Destaque

Interregno

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Na hora da Lua Vazia, você nos abandonou!

A lua cheia era uma cabeça pendurada no ar

Perfeitamente alinhada a dois pingentes de diamantes.

Você escolheu um lindo dia

Você escolheu um lindo lusco-fusco

Uma linda noite de indescritível silêncio capsular

 

Você escolheu absoluto o silêncio

Sem despedidas

Sem avisos

Sem escândalos como deve ser

 

Você escolheu o silêncio primordial

Que nos precedeu

Você escolheu o silêncio terminal

Que nos espera

 

Mas, naquele momento de tormenta,

nós também pedimos silêncio,

À Nossa Grande Mãe,

O silêncio nos protegeu

O silêncio nos encobriu

Em nossas mentiras brancas…

 

Ainda agora pedimos silêncio às nossas entranhas que gritam:

Por que meu Deus?

Procuramos os culpados

Procuramos as respostas em todas as ciências dos deuses

Procuramos as respostas em todas as ciências dos homens

Mas só o silêncio nos abraça

 

Pedimos silêncio para nosso inquieto coração

Afogado em tanta ternura sem eco…

Por favor, silêncio! Não convém esquadrinhar o mistério,

O abismo também nos espreita nas esquinas

O abismo também nos olha pelos corredores escuros e pelas janelas abertas.

Do fundo dos precipícios por sobre as pontes

Das entranhas do mar profundo cortado por nossas naves barulhentas

A música silenciosa do início dos tempos

Chama irresistivelmente nosso nome

Quando nos demoramos no entremeio dos mundos.

 

 

Godoy

Caminhada de Lua Cheia na Serra de Sintra - GreenTrekker.pt

Destaque

Ai, quem me dera

Vinícius de Moraes

Ai quem me dera, terminasse a espera
E retornasse o canto simples e sem fim…
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai quem me dera percorrer estrelas
Ter nascido anjo e ver brotar a flor
Ai quem me dera uma manhã feliz
Ai quem me dera uma estação de amor

Ah! Se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais

Ai quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afins
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir o nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguém chamar por mim…

7 de setembro: Brotas Eco Resort tem programação especial e ...

 

 

Destaque

Abismos

Ser o que vocês sonharam para nós
Está nos rasgando em pequenos pedaços

E, em nossa estrada, em cada curva se estendem
As cruzes de seu passado mal resolvido,
Até onde nosso olhar alcança …

Tentar nos esquivar do inevitável,
Está nos dilacerando membro por membro…

Oh criador, contemple suas criaturas
Perceba nossa imobilidade por coisas vazias
Somos assépticos
Somos ascetas
¬- Assim nada, nada pode dar errado!

Recolhemos nossos sorrisos barulhentos
Para evitar tantas ameaças à nossa pureza!
Nós nos deitamos num altar de sacrifícios
Pela nossa e por todas as gerações anteriores a nós.
Vocês precisaram dessa hecatombe
E nós aceitamos por nossa bondade.

Vivemos nas montanhas…
É o preço a pagar por nossa limpeza.
Permanecemos nas rochas inacessíveis
Aonde ainda podemos morar sem cair nos abismos.
Lá embaixo um oceano nos observa e espera…

Godoy

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Alegria

Quando a “indesejada das gentes”
Passa a não ser tão indesejada assim?
Há um momento em que o cansaço
Vence o entusiasmo e a morte
Passa a ser almejada: por crianças, jovens e
Até por um povo inteiro!

Gente como a menina que deveria estudar,
Segura, trancada no quarto,
ao invés de se enforcar.
Ou gente que vive agora
Na miséria mais degradante,
Que se esquece, num rompante,
De seus filhos para alimentar!

Gente como os índios Kaiowás
De quem vão se lembrar
Apenas pelo nome de algum lugar:
De uma rua de um bairro de periferia.
Num mundo de arrepiar:
Vivem sem lei, sem rei e sem fé
que os protejam e acolham
tudo o que eles são.

Se permitirem, a “civilização” os extinguirá,
porém, horripilantemente,
em museus de raros espécimes, os conservará.

Mas há também gente tão inocente
que, contra todas as expectativas,
Contra todas as probabilidades
Resiste à insuportabilidade da vida.
Gente que canta, vive e sorri
E, nesse decrépito mundo,
Ainda encontra a Alegria!

 

 

Dançarinas do Grupo de Artes Performativas da Associação Chinesa de Pessoas com Deficiência exibem o seu número mais conhecido, a dança Qianshou Kuanyin, ou Bodhisattva de 1000 mãos. a dança do Buda de Mil Mãos prende a atenção de todos, pois são 21 dançarinas surdas e mudas trajadas de dourado, formando uma fila vertical e 42 braços promovem diferentes gestos simultaneamente, levando a todos a imagem do Buda de Mil Mãos, encontrada em muitas grutas da China. A dança maravilhosa foi criada por um famoso coreógrafo chinês, Zhang Jigang.

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Poesia III

Tirei minha Tristeza pra dançar.
Dançamos uma valsa de silêncios dolorosos,
Rodopiei por salas habitadas
Por todas as partidas prematuras
Em que ela me guiava, me girando pelos ares.

Com um nó preso bem no fundo da garganta,
Entreguei, sem luta e por cansaço,
Minhas fibras à cadência de seus passos.

Olhando bem no fundo de meus olhos, ela me dizia:
_ Eu sou sua! Você é minha!

Sobre lustres refletidos em espelhos multicores,
A Tristeza, me estreitando em seus braços,
Embalou-me numa nuvem luminosa
Onde vive a poesia.

José de Godoy

2018

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Poeta obscuro

Poeta obscuro,

Eu vejo você quando chora à noite
Por seus sonhos perdidos
E em sua cela sozinho, deseja dormir
E talvez sonhar.
Eu vejo quando sente o peso das injustiças
Presentes e passadas, sem conseguir mais orar.
Eu vejo você quando quer braços quentes
E abraça o vazio.
Vejo seus ombros caídos de tanto lutar.
Vejo o desespero em seus olhos nas horas fatais.
Sinto sua vertigem,
Quando o ponto sem retorno avança sutil.
Sei que você sabe que as tiranias
Sempre vão longe demais,
Não suportam alegria
E condenam ideais.
Vejo seu coração quando um obtuso pelotão
Se prepara para atirar.

 

Manir de Godoy*

  • Eu imaginei como seria um poema escrito por meu pai, se ele estivesse vivo, em homenagem a Carlos Guedes e Federico Garcías Lorca, ambos poetas que foram presos devido a regimes totalitários que esmagam pessoas idealistas. Infelizmente, meu pai faleceu e não teve a oportunidade de conhecer a história de Carlos Guedes, um poeta com centenas de poemas sem nenhum livro publicado, um poeta torturado pelo regime militar no Brasil. Fico imaginando que meu pai e Carlos poderiam ter se tornado grandes amigos, se os seus caminhos pelo mundo tivessem se cruzado. E esse encontro de dois idealistas inspiraria o poema acima.

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Destaque

Sonhos abortados

mais um Corpo ou só a fração de um Corpo
dividido, subdividido
uma perna
um tronco
um pes
co
ço.
Só um Corpo.

não maria, não josé
não um idoso
não um moço
um es
bo
ço.
O esTrondo meDonho de uma Onda de Lodo.
Só mais um Corpo.

não aquele boi morto,
boi morto
boi
que rola entre os escombros.
Mais um Corpo Só.

não um só corpo!
Só um Corpo sem passAdo sem futUro sem o sOpro
O abOrto de um sOnho
de
com
posto
pelos Engodos do Vale do Choro.

Só Matéria nos cômputos brutos dos Diários xucros.

Godoy

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Destaque

O operário que sonhava ser poeta – parte I

Homenagem ao meu amado pai, Manir. Quanta saudade que não cabe em mim! Procurei seguir seu último pedido feito a mim: o de escrever um poema sobre ele. Embora eu tenha sido, até aquele dia derradeiro, apenas uma leitora, me esforcei na tarefa, cujo resultado está muito aquém do valor desse grande homem.

 

In memoriam de Manir de Godoy

 

Era uma vez um menino meio nômade,

Que vivia entre o interior e a cidade grande.

O pai morrera de gangrena.

A mãe costureira sustentava

Com esforço seis filhos:

Eupídio , Cássio, Dirce,

Tó, Manir e Iracema!

 

Vendedor de doces no cinema, engraxate,

Chegou a operário de fábrica de chocolate.

Nada fantástica era a vida desse guri,

Que vivia em um cortiço no Pari.

 

Mas tudo mudou no dia em que encontrou

As letrinhas de metal jogadas na calçada

Que formaram o primeiro poema

do menino sentado no meio fio.

As letrinhas graciosas eram

seu único brinquedo nas horas vagas.

 

Um dia o dono das letras o viu e chamou pra trabalhar.

Ali, sua formação interrompida continuaria.

O menino-operário da tipografia,

Montava admirado textos de poetas e aspirantes;

Panfletos dos primeiros socialistas do país

Que viviam gravitando a sua volta.

Com muito esforço, lia de Lobato e Verne

ao Príncipe Valente e Flash Gordon,

Assim foi se alfabetizando.

 

No cortiço sua mãe se arriscava,

Não levava desaforo pra casa!

Engajado na causa operária,

Começou a ler obras mais sisudas

Do que as que lera numa escola em Bragança.

 

Considerava sincero apenas o “cavaleiro da esperança”…

Por isso, aos 16, fugiu de casa e fundou

o PC em São João da Boa Vista.

Lá via filmes do Mazzaropi,

Dormia em carros alheios,

Tocava violino na praça…

 

Ps.: Por coincidência ou não eu também saí de casa aos 16 anos.

Um dia talvez eu consiga continuar, mas me falta inspiração no momento.

Jaraguá1968

Meu pai me contava que, quando eu era bebê, eu ria até perder o fôlego e ficavam todos com medo de eu sufocar de tanto rir por causa de uma brincadeira do meu irmãozinho Ibsen, que imitava o som das explosões das pedreiras próximas, falando: “Peleila: bum!”

O direito à tristeza – Contardo Calligaris

Laboratório de Sensibilidades

As crianças têm dois deveres. Um, salutar, é o dever de crescer e parar de ser crianças. O outro, mais complicado, é o de ser felizes, ou melhor, de encenar a felicidade para os adultos.Esses dois deveres são um pouco contraditórios, pois, crescendo e saindo da infância, a gente descobre, por exemplo, que os picolés não são de graça. Portanto, torna-se mais difícil saltitar sorrindo pelos parques à espera de que a máquina fotográfica do papai imortalize o momento. Em suma, se obedeço ao dever de crescer, desobedeço ao dever de ser feliz.A descoberta dessa contradição pode levar uma criança a desistir de crescer. E pode fazer a tristeza (às vezes o desespero) de outra criança, incomodada pela tarefa de ser, para a família inteira, a representante da felicidade que os adultos perderam (por serem adultos, porque a vida é dura, porque doem as costas, porque o casamento é tenso…

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Vozes D’África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé!…
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé…

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas…
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia…
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais …
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
— Pagodes colossais…

A Europa é sempre Europa, a gloriosa!…
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã!…

Sempre a láurea lhe cabe no litígio…
Ora uma c’roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela — doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.
………………………………

Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro… bebe o pranto a areia ardente;
talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão…

E nem tenho uma sombra de floresta…
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador…
Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
“Abriga-me, Senhor!…”

Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz…
Quando eu passo no Saara amortalhada…
Ai! dizem: “Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz… ”

Nem vêem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim …
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim
…………………………………

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?…
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!
………………………………….

Foi depois do dilúvio… um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará…
E eu disse ao peregrino fulminado:
“Cam! … serás meu esposo bem-amado…
— Serei tua Eloá. . . ”

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o nômade faminto corta as plagas
No rápido corcel.

Vi a ciência desertar do Egito…
Vi meu povo seguir — Judeu maldito —
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d’Europa — arrebatada —
Amestrado falcão! …

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal…

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais… irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p’ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito…
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

São Paulo, 11 de junho de 1868

Coluna | Proteção à saúde mental em tempos de | Brasil de Fato

Uma das faces pouco reveladas ainda dos impactos da pandemia da covid-19, sobretudo como o governo federal lida com a pandemia é o tema da saúde mental: os impactos psicossociais e o aumento cada vez mais frequente desses episódios.Primeiro porque não existe nenhuma diretriz e coordenação por parte do Ministério da Saúde do funcionamento dos serviços na área do SUS de cuidado com pessoas com transtornos psicossociais nesse momento. Aliás, o SUS não tem qualquer orientação por parte do Ministério da Saúde para o funcionamento das equipes de Saúde da Família, dos agentes comunitários de Saúde e dos vários equipamentos de base comunitária do campo da saúde mental. Isso é gravíssimo porque temos milhões de pessoas que são acompanhadas regularmente e tiveram esse acompanhamento absolutamente suspenso, desmontado, sem qualquer orientação por parte do Ministério da Saúde.Segundo por conta da ausência de políticas públicas do governo federal, de governos estaduais e municipais, para lidar com as vulnerabilidades das pessoas diante da situação crítica da pandemia e da crise econômica, ampliam-se cada vez mais os transtornos mentais, os episódios de saúde mental, e seus impactos na vida das pessoas.Terceiro é absolutamente já registrado a relação entre crise econômica, desemprego, aumento da pobreza e aumento dos transtornos mentais, sobretudo a depressão, aumento de suicídios. A relação é registrada não só no Brasil como nos países europeus.Por isso, estamos muito preocupados que possam existir ações preventivas, mediações, gestão dos transtornos mentais, sobretudo depressão em cima dos trabalhadores, do ambiente estressante que é o espaço de trabalho. Esta necessidade está ainda mais forte agora no momento onde várias atividades econômicas são reabertas em meio a pandemia expondo os trabalhadores do risco, não só da infecção da covid-19 mas do aumento das atividades estressantes e de impactos psicossociais.Eu, inclusive, apresentei um projeto de lei (3588/2020) buscando mudar a CLT nesse sentido para introduzir as ações de promoção, prevenção, mediação de transtornos psicossociais e de risco as doenças psicossociais no ambiente de trabalho. Deve ser algo a ser assumido pelos patrões,  empresários, assim como deve ser assumido e já foi estabelecido na CLT, ações de prevenção em relação a outros riscos.A depressão e os transtornos psicossociais são os principais mal do século e a covid-19 como principal pandemia desse século vem só reforçar o risco desse problema.   Edição: Rodrigo Durão Coelho

Fonte: Coluna | Proteção à saúde mental em tempos de | Brasil de Fato

Poesia III

Poética de Botequim

Tirei minha Tristeza pra dançar.
Dançamos uma valsa de silêncios dolorosos,
Rodopiei por salas habitadas
Por todas as partidas prematuras
Em que ela me guiava, me girando pelos ares.

Com um nó preso bem no fundo da garganta,
Entreguei, sem luta e por cansaço,
Minhas fibras à cadência de seus passos.

Olhando bem no fundo de meus olhos, ela me dizia:
_ Eu sou sua! Você é minha!

Sobre lustres refletidos em espelhos multicores,
A Tristeza, me estreitando em seus braços,
Embalou-me numa nuvem luminosa
Onde vive a poesia.

José de Godoy

2018

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Pandemia da imbecilidade

Coluna do Antonio Prata na Folha de S. Paulo, edição de hoje, p. B3.

PANDEMIA DA IMBECILIDADE

Em que momento, exatamente, decidimos globalmente que ser legal não era legal? Em que ano, que mês, que dia, ficou decretado que o burro do fundão que bota tachinha na cadeira da professora tinha mais autoridade do que a professora? Que mecanismo esdrúxulo da psicologia social nos fez (e faz) crer que a busca pela paz, pelo respeito, pela tolerância, pela preservação do meio ambiente e contra a desigualdade são frescuras de gente fraca ou um complô comunista para destruir a sociedade?

Pois são estas distorções mentais que a ascensão de Trump, Bolsonaro, Orbán, Erdogan, Salvini e tantos outros ogros coroa, muito mais do que uma onda da direita. Bolsonaro foi eleito repetindo vez após outra que seu ídolo era o torturador Brilhante Ustra. Não Margaret Thatcher. Não Ronald Reagan. Não os economistas Mises ou Hayek.

Ustra. Um açougueiro que levou crianças de cinco anos para verem os pais destruídos após uma sessão de tortura. (O menino não reconheceu a própria mãe, desfigurada). Bolsonaro dedicou o voto do impeachment de Dilma ao torturador e declarou no programa Roda Viva que seu livro de cabeceira era a biografia do carrasco. Admiradores de ditaduras costumam mentir para esconder a selvageria. Bolsonaro, não: parece ter uma fixação justamente pelas sevícias. Fez da ação humana mais abjeta a sua bandeira —e foi eleito.

Como toleramos tamanha excrescência? Admitir que uma pessoa que aplaude torturadores seja nosso presidente porque fará reformas econômicas necessárias é como levar os filhos num pediatra sabidamente pedófilo porque é um médico competente. “Abusou do meu filho? Sim, abusou, é o jeitão dele, mas a febre, ó, baixou que é uma beleza!”.

A maior crise que enfrentamos, globalmente, não é a pandemia de coronavírus e nem a recessão mundial que ela provavelmente trará, ambas passarão: é uma crise de valores. Valores estes que os próprios ostrogodos que nos desgovernam fingem defender. O sujeito que repete como um papagaio “Brasil acima de tudo” incentiva manifestações no meio de uma pandemia e mesmo estando em quarentena, sai do palácio e dá a mão para centenas de aduladores. Coloca em risco, assim, a vida de milhares de brasileiros. O mesmo sujeito que repete como um autômato “Deus acima de todos” rasga os evangelhos toda vez que abre a boca ou faz arminha com a mão.

Escrevi na última crônica que a quarentena, turbinada pelas redes sociais e suas fake news, iria mandar o mundo de vez para a cucuia. Depois de dez dias em casa, porém, a sensação tem sido outra. É cedo pra fazer qualquer previsão, as notícias mudam a cada hora e ninguém sabe o que nos aguarda, mas existe uma chance de ouro de que este circuit breaker global faça com que paremos de correr como ratinhos numa roda de egoísmo e imbecilidade e nos dediquemos a alguma reflexão.

Precisamos repensar profundamente a sociedade. Não falo aqui da idade mínima para aposentadoria de tal ou tal categoria ou das alíquotas de imposto de renda desta ou daquela faixa de remuneração. Tais discussões são importantes, é claro, mas antes delas temos que recriar uma linha entre o que é tolerável e o que é intolerável. Antes dos marcos regulatórios, temos que estabelecer os marcos civilizatórios.

Por tudo que nos ameaça, 2020 pode entrar para a história como o pior ano das nossas vidas. O que significa que, depois dele, as coisas devem melhorar. Não se trata de otimismo, mas de instinto de sobrevivência. Se não trocarmos o ódio e a violência pela esperança e pelo amor, já, a humanidade não chega até a esquina. Tá ok?

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O país “quebrado”

Hugo Oliveira
·
O Brasil está mesmo quebrado?

De 2015 pra cá todo dia algum jornal mostra um político ou economista de direita falando que o Brasil está quebrado graças ao PT. Por isso Dilma sofreu impeachment, por ter quebrado o país, e Bolsonaro – leia-se Paulo Guedes – foi eleito para reerguer a economia. Não tem dinheiro pra saúde, nem pra educação, obras, nada. É preciso fazer reformas e mais reformas, senão afundaremos de vez.

Mas eis que chega o coronavírus!

Repentinamente surgem R$ 10 bilhões pra socorrer os planos de saúde, outros R$ 55 bilhões do BNDES pra socorrer as empresas. Há até dinheiro pra socorrer companhias aéreas. Isso sem falar nos mais de US$ 300 bilhões em reservas internacionais que estão sendo torrados.

Que país quebrado é esse que do nada mostra dinheiro de todos lado?

 

Vejam os lucros dos bancos do “país quebrado” só no último ano:

Lucro do Itaú em 2019: R$ 26,5 bilhões
Lucro do Bradesco em 2019: R$ 22,6 bilhões
Lucro do Santander em 2019: R$ 14,1 bilhões
Ajude a espalhar: quantos bilhões de reais os bancos Itaú, Bradesco e Santander doarão para contribuir no controle da pandemia, para que o Brasil não viva a esperada calamidade? #QuantoOsBancosDarãoParaAjudar?
Vamos entupir os e-mails e redes sociais dos bancos cobrando sua contribuição!

O país só está quebrado como pretexto para precarizar a mão de obra dos assalariados e taxar os microempresários porque as grandes empresas e bancos conseguem perdão de suas dívidas e incentivos fiscais.

 

 

Discurso de uma verdadeira Estadista diante da iminente catástrofe

Verti do inglês para o português o discurso de Angela Merkel. Deve conter imperfeições, visto que não sei alemão e esta é a versão de uma versão, de modo que correções serão bem vindas. Sim, tenho diferenças ideológicas com Merkel, mas ESTE é o discurso de uma estadista. Eu já disse – e repito agora – que, mesmo sendo de centro-esquerda, a ideia de ser governado pela direita não me causa emoções terríveis. É possível discordar racionalmente de alguém como Merkel. O que eu não tolero e jamais tolerarei é ser governado por um pateta ignorante e alucinado. Ao terminar de ler o discurso, comparem-no com os discursos do presidente do Brasil. Lembrem-se dele dizendo que a crise atual é “fantasia”, “histeria”, lembrem-se das piadas inconvenientes, da burrice, lembrem-se dele contrariando determinações do próprio ministério. Lembrem-se dele invocando o nome de Deus em vão, como fez recentemente: “profetizo o fim do coronavírus”, como se tivesse poderes mágicos. Lembrem-se dele sendo irresponsável e mantendo contato físico com manifestantes que ele estimulou SIM. Lembraram? Pois é, cara direita brasileira. Veja quão pequeno, quão medíocre e patético é o seu representante, ainda mais quando comparado a esta mulher:

“Caros cidadãos,

O coronavírus está atualmente mudando a vida em nosso país de modo dramático. Nosso conceito de normalidade, de vida pública, de interação social – tudo está sendo testado como nunca antes.

Milhões dentre vocês não podem ir trabalhar, seus filhos não podem ir para a escola ou para a creche, teatros e cinemas e lojas estão fechadas e, talvez, o mais difícil: nós todos perdemos os encontros que são normalmente considerados usuais. Evidentemente, em uma situação como esta, cada um de nós está repleto de perguntas e preocupações sobre como seguir em frente.

Eu me dirijo a vocês hoje, deste modo incomum, porque eu quero dizer a vocês o que me guia como Chanceler e o que guia todos os meus colegas no Governo Federal nesta situação. Isto faz parte de uma democracia aberta: que nós também tomemos decisões políticas transparentes e as expliquemos. Que nós justifiquemos e comuniquemos nossas ações o melhor possível de modo que elas sejam compreensíveis.

Acredito firmemente que nós seremos bem sucedidos nesta tarefa se todos os cidadãos a entenderem verdadeiramente como tarefa deles. Deste modo, deixem-me dizer: isto é sério. Levem a sério também. Desde a unificação alemã… não, desde a Segunda Guerra Mundial, não houve desafio para nosso país em que nossa ação conjunta fosse tão importante.

Eu gostaria de explicar para vocês em que pé as coisas estão no que diz respeito à epidemia, o que o Governo Federal e as demais instâncias de governo estão fazendo para proteger todo mundo em nossa comunidade e limitar os danos econômicos, sociais e culturais. Mas eu também gostaria de explicar a vocês por que vocês são necessários e o que cada um e todos podem fazer para contribuir.

Sobre a epidemia – e tudo o que eu posso dizer pra vocês sobre isso vem do Governo Federal após consultas com os especialistas do Instituto Robert Koch e outros cientistas e virologistas: pesquisas estão sendo conduzidas ao redor do mundo sob alta pressão, mas ainda não há uma terapia nem uma vacina contra o coronavírus.

No que tange a este tema, há apenas uma coisa que nós podemos fazer, que é desacelerar a disseminação do vírus, esticar isso por meses e ganhar tempo. Tempo para pesquisas e para o desenvolvimento de remédios e vacinas. Mas, principalmente, tempo para que aqueles que ficarem doentes possam receber o melhor cuidado possível.

A Alemanha tem um excelente sistema de saúde, talvez um dos melhores do mundo. Isso nos dá confiança. Mas nossos hospitais ficariam completamente sobrecarregados se tantos pacientes com infecções severas causadas pelo coronavírus fossem admitidos em um tempo tão curto.

Eles não são apenas números abstratos em uma estatística, mas sim um pai ou um avô, uma mãe ou uma avó, um companheiro. Eles são pessoas. E nós somos uma comunidade em que cada vida e cada pessoa importa.

Nesta ocasião, eu gostaria de primeiramente me dirigir a todos aqueles que trabalham como médicos, enfermeiros, equipe ou em qualquer outra função em nossos hospitais e no sistema de saúde em geral. Eles são a linha de frente desta batalha. Eles são os primeiros a entender a doença e quão severos são alguns cursos de infecção. E a cada dia vocês vão para o trabalho e estão lá pelas pessoas. O que vocês fazem é tremendo e eu quero agradecer vocês do fundo do meu coração por isso.

Deste modo, o objetivo é desacelerar o vírus em seu caminho pela Alemanha. E, para fazer isso, nós devemos – e isto é existencial! – nos concentrar em uma coisa: desligar atividades públicas o mais rápido possível. Naturalmente, nós devemos fazer isso com racionalidade e senso de proporção, porque o Estado continuará a funcionar, os suprimentos com certeza continuarão a ser assegurados e nós queremos preservar a atividade econômica do melhor jeito que pudermos.

Mas nós devemos reduzir tudo que possa colocar pessoas em perigo, tudo que possa ferir o indivíduo ou a comunidade. Nós devemos limitar, o máximo que pudermos, o risco de um infectar o outro.

Eu sei o quão dramáticas já são as restrições: sem eventos, sem feiras, sem concertos e, por enquanto, sem escolas, sem universidade, sem escolas infantis, sem brincadeiras no pátio. Eu sei quão difíceis são esses fechamentos, os quais foram feitos a partir de acordos entre o governo federal e os estaduais. Eles interferem com nossas vidas e também com nossa autoimagem democrática. São restrições jamais vistas na República.

Permitam-me assegurar a vocês: para alguns como eu, para quem a liberdade de viajar e de movimento foi um direito duramente conquistado, tais restrições podem apenas ser justificadas quando são uma necessidade absoluta. Em uma democracia, eles nunca deveriam ser decididas levianamente e devem ser apenas temporárias – mas no momento elas são indispensáveis para salvar vidas. Desde o começo da semana, os controle de fronteira reforçados e restrições de entrada para alguns de nossos mais importantes países vizinhos estiveram em vigor.

Já é muito difícil para a economia, para as grandes empresas assim como para os pequenos negócios, para lojas, restaurantes e trabalhadores independentes. As próximas semanas serão ainda mais difíceis. Eu posso assegurar vocês: o governo Alemão está fazendo todo o possível para mitigar o impacto econômico – e, sobretudo, para preservar empregos.

Nós podemos e iremos fazer tudo o que pudermos para socorrer nossos empregadores e empregadoras ao longo desta difícil provação.

E todos podem ter certeza de que o suprimento de comida está assegurado nestes tempos, e se as prateleiras ficarem vazias por um dia, elas serão preenchidas novamente. Eu gostaria de dizer a todos que vão a supermercados: estocar produtos faz sentido, sempre foi assim. Mas com moderação. Acumular como se nunca mais fosse haver insumos novamente não faz sentido e, no fim das contas, é uma completa falta de solidariedade.

Deixem-me também expressar meus agradecimentos aqui para pessoas a quem raramente agradecemos. Alguém que se senta no caixa do supermercado ou preenche as prateleiras está fazendo um dos mais difíceis trabalhos neste momento. Obrigado por estarem lá para seus concidadãos e literalmente manter o lugar funcionando.

Agora vamos ao que eu acho que é o mais urgente, hoje: todas as medidas do governo terão sido em vão se nós não usarmos os mais eficientes meios de prevenir o vírus de se disseminar tão rapidamente. E esses meios somos nós mesmos. Assim como cada um de nós pode indiscriminadamente ser afetado pelo vírus, cada um de nós também pode ajudar. Primeiramente, e o mais importante: levem a sério o que estamos falando aqui, hoje. Não entrem em pânico, mas também não pensem nem por um momento que o outro não importa. Ninguém é dispensável. Todo mundo conta, e isso conduzirá todos os nossos esforços.

Isto é o que uma epidemia nos mostra: quão vulneráveis nós todos somos, quão dependentes nós somos do comportamento dos mais vulneráveis, mas também como nós podemos proteger e fortalecer uns aos outros, agindo juntos.

Isto depende de todos. Nós não estamos condenados a aceitar passivamente a disseminação do vírus. Nós temos um remédio: por consideração, devemos manter distância uns dos outros. O conselho dos virologistas é claro: não apertem as mãos dos outros, lavem suas mãos frequentemente, fiquem a pelo menos um metro e meio de distância do outro e, de preferência, dificultem qualquer contato com os muitos idosos, porque eles estão em situação especial de risco.

Eu sei o quão difícil é fazer o que está sendo requerido. Nós queremos estar perto uns dos outros, especialmente em tempos de necessidade. Nós entendemos afeto como proximidade física ou toque. Mas neste momento, infelizmente, o oposto é que é verdadeiro. E isso é o que todos precisamos entender: neste momento, distância é o único modo de expressar que você se importa.

Visitas bem intencionadas, passeios que não deveriam ser feitos, tudo isto pode ser contagioso e deveria realmente não ocorrer. Há uma razão para os especialistas dizerem que avós e netos não deveriam ficar juntos agora.

Aqueles que evitarem encontros desnecessários ajudarão todos aqueles que têm que lidar com mais casos todos os dias em hospitais. Isto é como nós salvamos vidas. Isto será difícil para muitos, e é nisso que tudo se resume: não deixar ninguém sozinho e zelar por aqueles que precisam de encorajamento e confiança. Como família e como sociedade, nós encontraremos outros meios de ajudar uns aos outros.

Já existem muitas forma criativas que desafiam o vírus e suas consequências sociais. Já há netos que estão gravando podcasts para seus avós, de modo que eles não fiquem sozinhos. Nós todos temos que encontrar meios de demonstrar afeto e amizade: Skype, telefonemas, e-mails e talvez escrever cartas novamente. O correio está funcionando. Nós agora ouvimos falar sobre maravilhosos exemplos de ajuda entre vizinhos para os mais velhos que não podem fazer compras por si mesmos. Eu tenho certeza de que há muito mais por vir e nós mostraremos, como comunidade, que nós não deixamos uns aos outros sozinhos.

Eu apelo a vocês: cumpram as regras que solicitamos agora pelos próximos tempos. Como governo, nós sempre vamos verificar o que pode ser corrigido e, a partir daí, o que ainda é necessário. Esta é uma situação dinâmica, e nós seremos capazes de aprender com tudo isso, então o que sempre podemos fazer é repensar e reagir com outros instrumentos. Nós então explicaremos isso também.

Então, por favor, não acreditem em rumores, mas apenas em comunicações oficiais, as quais nós traduzimos para várias línguas.

Nós somos uma democracia. Nós não vivemos pela força, mas pela partilha de conhecimento, pela participação. Esta é uma tarefa histórica e só pode ser cumprida se nos unirmos.
Estou absolutamente convicta de que iremos superar esta crise. Mas quão altos serão os sacrifícios? Quantos entes amados iremos perder? Isto está em nossas mãos. Nós podemos agora, de forma resoluta, reagir juntos. Nós podemos aceitar as limitações atuais e cuidar uns dos outros.
Esta situação é séria e está em aberto.
Isto significa que dependerá não apenas de, mas também de quão disciplinadamente cada um seguir e implementar as regras.

Nós podemos demonstrar, ainda que nunca tenhamos experimentado algo como isto antes, que nós agimos cordialmente e razoavelmente e então salvamos vidas. Sem exceção, isso depende de cada indivíduo e, por conseguinte, de todos nós.

Cuidem-se bem e cuidem de seus entes queridos. Muito obrigada!

A aprovação do fim do mundo

Para não esquecermos de como chegamos até aqui:

O texto analisa uma cartilha do Banco Itaú criada para defender a PEC, que cortou investimentos nas áreas da saúde, educação e segurança, a fim de sobrar mais dinheiro dos nossos impostos para os Bancos lucram com os juros da dívida pública.

“Por fim, a parte da “consequência de decisões de governos passados” é o trecho mais filosófico de todos. Marx disse que a “tradição das gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. Essa expressão, que era apenas uma formulação crítica denunciando a falta de liberdade (não importando a vontade) do sujeito, agora se realiza de modo mais objetivo possível, demonstrando ao mesmo tempo o fundamento social de toda heteronomia moderna (as leis cegas da economia de mercado) e o limite dessa máquina incontrolável – a destruição do futuro. (…)

A PEC do Fim do Mundo é a liquidação total, de antemão, das garantias sociais da futura geração. Até mesmo o serviço público mais rasteiro e de qualidade funesta de hoje parecerá um Total Welfare diante do que está por vir (assim como já parece ao míope petismo que suas políticas compensatórias eram a fina flor do Estado do Bem-Estar Social Brasileiro).

A PEC do Fim do Mundo é o sacrifício antecipado da reprodução social frente ao fim em si do dinheiro. É o círculo da forma mercadoria e forma monetária que encerra o seu processo histórico: o dinheiro não apenas não aceita nenhum outro Deus que não ele mesmo, como se mostra indiferente ao mundo que o rodeia.”

Blog da Boitempo

pec-do-fim-do-mundo-meirelles

Por Maurilio Lima Botelho.

Há uma espécie de cartilha “explicando“ a PEC 241 através de perguntas e respostas. Criada pela InfoMoney, que nada mais é do que uma agência de notícias daquele que se apresenta como maior grupo “independente” de corretagem mobiliária do Brasil, a cartilha é um defesa da PEC do Fim do Mundo realizada por consultores do Banco Itaú, responsáveis pelas respostas. Isso confere um tom impessoal ao texto devido a expressões como “o Itaú responde“, o “Itaú reforça“ ou “o Itaú ressalta”.1

Como se sabe, o Banco Itaú é o maior banco privado do Brasil graças a sua fusão, em 2008, com o Unibanco. Apesar das várias críticas ao processo que levaria a uma cartelização financeira, a fusão foi autorizada pelas instituições reguladoras e abençoada por Henrique Meirelles, presidente do Banco Central da Era Lula e hoje Ministro da Fazenda. Ilan Goldfajn, economista-chefe do banco…

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