Bares e restaurantes literários

É bom beber e discutir um pouco de literatura, não? Não só beber, é claro, mas aproveitar um bom jantar também enquanto isso. E que tal então fazer isso em um lugar perfeitamente apropriado? Digamos, em bares ou restaurantes inspirados em literatura? Gostou da ideia?

Então veja abaixo uma lista com alguns bares e restaurantes diretamente inspirados na literatura! E não pense que são só lugares fora do Brasil, tem alguns muito bons por aqui mesmo. Há restaurante com o poema O Corvo do Poe na parede, mas claro que, para quem vai para o exterior, também há lugares incríveis com decorações desde Wonderland, no Japão, até Senhor dos Anéis, na Nova Zelândia. São opções para os mais diversos gostos. Então, vamos à lista, um brinde à literatura e bon appétit!

Annabel Lee’s Tavern – Baltimore, Maryland

Como todo bom fã de Poe, preciso começar a lista por um dos lugares inspirados no grande mestre do conto. O pub Annabel Lee Tavern fica exatamente na cidade onde viveu o escritor, ou seja, em Baltimore. O lugar tem uma decoração belíssima, com direito a uma pintura do corvo na porta, um retrato de Poe na parede, sobre o qual pode-se ver um corvo pousado, além, é claro, do poema Annabel Lee, pintado na parede.

No lugar ocorrem apresentações e celebrações ao aniversário de Poe e o cardápio inclui hambúrgueres, fritas, pizzas e alguns pratos mais elaborados, com algumas opções vegetarianas, que podem ser vistas nos cardápios publicados no facebook do pub. No que se refere a bebidas, também há muitas opções, porém a que mais se destaca é The Raven Beer, que já vale só pelo visual da embalagem!

The Raven – Porto Alegre, RS

Depois do pub Annabel Lee Tavern, nos Estados Unidos, aqui vai uma dica de lugar também inspirado no mestre Poe e aqui no Brasil mesmo! O restaurante The Raven, localizado na Cidade Baixa, na Rua Sarmento Leite, tem uma decoração no estilo restaurantes antigos, com paredes de tijolos à vista e lustres, contando com uma placa de madeira com um corvo na entrada e o poema de Poe pendurado na parede. As opções de cardápio são bem variadas, contendo muitos pratos elaborados, com diferentes opções de entradas, pratos principais e sobremesas. Além disso, é claro, há várias opções de bebidas desde cervejas artesanais até drinks destilados e vinhos.

 

Bar Bukowski – Rio de Janeiro, RJ

Apesar do nome, o lugar é mais uma casa de festas rock’n roll do que apenas um bar mesmo. Lá são realizadas diversas festas desde eventos temáticos de Halloween, festas à fantasia e, é claro, comemorações no dia do aniversário de Bukowski. É a casa de rock mais antiga do Rio de Janeiro, sendo que foi estabelecida em 1997 e continua até hoje sendo um dos mais importantes bares do Rio. Inclusive, foi lançado neste ano um livro sobre histórias do bar, escrito por Bernardo Vilhena, compositor de músicas interpretadas por artistas desde Cazuza até Lobão entre outros.

Dirty Old Man – Porto Alegre, RS

O grande Bukowski, seja por ter sido ele mesmo um grande frequentador de bares ou por sua alta influência na literatura e cultura em geral das gerações seguintes, inspirou muitos bares a levarem o seu nome, ou, como neste caso, o nome de sua obra. O nome do bar porto alegrense, Dirty Old Man, para os poucos que por acaso não tenham reconhecido, é uma referência à coluna de Bukowski no jornal Los Angeles Open City, a qual deu origem ao livro de mesmo nome.

O Dirty Old Man fica na Cidade Baixa, centro de maior concentração de bares e vida noturna em Porto Alegre. O bar, que completou um ano recentemente, já é muito frequentado (é bom chegar cedo, porque quase sempre lota!) e tem uma decoração diretamente ligada à literatura, incluindo máquinas de escrever, cardápio com trechos da obra de Bukowski, estantes com livros, além, é claro, de fotos do grande escritor americano cuja obra serviu de inspiração para o lugar. Ótimo para quem gosta de Bukowski e de beber!

Restaurante Alice no País das Maravilhas – Tóquio, Japão

Situado em um shopping, na zona comercial do distrito de Ginza, em Tóquio, este restaurante é uma experiência visual única de entrar na Wonderland de Lewis Carrol. O lugar tem um espaço de mais de 200 metros quadrados, divididos em vários ambientes que representam as diferentes partes da trajetória de Alice, desde a entrada, com livros gigantes, para fazer o cliente se sentir pequeno, como Alice quando diminui para entrar na porta que leva à Wonderland, até um labirinto, a entrada do ambiente da Rainha, com guardas de cartas e corredores cobertos com as ilustrações originais de Carrol.

Além da decoração, o cardápio também é inspirado no livro: você pode pedir a “pizza rabo de gato Cheshire” ou a “bochecha de carne assada Queen of Hearts com molho de vinho tinto”. E quem irá servi-lo não será apenas um atendente com uniforme normal, mas um personagem da Wonderland! Pois os empregados do restaurante usam uniformes temáticos para realmente dar a impressão de que o cliente entrou no mundo criado por Lewis Carrol!

The Green Dragon Pub – Matamata, Nova Zelândia

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Localizado exatamente onde foi construída a cidade dos Hobbits para a gravação de O Senhor dos Anéis, na vila de Hobbiton na cidade de Matamata, parte da zona rural da Nova Zelândia, o pub é descrito em sua Fan Page no facebook como “um lugar para beber, um lugar de encontro, um lugar para descansar os seus pés peludos”. Ou seja, um lugar perfeito para os fâs de Tolkien, que já se tornou um grande ponto turístico do país.

Texto original publicado em Literatortura em Julho de 2016.

 

Obras de García Lorca, John M. Keynes e H.G. Wells entram no domínio público

O Estado de São Paulo

02 Janeiro 2017 | 16h44

Todo início de ano uma série de obras entra no domínio público – ou seja, se pode publicar, alterar ou utilizar as criações artísticas sem consultar a família dos artistas, mortos há 70 anos (no Brasil e partes da Europa; há regras diferentes).

Entram na lista este ano, entre outros, obras do escritor de ficção científica britânico H. G. Wells, da escritora norte-americana Gertrude Stein, do pintor inglês Paul Nash, do escritor e precursor do surrealismo francês André Breton, do discutido economista inglês John Maynard Keynes, do designer e pintor húngaro László Moholy-Nagy, dos autores espanhóis Federico García Lorca e Miguel de Unamuno, e do poeta Catulo da Paixão Cearense, entre outros.

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Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Há dois mil anos te mandei meu grito

Sírios de Alepo se despedem da vida pelas redes sociais: população é dizimada pelo governo***. Esse horripilante adeus me fez lembrar do terrível apelo de Castro Alves a Deus para interceder contra os horrores da escravidão no poema Vozes d’África.

*** Mais recentemente obtive a informação de que esses vídeos são falsos, são propagandas de agentes americanos inconformados com a vitória das forças do governo que livrou Alepo de grupos de mercenários financiados pela Arábia Saudita, pelos EUA, e de grupos terroristas como Alcaida. Alguns analistas argumentam que o verdadeiro e legítimo levante de rebeldes contra a ditadura foi “sequestrado” por terroristas e mercenários estrangeiros que aterrorizaram parte população que apoiava Assad e  persegue grupos minoritários de outras religiões como os cristãos.  As evidências dessa propaganda são os seguintes fatos:

-Alepo não tem nem luz nem água nem pode obviamente ter Internet de banda larga, portanto os vídeos não foram gravados e enviados de lá como afirmam as pessoas que os divulgaram.

-Um dos supostos moradores de Alepo fala, sem nenhum sotaque árabe, o inglês americano.

– O mais revoltante é constatar que esses grupos, sejam eles quem forem, destroem Alepo há anos sem que a Comunidade Internacional se importe com isso, mas bastou o governo retomar a cidade para libertá-la,  uma onda dessas falsas notícias passou a nos bombardear pelas redes sociais.Isso não justifica também a imensa violência do regime de Assad. Não importa se quem ataca a Síria são rebeldes,  mercenários, terroristas, nada justifica atacar hospitais ou a rede de abastecimento de água, crimes gravíssimos em qualquer guerra ou revolução. Não podemos nos esquecer de que os americanos apoiam esses monstros.(ATUALIZADO EM 31-12-2016)

Alerta para falsas notícias:

http://www.dn.pt/mundo/interior/adeussirios-publicam-mensagens-de-despedida-nasredes-sociais-5550570.html

Vozes d’África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

Qual Prometeu tu me amarraste um dia

Do deserto na rubra penedia

– Infinito: galé! …

Por abutre – me deste o sol candente,

E a terra de Suez – foi a corrente

Que me ligaste ao pé…

O cavalo estafado do Beduíno

Sob a vergasta tomba ressupino

E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,

Quando o chicote do simoun dardeja

O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas…

Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas

Dos haréns do Sultão.

Ou no dorso dos brancos elefantes

Embala-se coberta de brilhantes

Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia…

Ganges amoroso beija a praia

Coberta de corais …

A brisa de Misora o céu inflama;

E ela dorme nos templos do Deus Brama,

– Pagodes colossais…

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! …

A mulher deslumbrante e caprichosa,

Rainha e cortesã.

Artista – corta o mármor de Carrara;

Poetisa – tange os hinos de Ferrara,

No glorioso afã! …

Sempre a láurea lhe cabe no litígio…

Ora uma c’roa, ora o barrete frígio

Enflora-lhe a cerviz.

Universo após ela – doudo amante

Segue cativo o passo delirante

Da grande meretriz.

Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada

Em meio das areias esgarrada,

Perdida marcho em vão!

Se choro… bebe o pranto a areia ardente;

talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!

Não descubras no chão…

E nem tenho uma sombra de floresta…

Para cobrir-me nem um templo resta

No solo abrasador…

Quando subo às Pirâmides do Egito

Embalde aos quatro céus chorando grito:

“Abriga-me, Senhor!…”

Como o profeta em cinza a fronte envolve,

Velo a cabeça no areal que volve

O siroco feroz…

Quando eu passo no Saara amortalhada…

Ai! dizem: “Lá vai África embuçada

No seu branco albornoz. . . ”

Nem vêem que o deserto é meu sudário,

Que o silêncio campeia solitário

Por sobre o peito meu.

Lá no solo onde o cardo apenas medra

Boceja a Esfinge colossal de pedra

Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas

As cegonhas espiam debruçadas

O horizonte sem fim …

Onde branqueia a caravana errante,

E o camelo monótono, arquejante

Que desce de Efraim

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!

É, pois, teu peito eterno, inexaurível

De vingança e rancor?…

E que é que fiz, Senhor? que torvo crime

Eu cometi jamais que assim me oprime

Teu gládio vingador?!

Foi depois do dilúvio… um viadante,

Negro, sombrio, pálido, arquejante,

Descia do Arará…

E eu disse ao peregrino fulminado:

“Cão! … serás meu esposo bem-amado…

– Serei tua Eloá. . . ”

Desde este dia o vento da desgraça

Por meus cabelos ululando passa

O anátema cruel.

As tribos erram do areal nas vagas,

E o Nômada faminto corta as plagas

No rápido corcel.

Vi a ciência desertar do Egito…

Vi meu povo seguir – Judeu maldito –

Trilho de perdição.

Depois vi minha prole desgraçada

Pelas garras d’Europa – arrebatada –

Amestrado falcão! …

Cristo! embalde morreste sobre um monte

Teu sangue não lavou de minha fronte

A mancha original.

Ainda hoje são, por fado adverso,

Meus filhos – alimária do universo,

Eu – pasto universal…

Hoje em meu sangue a América se nutre

Condor que transformara-se em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais… irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Perdão p’ra os crimes meus!

Há dois mil anos eu soluço um grito…

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

Teoria das Janelas quebradas

Teoria das Janelas quebradas

A Teoria das Janelas Quebradas colocou Nova York na lista das metrópoles mundiais mais seguras

Por: Luis Pellegrini

Há alguns anos, a Universidade de Stanford (EUA), realizou uma interessante experiência de psicologia social. Deixou dois carros idênticos, da mesma marca, modelo e cor, abandonados na rua. Um no Bronx, zona pobre e conflituosa de Nova York e o outro em Palo Alto, zona rica e tranquila da Califórnia. Dois carros idênticos abandonados, dois bairros com populações muito diferentes e uma equipe de especialistas em psicologia social estudando as condutas das pessoas em cada local.

Resultado: o carro abandonado no Bronx começou a ser vandalizado em poucas horas. As rodas foram roubadas, depois o motor, os espelhos, o rádio, etc. Levaram tudo o que fosse aproveitável e aquilo que não puderam levar, destruíram. Contrariamente, o carro abandonado em Palo Alto manteve-se intacto.

 

A experiência não terminou aí. Quando o carro abandonado no Bronx já estava desfeito e o de Palo Alto estava há uma semana impecável, os pesquisadores quebraram um vidro do automóvel de Palo Alto. Resultado: logo a seguir foi desencadeado o mesmo processo ocorrido no Bronx. Roubo, violência e vandalismo reduziram o veículo à mesma situação daquele deixado no bairro pobre. Por que o vidro quebrado na viatura abandonada num bairro supostamente seguro foi capaz de desencadear todo um processo delituoso? Evidentemente, não foi devido à pobreza. Trata-se de algo que tem a ver com a psicologia humana e com as relações sociais.

Um vidro quebrado numa viatura abandonada transmite uma ideia de deterioração, de desinteresse, de despreocupação. Faz quebrar os códigos de convivência, faz supor que a lei encontra-se ausente, que naquele lugar não existem normas ou regras. Um vidro quebrado induz ao “vale-tudo”. Cada novo ataque depredador reafirma e multiplica essa ideia, até que a escalada de atos cada vez piores torna-se incontrolável, desembocando numa violência irracional.

Baseada nessa experiência e em outras análogas, foi desenvolvida a “Teoria das Janelas Quebradas”. Sua conclusão é que o delito é maior nas zonas onde o descuido, a sujeira, a desordem e o maltrato são maiores. Se por alguma razão racha o vidro de uma janela de um edifício e ninguém o repara, muito rapidamente estarão quebrados todos os demais. Se uma comunidade exibe sinais de deterioração, e esse fato parece não importar a ninguém, isso fatalmente será fator de geração de delitos.

Origem da teoria

Essa teoria na verdade começou a ser desenvolvida em 1982, quando o cientista político James Q. Wilson e o psicólogo criminologista George Kelling, americanos, publicaram um estudo na revista Atlantic Monthly, estabelecendo, pela primeira vez, uma relação de causalidade entre desordem e criminalidade. Nesse estudo, utilizaram os autores da imagem das janelas quebradas para explicar como a desordem e a criminalidade poderiam, aos poucos, infiltrar-se na comunidade, causando a sua decadência e a consequente queda da qualidade de vida. O estudo realizado por esses criminologistas teve por base a experiência dos carros abandonados no Bronx e em Palo Alto.

Em suas conclusões, esses especialistas acreditam que, ampliando a análise situacional, se por exemplo uma janela de uma fábrica ou escritório fosse quebrada e não fosse, incontinenti, consertada, quem por ali passasse e se deparasse com a cena logo iria concluir que ninguém se importava com a situação e que naquela localidade não havia autoridade responsável pela manutenção da ordem.

Logo em seguida, as pessoas de bem deixariam aquela comunidade, relegando o bairro à mercê de gatunos e desordeiros, pois apenas pessoas desocupadas ou imprudentes se sentiriam à vontade para residir em uma rua cuja decadência se torna evidente. Pequenas desordens, portanto, levariam a grandes desordens e, posteriormente, ao crime.

Da mesma forma, concluem os defensores da teoria, quando são cometidas “pequenas faltas” (estacionar em lugar proibido, exceder o limite de velocidade, passar com o sinal vermelho) e as mesmas não são sancionadas, logo começam as faltas maiores e os delitos cada vez mais graves. Se admitirmos atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças, o padrão de desenvolvimento será de maior violência quando essas crianças se tornarem adultas.

A Teoria das Janelas Quebradas definiu um novo marco no estudo da criminalidade ao apontar que a relação de causalidade entre a criminalidade e outros fatores sociais, tais como a pobreza ou a “segregação racial” é menos importante do que a relação entre a desordem e a criminalidade. Não seriam somente fatores ambientais (mesológicos) ou pessoais (biológicos) que teriam influência na formação da personalidade criminosa, contrariando os estudos da criminologia clássica.

 No metrô de Nova York

Há três décadas, a criminalidade em várias áreas e cidades dos EUA – com Nova York no topo da lista – atingia níveis alarmantes, preocupando a população e as autoridades americanas, principalmente os responsáveis pela segurança pública. Nesse diapasão, foi implementada uma Política Criminal de Tolerância Zero, que seguia os fundamentos da “Teoria das Janelas Quebradas”.

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Metrô de Nova Iorque, antes da implantação do programa de segurança inspirado na Teoria das janelas Quebradas

As autoridades entendiam que, por exemplo, se os parques e outros espaços públicos deteriorados forem progressivamente abandonados pela administração pública e pela maioria dos moradores, esses mesmos espaços serão progressivamente ocupados por delinquentes.

A Teoria das Janelas Quebradas foi aplicada pela primeira vez em meados da década de 80 no metrô de Nova York, que se havia convertido no ponto mais perigoso da cidade. Começou-se por combater as pequenas transgressões: lixo jogado no chão das estações, alcoolismo entre o público, evasões ao pagamento da passagem, pequenos roubos e desordens. Os resultados positivos foram rápidos e evidentes. Começando pelo pequeno conseguiu-se fazer do metrô um lugar seguro.

Posteriormente, em 1994, Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York, baseado na Teoria das Janelas Quebradas e na experiência do metrô, deu impulso a uma política mais abrangente de “tolerância zero”. A estratégia consistiu em criar comunidades limpas e ordenadas, não permitindo transgressões à lei e às normas de civilidade e convivência urbana. O resultado na prática foi uma enorme redução de todos os índices criminais da cidade de Nova York.

A expressão “tolerância zero” soa, a priori, como uma espécie de solução autoritária e repressiva. Se for aplicada de modo unilateral, pode facilmente ser usada como instrumento opressor pela autoridade fascista de plantão, tal como um ditador ou uma força policial dura. Mas seus defensores afirmam que o seu conceito principal é muito mais a prevenção e a promoção de condições sociais de segurança. Não se trata de linchar o delinquente, mas sim de impedir a eclosão de processos criminais incontroláveis. O método preconiza claramente que aos abusos de autoridade da polícia e dos governantes também deve-se aplicar a tolerância zero. Ela não pode, em absoluto, restringir-se à massa popular. Não se trata, é preciso frisar, de tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas tolerância zero em relação ao próprio delito. Trata-se de criar comunidades limpas, ordenadas, respeitosas da lei e dos códigos básicos da convivência social humana.

A tolerância zero e sua base filosófica, a Teoria das Janelas Quebradas, colocou Nova York na lista das metrópoles mundiais mais seguras. Talvez elas possam, também, não apenas explicar o que acontece aqui no Brasil em matéria de corrupção, impunidade, amoralidade, criminalidade, vandalismo, etc., mas tornarem-se instrumento para a criação de uma sociedade melhor e mais segura para todos.

 

Alegria

Alegria

Não se desesperem com as PECs no meio do caminho,

com a alta do dólar,

com a venda do Brasil,

com a perda dos salários, com a falta de trabalho

com a corrupção, com os privilégios dos políticos, dos ricos, dos magistrados

com a morte da poesia

com a vitória de um imbecil.

Não se desesperem se disserem que vocês devem ser tratadas como mercadoria,

Ou se um dia perceberem que o céu não é mais anil.

Não se desesperem com a morte das crianças na Síria.

Apesar de tudo e contra tudo: ALEGRIA.

Canção do Tamoio

Embora não seja meu, ofereço esse poema a todos os meus alunos que nesse momento sofrem ou choram.

Gonçalves Dias

I
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

II
Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.

III
O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!

IV
Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!

V
E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.

VI
Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D’imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d’ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.

VII
E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!

VIII
Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranquilo nos gestos,
Impávido, audaz.

IX
E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

X
As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

The Ballad of a Thin Man

The Ballad of a Thin Man

Bob Dylan

You walk into the room
With your pencil in your hand
You see somebody naked
And you say, “Who is that man ?”
You try so hard
But you don’t understand
Just what you’ll say
When you get home.

Because something is happening here
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

You raise up your head
And you ask, “Is this where it is ?”
And somebody points to you and says
“It’s his”
And you says, “What’s mine ?”
And somebody else says, “Well, what is ?”
And you say, “Oh my God
Am I here all alone ?”

But something is happening here
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

You hand in your ticket
And you go watch the geek
Who immediately walks up to you
When he hears you speak
And says, “How does it feel
To be such a freak ?”
And you say, “Impossible”
As he hands you a bone.

And something is happening here
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

You have many contacts
Among the lumberjacks
To get you facts
When someone attacks your imagination
But nobody has any respect
Anyway they already expect you
To all give a check
To tax-deductible charity organizations.
You’ve been with the professors
And they’ve all liked your looks
With great lawyers you have
Discussed lepers and crooks
You’ve been through all of
F. Scott Fitzgerald’s books
You’re very well read
It’s well known.

But something is happening here
And you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

Well, the sword swallower, he comes up to you
And then he kneels
He crosses himself
And then he clicks his high heels
And without further notice
He asks you how it feels
And he says, “Here is your throat back
Thanks for the loan”.

And you know something is happening
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

Now you see this one-eyed midget
Shouting the word “NOW”
And you say, “For what reason ?”
And he says, “How ?”
And you say, “What does this mean ?”
And he screams back, “You’re a cow
Give me some milk
Or else go home”.

Because something is happening
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

Well, you walk into the room
Like a camel and then you frown
You put your eyes in your pocket
And your nose on the ground
There ought to be a law
Against you comin’ around
You should be made
To wear earphones.

But something is happening
And you don’t know what it is
Do you, Mister Jones?

 

Só posso chamar a todos que não consideram a obra de Dylan merecedora de um Prêmio Nobel de Literatura de Senhores Jones. A questão agora parece ser outra: se Ele vai aceitar ou não o prêmio, já que os organizadores desse evento não conseguem entrar em contato com ele. A uns e outros, Bob Dylan tem ignorado igualmente mantendo sua atitude blasé. Não fez nenhum pronunciamento sobre sua premiação. Talvez a melhor atitude a ser tomada diante de tanta controvérsia seja o silêncio.

Velvet Goldmine-David Bowie

Velvet Goldmine-David Bowie

 

You got crazy legs, you got amazing head
You got rings on your fingers and your hair’s hot red
You got wit from my tongue, name on the sun
I gotcha going to my breast
Cause you’re the only one, who uses school to pleasure

You make me act real gone, you make me trawl along
I had to ravish your capsule, suck you dry
Feel the teeth in your bone, heal ya head with my own
Why if I don’t have you home, we’ll have to fight alone
Hang all together

Velvet Goldmine, you stroke me like the rain
Snake it, take it, panther princess you must stay
Velvet Goldmine, naked on your chain
I’ll be your king volcano right for you again and again
My Velvet Goldmine

You’re my taste, my trip, I’ll be your master zip
I’ll suck your hair for kicks, you’ll make me jump to my feet
So you’ll give me your hand, give me your sound
Let my sea wash your face, I’m falling, I can’t stand
Oooh! Put your mink on

Velvet Goldmine, you stroke me like the rain
Snake it, take it, panther princess you must stay
Velvet Goldmine, naked on your chain
I’ll be your king volcano right for you again and again
My Velvet Goldmine

Oh
Shoot you down, bang bang

Velvet Goldmine, you stroke me like the rain
Snake it, take it, panther princess you must stay
Velvet Goldmine, naked on your chain
I’ll be your king volcano right for you again and again
My Velvet Goldmine

Velvet Goldmine,
Velvet Goldmine,
My Velvet Goldmine
Velvet Goldmine

 

Os Homens Ocos – T.S. Eliot

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Os Homens Ocos
(T. S. Eliot)

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

— Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular.

 

(Trecho de Os Homens Ocos, de T.S. Eliot. Tradução de Ivan Junqueira)

Bullying nas escolas

Lançamento de livro sobre racismo, homofobia e bullying integra programação da V Semana da Diversidade LGBT

Fonte: Folha Geral http://www.folhageral.com/#ixzz4Jc9PU3Rr

O livro “O Diário de Davi: Preconceito racial, homofobia e bullying na escola”, do professor e escritor Silvano Sulzart, será lançado em Salvador, nesta terça-feira (6), durante a V Semana da Diversidade que antecede a 15ª Parada do Orgulho LGBT da Bahia. O lançamento acontece às 18h, na livraria LDM do Espaço Itaú de Cinemas (Cine Glauber Rocha), em parceria entre a editora CRV e o Grupo Gay da Bahia (GGB).

O livro foi usado para formação de professores e adotado como paradidático pela Escola Tales de Mileto, em Itaparica, e pela Faculdade de Ciências Empresárias – FACEMP, em Santo Antônio de Jesus.

Durante a noite de autógrafos, será realizado o debate “O que é a inclusão? – Diversidade sexual e de gênero nos Planos Estadual e Municipal de Educação”, com as participações do autor do livro, Silvano Suzart, além de Beth Dantas, professora, mestre em Educação e ativista social, e Jaiaci Lopes Fonseca, integrante do Núcleo LGBT da Associação de Professores do Estado da Bahia.

“O Diário de Davi” é uma obra literária que discute as múltiplas diferenças que nos constituem e a diversidade presente no universo escolar, através da história de um garoto de 12 anos, negro, que está acima do peso e que constantemente sofre bullying na escola. Em seu diário, Davi narra as suas angústias, o dia-a-dia da escola, sua amizade com João, um aluno cadeirante, e Telton Fradf, que sofre bullying homofóbico ao ser chamado de “mulherzinha” por seus colegas. A escola é o cenário desta história emocionante em que professores, alunos e pais se mobilizam para combater o bullying.

O livro aborda o bullying e suas variantes (o ciberbullying e o bullying homofóbico), a obesidade infantil, o preconceito racial e a inclusão escolar, de forma objetiva, tomando como base a Lei 13.185/2015, que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática em todo o território nacional. Davi, em uma narrativa envolvente e singela, conta suas dores e dilemas. A história revela como a amizade vence o medo, e a ternura e o perdão fazem brotar esperança, sonhos e novas relações no espaço escolar.

A obra permite ao leitor identificar se filhos ou alunos estão sendo vítimas de bullying e ajuda a criar os meios para combatê-lo dentro e fora do espaço escolar. Além do GGB e da Editora CRV, seu lançamento em Salvador tem apoio da Associação dos Estudantes da Ilha de Itaparica (AEITA), da LDM – Livraria Multicampi, da Prefeitura Municipal de Vera Cruz, do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia (APLB-Sindicato) e dos sites Clipping LGBT e Dois Terços.

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Fonte: Folha Geral http://www.folhageral.com/#ixzz4Jc9oKPnZ

Sobre o autor

Silvano Sulzart é pedagogo formado pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, mestre em Educação e Contemporaneidade (PPGEDUC/UNEB) e especialista em Psicopedagogia, Gestão de Recursos Humanos, Letramento e Alfabetização. Possui artigos publicados sobre ludicidade, bullying na escola, coordenação pedagógica e diversidade cultural. É autor do Livro “Docência das Águas: Diversidade Cultural, Maritimidade e Travessias na Ilha de Itaparica”, publicado pela editora CRV. Gosta de ler, escrever e de compartilhar experiências.

Prêmio Kindle de Literatura

Amazon e Editora Nova Fronteira anunciam Prêmio Kindle de Literatura

Concurso é direcionado para autores independentes brasileiros. O vencedor receberá R$ 20 mil e terá seu livro publicado em formato impresso

No dia 1º de setembro a Amazon, em parceria com a editora Nova Fronteira, abriu inscrições para o Prêmio Kindle de Literatura.
Os autores interessados devem publicar seus romances inéditos pela plataforma Kindle Direct Publishing (KDP) incluindo a tag #premiokindle no campo apropriado, tornando seus livros disponíveis para leitores no mundo inteiro.
Os livros inscritos serão avaliados com base em diversos critérios, como criatividade, originalidade e qualidade da escrita. A etapa final consistirá na seleção de três finalistas que serão escolhidos por um júri especial e por especialistas selecionados pela Nova Fronteira.
O vencedor receberá um prêmio em dinheiro de  R$ 20 mil, além de um acordo com a editora para a publicação do título em versão impressa. Os outros finalistas poderão publicar os livros em formato de audiolivro.
As 10 obras pré-selecionadas serão anunciadas no dia 12 de dezembro. As três finalistas serão divulgadas em 9 de janeiro de 2017, e o vencedor será apresentado ao público no evento de premiação, em 17 de janeiro de 2017.
As inscrições podem ser feitas até o dia 30 de novembro. Mais informações estão disponíveis no site oficial do prêmio www.amazon.com.br/premiokindle.
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G1 – Raduan Nassar vence o Prêmio Camões 2016

 

Raduan Nassar vence o Prêmio Camões 2016

Júri destacou ‘força poética’ do escritor brasileiro, que leva R$ 399 mil.
Escritor de ‘Lavoura arcaica’ e ‘Um copo de cólera’ abandonou a literatura.

O escritor Raduan Nassar (Foto: Divulgação/Cia das Letras)O escritor Raduan Nassar (Foto: Divulgação/Cia das Letras)

O escritor brasileiro Raduan Nassar, de 80 anos, foi anunciado nesta segunda-feira (30) o vencedor do Prêmio Camões 2016. Entregue desde 1989 pelos governos de Portugal e do Brasil, o Camões é considerado um dos maiores reconhecimentos da literatura em língua portuguesa.

O anúncio do nome de Raduan Nassar, que vai levar 100 mil euros (R$ 398,8 mil), foi feito em Lisboa pelo secretário de Estado da Cultura de Portugal, Miguel Honrado.

Ao atribuir o prêmio ao autor de “Lavoura arcaica” (1975) e “Um copo de cólera” (1978), o júri destacou “a extraordinária qualidade da sua linguagem e da força poética da sua prosa”.

Nascido em 1935 em Pindorama (SP) em uma família de origem libanesa, Raduan Nassar é um dos maiores e mais cultuados escritores brasileiros do século XX. Publicou apenas três livros – o último é o volume de contos “Menina a caminho e outros textos” (1997).

Além disso disso, tem dois textos inéditos em português: o ensaio “A corrente do esforço humano”, lançado na Alemanha em 1987, e o conto “Le vieux” (“O velho”), publicado na França em 1998 como parte da antologia “Des nouvelles du Brésil”.

Nos anos 1980, abandonou a literatura e passou a trabalhar como fazendeiro – mais tarde, doou sua propriedade à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O autor raramente dá entrevistas ou aparece em público. Em março, Raduan Nassar participou de um evento no Palácio do Planalto, em Brasília, e discursou contra o impeachment de Dilma Rousseff.

12º brasileiro a ganhar o Camões
Em nota, a organização do 28º Prêmio Camões cita que Raduan Nassar é comparado “a nomes consagrados da literatura brasileira, como Clarice Lispector e Guimarães Rosa”. Ele é o 12º brasileiro a ganhar o prêmio. Até aqui, Brasil e Portugal estavam empatados com 11 vitórias para cada.

Pelo regulamento, o Camões premia “um autor de língua portuguesa que tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum”. O anúncio do ganhador acontece alterandamente no Brasil e em Portugal.

O júri da edição 2016 do Camões foi formado por Paula Morão, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Portugal); Pedro Mexia, escritor (Portugal); Flora Sussekind, escritora e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Brasil); Sérgio Alcides do Amaral, escritor e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil); Lourenço do Rosário, professor universitário e Reitor da Universidade Politécnica de Maputo (Moçambique); e Inocência Mata, professora universitária da Faculdade de Letras de Lisboa e da Universidade de Macau (São Tomé e Príncipe).

Renascimento
O Prêmio Camões é entregue a Raduan Nassar em um momento de “renascimento” da obra do autor no exterior. Em abril, ele foi semifinalista do Man Booker Prize International com “Um copo de cólera”.

O prêmio avalia livros do mundo inteiro publicados originalmente em outra língua que não o inglês e depois traduzidos para o idioma. A vencedora foi a sul-coreana Han Kang, com “The vegetarian”.

Veja, abaixo, os ganhadores do Prêmio Camões:
1989 – Miguel Torga (Portugal)
1990 – Hélia Correia (Brasil)
1991 – José Craveirinha (Moçambique)
1992 – Vergílio Ferreira (Portugal)
1993 – Rachel de Queiroz (Brasil)
1994 – Jorge Amado (Brasil)
1995 – José Saramago (Portugal)
1996 – Eduardo Lourenço (Portugal)
1997 – Pepetela (Angola)
1998 – Antonio Cândido (Brasil)
1999 – Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal)
2000 – Autran Dourado (Brasil)
2001 – Eugénio de Andrade (Portugal)
2002 – Maria Velho da Costa (Portugal)
2003 – Rubem Fonseca (Brasil)
2004 – Agustina Bessa-Luís (Portugal)
2005 – Lygia Fagundes Telles (Brasil)
2006 – Luandino Vieira (Angola); recusou o prêmio
2007 – António Lobo Antunes (Portugal)
2008 – João Ubaldo Ribeiro (Brasil)
2009 – Arménio Vieira (Cabo Verde)
2010 – Ferreira Gullar (Brasil)
2011 – Manuel António Pina (Portugal)
2012 – Dalton Trevisan (Brasil)
2013 – Mia Couto (Moçambique)
2014 – Alberto da Costa e Silva (Brasil)
2015 – Hélia Correia (Portugal)
2016 – Raduan Nassar (Brasil)

via G1 – Raduan Nassar vence o Prêmio Camões 2016 – notícias em Pop & Arte

Concerto em homenagem a Paulo Leminski abre o Mês da Literatura

Concerto em homenagem a Paulo Leminski abre o Mês da Literatura

A Secretaria de Estado da Cultura e a Biblioteca Pública do Paraná promovem o Mês da Literatura, entre 24 de agosto e 25 de setembro. Para abrir a programação do evento, a Orquestra Sinfônica do Paraná apresenta na próxima quarta-feira (24), às 20h30, no Guairão, o concerto Paulo Leminski – Canções e Poemas. A data é uma homenagem ao nascimento do poeta (24 de agosto). Já o encerramento das atividades coincide com o aniversário de 80 anos da Academia Paranaense de Letras, criada em setembro de 1936.

Com regência do maestro Alessandro Sangiorgi, o concerto terá participações de Estrela Leminski, Téo Ruiz, Ná Ozzetti, Rogéria Holtz e Aurea Leminski. O programa abre com a declamação da poesia Sintonia para Pressa e Presságio e segue com as canções e poemas Verdura, Se houver céu, Hoje tá tão bonito, A você amigo, Navio, Filho de Santa Maria, Polonaises, Live with me, Xixi nas Estrelas, Luzes, e Valeu. Todas as composições são de Leminski ou têm participação do poeta. Como parte das comemorações, na ocasião será lançado o LP duplo Leminskanções.

Leminski experimentou diversas linguagens artísticas. Faleceu aos 45 anos e deixou um grande legado na literatura e na música. Produziu cerca de 100 músicas, entre canções e parcerias, catalogadas em um livro de partituras recém-lançado. Nos anos 1980 estas composições foram gravadas por Caetano Veloso, Blindagem, A Cor do Som, Ney Matogrosso, Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira, Itamar Assumpção, MPB4 e Ângela Maria.

PROGRAMAÇÕES LITERÁRIA – No Mês da Literatura, 11 escritores paranaenses vão percorrer 25 municípios do Interior do Estado. Cada autor visitará entre duas e três bibliotecas. Durante os encontros, os escritores, além de falar sobre suas próprias obras, também irão abordar assuntos como livro, leitura e formação de leitores.

As instituições selecionadas abrangem as mais variadas regiões do Estado – dos Campos Gerais ao Norte paranaense – e são referência entre as quase 500 bibliotecas cadastradas no Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas do Paraná, que é coordenado e administrado pela BPP.

Nesta primeira edição participam os municípios de Alto Paraná, Ampére, Araucária, Castro, Colombo, Guaratuba, Ibiporã, Jaguariaíva, Lapa, Marechal Cândido Rondon, Maripá, Palmas, Paiçandu, Paraíso do Norte, Paranaguá, Peabiru, Quedas do Iguaçu, Quitandinha, Rio Azul, Santa Helena, Salto do Lontra, Santo Antônio da Platina, Santo Inácio, Telêmaco Borba e Tibagi.

Inserido no Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura (PELLL), o Mês da Literatura é uma ação que deve entrar para o calendário cultural do Estado. “Além de fomentar e valorizar a leitura, incentivar e difundir a produção literária paranaense, o projeto também descentraliza a cultura ao levar nossos autores a pequenos e médios municípios”, explica o secretário de Estado da Cultura, João Luiz Fiani.

Entre os autores convidados, estão romancistas (Cristovão Tezza e Miguel Sanches Neto), autores infantojuvenis (Cléo Busatto), poetas (Rodrigo Garcia Lopes e Karen Debértolis), críticos (José Castello) e jovens autores (Marcos Peres). Trata-se de um recorte plural da cena literária paranaense.

A programação completa do Mês da Literatura estará disponível no site da Secretaria da Cultura: http://www.cultura.pr.gov.br

Serviço

Abertura do Mês da Literatura com concerto da Orquestra Sinfônica do Paraná Paulo Leminski – Canções e Poemas

Regência: Alessandro Sangiorgi

Participações especiais: Estrela Leminski, Téo Ruiz, Ná Ozzetti, Rogéria Holtz e Aurea Leminski

Dia 24 de agosto, às 20h30

Auditório Bento Munhoz da Rocha Netto – Guairão

Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)

Classificação: maiores de 7 anos

 

Consoada

Consoada

Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

 

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CANTO DA ESTRADA ABERTA

Canto da estrada aberta

Walt Whitman

A pé e de coração leve

Eu enveredo pela estrada aberta,

Saudável, livre, o mundo à minha frente,

À minha frente o longo atalho pardo

Levando-me aonde eu queria.

 

Daqui em diante não peço mais boa-sorte,

Boa-sorte sou eu.

Daqui em diante não lamento mais,

Não transfiro, não careço de nada;

Nada de queixas atrás das portas,

De bibliotecas, de tristonhas críticas;

Forte e contente vou eu

Pela estrada aberta.

 

A terra é quanto basta:

Eu não quero as constelações mais perto

Nem um pouquinho, sei que se acham muito bem

Onde se acham, sei que são suficientes

Para os que estão em relação com elas.

 

(Carrego ainda aqui

os meus antigos fardos de delícias,

carrego – homens e mulheres –

carrego-os comigo por onde eu vou,

confesso que é impossível para mim

ficar sem eles: deles estou recheado

e em troca eu os recheio.)

 

A terra a se expandir

À esquerda e à direita,

Pintura viva – cada parte com

A luz mais adequada,

A música a se ouvir onde faz falta

E a se calar onde não é querida,

A jubilosa voz da estrada aberta,

A alegre e fresca sensação da estrada.

 

Ó estrada que percorro, é a mim que dizes

“não me deixes”?

Dizes “não te aventures, se me deixas

Estás perdido”?

Dizes “já estou preparada,

Bem batida e transitada,

Fica comigo”?

Ó estrada minha e de todos,

O que lhe posso dizer

É que não tenho medo de deixá-la,

Por mais que a ame: você me expressa melhor

Do que eu expresso a mim mesmo,

Você há de ser para mim

Mais do que o meu poema.

 

 

Allons! Nós não devemos

Ficar aqui parados, por mais doces

Que sejam estes armazéns fornidos,

Por mais conveniente

Que pareça esta casa, nós aqui

Não podemos ficar,

Por mais abrigado que seja o porto

E por mais calmas que estas águas sejam,

Aqui nós não devemos ancorar;

Por mais acolhedora

Que seja a hospitalidade que nos cerca,

Não nos é permitida desfrutá-la

Senão por bem pouco tempo.

 

Ouça-me! Eu vou ser franco com você:

Não ofereço velhos prêmios fáceis,

O que ofereço são novos prêmios difíceis.

Eis como hão de ser os dias que lhe podem suceder:

Você não acumulará riquezas, assim chamadas,

Distribuirá com mão pródiga

Tudo o que venha a adquirir ou ganhar,

Nem bem chegando à cidade a qual era destinado

Dificilmente se há de estabelecer

E ter alguma satisfação

sem que ouça um apelo irresistível

a de novo partir,

terá de acostumar-se às zombarias

e aos risinhos irônicos

dos que foram ficando para trás,

aos acenos de amor

que receber

você dará em resposta

somente apaixonados beijos de despedida,

e não permitirá

o abraço das pessoas que vierem

com as mãos suplicantes

em sua direção.

 

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Estrada Real

O GLOBO pede fim do ensino superior gratuito

Hum Historiador

Em editorial publicado neste domingo (24), O Globo pede o fim do ensino superior gratuito no Brasil. Embora não seja surpresa que tal instituição defenda a privatização das universidades públicas, uma vez que ela já demonstrou, em diversas oportunidades, estar sempre na contramão do interesse público, do acesso democrático às instituições e da democracia, em si, como já tivemos oportunidade de escrever neste blog (O Globo saúda Golpe Militar; Globofilmes destrói cinema nacional; Globo manipula dados na cobertura das eleições venezuelanas), o destaque é a maneira cruel e covarde como ela argumenta pela extinção do ensino superior gratuito.

Segundo o texto, o que justificaria o fim do ensino superior gratuito é a sua “injustiça” e o gatilho que está dando oportunidade ao governo golpista de Michel “Fora” Temer privatizá-lo é a crise, como indica o título do editorial. O argumento principal do editorialista é que a maior parte das vagas…

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Concursos Literários

22-07-2016 – “II Prêmio Henrique José de Souza de Literatura Nova Xavantina MT” R$ 1.000,00 em dinheiro e o livro “Eubiose: a Ciência da Vida”, vol. 1, de Henrique José de Souza –Edital

31-08-2016 – III Concurso Bunkyo de Contos – R$2000,00 – Edital

15-08-2016 – 34º Concurso Literário Yoshio Takemoto – R$1000,00 – Edital

31-07-2016 – 4º Concurso de crônicas e poesia Edy Braun – R$ 500,00 – Edital

31-07-2016 – Concurso V CONPOZAGÃO – R$ 500,00 – Edital

15.07.2016 – Prémio Literário “Nortear – Jovens Escritores” (#Norte de Portugal e Galiza) – € 1000,00 – Edital

O sem nome

 

 

 

Vampiro de Charles Baudelaire

VAMPIRO

Tu que, como uma punhalada
Invadiste meu coração triste,
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar o leito ao ascendente,
– Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,

Como a seu jogo o jogador,
Como à garrafa o beberrão,
Como aos vermes a podridão
– Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz
Dar-me a liberdade, um dia,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.

Mas não! O veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeiro
“Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro

Ah! imbecil – de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!”

A-Dança-dos-Vampiros-1967-4

A Dança dos Vampiros de Roman Polanski com Sharon Tate e Jack MacGowran como o Prof. Abronsius

 

Asa de beija-flor

Silvio Rodrigues

 

Hoje eu me proponho fundar um partido de sonhos,

oficinas onde consertar asas de beija-flores

Admitem-se loucos, enfermos, gordos sem amor,

tolhidos, anões, vampiros e dias sem sol.

 

Hoje eu vou patrocinar a candura desenganada,

essa massa crítica de Deus que não é pós e nem moderna.

Admite-se proscritos, raivosos, povos sem lar,

desaparecidos devedores do banco mundial.

 

Por uma rua

descascada

por uma mão

bem apertada.

 

Hoje eu vou fazer uma assembléia de flores murchas,

de restos de festa infantil, de pinhatas usadas,

de almas penadas -do reino do natural-

que otorgam licença à qualquer artefato de amar.

 

Pelo levante,

pelo poente,

pelo desejo,

pela semente.

por tanta noite,

pelo sol diário,

em companhia

e em solitário.

 

Asa de beija-flor,

leve e pura.

Asa de beija-flor

para a cura.

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Primeiro livro impresso colorido do mundo ganha versão digital – Follow the Colours

O 1º livro colorido impresso do mundo, chamado de ‘Manual de Caligrafia e Pintura’, foi aberto e digitalizado. Confira desenhos e páginas em alta resolução!

Fonte: Primeiro livro impresso colorido do mundo ganha versão digital – Follow the Colours

“A desgraça cria, em certas almas, um vasto deserto, onde a voz de Deus repercute.” in “A Comédia Humana” de Balzac

Fragmentos

Estou lendo A Comédia Humana de Balzac vol.2 (tradução de Vidal de Oliveira) e vou publicar aqui, conforme vou lendo, as frases de seus personagens ou dos narradores que mais me emocionaram levando-me às lágrimas ou me fizeram refletir sobre a condição humana.

Em Uma estreia na vida:

“Não existe, ou antes, existe raramente, um criminoso que seja completamente criminoso. Com mais forte razão, dificilmente se encontrará uma desonestidade maciça. Podem-se fazer contas de chegar com o patrão, ou puxar mais brasa para a própria sardinha; mas, embora constituindo um capital por meios mais ou menos lícitos, poucos homens há que não se permitam algumas boas ações. Quanto mais não fosse por curiosidade, por amo-próprio, como contraste, por acaso, todo homem teve esse momento de generosidade; ele o classifica como um erro, não recomeça; mas sacrifica ao bem, como o mais casmurro sacrifica às Graças, uma ou duas vezes na vida.”

Essa análise foi feita em relação ao personagem Moreau um administrador corrupto que enriquece desviando recursos da propriedade do Conde de Sérisy, mas surpreendentemente ajuda uma antiga amiga muito pobre com mantimentos, o aluguel e até com a educação e colocação profissional de seu filho Oscar, o estreante na vida ao qual o título se refere.

“A corrupção veio com a fortuna, como sempre” pensamento de Moreau.

“Esse rapaz é só vaidade _ disse o conde depois de ter, em vão esperado as desculpas de Oscar. _ Um orgulhoso se humilha, pois há grandeza em certas humilhações. Receio muito que jamais possam fazer alguma coisa desse rapaz.”

Para se exibir, Oscar, após revelar a viajantes, numa carruagem, as traições da esposa do conde para o próprio conde sem o reconhecer, se recusa a pedir-lhe desculpas por sua indiscrição e perde qualquer chance de obter a proteção de um nobre para sua almejada ascensão social.

Esse trecho, para mim, é genial:

“Além das recomendações da manhã, Oscar sentia espontaneamente certa aversão por Jorge; sentia-se humilhado ante aquela testemunha da cena do salão de Presles, quando Moreau o atirara aos pés do Conde de Sérisy. A ordem moral tem suas leis, que são implacáveis, e sempre se é castigado por infringi-las. Há sobretudo uma, à qual o próprio animal obedece instintivamente, e sempre. É a que nos ordena fugir de qualquer pessoa que nos foi nociva uma primeira vez, com ou sem intenção, voluntária ou involuntariamente. A criatura de quem recebemos dano ou desprazer sempre nos será funesta. Qualquer que seja a sua categoria social, seja qual for o grau de afeição que nos ligue, é forçoso romper com ela, pois nos é enviada pelo nosso gênio mau. Embora o sentimento cristão se oponha a esse procedimento, a obediência  a essa lei terrível é essencialmente social e conservadora. A filha de Jacques II, que se sentou no trono do pai, deve ter-lhe feito mais de um ferimento antes da usurpação. Judas seguramente deve ter dado algum golpe funesto a Jesus antes de traí-lo. Há em nós uma vista interior, o olho da alma, que pressente as catástrofes, e a repugnância que sentimos por esse ser fatal é o resultado dessa previsão; se a religião nos ordena vencê-la, fica-nos a desconfiança, cuja voz deve ser incessantemente ouvida. Podia Oscar aos vinte anos ter tanta sagacidade?”

Em Alberto Savarus:

“Alcançar o alvo expirando como o corredor antigo! Ver a fortuna e a morte chegarem juntas aos umbrais de nossa porta! Obtermos aquela que amamos no momento em que o amor se extingue! Não temos mais a faculdade de gozar, quando se conquistou o direito de viver feliz!” Alberto em carta a um amigo se refere ao fato de ter se apaixonado pela princesa Francesca Argaiolo impedida, por ser casada, de retribuir seu amor.

“A desgraça cria, em certas almas, um vasto deserto, onde a voz de Deus repercute.” Alberto após ter a vida arruinada por uma mocinha que se apaixonou por ele.

Honore-de-Balzac

Ouve-me

Ouve-me

Mesmo que anseies ser
Só sombra a te espelhar,
Vives a meio caminho
Entre a luz e o meu olhar!

Mesmo que na floresta te unas à matilha
Para nela te vislumbrares,
Tua essência reside num país
Onde as palavras não podem penetrar!

Mesmo que a uma fôrma tente te conformares,
Para, do indefinido, te ocultares,
O universo em tuas formas vem se abrigar!

Teu verdadeiro eu
Poderiam ser venerados
Em todos os altares.
Por isso o mar que elegeste
É muito raso para navegares!

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O apagão da era tucana

O apagão da era tucana

O Blog da Boitempo recupera este artigo de Paulo Arantes publicado em 2001. O contexto é o da crise do apagão, ocorrida no final do último mandato de FHC.

Blog da Boitempo recupera em seu Especial Eleições 2014 este artigo de Paulo Arantes publicado originalmente no suplemento Mais! do jornal Folha de São Paulo em 27 de maio de 2001Intitulado “Extinção” – título do livro que arantes publicaria seis anos depois pela Boitempo –, o texto parte de uma carta de um leitor da Folha ao “Painel do leitor” para refletir sobre o que chama da “bancarrota do modo paulista de pensar”. O contexto é o da crise do apagão, ocorrida no final do último mandato de Fernando Henrique Cardoso, pouco antes da eleição de Lula, que daria início ao ciclo petista no Governo Federal.  Hoje, às portas da crise hídrica de São Paulo que não obstante viu a reeleição, no primeiro turno, do governador Geraldo Alckmin, do PSDB, e da disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, que já tem como pano de fundo a realidade de um congresso eleito mais conservador desde 1964, cabe repensar, através da releitura feita por Arantes da análise do pós-guerra empreendida por Adorno e Horkheimer, o que resta hoje das lições da era de Hitler, e da era de FHC.
 

[Aviso aos navegantes: O paralelo polêmico estabelecido por Arantes busca dar conta sobretudo da relação entre a autodestruição de certa tradição intelectual progressista uspiana consolidada nos anos 60 em torno do sociólogo tucano e o colapso do projeto de modernização conservadora do país posto em marcha por ele a partir da tomada do poder em 1995. Cabe ao leitor, enfim, julgar a atualidade deste “capítulo terminal” da inteligência crítica paulista, sua experiência no poder e a investida neoliberal no país.]

***
 

“Tenho 65 anos e sempre estive com a situação, com o governo. Há uns três anos, comecei a questionar o meu posicionamento. Hoje não tenho mais dúvidas: sou oposição e tenho muita vergonha deste governo. O Brasil não merece este castigo”.

Benedito M. Andrade Neto (Taubaté, SP)
 

Folha de São Paulo, “Painel do Leitor”, 12/5/2001

“Uma das lições que a era Hitler nos ensinou”, escreviam há mais de meio século Adorno e Horkheimer, “é a de como é estúpido ser inteligente”. Pensavam nos bons europeus, modernos e civilizados, que durante uma década pavimentaram a ascensão do Terceiro Reich com argumentos de lógica impecável acerca da inviabilidade de tamanha aberração. Lembravam-se por exemplo de uma conversa com um brilhante economista que lhes demonstrara por a b, com base nos interesses objetivos dos cervejeiros bávaros, que uma uniformização da Alemanha era impossível. “Depois os inteligentes disseram que o fascismo era impossível no Ocidente. Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros, porque são de fato estúpidos. São os juízos bem informados e perspicazes, os prognósticos baseados na estatística e na experiência, as declarações começando com as palavras: ‘Afinal de contas, disso eu entendo’, são os statements conclusivos e sólidos que são falsos.”1

Pois bem. Noves fora os calafrios de praxe – sem falar na modesta envergadura dos pigmeus envolvidos, tanto os bem-pensantes quanto os facinorosos – , estamos em casa. Falo é claro dos inteligentes de São Paulo e de suas ramificações nacionais e internacionais de alto nível. Digamos que a estupidez da inteligência foi se tornando nos últimos tempos uma original contradição paulista. Não ignoro que a transformação da inteligência em estupidez parece ser um traço tendencial da evolução histórica e que, assim sendo, não se poderia honestamente atribuir à índole singular de um agrupamento humano o que é puro efeito de relações sociais.

Pelo sim, pelo não, até por mero instinto de sobrevivência e na condição de criatura dessa elite bem-falante e escrevente, acharia prudente, nessa quadra turbulenta da nacionalidade, pelo menos um solene pedido formal de desculpa aos brasileiros e brasileiras que há sete anos aturam entre tantas outras delicadezas de atenção social o estribilho da referida pedantocleptocracia, entoado por impressionante massa coral: Afinal de contas, disso nós entendemos! E como!

Os hierarcas do império nazi eram bárbaros e naturalmente inimigos mortais da vida do espírito. Mas há também um outro tipo de espírito que é anti-humano, insistiam nossos dois filósofos fracassomaníacos. Podemos reconhecê-lo pela sua marca de origem: a “superioridade bem-informada”. Não há por certo termo de comparação entre os grandes chefes fascistas de ontem e os comparsas tropicais de agora, de sorte que acabamos nos conformando com o tamanho bem paulista a que se reduziram antigos sonhos de suprema elegância, alta cultura e poder – este último, “sans phrase“. Assim, no lugar da tremenda camarilha teutônica, ocupa a cena o cortejo mambembe que se está vendo: o fotogênico Eduardo Jorge, o lombrosiano Jader, o schumpeteriano Mendonção e seu ídolo, o beato Serjão (que Deus o tenha no Paraíso que escolheu), o galante Ricardo Sérgio, o majestoso ACM, o brejeiro delfim de Hanover etc. etc. 2

Mas e onde se lê “espírito”, ainda por cima em alemão? Aqui sim a transposição local nos favorece plenamente. Os senhores hão de convir que, pelo menos em matéria de superioridade bem-informada, a Escola Paulista de Pensamento na qual me formei e que não posso renegar praticamente não tem rival. Pois então é isso, vistas as coisas aqui da capital do FHnistão 3.

Ingratidão maior nunca se viu: como pode o Brasil totalmente esclarecido pelos “intelligenti” de nossa escola ousar resplandecer sob o signo de uma calamidade triunfal? Além do mais, às vésperas de um apagão. Só pode ser obscurantismo. Afinal de contas, disso vocês não entendem nada! Prova disso, o iminente colapso energético do país, o qual precisa entender de uma vez por todas que acabou a fase de energia farta e barata no Brasil, que vivemos um processo de pós-industrialização, pelo qual já passaram economias mais modernas, conforme anunciou o diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, sem que ninguém tivesse chamado a polícia4. Alguma coisa no entanto estamos começando a entender. Estamos enfim reaprendendo com a era fernandina como de fato ficou brutalmente estúpido ser inteligente. Com uma diferença notável, como tudo nessa terra de varões sabedores e que vem a ser propriamente a contribuição original brasileira para o processo mundial de corrosão da inteligência. Na estupidez terminal do espírito superior com que se depararam a seu tempo Adorno e Horkheimer, quando redigiam com resignação filosófica a declaração de falência da civilização européia, explodia em todo seu esplendor a contradição inaugural da razão que comandara aquele processo em colapso, a inteligência liberal, a um tempo universal e particularista, numa palavra, “o instrumento do privilégio na igualdade”.
 

Dosagem homeopática

Na hora do apocalipse, era a ela que o fascismo estava apresentando a conta. Um ciclo histórico depois e a correspondente derrocada da era do crescimento, o pensamento que ora se extingue é de uma outra espécie. Digamos, para encurtar, da espécie que nos habituamos durante dois séculos a chamar de “progressista” ou, para ser mais específico, o lado oposto, o lado propriamente esquerdo daquela matriz original de evolução e reforma do mundo. Aqui entramos nós, o breve porém substancioso capítulo paulista do atual processo de autodestruição da inteligência brasileira, que vai assim arrematando o seu “ajuste” ao padrão global da estupidez bem-pensante. E por mais que a analogia nos repugne, é bom não esquecer a lição do apocalipse nazi, desta vez por uma autora insuspeita de fracassomania, Hannah Arendt: a descoberta da mais aterradora crueldade social germinando no processo aparentemente banal de corrupção da inteligência 5. É claro que a analogia é estritamente filosófica, apenas uma meditação acerca de um caso catastrófico de inibição da reflexão. De qualquer modo, embora a escala mundial do desastre em curso atualmente seja de meter medo, por aqui a dosagem ainda é homeopática, pelo menos do ângulo de um homem branco de classe média, constatação cujo simples enunciado já é uma ameaça. Voltando aos efeitos letais da inteligência paulista no poder, o fato intrigante é que deve ter saído de cena algo essencial que nos fazia pensar, se não for presumir demais. Seja como for, o fato é que toda uma tradição outrora crítica não só foi sugada pelo moinho satânico da estupidez inteligente, mas também passou a acionar-lhe a manivela, com o deslumbramento característico da supracitada superioridade bem-informada. Numa palavra, o que a era cardosista do esclarecimento está mostrando neste momento de glória da malandragem nacional é como se tornou apenas “bête et méchant” procurar ser inteligenterrimamente de esquerda, e isso depois de decretado pelos mesmos altos personagens o colapso da modernização, sem a qual, justamente, fica muito difícil distinguir uma explosão criativa de forças produtivas de meros serviços de corretagem. Cochilo grave para um crime ideológico quase perfeito, esse da lavagem de conceitos. Mas são derrapagens sem sujeito, diria algum espectro althusseriano, relançando a espiral do auto-engano.

Por exemplo, diante da piranhagem que foi o episódio Telebrás, algum incorruptível veterano do leninismo poderia muito bem replicar que mais vale um salto econômico arrancado a fórceps do que a grita moralista das camadas sociais sem futuro etc. Homens de ferro para os quais sou o primeiro a tirar o chapéu. (Muitos deles, com o peito coberto de medalhas, estão no governo. Continuo tirando o chapéu, desde que não me penhorem as antigas medalhas.) Nem por isso menos empulhados pela inércia de um raciocínio cujo nervo histórico se extinguiu, mas sobretudo mesmerizados pelo teatro de sombras dos operadores da nova classe que, justamente afiançados pela nobre estirpe da finada teoria crítica, vão tocando o violento trivial do “big business” como quem toma o Palácio de Inverno, agora sim, literalmente de assalto, acossados, é claro, pela guerrilha impatriótica dos atrasados. Assim se constituem os fundos secretos para uma eterna segunda rodada bolchevique, algo como foquismo na Sociedade Hípica. Aqui a matriz operacional de outra formidável invenção ideológica da era fernandina, a chamada “rebeldia a favor”. É assim que a mais crassa estupidez dos inteligentes vai fazendo a cama dos novos bárbaros, parceiros estratégicos que ingratamente caluniam em momentos de troca da guarda como agora. Nessas horas o sangue-frio materialista da velha-guarda costumava recomendar que se aprendesse com quem se vende, no que tinha toda razão. A nova hegemonia sempre anunciava a sua chegada arrematando cabeças, no geral inconformadas com o estado das artes. Pelas razões erradas, quem se vendia estava à frente dos obtusos e incorruptíveis. Estudando o caso, como numa cena brechtiana, os amigos de esquerda do progresso aprenderiam a encarar as coisas novas e ruins a partir das quais se deveria recomeçar. Estamos vendo nestes tempos cardosistas que já não é mais o caso. Não deve ser apenas por algum defeito de fabricação do personagem – o imortal inventor da rebeldia a favor – que não aprendemos nada com as suas genuflexões, embora não se possa negar a audácia de seu enorme passo adiante. Simplesmente não há mais chão para tal passo, quem nos compra não está mais desbravando nenhuma fronteira da valorização. Portanto já não faz mais diferença nenhuma distinguir, como exigia um clássico do materialismo paulista: vendeu-se, está criticando, ou vendeu-se criticando. No seu devido tempo, veremos por que a transformação histórica da inteligência em estupidez – esse o ponto, já que estaremos interessados em pesquisar a gênese paulista da “bêtise” na origem da atual derrocada da inteligência brasileira – diz respeito primordialmente ao toma lá, da cá das operações elementares de compra e venda. Mas não será preciso remontar à pré-história. Pode-se reconhecer a mesma lógica ancestral – girando como os ponteiros de um relógio no pulso de um morto – observando a espécie de reflexo condicionado daqueles que têm resposta para tudo. Amostragem relâmpago: 1) Política de terra arrasada com os petroleiros em greve? É claro, precisam aprender que estamos trocando capitalismo velho por capitalismo novo; 2) Previdência Social? Totalmente inviável, como um simples cálculo atuarial pode demonstrar, fulano traga os números; 3) Sim, nomeou um antigo torturador chefe da Polícia Federal: certamente precisou negociar coisa mais graúda. E por aí afora.
 

Física paulista dos interesses

E para trás também, caso recuemos até os primeiros sintomas dessa bancarrota do modo paulista de pensar. Vejamos por exemplo o que dizia um filósofo e colunável, enquanto transcorria em Brasília a CPI que desembocaria no impeachment do antecessor: “Ninguém é movido por interesses universais e não se pode pedir aos políticos que abdiquem do esforço pessoal de buscar o poder […]. Em vez do discurso moralista, cabe aceitar que os políticos agem por interesse privado, mas, como só podem fazer em nome do bem comum, que ele calcule seus riscos de ser pilhado em público toda vez que atuar exclusivamente em nome de seu bem particular […]. Desse modo constitui-se uma moralidade pública que comporta a infração nos seus interstícios” 6.

E ainda dizem que a coruja do filósofo só alça vôo ao fim do dia, pois esse mocho paulista madrugou com uma década de antecedência! O estudo da amostra requer entretanto o escrutínio objetivo do naturalista. Trata-se afinal de um processo sem sujeito, a rigor mecânico, como sugere o curioso símile que arremata o raciocínio: “Mesmo quando os indivíduos agem em nome do bem comum, a luta pela obtenção e manutenção do poder implica o exercício dum empuxe individual” 7. A fome de imanência que parece caracterizar esse singelo cálculo de custo/benefício parece fornecer uma excelente ilustração para aquilo que o iberista carioca Luís Werneck Vianna vem chamando de “física paulista dos interesses”, por oposição à irrazoável tendência metafísica do povo brasileiro a achar que é possível vida para além do mercado8. Além de ilustrar, é claro, no andar superior da cadeia alimentar dos bem-informados que têm resposta para tudo o vínculo arcaico entre a inteligência e as raciocinações do poder acerca das vantagens que consegue obter quando se resigna a seguir as regras do jogo. Na opinião descalibrada de Adorno e Horkheimer, que por certo andaram gazeteando os cursos de lógica.

Recordo a propósito, para voltar mais uma vez aos dois catastrofistas de Frankfurt, que talvez o sinal de alarme deles tenha começado a soar quando perceberam o que Chamberlain entendia por “ser razoável” ao reclamar das exigências de Hitler, a seu ver “unreasonables“. Numa palavra, parece que o Führer não respeitava muito a equivalência entre dar e tomar. Se oferecesse um preço justo para os territórios e populações que estava prestes a abocanhar, tudo bem. Essa a rota suicida da estupidez dos inteligentes e elegantes, cujo espírito se apaga “tão logo o poder deixa de obedecer à regra do jogo e passa à apropriação imediata”. De um ponto de vista histórico-mundial, como se dizia na esquerda hegeliana, tanto faz se se trata de um “Gauleiter”, um bicho solto de boca de fumo ou, enfim, um “investidor” atuando no ramo das privatizações. Assim sendo, se a fórmula “vendeu-se” choca e ofende, não seja por isso, troca-se por uma outra equivalente, “ajustou-se”. Por exemplo: ajustou-se gemendo (virou estadista) ou ajustou-se, está gemendo (virou existencialista).

Digamos então que a derrocada se consumou quando uma certa tradição crítica bem paulista se adaptou. Mas aí nossos incorrigíveis fracassomaníacos alemães completariam o raciocínio, lembrando que, na história natural da inteligência, sua extinção na estupidez vem a ser justamente “o dernier cri da adaptação”. E nada mais feroz que a predação dos adaptados (ainda mais quando procuram apenas sobreviver) 9. A violência pré-histórica da “globalização” em curso nada mais é do que a expressão, banalizada pelos notáveis do espírito, de mais uma rodada dessas “adaptações” próprias da derradeira civilização baseada na crueldade bem calculada do trabalho excedente 10.

Em tempo. Certamente o processo de extinção que está nos interessando identificar não é nem poderia ser unilateral. Ele também se espraiou pelo campo oposto, o mundo do trabalho, onde havia igualmente vida inteligente. A fundação absolutamente inédita de um recurso emancipatório inestimável como um Partido dos Trabalhadores que o diga. Juntamente com o “Solidarnosc” polonês, a única iniciativa anti-sistêmica em ascensão durante a década de 80, quando o império deflagrava sua contra-revolução mundial. O movimento polonês, como se há de recordar, foi o primeiro a sumir no ralo da nulidade social, e o nosso já vai apresentando sintomas alarmantes de decomposição dourada.

Com toda a razão o mesmo Luís Werneck Vianna costuma incluir na física paulista dos interesses o movimento browniano das grandes centrais sindicais aqui do pedaço – e, podemos agora acrescentar, o tipo de inteligência esperta das trocas simbólicas e materiais que lhe constitui a razão dominante. Enfim, quem não se lembrará, entre tantos outros, do lance mais do que meramente retórico de um líder sindical excluindo de uma “reforma” da Previdência, ainda por combinar com os de cima, os que nela nunca estiveram incluídos, e por isso mesmo. Faz sentido. Trata-se de uma simétrica opinião-espelho da convicção sociológica da alta tucanagem, segundo a qual o povo miúdo que descola uma aposentadoria na boca do caixa sem nunca ter integralmente contribuído durante as décadas em que se virou da mão para a boca é o primeiro fraudador da Previdência. Dialética da malandragem “oblige“? Como diria um grande lógico paulista, diante de um grafite no banheiro “todo lógico é idiota/ o professor X é lógico/ logo, o professor X é idiota”, pelo menos formalmente está correto. Seja dito em homenagem à neutralidade epistemológica que sempre distinguiu a Escola Paulista de Pensamento, o professor X era ele mesmo. Conosco é assim mesmo, os conceitos, quando são bons, como os nossos, são muito democráticos, não fazem distinção de classe.
 

Precarização do trabalho

Continuando. Numa tese recente, mostrou-se como a contribuição dos assalariados para os antigos IAPs da famigerada era Vargas financiaram as estatais originárias, torradas agora para fazer o caixa do populismo cambial do primeiro mandato11. Entre elas, a Vale do Rio Doce, arrematada a preço de banana nas condições que se sabe, como compete a um Estado-corretor de “big business“12. Pois não é que também ouvi outro dia um líder sindical, com imponente folha de serviços prestados durante o auge do sindicalismo de combate do período anterior, saudar o “companheiro Benjamin” (Steinbruch mesmo) como “parceiro de primeira hora” num louvável empreendimento de “charity business“? Outro louvável “parceiro de primeira hora” (idem, ibidem) o companheiro BankBoston. Num ensaio recente, Francisco de Oliveira dá uma boa pista para rastrear, no chão material dessa outra metade da física paulista dos interesses, o correspondente processo de extinção mental, nesse caso, por motivo de extenuação na base social da espoliação 13. Com efeito, contrariando o besteirol corrente sobre a perda da centralidade do trabalho, Francisco de Oliveira não só também constata uma espantosa extensão do assalariamento, no sentido amplo do termo, sem paralelo mesmo considerando-se os anos dourados do fordismo, ampliação que se estende da mais cruenta extração de mais-valia absoluta até o trabalho não-pago do cliente de serviços que também labuta ao consumir, mas um igual aprofundamento da privatização do trabalho, entendendo-se com isso a privação de sua dimensão pública, tanto por motivo de precarização e informalização galopantes como de predação do tempo privado de “não-trabalho” pelo emprego on line da massa crescente de trabalhadores à disposição. A seu ver, esses dois movimentos tornam o velho conceito marxista de exército industrial mais atual do que nunca, desde que devidamente reinterpretado, na medida em que “praticamente todos os trabalhadores converteram-se em seus membros intermitentes/latentes pela permanente desqualificação e informalização”. Assim sendo, a fração propriamente ativa tornou-se minoritária, enquanto a fração estagnada ou lúmpen tende a crescer. Mais importante, o fundo público que se origina da relação contratual de compra e venda de força de trabalho e, quando se constitui, perde seu antigo poder de veto sobre o capital. Com isso, continua Oliveira, a mera “gestão” dos fundos públicos, tais como FAT, PIS, Pasep, FGTS, e não a sua “apropriação pública”, torna-se objetivo maior dessa fração ativa do exército industrial. Nessas condições, os membros desse núcleo preservado (e olhe lá!), convertidos em sujeitos monetários privatizados, não podem nem querem saber da massa sobrante do seu exército. Deve passar por aqui a base material dos dois lances de idiotia social referidos acima. Sobre tal base se ergue a mesma derrocada da inteligência no mundo do trabalho. É claro que Francisco de Oliveira empregou deliberadamente a expressão de Robert Kurz “sujeitos monetários”, fórmula que nesse meio tempo acabou ganhando novo conteúdo, à medida que seu autor foi reabrindo o dossiê do mundo do trabalho que precipitadamente julgara abolido. Pois, comentando o argumento bem conhecido de Richard Sennett sobre a corrosão do caráter dos indivíduos flexibilizados pela desqualificação do trabalho sob o novo capitalismo, Kurz também realça o impulso autodestrutivo que consome tais mônadas “universalmente exploradas e solitárias”, um novo universo da espoliação em que os empregados vão se tornando “manhosos e sem coesão social, que só sabem lograr seus superiores, os clientes e seus demais colegas” 14. Aqui o outro foco do ponto cego em questão. A anulação mental induzida pela privatização do trabalho atroz – como alguns autores franceses chamam a coisa – vem a ser o reverso de uma tolerância crescente com o intolerável – no caso, a injustiça abismal na sociedade polarizada de hoje. Algo como uma reação defensiva igualmente cruel ante o sofrimento que se é obrigado a infligir a si mesmo e aos outros, os que se vêem passar nas levas sucessivas de precarizados e enxotados, pelo sistema, é claro, como nos falsos juízos de atribuição que acompanham esse encasulamento no medo 15. É neste momento que se dá a esterilização da faculdade de pensar e prospera o cálculo dos experts em sobrevivência, deserto mental onde cresce apenas a crueldade social que caracteriza todo o eclipse da reflexão. Aqui voltamos ao topo dos esclarecidos. Ao niilismo da “viração” dos que embaixo moem no aspro corresponde o “saco de maldades” ou a “Wall Street quer sangue” de dois imortais mentecaptos da pedantocleptocracia fernandina.
 

O reino animal

Com uma diferença, seja dito, por assim dizer, em favor das vítimas. Como o nome indica, “bêtise” algo terá a ver com o reino animal. Refletindo sobre sua gênese, nossos dois fracassomaníacos frankfurtianos lembraram que o símbolo da inteligência é a antena do caracol.

“Diante de um obstáculo, a antena é imediatamente retirada para o abrigo protetor do corpo, ela se identifica com o todo e só muito hesitantemente ousará sair de novo como um órgão independente […]. Em seus começos, a vida intelectual é infinitamente delicada […]. O corpo é paralisado pelo ferimento físico, o espírito pelo medo. Na origem as duas coisas são inseparáveis […]. Esse primeiro olhar tateante é sempre fácil de dobrar, ele tem por trás de si a boa vontade, a frágil esperança, mas nenhuma energia constante. Tendo sido definitivamente afugentado da direção que queria tomar, o animal torna-se tímido e burro. A estupidez é uma cicatriz […]. Essas cicatrizes constituem deformações. Elas podem tornar as pessoas estúpidas no sentido de uma manifestação de deficiência, da cegueira e da impotência, quando ficam apenas estagnadas; no sentido da maldade, da teimosia e do fanatismo, quando desenvolvem um câncer em seu interior. A violência sofrida transforma a boa vontade em má” 16.

São esses os pontos cegos que no interior de um indivíduo justamente, como estamos vendo, “designam as etapas em que a esperança se imobilizou”. Porém o que se aplica aos condenados da terra – ao mesmo tempo em que reconhece a massa bestificada pela hipnose fascista na história das frustrações da espécie – não pode evidentemente valer para a indigência histórica do reino animal do espírito que se instalou na capital cultural do FHnistão. Para tal reino não haverá filosofia que encontre circunstâncias atenuantes.
Como o ser em Aristóteles, corrupção também se diz em muitos sentidos, inclusive na acepção brasileira do termo, como a seu tempo veremos, caso este folhetim continue. Ao falar em corrupção da inteligência brasileira, não me passa pela cabeça sugerir que até os maiorais de nosso falido espírito crítico estão criando rã no quintal. Primeiro porque acho que ainda não estou maluco a esse ponto, segundo, e principalmente, porque, sendo moralista, pelo menos com essas coisas não costumo brincar. Como não tive berço dialético, minha mãe estudou no “Des Oiseaux” e meu pai era udenista, peço que me relevem a estreiteza de espírito. Falha de formação, sem dúvida.

Mesmo tendo sido aluno aplicado da Escola Paulista de Pensamento, ainda não consigo encarar a corrupção com suficiente isenção sociológica. Azar, estou agora morrendo na praia. Vejam só, deixei escapar na undécima hora a Astúcia da Razão em pessoa, a manobra radical do genial estadista, na formulação não menos inspirada do filósofo Ortega y Nassif: “Utilizar as armas da fisiologia para derrotar a fisiologia!”. Aplicando esse teorema do materialismo histórico em reconstrução, o fotogênico E.J. definiu-se com toda razão um lobista ao contrário17. Mas também não é dessa corrupção literal – na verdade uma metáfora fóssil – que estou falando, embora não ignore que a dita cuja é antes de tudo um sistema sem sujeito, é claro, porém com cadastro na Receita Federal. A corrupção que me interessa – a extinção da inteligência pela estupidez “crítica” – é muito mais assustadora (afinal tenho interesses profissionais no assunto), pois concerne à decomposição de uma tradição que se vai desmoralizando conforme apodrece. (Avisei que sou moralista.) Sendo assim, o estrago não é nada trivial, de fato uma hecatombe que no limite independe de eventuais traficâncias nas altas paragens do pensamento e do poder. Ou melhor, por isso mesmo interessa investigar conceitualmente, é claro… o lugar do “broker” intelectual na hora pesada em que se encontram o dono do dinheiro e o dono do poder. Ali onde circulam, nas palavras famosas de Braudel, os grandes predadores e vigora a lei da selva, deve a inteligência se corromper na forma gloriosa da mais estupenda e cruel burrice.
 

Cada vez mais do mesmo

Dada a calculada irreversibilidade das políticas de ajuste permanente como fim em si mesmo e o correspondente dano social irreparável que produzem, tudo indica que teremos cada vez mais do mesmo. Diante de uma tal escalada autodestrutiva, a constatação de que a tradição crítica brasileira não tem mais futuro é uma catástrofe menor.

Não sei se estou me fazendo entender, afinal não sou nenhuma exceção e a minha própria capacidade de pensar já deve ter se apagado faz tempo. Os paulistas no poder não são quaisquer, tampouco a desgraça mental que patrocinam. À sua própria revelia, bem entendido, conforme aprofundavam o ponto final em que chafurdamos, iam avançando, com fins apologéticos os mais rasos, nos fundos críticos acumulados pela referida tradição e, por esse caminho de autodestruição do saber herdado, convertendo ponto por ponto o que antes esclarecia e prometia libertação, no seu exato oposto conformista, como se quisessem demonstrar numa derradeira pirueta, cínica ou asnática, vá lá saber, que de fato cedo ou tarde toda Aufklärung, central ou periférica, acaba se convertendo no seu contrário.

A nova mitologia dos fatos se expressa então no autodeslumbramento com que a feroz burrice dos inteligentes se congratula consigo mesma. Porém, o espírito crítico saqueado e barateado parece se vingar quando a antiga teoria crítica passa a funcionar como uma chinfrinzinha teoria tradicional de coisa nenhuma e ainda por cima mobilizada com a pompa e circunstância dos grandes acacianos para os fins da mais trivial dominação de classe.

via O apagão da era tucana – Carta Maior

O Amor, Meu Amor

O Amor, Meu amor

Mia Couto

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

mic-ccc11

No livro “Idades cidades divindades”