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Poesia III

Tirei minha Tristeza pra dançar.
Dançamos uma valsa de silêncios dolorosos,
Rodopiei por salas habitadas
Por todas as partidas prematuras
Em que ela me guiava, me girando pelos ares.

Com um nó preso bem no fundo da garganta,
Entreguei, sem luta e por cansaço,
Minhas fibras à cadência de seus passos.

Olhando bem no fundo de meus olhos, ela me dizia:
_ Eu sou sua! Você é minha!

Sobre lustres refletidos em espelhos multicores,
A Tristeza, me estreitando em seus braços,
Embalou-me numa nuvem luminosa
Onde vive a poesia.

José de Godoy

2018

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Poeta obscuro

Poeta obscuro,

Eu vejo você quando chora à noite
Por seus sonhos perdidos
E em sua cela sozinho, deseja dormir
E talvez sonhar.
Eu vejo quando sente o peso das injustiças
Presentes e passadas, sem conseguir mais orar.
Eu vejo você quando quer braços quentes
E abraça o vazio.
Vejo seus ombros caídos de tanto lutar.
Vejo o desespero em seus olhos nas horas fatais.
Sinto sua vertigem,
Quando o ponto sem retorno avança sutil.
Sei que você sabe que as tiranias
Sempre vão longe demais,
Não suportam alegria
E condenam ideais.
Vejo seu coração quando um obtuso pelotão
Se prepara para atirar.

 

Manir de Godoy*

  • Eu imaginei como seria um poema escrito por meu pai, se ele estivesse vivo, em homenagem a Carlos Guedes e Federico Garcías Lorca, ambos poetas que foram presos devido a regimes totalitários que esmagam pessoas idealistas. Infelizmente, meu pai faleceu e não teve a oportunidade de conhecer a história de Carlos Guedes, um poeta com centenas de poemas sem nenhum livro publicado, um poeta torturado pelo regime militar no Brasil. Fico imaginando que meu pai e Carlos poderiam ter se tornado grandes amigos, se os seus caminhos pelo mundo tivessem se cruzado. E esse encontro de dois idealistas talvez tivesse inspirado o poema acima.

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Todo Cambia

Hoje tive grande prazer e emoção ao ouvir a música Tudo Cambia interpretada pela cantora jacareiense Vívian Pelodan e um violonista (infelizmente não sei o nome dele), ambos de talento ímpar. Estou grata por haver tanta beleza e por  pessoas que espalham lindezas como essa pelo mundo. Hoje eles se apresentam no WiFi.

Todo Cambia

Mercedes Sosa

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo
Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante
Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera
Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente
Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Pero no cambia mi amor

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

 

 

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Quarto de despejo e a norma culta

Thaís de Godoy

Abaixo há um trecho do diário de Carolina Maria de Jesus, moradora da favela do Canindé, em São Paulo, catadora de lixo e mãe de três filhos. Suas palavras foram transcritas letra por letra, desconsiderando o fato de que ela escreve fora da norma culta e no ano de 1955, antes da Reforma Ortográfica.

Observe como era difícil para ela enfrentar  os julgamentos que recebia devido à linguagem usada em seu diário: para os vizinhos, ela era culta, simplesmente por saber escrever e usar palavras desconhecidas; para os eruditos, uma semi-analfabeta, por não usar a norma padrão.

Alguns criticam seus leitores porque creditam o sucesso de vendas nacional e internacional de sua obra (talvez o maior best-seller da literatura nacional) a uma espécie de curiosidade mórbida sobre a realidade “exótica” da vida cotidiana em uma favela, como a atenção que um circo de horrores inimagináveis despertaria na classe média alfabetizada. A fim de preservar melhor esse efeito, o texto original deveria ser mantido.

Também para servir de objeto de estudos linguísticos, melhor seria manter sua ortografia e estrutura estropiada mesmo. Os fenômenos da língua inculta e não tão bela seriam, então, dissecados e classificados para deleite dos tarados pela taxonomia.

Outros ainda defendiam que deveria ser mantido o texto original por uma espécie de condescendência culpada de elite por não fornecer os recursos das quais uma mulher, chefe de família, precisa dispor para escrever melhor, tais como uma vida digna e escolas de qualidade. Vamos dar voz aos descamisados, vamos deixar que falem do seu jeito, que se expressem como sempre, vamos publicá-los assim mesmo. Pelo mesmo motivo e outros mais, alguns defendiam que o texto original deveria ser corrigido, seguindo os padrões da norma culta, completando sua obra inadequada e imperfeita. Vamos domesticá-la, talvez tenham dito os mais mordazes e conservadores do idioma.

Então, professores de gramática (como eu) sentiriam cócegas de canetar tudo imediatamente com círculos e acentos de cor vermelha numa compulsão obsessiva. Os historiados criticariam a falsidade, o anacronismo ao se tentar corrigir um documento importante, e a amputação da possibilidade de corrigir nossos erros sem a preservação da memória.

Tive uma conversa interessante com a Profª Maria Vilani Gomes (mãe do rapper Criolo) na qual ela defendeu as correções de acordo com a norma culta para maior divulgação e aceitação (nas escolas principalmente) de textos de jovens escritores que não tiveram acesso a um ensino de qualidade ou estão em processo de alfabetização. Outro argumento também é de que a manutenção do texto inculto poderia desestimular o jovem escritor em seu aprimoramento na aquisição de uma escrita mais elaborada, afinal os socialmente desprivilegiados, os jovens, todos nós temos sim a capacidade e o direito inalienável de nos apropriar desse patrimônio cultural que é a língua portuguesa culta.

São excelentes argumentos, contudo a questão relevante para os estetas é muito diferente das questões exclusivamente sociais classistas, linguísticas, didáticas ou mercadológicas. Para os estetas, a verdadeira e relevante questão, eliminada pelos outros saberes, é a qualidade literária intrínseca do Diário de uma favelada. Ela existe? Claro que sim. A qualidade literária, as reflexões e emoções estéticas que ela desperta no leitor dependem ou não da forma como Carolina Maria de Jesus se expressa? É possível separar forma, conteúdo, expressividade, subjetividade, afetividade, gramaticalidade, sociedade etc.? O efeito da leitura sobre nós não depende justamente das “escolhas” daqueles vocábulos errados feitas pela autora? Tentar separar esses elementos não seria decepar elementos essenciais da obra?

“Tábua de tiro ao alvo”, por exemplo, jamais terá o mesmo efeito emocional no nosso inconsciente coletivo, a mesma expressividade que “tauba de tiro ao alvaro”. O que há aqui, não é mera condescendência classista pelos pobres, romantização da pobreza pitoresca, ou culto do bizarro, mas sim uma identificação com a cultura popular, e um sentimento de irmandade entre os brasileiros de qualquer classe, (excetuando para os esnobes, afetados e eurocêntricos, é claro): a mistura de esculacho, comicidade e afetividade, uma tristeza alegre por sermos capazes de criar usando toda a nossa precariedade.

Deleitem-se com estas preciosidades:

20 de julho de 1955

Carolina Maria de Jesus

Deixei o leito as 4 horas para escrever. Abri a porta e contemplei o céu estrelado. Quando o astro-rei começou despontar eu fui buscar água. Tive sorte! As mulheres não estavam na torneira. Enchi minha lata e zarpei. (…) Fui no Arnaldo buscar o leite e o pão. Quando retornava encontrei o senhor Ismael com uma faca de 30 centimetros mais ou menos. Disse-me que estava a espera do Binidito e do Miguel para matá-los, que êles lhe expancaram quando êle estava embriagado.
Lhe aconselhei a não brigar, que o crime não trás vantagens a ninguem, apenas deturpa a vida. Senti o cheiro do alcool, disisti. Sei que os ébrios não atende. O senhor Ismael quando não está alcoolizado demonstra sua sapiencia. Já foi telegrafista. E do Circulo Exoterico. Tem conhecimentos bíblicos, gosta de dar conselhos. Mas não tem valor. Deixou o alcool lhe dominar, embora seus conselho seja util para os que gostam de levar vida decente.

Preparei a refeição matinal. Cada filho prefere uma coisa. A Vera, mingau de farinha de trigo torrada. O João José, café puro. O José Carlos, leite branco. E eu, mingau de aveia.
Já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir, procuro lhe dar uma refeição condigna.

Terminaram a refeição. Lavei os utensílios. Depois fui lavar roupas. Eu não tenho homem em casa. É só eu e meus filhos. Mas eu não pretendo relaxar. O meu sonho era andar bem limpinha, usar roupas de alto preço, residir numa casa confortável, mas não é possivel. Eu não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja. Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir em favela.

… Durante o dia, os jovens de 15 e 18 anos sentam na grama e falam de roubo. E já tentaram assaltar o empório do senhor Raymundo Guello. E um ficou carimbado com uma bala. O assalto teve inicio as 4 horas. Quando o dia clareou as crianças catava dinheiro na rua e no capinzal. Teve criança que catou vinte cruzeiros em moeda. E sorria exibindo o dinheiro. Mas o juiz foi severo. Castigou impiedosamente.

Fui no rio lavar as roupas e encontrei D. Mariana. Uma mulher agradavel e decente. Tem 9 filhos e um lar modelo. Ela e o espôso tratam-se com iducação. Visam apenas viver em paz. E criar filhos. Ela tambem ia lavar roupas. Ela disse-me que o Binidito da D. Geralda todos os dias ia prêso. Que a Radio Patrulha cançou de vir buscá-lo. Arranjou serviço para êle na cadêia. Achei graça. Dei risada!… Estendi as roupas rapidamente e fui catar papel. Que suplicio catar papel atualmente! Tenho que levar a minha filha Vera Eunice. Ela está com dois anos, e não gosta de ficar em casa. Eu ponho o saco na cabeça e levo-a nos braços. Suporto o pêso do saco na cabeça e suporto o pêso da Vera Eunice nos braços. Tem hora que revolto-me. Depois domino-me. Ela não tem culpa de estar no mundo.

Refleti: preciso ser tolerante com os meus filhos. Êles não tem ninguem no mundo a não ser eu. Como é pungente a condição de mulher sozinha sem um homem no lar.

Aqui, todas impricam comigo. Dizem que falo muito bem. Que sei atrair os homens. (…) Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo.

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Sonhos abortados

mais um Corpo ou só a fração de um Corpo
dividido, subdividido
uma perna
um tronco
um pes
co
ço.
Só um Corpo.

não maria, não josé
não um idoso
não um moço
um es
bo
ço.
O esTrondo meDonho de uma Onda de Lodo.
Só mais um Corpo.

não aquele boi morto,
boi morto
boi
que rola entre os escombros.
Mais um Corpo Só.

não um só corpo!
Só um Corpo sem passAdo sem futUro sem o sOpro
O abOrto de um sOnho
de
com
posto
pelos Engodos do Vale do Choro.

Só Matéria nos cômputos brutos dos Diários xucros.

Godoy

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Não te rendas

Mario Benedetti

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Grafite representando protesto dos coletes amarelos, releitura do quadro “A liberdade guiando o povo”, Delacroix

 

 

Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos,
largar o lastro,
retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
continuar a viagem,
perseguir os teus sonhos,
destravar os tempos,
arrumar os escombros,
e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento:
ainda há fogo na tua alma
ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,
porque o quiseste e eu te amo,
porque existe o vinho e o amor,
porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
tirar os ferrolhos,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto,
baixar a guarda e estender as mãos,
abrir as asas
e tentar de novo
celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:
mesmo que o frio queime,
mesmo que o medo morda,
mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo na tua alma,
ainda existe vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo início,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, por eu te amo.

 

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Somos Professores

Não sei a autoria deste texto, que está sendo divulgado nas redes sociais anonimamente. Como professora, eu me identifiquei totalmente com a mensagem.

Somos professores e recebemos palpites e julgamentos de todo mundo. Do ministro da educação, do jornalista, do pai do aluno, das famílias. Aquela piadinha que o professor tem regalias, duas férias por ano, que ganha bem , que não deveria se aposentar…A sensação é de que estamos sós.
É preciso mandar um “aguente firme” para os professores de verdade.
Pra quem dá aula em duas ou três escolas e almoça no caminho.
Pra quem não consegue almoçar e engole um salgado enquanto assina o ponto.
Pra quem fica acordado na madrugada baixando vídeo e música pra usar na aula.
Pra quem faz as cópias na sua impressora.
Pra quem compra o material da aula com grana do bolso.
Pra quem passa do horário pra ajudar no evento.
Pra quem passa o final de semana corrigindo.
Pra aquele que leva as atividades na viagem do final de semana.
Pra aquele que leva um lanchinho a mais na excursão, para o aluno que não tem condições.
Pra aquele que compra livros pra turma.
Pra aquele que vai trabalhar doente porque não quer deixar os alunos na mão aquele dia.
Pra aquele que não falta de jeito nenhum…
Pra aquele que vê o aluno se perdendo na quebrada e tenta salvar aquela alma.
Pra aquele que briga com a família até levarem o pequeno no médico.
Pra aquele que deixa seus problemas em casa, porque sabe que na escola tem abuso sexual e físico, fome, violência e doença pra mediar.
Pra aquele que já teve o carro roubado indo pro trabalho.
Pra aquele que já foi agredido verbalmente por alunos e familiares.
Pra aquele que é xingado enquanto dá aula.
Pra aquele que não é respeitado enquanto dá aula.
Pra aquele que é compromissado com o processo de aprendizagem, mesmo que seus alunos não sejam.
Pra aquele que vê mais seus alunos que os seus filhos.
Pra aquele que mesmo passando por tudo isso, não desiste!
“Aguente firme”, esse país não te merece, mas precisa MUITO de você.(desconheço a autoria).
Se você é professor e tem orgulho de ser, copie e cole no seu mural. E você que não exerce esta profissão mas quer nos dar um incentivo, apoio e encorajamento também podes fazê-lo.
Copiado e colado com louvor…

Unknown

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Tema da redação do Enem 2018: ‘manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet’

Seis professores de redação e um especialista em tecnologia comentam o tema da prova, e alertam: não vale só falar sobre ‘notícias falsas’.

Por Ana Carolina Moreno e Elida Oliveira, G1 –  

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem 2018) é “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. A prova teve quatro textos motivadores, sendo que três deles são trechos de reportagens e um trouxe um gráfico com dados.

Duas das três reportagens citam diretamente os algoritmos e foram publicados em 2016. Um deles, “O gosto na era do algoritmo”, foi publicado em 2016 pelo jornal “El País” e escrito pelo jornalista Daniel Verdú. O outro, chamado “A silenciosa ditadura do algoritmo“, é de autoria do jornalista brasileiro Pepe Escobar.

A terceira reportagem, também de 2016, foi publicada pela BBC Future. De autoria de Tom Chatfield, o texto chama “Como a internet influencia secretamente nossas escolhas“.

O gráfico que aparece na prova de redação é um organograma de dados produzido pelo IBGE com o perfil dos usuários de internet no Brasil em 2016, com detalhes sobre o uso da internet entre homens e mulheres.

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) no início da tarde deste domingo (5).

Os candidatos têm 5h30 para fazer o primeiro dia de provas do Enem 2018. Além da redação, são 45 questões de linguagens e outras 45 de ciências humanas.

 

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O Nada

Coletivo Sincronistas

Hoje, infelizmente, faleceu a avó de uma de nossas sincronistas: Viviane. Gostaria de homenagear essa senhora, embora nunca a tenha conhecido, creio que se ela ajudou a educar nossa querida amiga tão bem, ela só pode ter sido uma mulher fantástica.

O nada

Thaís de Godoy Morais

Nada se extingue.

Tudo o que há é um reflexo

Do que já houve.

O que já houve são ecos ressoando

No presente…

Se aqui ninguém seu tinir ouve,

É porque nada,

Na dor de um ser ausente,

Se distingue.

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O operário que sonhava ser poeta – parte I

Homenagem ao meu amado pai, Manir. Quanta saudade que não cabe em mim! Procurei seguir seu último pedido feito a mim: o de escrever um poema sobre ele. Embora eu tenha sido, até aquele dia derradeiro, apenas uma leitora, me esforcei na tarefa, cujo resultado está muito aquém do valor desse grande homem.

 

In memoriam de Manir de Godoy

 

Era uma vez um menino meio nômade,

Que vivia entre o interior e a cidade grande.

O pai morrera de gangrena.

A mãe costureira sustentava

Com esforço seis filhos:

Eupídio , Cássio, Dirce,

Tó, Manir e Iracema!

 

Vendedor de doces no cinema, engraxate,

Chegou a operário de fábrica de chocolate.

Nada fantástica era a vida desse guri,

Que vivia em um cortiço no Pari.

 

Mas tudo mudou no dia em que encontrou

As letrinhas de metal jogadas na calçada

Que formaram o primeiro poema

do menino sentado no meio fio.

As letrinhas graciosas eram

seu único brinquedo nas horas vagas.

 

Um dia o dono das letras o viu e chamou pra trabalhar.

Ali, sua formação interrompida continuaria.

O menino-operário da tipografia,

Montava admirado textos de poetas e aspirantes;

Panfletos dos primeiros socialistas do país

Que viviam gravitando a sua volta.

Com muito esforço, lia de Lobato e Verne

ao Príncipe Valente e Flash Gordon,

Assim foi se alfabetizando.

 

No cortiço sua mãe se arriscava,

Não levava desaforo pra casa!

Engajado na causa operária,

Começou a ler obras mais sisudas

Do que as que lera numa escola em Bragança.

 

Considerava sincero apenas o “cavaleiro da esperança”…

Por isso, aos 16, fugiu de casa e fundou

o PC em São João da Boa Vista.

Lá via filmes do Mazzaropi,

Dormia em carros alheios,

Tocava violino na praça…

 

Ps.: Por coincidência ou não eu também saí de casa aos 16 anos.

Um dia talvez eu consiga continuar, mas me falta inspiração no momento.

Jaraguá1968

Meu pai me contava que, quando eu era bebê, eu ria até perder o fôlego e ficavam todos com medo de eu sufocar de tanto rir por causa de uma brincadeira do meu irmãozinho Ibsen, que imitava o som das explosões das pedreiras próximas, falando: “Peleila: bum!”

SONETO LXXXII

É BOM, amor, sentir-te perto de mim na noite,
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.

Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.

Erguida, serás outras que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos

algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
como fogo suas secretas criaturas.

 

Pablo Neruda

O chamado ou Da redenção
O Chamado

A que está sempre alegre

Charles Baudelaire

Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tuas vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!

6D VampiraXd roezlii
Insira uma legenda

Os ombros suportam o mundo

Drummond

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

 

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

 

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Utopia

Goldfrapp

It’s a strange day

No colours or shapes
No sound in my head
I forget who I am
When I’m with you
There’s no reason
There’s no sense
I’m not supposed to feel
I forget who I am
I forget

Fascist baby
Utopia, utopia

Make his eyes see forever
Make him live like me
Again and again

I’m wired to the world
That’s how I know everything
I’m super brain
That’s how they made me.

 

Apenas palavras

As palavras são nada.

Em si, carecem de sentidos, se os gestos não as acompanharem.

Assim calar é louvável a alguns algures.

Imprudência confiar nas palavras, já que quem mente mergulha a todos em fantasia?

Sonha que a todos ludibria?

Para si, ciladas cria?

Mas não ilude plenamente: há uma gota de verdade em cada mentira.

Há um dizer exato em cada silêncio!

A palavra não poderá ser sempre friamente refreada,

Porque liberta quem a profere de sentimentos inconfessáveis.

As palavras libertam os tímidos de si mesmos,

desconfiados de revelar seu ser ao universo.

Libertam um povo da opressão.

Libertam seres de sua invisibilidade.

Libertam ao revelar a descoberta e afirmação de si, a si mesmo e à humanidade.

No Polo Norte, quantos tons de branco conhecem os esquimós?

Para cada branco, uma palavra.

Para nós, só há um branco e mais nada…

Para cada coisa que há e sabemos que há, há uma palavra.

A tudo que nasce, damos um nome.

Para quem nunca viu tantos tons de brancos, se ouvir seus nomes diferentes, nem precisa se mudar para lá.

A enxergá-los, em algum momento, passará.

Assim os nomes nascem das coisas, mas o saber também nasce das palavras.

O que pensamos que é sabido de todos, mas nunca foi divulgado verbalmente, pode também deixar de haver e ser esquecido, na próxima temporada.

Se o amor verdadeiro está implícito em ações que demonstram sentimentos,

Também provas perdem seu sentido no automatismo dos gestos rotineiros.

Então, o cinismo contemporâneo nos acanha

com demonstrações de afeto e acaba por enregelar a todos de todo.

 

Você não pode mais me ouvir,

Então falo para mim mesma,

Para saber que sinto o que sinto,

Para lembrar e me aquecer

E me libertar do não-dizer:

“Não enxergamos os brancos dos esquimós nem temos nomes para eles…

Nunca pensei que talvez você não enxergasse em quantas cores era amado.

Hoje não cansaria de dizer de todas as formas possíveis,

Com quantas palavras existem: Persy, eu amo você!”

28-07-2012

rumi

Deus, nós e o Universo

ALEXEY DODSWORTH
Semana passada, descobri que a defesa de doutorado no Brasil tem peculiaridades que a tornam mais interessante do que na Itália. Meu orientador italiano adorou o sistema brasileiro. Na Itália, segundo ele, são três discussões em uma manhã, ou seja, o tempo é bem restrito. Na USP, uma manhã inteira é dedicada a uma defesa, o que permite um debate com maior profundidade. Outra peculiaridade: no Brasil, o candidato faz um [extremo] resumo para o público. Os italianos [havia outro, o prof. Pietro Omodeo, em transmissão direta] adoraram saber que o público pode assistir às defesas. Na Itália, pelo menos em Veneza, não é assim.

Segue abaixo a versão em português do resumo que apresentei para o público. Em breve a tese estará disponível na Biblioteca Virtual de Teses da USP. Agradecimentos pelas fotos: Leonardo Chioda, Ridete Pozzetti e Cledys Magnavita.

“Bom dia a todos. Primeiramente, eu gostaria de agradecer a vocês, professores, por sua gentil disposição em fazer parte desta discussão. Este é o primeiro PhD de duplo título decorrente de um acordo entre a Universidade de São Paulo e a Universidade Ca’ Foscari de Veneza, o que é para mim uma honra. Estou certo de que isso é só o começo e que iremos fortalecer cada vez mais os nossos laços acadêmicos no futuro.

Um agradecimento especial é dirigido aos meus orientadores: o professor Fabrizio Turoldo, que atravessou o oceano para estar conosco, hoje; e para o professor Renato Janine Ribeiro, por seu corajoso apoio à minha tese.

Ressalto o adjetivo “corajoso” porque, quando o assunto é filosofia, o transumanismo tende a não ser um tema lá muito bem vindo, academicamente falando. Acadêmicos tendem a ver o transumanismo como um tipo de argumento de ficção científica e, por isso, como algo pouco importante. O professor Renato, por outro lado, nunca subestimou a ficção científica. E por isso que eu quero começar citando Arthur Clarke, em vez de um filósofo tradicional.

Segundo Clarke, ‘a ficção é melhor do que a não-ficção em alguns sentidos (…) Você pode alargar a mente das pessoas, alertando-as para as possibilidades do futuro, o que é muito importante em uma época em que as coisas estão mudando rapidamente’.

Quando se diz que o transumanismo é mais ficção do que filosofia, eu concordo. Mas isso não é um demérito, muito pelo contrário. Em uma época em que o progresso técnico se desenvolve freneticamente, é importante vislumbrar consequências. Sobretudo, é importante propor modos de aumentar as chances de existência de um futuro para nossos descendentes. Em uma ampla gama de aspectos, o transumanismo é um movimento dedicado a inventar o futuro, a propor o futuro em vez de predizê-lo. Transumanistas têm um objetivo, e este pode ser resumido em uma palavra: extensão.

Quando eu comecei minha pesquisa, eu tinha a intenção de abordar a extensão da vida individual. Questões tais quais “imortalidade” e “longevidade” caminhavam para ser meus temas nucleares. Mas eu rapidamente me dei conta de que há um grande número de teses sobre estes temas. O professor Renato Janine Ribeiro certa feita, tempos atrás, disse-me: ‘não reescreva de modo chato o que alguém já escreveu brilhantemente’. Deste modo, decidi seguir seu conselho e por isso a minha tese é sobre extensão da vida, mas não sobre extensão individual da vida.

Indo direto ao ponto: minha tese é sobre a desejável sobrevivência da consciência neste universo. Não importa se esta entidade for humana ou não. O que o transumanismo quer é assegurar que o fantástico fenômeno da consciência não venha a morrer com o nosso planeta quando a hora chegar.

E esta é a razão pela qual devemos ir rumo ao céu: para aumentar as chances.

Mas por que isso é tão importante? Ocorre que, sob uma perspectiva transumanística, a consciência possui valor intrínseco. Permitam-me esclarecer algumas definições:

Uma abordagem comum para a ética é reconhecer dois tipos de valores nas coisas. O primeiro é o valor instrumental: a identificação de quão útil uma coisa é para as pessoas. O valor instrumental é sempre contingente, ou seja, ele depende do contexto. Nós podemos dizer que algo é mais valioso do que outro, instrumentalmente falando. Não há controvérsias éticas no tocante a este conceito, dado que algumas coisas são, de fato, mais valiosas que outras. Quando o assunto é valor instrumental, eventuais controvérsias serão sempre técnicas. Nós podemos discutir se uma coisa é útil ou não. Não há problemas éticos em dizer, por exemplo, que esta substância não é útil para aquela doença. Este é um julgamento técnico baseado em contexto.

Um segundo tipo de valor que às vezes se atribui a coisas é o valor intrínseco. Valor intrínseco é um conceito controverso que propõe que existem objetos no universo que merecem mais consideração independentemente de sua utilidade. Estas coisas, dizem alguns filósofos, têm um valor inerente.

É difícil entender como algo pode ter valor sem alguém que observe isso, dado que sem um observador todos os objetos são simplesmente matéria. Sob um ponto de vista religioso, humanos são valiosos por causa de Deus, que é o supremo observador. Este é um tipo de argumento que demanda fé para ser aceito. Mas nós estamos em uma discussão filosófica, não em uma discussão teológica. Deste modo, como podemos – sem apelos religiosos – defender a existência do valor intrínseco?

Transumanistas defendem que, dentre todas as coisas existentes, aquelas dotadas de consciência são intrinsecamente valiosas. Eles sugerem que o valor intrínseco existe, mas é uma criação de seres sencientes, portanto aplicável a eles.ó

Filósofos tendem a divergir sobre quais entidades merecem ser consideradas intrinsecamente valiosas. O antropocentrismo leva em consideração que a razão é a base do valor intrínseco, portanto apenas humanos merecem ser considerados intrinsecamente valiosos. Eu discordo fortemente disso. Conforme explico em minha tese, razão e inteligência derivam da senciência, ou seja, são atributos consequenciais da senciência. Uma entidade não precisa ser racional e inteligente para saber o que é valioso para ela. A capacidade de evitar sofrimento e buscar prazer demonstra que a entidade sabe o que vale e o que não vale. Ou seja, o conceito de valor emerge com a senciência, e não importa que uma específica entidade seja incapaz de falar sobre isso. Transumanistas têm insistido nestes pontos desde meados do século passado.

Em 2017, o professor Turoldo me apresentou à obra de Hans Jonas, e eu fiquei fascinado ao constatar alguns pontos em comum entre ele e os transumanistas. Por exemplo: Jonas é claramente contra uma exclusividade antropocêntrica no que diz respeito ao valor intrínseco. Conforme o professor Turoldo escreve em seu livro ‘Bioética e Ética da Responsabilidade’ (página 9), ‘o ser vem compreendido por Jonas em um sentido teleológico, ou seja, como um ser finalisticamente orientado à própria autoconservação (…) Jonas descreve um ser que percebe a si mesmo como bom e que, por isso, quer conservar a própria existência’ [tradução minha].

Tudo considerado, pode-se dizer que Jonas está alinhado com a proposta transumanista de extensão da vida em um sentido coletivo. De acordo com os transumanistas, a vida é melhor do que a não-vida, e seres sencientes querem viver. Quanto mais felicidade, mais desejamos a vida. O telos da vida senciente não é apenas “continuar a viver”, mas continuar a viver prazerosamente.

Até aqui eu não disse algo de original. No que diz respeito a teses de doutorado, um certo grau de originalidade é esperado. Caso contrário, eu corro o risco de apenas repetir o que já foi dito antes. Uma tese filosófica deveria oferecer alguma contribuição para uma discussão específica. Mesmo que tal contribuição seja pequena. Então vamos lá:

O núcleo de minha tese está alinhado com o primeiro tópico da declaração transumanista, que diz: ‘vislumbramos a possibilidade do alargamento do potencial humano através da superação do envelhecimento, dos vieses cognitivos, do sofrimento involuntário e de nosso confinamento ao planeta Terra’ [tradução minha].

Eu tenho abordado em minhas pesquisas principalmente a superação de nosso confinamento ao planeta Terra, e o faço por uma razão filosófica muito específica: tal superação é o único modo de evitar o ‘summum malum’ (“mal supremo”, em latim). Filósofos têm definido o problema do ‘summum malum’ de várias maneiras. Talvez o mais famoso dentre todos seja Thomas Hobbes, que define que o mal supremo a ser evitado é a morte violenta.

Hans Jonas, por outro lado, discorda de Hobbes. De acordo com Jonas, o mal supremo é a extinção em massa, não a morte individual. As considerações de Hobbes estão restritas às condições do mundo em sua época. Naquele tempo, um soberano não tinha o poder de afetar o mundo inteiro em decorrência de suas decisões erradas. Atualmente, uma pessoa poderosa e louca é suficiente para danificar o planeta. Dia após dia, o progresso tecnológico empodera governos e pessoas de uma forma muito perigosa. Ao longo de sua vida, Jonas testemunhou o holocausto e a ascensão da bomba atômica, o que foi suficiente para fazê-lo entender o quanto o conceito de Hobbes de ‘mal supremo’ era pálido diante de tudo isso.

O problema que eu pus é: apesar de eu concordar com a definição de Jonas de ‘mal supremo’ como ‘extinção em massa’, eu discordo fortemente de suas ideias biogeocêntricas. Conforme vocês podem ler no primeiro capítulo de minha tese, Jonas é contra a expansão espacial. Ele escorrega em um falso dilema quando diz que nós deveríamos cuidar de nosso planeta em vez de investir tempo e dinheiro em empreendimentos espaciais. Minha tese sustenta que as declarações de Jonas contra a expansão espacial não são apenas um falso dilema, mas são também uma séria contradição de suas próprias ideias a respeito de teleologia. Deixem-me tentar demonstrar meu ponto:

Levando em conta que auto-preservação é um imperativo de acordo com o próprio Jonas, e levando em consideração que nosso planeta vai morrer mais cedo ou mais tarde, há uma contradição quando Jonas diz:

‘Vamos nos preocupar com o nosso planeta. O que quer que exista lá fora, é aqui que nosso destino será decidido. E, junto com o nosso destino, essa parte da aposta da criação que está em nossas mãos e pode tanto ser preservada quanto traída’ [tradução minha].

Logo, o núcleo do primeiro capítulo de minha tese é: de modo a expandir a existência da consciência, é necessário disseminar a vida através do universo. Se nós nos mantivermos restritos ao nosso planeta, nós iremos contra nosso impulso de autopreservação. Se nós nos mantivermos restritos ao nosso planeta, iremos certamente desaparecer. A expansão espacial não garante um futuro para a consciência, mas aumenta as chances.

Notem por favor que eu não estou falando em salvar a humanidade necessariamente, sobretudo se por ‘humanidade’ nós entendemos nossa atual forma. Para transumanistas o que importa é a consciência, seja ela natural, artificial, humana, transumana, alienígena, metade biológica e metade tecnológica etc. De acordo com transumanistas, não é a nossa forma humana que nos faz especiais, e sim a nossa consciência, e eu concordo com eles.

Jonas, ao contrário, apela para a importância de “preservarmos nossa real essência humana”, e parece bastante assustado com as possibilidades de uma pós-humanidade cosmicamente expandida. Conforme apontei em minha tese, sua contradição jaz no fato de que apesar de seu acertado entendimento a respeito da natureza do mal supremo, ele leva em consideração apenas os danos causados pelo progresso humano. Mas o fato é que na época de Jonas nós mal tínhamos noção dos danos causados por fatores cósmicos.

Pensar em nosso planeta como estável é um erro comum. Nosso planeta sofreu eventos causadores de extinção global antes, os quais foram causados por fatores extraterrestres. Nós tomamos a estabilidade planetária como algo garantido, o que é um erro perigoso.

O professor Douglas Galante, que está aqui hoje conosco, é o primeiro doutor em astrobiologia teórica no Brasil. Se vocês quiserem saber as muitas formas pelas quais a nossa vida pode ser erradicada por fatores extraterrestres, tenho certeza de que ele poderá oferecer tal informação em detalhes muito interessantes e aterradores. Ele também pode explicar a importância prática da pesquisa espacial melhor do que eu.

Em resumo, eticamente falando a minha tese está alinhada com o entendimento de Jonas sobre a natureza do mal supremo. E é exatamente por conta deste alinhamento que eu digo que Jonas contradiz a si mesmo quando ele alega que o planeta Terra é o nosso ‘destino’. A minha tese sustenta que se nós quisermos evitar o mal supremo, o planeta Terra não deveria ser entendido como um ‘destino’, mas como um ponto de partida. Permanecer apegado ao nosso ponto de partida nos conduziria à extinção em massa, eventualmente.

O segundo capítulo de minha tese é sobre metafísica. Enquanto o primeiro capítulo questiona se a vida tem uma finalidade, o segundo capítulo questiona se o universo tem finalidade. Eu começo citando o astrofísico Martyn Rees, que demonstra como nosso universo parece ser finamente ajustado de modo a criar vida. Ou seja, o nosso universo é biofílico. Mas é o próprio Rees que contra-argumenta e diz que esta peculiaridade cósmica pode muito bem ser acidental. Talvez exista uma ampla gama de universos alternativos cujas leis não permitem a existência de vida, conforme teoricamente demonstrado por físicos tais quais Hugh Everett III e David Deutsch.

Teleologia cósmica é um tema frequente em filosofia e é um dos três principais argumentos que tentam demonstrar a existência de Deus. O argumento teleológico, o qual é muito apreciado por proponentes do design inteligente, diz que deve existir uma inteligência ordenadora por trás da cena. Ainda que este tipo de argumento soe como mero pensamento desejoso, é baseado em evidências físicas de um cosmo finamente ajustado.

Mas mesmo que nós consideremos que exista uma inteligência que criou o nosso universo ‘finamente ajustado’, nada justifica que tal inteligência seja o mesmo Deus das religiões monoteísticas.

Dentre os filósofos dedicados a pensar a respeito da natureza e objetivos da criação, há dois que se destacam em minha tese: Teilhard de Chardin e Hans Jonas. O ponto em comum entre eles é que ambos defendem a ideia de um Deus que abdica de seu poder de modo a permitir a existência do universo. Por que Deus faria isso? Ambos dizem que não sabem. Em ambos os casos, nós somos apresentados a um Deus extremamente poderoso cuja imperfeição jaz no fato de que ele deseja. Por causa disso, Jonas usa a expressão ‘Eros cosmogônico’ em vez de oferecer uma narrativa cosmológica para a criação.

De acordo com Jonas, o universo é criado por um impulso desejoso, pelo auto-sacrifício divino, e não há garantia de que este ato resultará em algo bom. Por causa disso, eu digo que a cosmogonia de Jonas é uma interessante reversão da aposta de Pascal. Ou seja, é Deus quem aposta em nossa existência. Se há algum plano para o universo, sua realização depende de nós. Nós não estamos nas mãos de Deus, é o oposto: ele jaz em nossas mãos.

Por fim, mas não menos importante, eu sustento que Jonas não tem razão em seus pensamentos pessimistas acerca de um jogo divino. Se existe um Deus que joga um jogo, tal jogo tem sido jogado não apenas em um universo, mas em vastos, talvez infinitos universos alternativos, o que aumenta as chances de um cosmo bem-sucedido pleno de vida e consciência, um cosmos capaz de reproduzir a si mesmo – em uma história sem fim.”

“O Palácio”, de Kaveh Akbar, por Layla Oliveira

escamandro

Os poemas de Kaveh Akbar foram publicados em jornais como The New Yorker, Poetry, Paris Review, Best American Poetry, The New York Times, e muitos outros. Ele é o autor de duas coletâneas completas: Pilgrim Bell (Graywolf, 2021) and Calling a Wolf a Wolf (Alice James, 2017). Ganhador do Prêmio Levis Reading, múltiplos prêmios Pushcart, e Ruth Lilly and Dorothy Sargent Rosenberg Poetry Fellowship, Kaveh é o editor-fundador do Divedapper, site de entrevistas com as maiores vozes da poesia contemporânea. Nascido no Teerã, Iran, leciona na Universidade de Purdue e nos programas de baixa residência do MFA no Randolph College e Warren Wilson. O site dele é http://kavehakbar.com/#/.

Layla Gabriel de Oliveira é poeta, atriz e estudante de Letras na Universidade Federal do Paraná. Está atualmente traduzindo o livro inédito do poeta Kaveh Akbar, Pilgrim Bell, para publicação simultânea nas duas línguas…

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