Apenas palavras

•21 set 2017 • Deixe um comentário

As palavras são nada.

Em si, carecem de sentidos, se não as escoltar os gestos.

Assim o silêncio é louvável a alguns algures.

Imprudência fiar-se no verbo, já que quem mente mergulha a todos em fantasia?

Sonha que a todos ludibria? Para si, ciladas cria?

Mas não ilude plenamente: há uma gota de verdade em cada mentira.

Há um dizer exato em cada calada!

Mas a palavra não poderá ser sempre friamente refreada,

Pois que liberta quem a profere de sentimentos inconfessáveis.

As palavras libertam os tímidos  de si mesmos, desconfiados de revelar seu ser ao universo.

Libertam um povo da opressão.

Libertam seres de sua invisibilidade.

Libertam ao revelar a descoberta e afirmação de si, a si mesmo e à humanidade.

No Norte, quantos tons de branco conhecem os esquimós?

Para cada branco, uma palavra.

Para nós, só há um branco e mais nada…

Para cada coisa que há e sabemos que há, há uma palavra.

A tudo que nasce, damos um nome.

Mas para quem nunca viu tantos brancos, se ouvir seus nomes diferentes, nem precisa se mudar para lá.

A enxergá-los, em algum momento, passará.

Assim os nomes nascem das coisas, mas o saber também nasce das palavras.

O que pensamos que é sabido de todos, mas nunca foi divulgado verbalmente, pode também deixar de haver e ser olvidado na próxima temporada.

Se o amor verdadeiro está implícito em amostras de sentimentos, também provas perdem seu sentido no automatismo dos gestos habituais.

Então, a elegância contemporânea, que, com demonstrações de afeto, se acanha, acaba por enregelar a todos de todo.

Você não pode mais me ouvir,

Então falo para mim mesma,

Para saber que sinto o que sinto,

Para lembrar e me aquecer

E me libertar do não-dizer:

“Não enxergamos os brancos dos esquimós nem temos nomes para eles…

Nunca pensei que talvez você não enxergasse em quantas cores era amado.

Hoje não cansaria de dizer de todas as formas possíveis,

Com quantas palavras existem: Persy, eu amo você!”

28-07-2012

rumi

Love is to die

•21 set 2017 • Deixe um comentário

Triste Primavera

•21 set 2017 • Deixe um comentário

21 de setembro…… sem palavras,
frio como uma navalha,
17 anos de ausência, uma lágrima
17 anos de angústia e saudades
Triste primavera foi aquela…
Longos os anos, pesado o fardo,
Pois mesmo certo da tua cura,
A dor em ondas me afoga.
Que a luz esteja contigo, pois eu ainda demoro…

Ibsen de Godoy

Thaís319

Persy, Pedro e Thaís de Godoy

A Ilha dos amores

•20 set 2017 • Deixe um comentário

A Ilha dos Amores

Excertos do Canto IX

De uma os cabelos de ouro o vento leva
Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alvas carnes súbito mostradas;
Uma de indústria cai, e já releva,
Com mostras mais macias que indignadas,
Que sobre ela, empecendo, também caia
Quem a seguiu pela arenosa praia.

 

Outros, por outra parte, vão topar
Com as Deusas despidas, que se lavam:
Elas começam súbito a gritar,
Como que assalto tal não esperavam.
Umas, fingindo menos estimar
A vergonha que a força, se lançavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que às mãos cobiçosas vão negando.

 

Outra, como acudindo mais depressa
A vergonha da Deusa caçadora,
Esconde o corpo n’água; outra se apressa
Por tomar os vestidos, que tem fora.
Tal dos mancebos há, que se arremessa,
Vestido assim e calçado (que, coa mora
De se despir, há medo que ainda tarde)
A matar na água o fogo que nele arde.

 

Qual cão de caçador, sagaz e ardido,
Usado a tomar na água a ave ferida,
Vendo no rosto o férreo cano erguido
Para a garcenha ou pata conhecida,
Antes que soe o estouro, mal sofrido
Salta n’água, e da presa não duvida,
Nadando vai e latindo: assim o mancebo
Remete à que não era irmã de Febo.

 

Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem amor não dera um só desgosto,
Mas sempre fora dele maltratado,
E tinha já por firme pressuposto
Ser com amores mal afortunado,
Porém não que perdesse a esperança
De ainda poder seu fado ter mudança,

 

Quis aqui sua ventura, que corria
Após Efire, exemplo de beleza,
Que mais caro que as outras dar queria
O que deu para dar-se a natureza.
Já cansado correndo lhe dizia:
“Ó formosura indigna de aspereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Espera um corpo de quem levas a alma.[…}

 

Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

 

Ó que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã, e na sesta,
Que Vênus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

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Hilas e as Ninfas, de John William Waterhouse (1896)

Desaforismos

•18 set 2017 • Deixe um comentário

“O corpo é o templo onde  a natureza pede para ser reverenciada.”

“Livrez-vous, Eugénie; abandonnez tous vos sens au plaisir; qu’il soit le seul dieu de votre existence; c’est à lui seul qu’une jeune fille doit tout sacrifier, et rien à ses yeux ne doit être aussi sacré que le plaisir.”

“As paixões humanas não passam dos meios que a natureza utiliza para atingir os seus fins.”

La Philosophie dans le boudoir (1795) de Donatien Alphonse François, marquis de Sade

“De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência.” Millôr Fernandes Revista Veja 155 (25 de agosto de 1971)

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Ando meio desligado – Mutantes

•15 set 2017 • Deixe um comentário

Elixir dos Gnósticos: a existência da alma humana em Mullā Ṣadrā

•14 set 2017 • Deixe um comentário

Resumo da dissertação de Mestrado de Nathalia Novaes Alves, sob orientação de Michel Attie Filho e defendida no Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo (USP)

            Figura-chave da chamada “Escola de Isfahān”, Mullā Ṣadrā (979 H. / 1571-2 d.C ) ocupou papel de destaque durante a renascença safávida do reinado de Abbās I (d. 1039/1629). Acredita-se ter sido ele o principal responsável por revitalizar a filosofia da iluminação de Sūhrawardi naquele contexto, além de consolidar a junção entre sufismo e neoplatonismo. Foi responsável, ainda, pela elaboração de metodologia própria para a compreensão da realidade, tendo por base fontes filosóficas, teológicas e místicas, além de mesclar raciocínio lógico, inspiração espiritual e meditação profunda. Ṣadrā aplicou tal metodologia às principais obras da tradição xiita duodécima. Do ponto de vista filosófico, Ṣadrā percebe o conceito aristotélico de “substância” como processo, em constante mudança; nesse aspecto, o filósofo aproxima-se da leitura de traço neoplatônico, já presente em al-Fārābī e Ibn Sīnā. O modo como Ṣadrā relaciona as noções de “essência” e “existência” deu novas feições à discussão metafísica de tradição árabe-islâmica. Em sua doutrina, Ṣadrā acaba por transformar a metafísica construída a partir da primazia das substâncias, como elemento primordial da existência, em outra, fundada e movida por atos de existência. Apesar de perpassar esses e outros temas, a principal contribuição d’O Elixir dos Gnósticos diz respeito à ênfase do autor no autoconhecimento. Como Ibn Ἁrabī, Ṣadrā acredita que o conhecimento da alma / nafs – ou seja, o conhecimento de si mesmo – e o conhecimento de Deus estão interligados. Por esse motivo, o presente trabalho se preocupou principalmente em analisar a relação entre os existentes, a alma e a inteligência primeira, pois é a partir dessa relação que se torna possível vislumbrar e compreender as questões fundamentais da origem e do retorno à fonte doadora de existência. Do ponto de vista histórico, vale destacar que à fundação do império safávida acompanhou-se a conversão em massa da população ao xiismo. Para responder à demanda por instrução da multidão de novos convertidos – e igualmente firmar as bases da nova religião oficial -, grande número de religiosos foi trazido de áreas xiitas respeitadas pela doutrina e pela ortodoxia, tais como Líbano e Iraque. Esse clero árabe recém chegado, que teve Ṣadrā como herdeiro, foi responsável por incorporar novos elementos ao pensamento religioso vigente em terras persas e, assim, conformar ambiente propício para o desenvolvimento do pensamento filosófico de Ṣadrā.

Para ler a dissertação:  http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8159/tde-12052015-101441/pt-br.php

Entrance_of_Mulla_Sadra's_House_in_Kahak_Qom

A porta de entrada da casa, onde Mulla Sadra costumava viver durante o seu exílio em Kahak. Há uma frase acima da porta escrita em persa que diz “A casa do sábio, Mulla Sadra”.

Da ardósia

•11 set 2017 • Deixe um comentário

Adiantaria lhe dizer

Que a mais rara essência

É oferecida nos menores vidros?

Ou que um bruto diamante,

é reduzido ao ser polido,

Até libertar seu brilho?

Adiantaria falar que você é constituído

Pela mesma matéria das estrelas?

Que o macro contém o micro?

Ou que até os maiores astros

São formados por elementos

tão pequenos, que estão em todos

os lugares neste momento?

Da Ardósia

Prece

•9 set 2017 • Deixe um comentário

Fernando Pessoa

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem – ou desgraça ou ânsia –,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância –
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

(Mensagem)

mar

Paul Verlaine

•7 set 2017 • Deixe um comentário

Meu Sonho Familiar

Muitas vezes, o sonho estranho me surpreende
de uma ignota mulher que eu amo e que me adora,
e que a mesma não é, certamente, a toda hora,
não sendo outra, porém, e me ama e me compreende.

Todo o meu coração deixo que ela o desvende.
Ela somente o faz transparente e o avigora,
E se eu sofro, se a dor minha fronte descora,
ela é o consolo ideal que sobre mim se estende.

É ela trigueira, ou loira, ou ruiva? – Eu o ignoro.
Seu nome? Apenas sei que ele é doce e sonoro
como o de quem se amou e da vida fugiu.

Seu olhar, como o olhar de uma estátua, é sem alma,
e tem na sua voz, grave, longínqua e calma,
a inflexão de uma voz cara que se extingiu.

A tradução é de Onestaldo de Pennafort publicada por Escamandro

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Graffiti6

•1 set 2017 • Deixe um comentário

Annie, You Save Me

Remember me, remember me when you are down
Float me on air and lift me up from off the ground
Oh baby, I feel lazy
So lie here in my arms tonight
Would you deny a poor mans cry, a poor mans cry

Just when I’m finding it hard to breath you lift the weight inside of me
Oh baby I see the light thats burning bright and we’re the stars
Oh Annie, you save me from the world
Oh Annie, you save me from the world

My heads alive, my heads alive, can’t get no peace
Your my escape from this heartache, I need relief
Oh baby, This worlds crazy so lie here in my arms tonight
You can’t deny a poor mans cry, a poor mans cry

Just when I’m finding it hard to breath, you lift the weight inside of me
Oh baby I see the light, thats burning bright, and we’re the stars
Oh Annie, you save me from the world
Oh Annie, you save me from the world

Stars, please, shine for me tonight, tonight
Stars, please, shine for me tonight, tonight

Just when I’m finding it hard to breath, you lift the weight inside of me
Oh baby I see the light, thats burning bright, and we’re the stars
Just when I’m finding it hard to breath, you lift the weight inside of me
Oh baby I see the light, thats burning bright, and we’re the stars
Oh Annie, you save me from the world
Oh Annie, you save me from the world

Tradução
Annie, você me salva

Lembre-se de mim, lembre-se de mim quando você estiver pra baixo
Faça-me flutuar e levante-me do chão
Oh baby, eu me sinto apático.
Então, caia em meus braços esta noite
Você negaria a súplica de um pobre homem, a súplica de um pobre homem?

Só quando é difícil viver, você deixa um peso dentro de mim.
Oh baby, eu vejo a luz, que está ardente e brilhante, e nós somos as estrelas.
Oh Annie, você me salva do mundo!
Oh Annie, você me salva do mundo!

Meus pensamentos são intensos, meus pensamentos são intensos, não consigo ter paz.
Você é minha fuga dessa mágoa, preciso de alívio!
Oh baby, este mundo é louco, então, caia em meus braços esta noite!
Você não pode negar o apelo de um pobre homem, o apelo de um pobre homem.

Só quando é difícil viver, você deixa um peso dentro de mim.
Oh baby, eu vejo a luz, que está ardente e brilhante, e nós somos as estrelas.
Oh Annie, você me salva do mundo.
Oh Annie, você me salva do mundo.

Estrelas, por favor, brilhem para mim hoje à noite, hoje à noite!
Estrelas, por favor, brilhem para mim hoje à noite, hoje à noite!

Só quando é difícil viver, você deixa um peso dentro de mim.
Oh baby, eu vejo a luz, que está ardente e brilhante, e nós somos as estrelas.
Só quando é difícil viver, você deixa um peso dentro de mim.
Oh baby, eu vejo a luz, que está ardente e brilhante, e nós somos as estrelas.
Oh Annie, você me salva do mundo!
Oh Annie, você me salva do mundo!

Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,

•31 ago 2017 • Deixe um comentário

Ricardo Reis

 

Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,

O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.

Já que o não sou por tempo,

Seja eu jovem por erro.

Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.

Porém, se o dão, falso que seja, a dadiva

É verdadeira. Aceito,

Cerro olhos: é bastante.

Que mais quero?

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Os dois reis e os dois labirintos

•21 ago 2017 • Deixe um comentário

OS DOIS REIS E OS DOIS LABIRINTOS

(Jorge Luis Borges)

 

Contam os homens dignos de fé (mas Alá sabe mais) que nos primeiros tempos houve um rei das ilhas da Babilônia que reuniu seus arquitetos e magos e os mandou construir um labirinto tão desconcertante e sutil, que os varões mais prudentes não se aventuravam a entrar, e os que entravam se perdiam. A obra era um escândalo, porque a confusão e a maravilha são operações próprias de Deus, e não dos homens. Com o passar do tempo veio à sua corte um rei dos árabes, e o rei da Babilônia (para zombar da simplicidade do hóspede) fez com que ele penetrasse no labirinto, onde perambulou ofendido e confuso até o cair da tarde. Então implorou socorro divino e deu com a porta. Seus lábios não proferiram queixa alguma, mas disse ao rei da Babilônia que ele na Arábia também tinha um labirinto que, se Deus fosse servido, lhe daria a conhecer algum dia. Depois voltou à Arábia, reuniu seus capitães e alcaides e devastou os reinos da Babilônia com tamanha boa sorte que arrasou seus castelos, dizimou sua gente e aprisionou o próprio rei. Amarrou-o em cima de um camelo veloz e o levou para o deserto. Cavalgaram três dias, e disse-lhe: “Ó rei do tempo e substância e cifra do século!, na Babilônia desejaste que eu me perdesse num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; o Poderoso teve por bem que eu agora te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros para impedir a passagem”.

 

Logo depois, desamarrou-o e o abandonou no meio do deserto, onde morreu de fome e de sede. A glória esteja com Aquele que não morre.

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Anjos

•16 jul 2017 • Deixe um comentário

Quantas formas teve Zeus?

Quantas vezes desceu do seu Olimpo tomado de anseios por mortais?

Se ele as tomasse em toda a sua Glória, elas sucumbiriam por sua superior existência.

O Deus se animalizou para não transformar em pó uma mortal.

Todo anjo é terrível. Pois o belo é terrível. Secretamente quer nos destruir.

Não se pode fitar o sol.

Nenhum anjo ouviria se eu gritasse.

 

(Releitura da primeira Elegia de Rilke)

Sebastiano_Ricci_-_Dionysus_(1695)

Jove e Semele (1695) por Sebastiano Ricci

TMG

Mentiras sinceras

•15 jul 2017 • Deixe um comentário

Hay silencios que lo dicen todo
Y palabras que no dicen nada
Hay corduras que me vuelven loco
Y noches negras de esperanza

Hay riquezas que nos hacen pobres
Y perdones que tan solo acusan
Grandes libertades, que censura esconden
Y disfraces que te desnudan

Y hay disparos que me da la vida
Y amores que matan de veras
Hay insultos que son poesía
Y risas que guardan tristezas
Es siempre la misma ironía
Tiene dos puntas la flecha
Hay verdades que son Mentiras

y Mentiras Sinceras

Hay peligros que al final me salvan
Valentías que despiertan miedos
Entre laberintos, que el camino encausan
Huellas que no tocan el suelo

Y hay disparos que me da la vida
Y amores que matan de veras
Hay insultos que son poesía
Y risas que guardan tristezas
Es siempre la misma ironía
Tiene dos puntas la flecha
Hay verdades que son Mentiras

Esa es la lección que aprendo cada día
Solo cerrare mis ojos cuando quiera ver

Y hay disparos que me da la vida
Y amores que matan de veras
Hay insultos que son poesía
Y risas que guardan tristezas
Es siempre la misma ironía
Tiene dos puntas la flecha
Hay verdades que son Mentiras

y Mentiras Sinceras

Trinta e cinco

•15 jul 2017 • Deixe um comentário

No Jaraguá, o homem deitado foi a única testemunha muda daquele encontro de duas almas puras.

O imberbe garoto subiu a montanha para entregar-lhe um buquê de rosas vermelhas.

Na esquina da casa da menina, de onde se avista todo o vale e o horizonte, aquele projeto de beijo tão macio e hesitante.

Tudo tão belo e assustador.

Nada sabiam sobre os mistérios da existência nem sobre protocolos.

Os velhos maliciam porque se esquecem como é ser inocente.

Flores escondidas? Deve ser sortilégio.

Flores vermelhas … deveriam ser brancas.

Era cedo demais para nós.

Agora é tarde.

Pelo menos você me amou um dia!

E eu nem sabia nada de mim.

O sonho permanece cristalizado, imutável.

“Sonhos realizados são sonhos frustrados.”

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Pico do Jaraguá (o Homem Deitado), São Paulo, capital.

TGM

O Dedo do meio de Deus

•12 jul 2017 • Deixe um comentário

Deus é brasileiro!

Temos seu dedo para provar.

Teremos o dedo do meio de Deus

Até o fim dos tempos?

Tanta beleza e destruição

desses exuberantes templos

Esculpidos em pedra!

O Paquequer em degradação.

Os descendentes de Ceci e Peri

pendurados nos morros

bem próximos à Granja Comari…

O zunido de helicópteros abafa o de mosquitos.

A Casa da Cultura às margens do rio serpente cercada de curumins, pipas, lixo e sorrisos, apesar de tudo.

Von Martius e seus livros foram esquecidos.

Emboloram mais e mais a cada nuvem que passa por esses picos.

A floresta se vinga das pessoas erradas, avançando sobre quem as amou e recuando diante dos inimigos!

Fomos amaldiçoados e proscritos?

Vivemos uma constante comédia de erros.

Nada é o que parece.

Complexo_Dedo_de_Deus_Bruno_Nepomuceno

TGM

 

 

 

Rastro

•16 set 2012 • Deixe um comentário

O vazio deixou um rastro, deixou um rastro

em minhas veias.

Caminhou por elas como em ruas após

a chuva, quando o mundo ainda

está abrigado e

fica no ar o cheiro do pó

que virou

barro.

Amoras nos muros

•30 ago 2012 • Deixe um comentário

A meu primo Marcelo Balberde Boccuzzi

Como é difícil colher amoras!

— É muito perigoso!

Há pontas de cacos

de vidro nos muros

os quais só alguns podem pular.

Só eles podem subir

na árvore e alcançar

seus frutos maduros.

O sangue do crime

nas mãos rubras de amoras!

Ah! Quem dera ser maior e mais forte!

Os galhos do outro lado

do muro cortante alcançar!

Mas, ainda assim, precisaria enfrentar

as aranhas nas folhas escondidas,

os escorpiões, as cobras,

peçonhas esperando

mãozinhas inocentes e limpas.

Quem pode com elas?

Só eles… eles podem!

O vento bondoso derruba

as mais maduras, pesadas,

dos altos galhos que pendem do lado

de cá da muralha intransponível.

Mas seu gosto amassado, passado

O tempo estragou!

No ladrilho vermelho,

seu sumo jaz esparramado.

As tenras e frescas,

só eles podem comer.

Dia escuro, nuvens cinza-carregadas,

Cascatas de suco rolam as escadas.

_ Com ácido, limpa-se tudo!

Asas, asas, dêem-me asas para alcançá-las.

Ah! quebrar os cacos, derrubar

o muro a machadadas,

e elas, todas aqui, assim!

15 de setembro de 1998

 
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