completamente inútil.”

“A única maneira de nos livrarmos da tentação é ceder-lhe.”

“Se há no mundo alguma coisa mais irritante do que sermos alguém de quem se fala, é ninguém falar de nós.” Fonte – O Retrato de Dorian Gray

“Devia-se estar sempre apaixonado. É a razão pela qual nunca nos devíamos casar.”Fonte – Uma Mulher sem Importância

“Nenhum grande artista vê as coisas como realmente são. Caso contrário, deixaria de ser um artista.”Fonte – The Decay of Lying

“É absurdo dividir as pessoas em boas e más. As pessoas ou são encantadoras ou são aborrecidas.”Fonte – O Leque de Lady Windermere

“Há uma espécie de conforto na auto-condenação. Quando nos condenamos, pensamos que ninguém mais tem o direito de o fazer.”

“Nunca viajo sem o meu diário. É preciso ter sempre algo extraordinário para ler no comboio.”Fonte – A Importância de Ser Sério

“Aqueles que não fazem nada estão sempre dispostos a criticar os que fazem algo.”

Ho’oponopono

•15 nov 2017 • Deixe um comentário

أنا أحبك

يغفر لي

أنا آسف جدا

أنا ممتن

اهلا وسهلا

 

Mortal

•23 out 2017 • Deixe um comentário

Mortal

Num mundo paralelo, sei das sereias o canto pra te encantar.

Tenho a beleza de Vênus pra te seduzir;

A sabedoria e a castidade de Penélope pra te esperar;

as teias de Aracne pra te enlaçar;

e, pra te repetir, a fertilidade de Ceres.

 

Num mundo paralelo, sei os feitiços de Circe pra te enganar;

Tenho as asas de Pégaso pra te alcançar;

A coragem de amazonas para, por ti, lutar;

e, pra te defender, a fúria de Ares.

 

Mas neste mundo, sou uma simples Dulcineia camponesa.

Não tenho nenhum atributo em tão alto grau,

Mas uma parcela de tudo vive em mim,

Nas limitações de uma mortal.

12-07-2012

 

 

O grande equívoco de Jorge Luis Borges

•22 out 2017 • Deixe um comentário
Videla, Borges y Sábato - 1

Ditador Videla, Borges e Sábato, em um almoço em 1976, onde os convidados teriam expressado sua preocupação com escritores presos ou desaparecidos. Em 2012, Videla admitiu que foi responsável pela morte de 8000 pessoas.

É difícil imaginar o autor argentino como um rebelde, já que o senso comum acredita que ele era apenas um homem em sua biblioteca, um dândi alheio à política, em sua torre de marfim. Ele próprio dizia-se avesso à política e autodefiniu-se como um anarquista conservador.

Contudo, sua vida e suas escolhas polêmicas dizem o oposto. Borges foi diretor da Biblioteca Nacional entre 1955 e 1972. Por ser anti-peronista radical, o escritor foi demitido de seu cargo quando Perón assumiu seu terceiro mandato. Assim, os mais de 1000 livros doados de sua biblioteca pessoal para a Biblioteca Nacional foram “esquecidos” pelos funcionários peronistas e ficaram encaixotados por mais de 30 anos. Recentemente, uma busca tem revelado que outros livros foram doados por ele,  mas omitiram a identidade do doador. O autor “alienado” foi perseguido por suas posições políticas.

Borges tinha horror ao nazismo e às consequências da Segunda Grande Guerra. O guarda-costas de Evita Perón,  Otto Skorzeny havia sido o preferido de Hitler e de Mussolini. Otto auxiliou a fuga de vários nazistas para a Argentina com auxílio de Perón. Borges foi um forte opositor aos nazistas radicados na argentina que representavam, para ele, um perigo gravíssimo à comunidade judaica local. Por isso, Borges posicionou-se desastradamente a favor da ditadura na Argentina, acreditando que na época era a única alternativa ao peronismo. Além disso as perseguições, que sofreu por manifestar suas posições políticas em voz alta, causou uma ruptura irreconciliável com o governante populista.

Um almoço com o ditador Videla é o momento mais assustador de sua biografia, mas teria ele aprendido que a rebeldia não lhe valeria nada, apenas o desemprego? Condescendeu para não ter que fugir como outros escritores e poder escrever sem o bafo da censura em seu cangote? Foi ingênuo acreditando que dos males aquela Ditadura seria o menor? Ou foi arrivista? Enfim, só podemos constatar que a sociedade argentina não conseguiu pegar uma terceira via, criar opções políticas democráticas também por questões externas: o braço dos EUA e seu projeto para a América Latina.

No fim de sua vida, perguntaram-lhe que mensagem deixaria aos jovens, ele respondeu o seguinte: “Eu não soube administrar minha vida, então não posso dirigir a vida dos outros. Minha vida foi uma série de equívocos. Não posso dar conselhos. Ando um pouco à deriva. Quando penso no meu passado, sinto vergonha. Eu não transmito mensagens, os políticos transmitem mensagens.”

Sentiremos vergonha?

Contudo, a mensagem que podemos aprender desse terrível equívoco borgeano é o seguinte: no Brasil o ódio a certo partido político, tido como “populista”, pode nos levar ao pior dos pesadelos, já que temos assistido ao crescimento de um candidato com posicionamentos radicais, muito similares aos dos nazistas. Em seus comícios, tal candidato afirma que tornará o Brasil um país unicamente cristão e expulsará as minorias; Hitler também tentou eliminar todos os judeus ou qualquer um que fosse diferente do alemão típico, se é que isso existe. Este é Jair Bolsonaro que confessou ter recebido 200 milhões de reais em propina da JBS (dona da Friboi), além de ter planejado atentado contra o seu próprio quartel para falsamente acusar comunistas, na época em que era militar. Por isso foi expulso da corporação.

Teremos, então, uma teocracia, onde não  existirá mais o direito de professar sua fé livremente. Tal direito só pode ser defendido por um Estado laico que deveria proteger todas as religiões igualmente, inclusive o direito de não professar fé alguma. Nossa democracia, já rudimentar, está seriamente ameaçada, visto que a bancada evangélica ganha cada vez mais força, apelando para um pânico moralista ao invés de se ater às questões de interesse público que visem o bem comum. Corremos inocentemente para o abismo fazendo piadas, subestimando um homem perigoso, sem perceber que não há apanhadores no campo de centeio.

 

Godoy

Eurídice e Orfeu

•20 out 2017 • Deixe um comentário

Quando tudo parecia perdido

Quando tudo eram cinzas

E o mal do mundo invadia sua vida,

Não podia ver através de suas cicatrizes

Quanta luz havia fora de sua caverna.

O tempo parou e a poeira se acumulou sobre seus ombros

Como em mobília há muito esquecida

Porque você só desejava dormir.

 

Mas um dia a luz entrou por um engano:

Palavras que numa encruzilhada se desviaram do seu curso

Original por acaso

Um mal-entendido bom

Um mal-entendido bom o guiou até mim.

 

Orfeu enfim resgatado do abismo.

E bastou ver a luz do meu sorriso

E acreditar que eu precisava de você,

Mesmo sabendo que não.

Orfeu foi bom com a ninfa porque ela não olhou para trás.

Então, vários e antigos nós se desataram.

É o Universo recompensando por uma Temporada no Inferno?

O Tempo surgiu do Caos?

Nada sabe, só sabe que sorrir é resistir.

Morte-de-Orfeu

Morte de Orfeu

Orfeu e Eurídice

•15 out 2017 • Deixe um comentário

Quando tudo parecia perdido

Quando tudo eram cinzas

E o mal do mundo invadia minha vida,

Não podia ver através de minhas cicatrizes

Quanta luz havia fora de minha caverna.

O tempo parou e a poeira se acumulou sobre meus ombros

Como em mobília há muito esquecida

Porque eu só desejava dormir.

 

Mas um dia a luz entrou por um engano:

Palavras que numa encruzilhada se desviaram

do seu curso original por acaso

Um mal-entendido bom

Um mal-entendido bom

Um mal-entendido bom me guiou até você.

 

E bastou ver a luz do seu sorriso

E acreditar que precisava de mim,

Mesmo sabendo que não.

A vestal foi boa com Orfeu porque ele não olhou pra trás.

Eurídice enfim resgatada do abismo.

 

Então, vários nós se desataram.

É o Universo recompensando por uma Temporada no Inferno?

O Tempo surgindo do Caos?

Nada sei, só sei que sorrir é resistir.

orfeu-e-euridice

Auguste Rodin, Orpheus and Eurydice, 1893.

Estrela da Manhã

•7 out 2017 • Deixe um comentário

Estrela da Manhã

por Manuel Bandeira

Eu quero a estrela da manhã

Onde está a estrela da manhã?

Meus amigos meus inimigos

Pocurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua

Desapareceu com quem?

Procurem por toda parte

 

Digam que sou um homem sem orgulho

Um homem que aceita tudo

Que me importa? Eu quero a estrela da manhã

 

Três dias e três noites

Fui assassino e suicida

Ladrão, pulha, falsário

 

Virgem mal-sexuada

Atribuladora dos aflitos

Girafa de duas cabeças

Pecai por todos pecai com todos

 

Pecai com os malandros

Pecai com os sargentos

Pecai com os fuzileiros navais

Pecai de todas as maneiras

 

Com os gregos e com os troianos

Com o padre e com o sacristão

Com o leproso de Pouso Alto

 

Depois comigo

 

Te esperarei com mafuás novena cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples

Que tu desfalecerás

Procurem por toda parte

Pura ou degradada até a última baixeza

Eu quero a estrela da manhã.

manuel-bandeira

 

 

Elixir dos Gnósticos: a existência da alma humana em Mullā Ṣadrā

•14 set 2017 • Deixe um comentário

Resumo da dissertação de Mestrado de Nathalia Novaes Alves, sob orientação de Michel Attie Filho e defendida no Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo (USP)

            Figura-chave da chamada “Escola de Isfahān”, Mullā Ṣadrā (979 H. / 1571-2 d.C ) ocupou papel de destaque durante a renascença safávida do reinado de Abbās I (d. 1039/1629). Acredita-se ter sido ele o principal responsável por revitalizar a filosofia da iluminação de Sūhrawardi naquele contexto, além de consolidar a junção entre sufismo e neoplatonismo. Foi responsável, ainda, pela elaboração de metodologia própria para a compreensão da realidade, tendo por base fontes filosóficas, teológicas e místicas, além de mesclar raciocínio lógico, inspiração espiritual e meditação profunda. Ṣadrā aplicou tal metodologia às principais obras da tradição xiita duodécima. Do ponto de vista filosófico, Ṣadrā percebe o conceito aristotélico de “substância” como processo, em constante mudança; nesse aspecto, o filósofo aproxima-se da leitura de traço neoplatônico, já presente em al-Fārābī e Ibn Sīnā. O modo como Ṣadrā relaciona as noções de “essência” e “existência” deu novas feições à discussão metafísica de tradição árabe-islâmica. Em sua doutrina, Ṣadrā acaba por transformar a metafísica construída a partir da primazia das substâncias, como elemento primordial da existência, em outra, fundada e movida por atos de existência. Apesar de perpassar esses e outros temas, a principal contribuição d’O Elixir dos Gnósticos diz respeito à ênfase do autor no autoconhecimento. Como Ibn Ἁrabī, Ṣadrā acredita que o conhecimento da alma / nafs – ou seja, o conhecimento de si mesmo – e o conhecimento de Deus estão interligados. Por esse motivo, o presente trabalho se preocupou principalmente em analisar a relação entre os existentes, a alma e a inteligência primeira, pois é a partir dessa relação que se torna possível vislumbrar e compreender as questões fundamentais da origem e do retorno à fonte doadora de existência. Do ponto de vista histórico, vale destacar que à fundação do império safávida acompanhou-se a conversão em massa da população ao xiismo. Para responder à demanda por instrução da multidão de novos convertidos – e igualmente firmar as bases da nova religião oficial -, grande número de religiosos foi trazido de áreas xiitas respeitadas pela doutrina e pela ortodoxia, tais como Líbano e Iraque. Esse clero árabe recém chegado, que teve Ṣadrā como herdeiro, foi responsável por incorporar novos elementos ao pensamento religioso vigente em terras persas e, assim, conformar ambiente propício para o desenvolvimento do pensamento filosófico de Ṣadrā.

Para ler a dissertação:  http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8159/tde-12052015-101441/pt-br.php

Entrance_of_Mulla_Sadra's_House_in_Kahak_Qom

A porta de entrada da casa, onde Mulla Sadra costumava viver durante o seu exílio em Kahak. Há uma frase acima da porta escrita em persa que diz “A casa do sábio, Mulla Sadra”.

O Dedo do meio de Deus

•12 jul 2017 • Deixe um comentário

Deus é brasileiro!

Temos seu dedo para provar.

Teremos o dedo do meio de Deus

Até o fim dos tempos?

Tanta beleza e destruição

desses exuberantes templos

Esculpidos em pedra!

O Paquequer em degradação.

Os descendentes de Ceci e Peri

pendurados nos morros

bem próximos à Granja Comari…

O zunido de helicópteros abafa o de mosquitos.

A Casa da Cultura às margens do rio serpente cercada de curumins, pipas, lixo e sorrisos, apesar de tudo.

Von Martius e seus livros foram esquecidos.

Emboloram mais e mais a cada nuvem que passa por esses picos.

A floresta se vinga das pessoas erradas, avançando sobre quem a amou e recuando diante dos inimigos!

Fomos amaldiçoados e proscritos?

Vivemos uma constante comédia de erros.

Nada é o que parece.

Complexo_Dedo_de_Deus_Bruno_Nepomuceno

TGM

 

 

 

Preâmbulos

•6 jan 2013 • Deixe um comentário

 

Tenho que contar esta história, antes que seja tarde!

Antes que a pessoa que ma relatou não possa mais confirmar se acertei depois de tudo escrito. Como falta-lhe já a luz dos olhos, quero ler essa história para ela confirmar se escrevi direito.

Preciso contar, mesmo que ninguém leia depois; mesmo que ninguém a receba em seus ocupados ouvidos.Tão ocupados, que não podem parar tudo o que estão fazendo e ler uma simples história.

Simples nada! Esta história me arrepiou os cabelos, um frio correu minha espinha, por saber que era real e que aconteceu no seio de minha família. Embora seus protagonistas já estejam todos embaixo da terra e eu não os tenha conhecido, nunca pensei que havia tanto drama, tragédia, sangue e mortes horríveis em uma família a qual eu, por muito tempo, considerei pacata!

Há coisas que os parentes só revelam em último caso e, no meu caso, precisaram me contar esta história para torná-la um exemplo; contaram para que eu superasse a minha tragédia, vendo que existiam tragédias ainda piores e os sofredores envolvidos sobreviveram, portanto eu também seria capaz de sobreviver. Também para me educar e talvez para herdar uma tradição familiar que surgiu desta tragédia não-grega, mas ítalo-brasileira ou ítalo-bragantinha.

Sei lá, só sei que, neste  momento, tenho que contar e sairá tudo de qualquer jeito, sem nenhuma preocupação com a forma, porque se eu morrer enquanto estiver escrevendo esta história, os interessados (pelo menos dois, eu tenho certeza) poderão ler o esqueleto dela.

A tia de minha mãe, Tia duas vezes (ela era irmã de minha avó e casou-se com o irmão de meu avô, isto é, duas irmãs da família de Bellis se casaram com dois irmãos da Boccuzzi*) Maria de Bellis Boccuzzi, assim me contou a história de minha tataravó, Maria Caporrino Linardi, ou Maria Leiteira, como era conhecida:

Continuação: Caim e Abel

*Essa é outra história, que parece tirada do Livro das 1001 noites, mas é cheia de coincidências, ou sincronias reais fantásticas: A história das sete irmãs e um irmão e dos sete irmãos e uma irmã (ainda a ser redigida). αΩ

Maria leiteira

 

Carta do Papa Francisco a Gustavo Gutiérrez, fundador da Teologia da Libertação pelos seus 90 anos de vida — Leonardo Boff

•20 jun 2018 • Deixe um comentário

 

Eis o artigo. Gustavo Gutiérrez Merino, Frade Dominicano, nasceu em Lima, no Peru, no dia 8 de junho de 1928. É considerado o “Pai da Teologia da Libertação”. Hoje, ele reside no Convento dos Dominicanos de Lima. Dedica-se ao trabalho pastoral, à pregação de Retiros, à administração de Cursos de Teologia na Universidade de Notre […]

via Carta do Papa Francisco a Gustavo Gutiérrez,fundador da Teologia da Libertação pelos seus 90 anos de vid — Leonardo Boff

 
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