Destaque

Abismos

Ser o que vocês sonharam para nós
Está nos rasgando em pequenos pedaços

E, em nossa estrada, em cada curva se estendem
As cruzes de seu passado mal resolvido,
Até onde nosso olhar alcança …

Tentar nos esquivar do inevitável,
Está nos dilacerando membro por membro…

Oh criador, contemple suas criaturas
Perceba nossa imobilidade por coisas vazias
Somos assépticos
Somos ascetas
¬- Assim nada, nada pode dar errado!

Recolhemos nossos sorrisos barulhentos
Para evitar tantas ameaças à nossa pureza!
Nós nos deitamos num altar de sacrifícios
Pela nossa e por todas as gerações anteriores a nós.
Vocês precisaram dessa hecatombe
E nós aceitamos por nossa bondade.

Vivemos nas montanhas…
É o preço a pagar por nossa limpeza.
Permanecemos nas rochas inacessíveis
Aonde ainda podemos morar sem cair nos abismos.
Lá embaixo um oceano nos observa e espera…

Godoy

24

Destaque

Alegria

Quando a “indesejada das gentes”
Passa a não ser tão indesejada assim?
Há um momento em que o cansaço
Vence o entusiasmo e a morte
Passa a ser almejada: por crianças, jovens e
Até por um povo inteiro!

Gente como a menina que deveria estudar,
Segura, trancada no quarto,
ao invés de se enforcar.
Ou gente que vive agora
Na miséria mais degradante,
Que se esquece, num rompante,
De seus filhos para alimentar!

Gente como os índios Kaiowás
De quem vão se lembrar
Apenas pelo nome de algum lugar:
De uma rua de um bairro de periferia.
Num mundo de arrepiar:
Vivem sem lei, sem rei e sem fé
que os protejam e acolham
tudo o que eles são.

Se permitirem, a “civilização” os extinguirá,
porém, horripilantemente,
em museus de raros espécimes, os conservará.

Mas há também gente tão inocente
que, contra todas as expectativas,
Contra todas as probabilidades
Resiste à insuportabilidade da vida.
Gente que canta, vive e sorri
E, nesse decrépito mundo,
Ainda encontra a Alegria!

 

 

Dançarinas do Grupo de Artes Performativas da Associação Chinesa de Pessoas com Deficiência exibem o seu número mais conhecido, a dança Qianshou Kuanyin, ou Bodhisattva de 1000 mãos. a dança do Buda de Mil Mãos prende a atenção de todos, pois são 21 dançarinas surdas e mudas trajadas de dourado, formando uma fila vertical e 42 braços promovem diferentes gestos simultaneamente, levando a todos a imagem do Buda de Mil Mãos, encontrada em muitas grutas da China. A dança maravilhosa foi criada por um famoso coreógrafo chinês, Zhang Jigang.

Destaque

Poesia III

Tirei minha Tristeza pra dançar.
Dançamos uma valsa de silêncios dolorosos,
Rodopiei por salas habitadas
Por todas as partidas prematuras
Em que ela me guiava, me girando pelos ares.

Com um nó preso bem no fundo da garganta,
Entreguei, sem luta e por cansaço,
Minhas fibras à cadência de seus passos.

Olhando bem no fundo de meus olhos, ela me dizia:
_ Eu sou sua! Você é minha!

Sobre lustres refletidos em espelhos multicores,
A Tristeza, me estreitando em seus braços,
Embalou-me numa nuvem luminosa
Onde vive a poesia.

José de Godoy

2018

Destaque

Poeta obscuro

Poeta obscuro,

Eu vejo você quando chora à noite
Por seus sonhos perdidos
E em sua cela sozinho, deseja dormir
E talvez sonhar.
Eu vejo quando sente o peso das injustiças
Presentes e passadas, sem conseguir mais orar.
Eu vejo você quando quer braços quentes
E abraça o vazio.
Vejo seus ombros caídos de tanto lutar.
Vejo o desespero em seus olhos nas horas fatais.
Sinto sua vertigem,
Quando o ponto sem retorno avança sutil.
Sei que você sabe que as tiranias
Sempre vão longe demais,
Não suportam alegria
E condenam ideais.
Vejo seu coração quando um obtuso pelotão
Se prepara para atirar.

 

Manir de Godoy*

  • Eu imaginei como seria um poema escrito por meu pai, se ele estivesse vivo, em homenagem a Carlos Guedes e Federico Garcías Lorca, ambos poetas que foram presos devido a regimes totalitários que esmagam pessoas idealistas. Infelizmente, meu pai faleceu e não teve a oportunidade de conhecer a história de Carlos Guedes, um poeta com centenas de poemas sem nenhum livro publicado, um poeta torturado pelo regime militar no Brasil. Fico imaginando que meu pai e Carlos poderiam ter se tornado grandes amigos, se os seus caminhos pelo mundo tivessem se cruzado. E esse encontro de dois idealistas inspiraria o poema acima.

particular-0432

Destaque

Sonhos abortados

mais um Corpo ou só a fração de um Corpo
dividido, subdividido
uma perna
um tronco
um pes
co
ço.
Só um Corpo.

não maria, não josé
não um idoso
não um moço
um es
bo
ço.
O esTrondo meDonho de uma Onda de Lodo.
Só mais um Corpo.

não aquele boi morto,
boi morto
boi
que rola entre os escombros.
Mais um Corpo Só.

não um só corpo!
Só um Corpo sem passAdo sem futUro sem o sOpro
O abOrto de um sOnho
de
com
posto
pelos Engodos do Vale do Choro.

Só Matéria nos cômputos brutos dos Diários xucros.

Godoy

Imagem relacionada

 

 

Destaque

A Guerra da Arte

A VIDA NÃO VIVIDA

A maioria de nós possui duas vidas. A vida que vivemos e a vida não-vivida que existe dentro de nós. Entre as duas, encontra-se a Resistência.

Você já levou para casa uma esteira ergométrica e deixou-a acumulando poeira no sótão? Já abandonou uma dieta, um curso de yoga, unia prática de meditação? Já se esquivou de um chamado para envolver-se numa prática espiritual, para dedicar-se a uma vocação humanitária, para consagrar sua vida ao serviço de outros? Já quis ser mãe, médico, advogado dos fracos e desamparados? Concorrer a um cargo público, tomar parte numa cruzada para salvar o planeta, fazer campanha pela paz mundial ou pela preservação do meio ambiente? Tarde da noite, já experimentou uma visão da pessoa que você poderia se tornar, da obra que conseguiria realizar, do ser realizado que você deveria ser? Você é um escritor que não escreve, um pintor que não pinta, um empresário que nunca se aventurou num empreendimento de risco? Então você sabe o que é Resistência.

Uma noite, quando eu estava deitado,

Ouvi papai conversando com mamãe.

Ouvi papai dizer para deixar o garoto tocar o boogie-woome

Porque isso está dentro dele e ele tem que colocar para fora *

*John Lee Hooker, letra da canção Booaie Chillen

 

A Resistência é a força mais tóxica do planeta. É fonte de mais infelicidade do que pobreza, doença e disfunção erétil. Ceder à Resistência deforma nosso espírito. Atrofia-nos e nos torna menores do que nascemos para ser. Se você acredita em Deus (e eu acredito), deve considerar a Resistência um mal, pois nos impede de alcançar a vida que Deus planejou para nós ao dotar cada ser humano de seu próprio e único gênio criativo. A palavra gênio vem do latim genius. Os romanos usavam-na para designar um espírito interior, sagrado e inviolável, que nos protege, guiando-nos para nossa vocação. Um escritor escreve com seu gênio; um artista pinta com o seu; todo aquele que cria o faz a partir deste centro sagrado. E a morada de nossa alma, o receptáculo que abriga nosso ser potencial, é o nosso farol, nossa estrela polar.

Resultado de imagem para carl jung sombra

Todo sol lança uma sombra e a sombra do gênio é a Resistência. Por mais forte que seja o chamado de nossa alma para a realização, igualmente potentes são as forças da Resistência reunidas contra ele. A Resistência é mais rápida do que o projétil de uma arma, mais poderosa do que uma locomotiva, mais difícil de renegar do que cocaína. Não estaremos sozinhos se formos dizimados pela Resistência; milhões de mulheres e homens bons foram derrubados antes de nós. E o pior é que nem ficamos sabendo o que nos atingiu. Eu nunca soube. Dos 24 aos 32 anos, a Resistência me jogou treze vezes da Costa Leste para a Oeste e novamente para a Leste e eu nem sequer sabia de sua existência. Procurava o inimigo em toda parte e não conseguia vê-lo bem diante de mim.

Você provavelmente já ouviu a história: mulher fica sabendo que tem câncer, seis meses de vida. Em poucos dias, pede demissão do trabalho, retoma seu sonho de compor canções Tex-Mex que abandonou para cuidar da família (ou começa a estudar grego clássico ou muda-se para a cidade e dedica-se a cuidar de bebês com AIDS). Os amigos da mulher acham que ela enlouqueceu; ela mesma nunca se sentiu mais feliz. Há um pós-escrito: o câncer da mulher começa a regredir.

É necessário tudo isso? É preciso encarar a morte para nos levantarmos e confrontarmos a Resistência? É preciso que a Resistência aleije e desfigure nossas vidas para despertarmos para a sua existência? Quantos de nós se tornaram bêbados e viciados, desenvolveram tumores e neuroses, sucumbiram a analgésicos, mexericos e uso compulsivo do telefone celular, simplesmente por não fazer aquilo que nossos corações, nosso gênio interior, nos impele a fazer? A Resistência nos derrota. Se amanhã de manhã, por algum passe de mágica, toda alma atordoada e ignorante acordasse com o poder de dar o primeiro passo para ir atrás de seus sonhos, todo psiquiatra na lista telefônica fecharia as portas do consultório. As prisões se esvaziariam. As indústrias de bebidas alcoólicas e de cigarro iriam à falência, assim como os negócios de comida pronta de má qualidade, de cirurgia cosmética e de programas de entretenimento “instrutivos” na TV, sem mencionar indústrias farmacêuticas, hospitais e a profissão médica de alto a baixo. Os maus-tratos domésticos se extinguiriam, assim como o vício, a obesidade, enxaquecas, fúria no trânsito e caspa. Olhe no fundo do seu coração. A menos que eu seja louco, neste mesmo instante uma vozinha fraca está sussurrando, dizendo-lhe, como já fez milhares de vezes, qual é a vocação que é sua e apenas sua. Você sabe. Ninguém tem que lhe dizer. E a menos que eu seja louco, você não está mais perto de tomar uma atitude em relação a ela do que estava ontem ou estará amanhã. Acha que a Resistência não é real? A Resistência o matará.

Sabe, Hitler queria ser artista. Aos 18 anos, pegou sua herança, setecentos Krones, e mudou-se para Viena para viver e estudar. Inscreveu-se na Academia de Belas-Artes e posteriormente na Faculdade de Arquitetura. Já viu algum quadro dele? Eu também não. A Resistência o derrotou. Pode achar que é exagero, mas vou dizer mesmo assim: foi mais fácil para Hitler deflagrar a 2ª Guerra Mundial do que encarar uma tela em branco.


Pressfield, Steven
Guerra da arte; tradução de Geni Hirata. – Rio de Janeiro : Ediouro, 2005, da pág. 18 a 21.
ISBN 85-00-01534-9
1. Pressfield, Steven. 2. Criação (Literária, artística etc.).
3. Pensamento criativo. 4. Resistência (Psicanálise).
5. Procrastinação. 6. Inibição.

 

Destaque

O operário que sonhava ser poeta – parte I

Homenagem ao meu amado pai, Manir. Quanta saudade que não cabe em mim! Procurei seguir seu último pedido feito a mim: o de escrever um poema sobre ele. Embora eu tenha sido, até aquele dia derradeiro, apenas uma leitora, me esforcei na tarefa, cujo resultado está muito aquém do valor desse grande homem.

 

In memoriam de Manir de Godoy

 

Era uma vez um menino meio nômade,

Que vivia entre o interior e a cidade grande.

O pai morrera de gangrena.

A mãe costureira sustentava

Com esforço seis filhos:

Eupídio , Cássio, Dirce,

Tó, Manir e Iracema!

 

Vendedor de doces no cinema, engraxate,

Chegou a operário de fábrica de chocolate.

Nada fantástica era a vida desse guri,

Que vivia em um cortiço no Pari.

 

Mas tudo mudou no dia em que encontrou

As letrinhas de metal jogadas na calçada

Que formaram o primeiro poema

do menino sentado no meio fio.

As letrinhas graciosas eram

seu único brinquedo nas horas vagas.

 

Um dia o dono das letras o viu e chamou pra trabalhar.

Ali, sua formação interrompida continuaria.

O menino-operário da tipografia,

Montava admirado textos de poetas e aspirantes;

Panfletos dos primeiros socialistas do país

Que viviam gravitando a sua volta.

Com muito esforço, lia de Lobato e Verne

ao Príncipe Valente e Flash Gordon,

Assim foi se alfabetizando.

 

No cortiço sua mãe se arriscava,

Não levava desaforo pra casa!

Engajado na causa operária,

Começou a ler obras mais sisudas

Do que as que lera numa escola em Bragança.

 

Considerava sincero apenas o “cavaleiro da esperança”…

Por isso, aos 16, fugiu de casa e fundou

o PC em São João da Boa Vista.

Lá via filmes do Mazzaropi,

Dormia em carros alheios,

Tocava violino na praça…

 

Ps.: Por coincidência ou não eu também saí de casa aos 16 anos.

Um dia talvez eu consiga continuar, mas me falta inspiração no momento.

Jaraguá1968

Meu pai me contava que, quando eu era bebê, eu ria até perder o fôlego e ficavam todos com medo de eu sufocar de tanto rir por causa de uma brincadeira do meu irmãozinho Ibsen, que imitava o som das explosões das pedreiras próximas, falando: “Peleila: bum!”

Arnaldo Antunes em um não-poema contra o fascismo

via Arnaldo Antunes em um não-poema contra o fascismo – contraofascismo – Medium

isto não é um poema

desabafo
que não pude não
fazer e não pude fazer
de outra forma
que não fosse
assim
fatiando as frases
no espaço
aqui
hoje
eu vi
aterrorizado
um artista assassinado
Moa do Catendê,
mestre de capoeira,
autor do Badauê —
por conta de uma divergência política num bar
da Bahia
depois corri o dedo
sobre a tela e
vi e ouvi
arrepiado
Luiz Melodia
(também negro e compositor,
também com o cabelo rastafari,
como a vítima do post anterior)
cantando
“no coração do Brasil”
e repetindo muitas vezes
esse refrão
“no coração
do Brasil”
“no coração do Brasil”
que tento sentir
pulsar ainda
entre a luz de Luiz
e a treva
desse buraco vazio
que não pulsa mais no peito
de Moa do Catendê
e “não existe amor em SP”
ou “no coração do Brasil”
fraturado
nesses dias
brutos
de coturnos
chucros
a chutar a cara
de quem
ama
arte
cultura educacão
liberdade de expressão
diversidade
cidadania
solidariedade
democracia
mas não se dá
a mínima
o que importa é se subiu
a bolsa
caiu
o dólar
se todos vão prosseguir
seguindo
docilmente para o abismo
nessa insanidade coletiva
em que o Brasil nega
qualquer Brasil
possível
cega
qualquer futuro possível
e o ódio
o horror e o
ódio
e nada que se diga faz sentido
mais
para quê
expor na cara desses caras
a palavra explícita
(gravada em vídeo e repetida, repetida, repetida)
do seu “mito”
dizendo
“eu apoio a tortura”
“eu defendo a ditadura”
“eu vou fechar o congresso”
“não servem nem para procriar”
“não te estrupro porque você não merece”
“a gente vai varrer esses vagabundos daqui”
“o erro foi torturar e não matar”
“viadinho tem que apanhar”
etc etc etc etc etc
e tudo mais
que repete incansavelmente
há anos
ante câmeras e microfones
para quê mostrar de novo
e de novo
o mesmo nojo
se é justamente
por isso
que o idolatram?
e sempre haverá
os que vêm disfarçar
dizendo:
“estamos entre dois extremos”
“sim, mas veja a Venezuela”
“é para acabar com a corrupção”
“nós queremos segurança”
ou
“não é bem assim…”
enquanto constatamos cada vez mais
que sim,
é assim
mesmo, é assim
que é
mas
como li por aí:
“como explicar a lei Rouanet para quem
ainda não assimilou a lei Áurea?”
ou: como explicar a lei da gravidade
para quem ainda crê
que a terra é plana?
e querem defender sua ignorância com dentes
e garras
querem
matar atirar vingar
a quem?
em nome de quem?
(pátria, família, propriedade, segurança?)
se nessa seara não há direitos
nem respeito
ensino ou dignidade
só horror e
ódio, ódio
e horror
as palavras perdem a clareza
os valores perdem o valor
a vida perde o valor
Marielle
remorta remorrida rematada
por sua placa
rompida rasgada desonrada
pelas mãos truculentas de
brutamontes prepotentes
com suas camisetas estampadas
com a face do coiso
que redemonstra sua monstruosidade
quando vende
em seus próprios comícios
camisetas de outro
ultra-monstro
ustra

aquele que além de torturar
levava crianças para verem
suas mães torturadas

e esses mesmos
abomináveis
que, diante de uma claque vergonhosa,
se orgulham
de terem
rasgado as placas
com o o nome Marielle Franco
estão sim
agora
eleitos
satisfeitos
mas não saciados
de todo o sangue
de inocentes
que há de correr
só por serem
diferentes
excitando em outros
o desejo de exercer
seu obscuro
poder
de milícia polícia esquadrão da morte
e o anúncio da Rocinha metralhada
como solução
a barbaridade finalmente
institucionalizada
como diversão
o Brasil finalmente
sem coração
fora da ONU
e dos acordos internacionais pelo
meio-ambiente
sem controle
de sensatez ou mentalidade
sem limite humanitário
“não vai ter ong!”
“não vai ter ativismo!”
“não vai ter mimimi!”
bradam
cheios de si e de ódio
criminosos contra o crime
opressores pela família
amorais pela moral
apesar de todos
os alertas
da imprensa internacional
de esquerda, de centro, de direita
só não vê quem não quer
a tragédia anunciada
divulgada
não como boato
mas escancarada
-mente
enquanto
empoderados pelo discurso
de ódio
de horror e ódio
seus eleitores
já saem pelas ruas
dando tiros
e gritos
enxurradas de fakes
suásticas nazistas gravadas com canivete
na pele da menina
que usava “ele não” estampado na blusa
e a promessa de violência desmedida
se concretizando
antes mesmo de começar o segundo turno
e nem um centímetro de terra para os índios
e nem um pingo de direitos civis ou humanos
e a volta da censura e o ódio,
o ódio, o horror
e o ódio
pra encerrar de vez
o sonho de uma nação
que tem a chance
de dar ao mundo
sua contribuição
original
agora fadada a repetir o que de pior já houve
na história
sem história agora
sem Museu Nacional
nem cultura nem educação
abolir filosofia e arte
em seu lugar:
moral e cívica
escola militar
religião
geografia dos lucros e dividendos
massacre das minorias
horror e ódio
e ódio
e horror
crescente permanente enquanto dure
pois ninguém larga o osso assim tão fácil
depois de um golpe
que precisa parir outro golpe
ou autogolpe
alimentado por todas as fakes e facas
contra as costas de artistas
como Moa
mas na cabeça de quem apóia
tudo se justifica:
o fascismo
a tortura dos presos
o sumário julgamento sem juri
autorização dada à polícia
para matar
e o ódio aos pobres
as blitzes ostensivas
a guerra declarada
dos que aceitam assassinos para combater bandidos
se está tudo invertido mesmo
pobre elegendo milionário,
pelo avesso e ao contrário
então se autoriza a sórdida
barbárie
dos fortes contra os fracos
algo está muito doente
no Brasil
no descoração do Brasil
que mente, se omite, agride, regride
para avançar sem freios
em direção ao fascismo
seguindo a música hipnótica do
ódio,
horror e ódio
pregados em igrejas
em nome de Deus
e de Cristo
só desamor em nome de Cristo
violência e brutalidade em nome de Cristo
armas e tortura
e preconceito em nome de Cristo
de Deus e de Cristo
armar a população
para metralhar os adversários
os diferentes
os miseráveis
os favelados
os do outro lado
os que se manifestam
ou contestam
ou pensam de outra forma
ou se vestem
de outra cor ou tem
outra cor ou
qualquer pretexto
que se crie
para espalhar o ódio, o horror
e o ódio
do machismo ao estupro
da mentira ao linchamento
do homicídio ao genocídio
(“tinha que ter matado pelo menos trinta mil!”)
já sem democracia
palavra vazia
em boca
de quem compactua
(e não são poucos)
pensando ser
possível
alguma forma de
neutralidade
nesse momento
como Pilatos
lavando as mãos
a chamada mídia
tenta fazer média
ao dizer que os dois lados são igualmente
extremistas e perigosos
mas então
onde estavam nos últimos três mandatos
e meio
antes do pesadelo Temer?
estavam numa ditadura comunista
e não sabiam?
na verdade
todos sabem muito bem
que o extremismo
vem de um só
lado, que
quer se eleger para acabar
com eleições
e que o grande perigo é mesmo
esse jogo
de equivalências que,
na verdade
serve ao monstro
pois a omissão é missão impossível
neste agora
impossível
mascarar o sol
da ameaça
hostil e explícita
do nazismo
crescente
com a peneira furada
de um bom senso
mediano hipócrita indiferente
que sempre
vai dizer:
sim, mas a Venezuela…
como se não tivéssemos ouvido exatamente isso
em 64,
quando diziam:
— Sim, mas Cuba…
para justificar a ditadura militar
que tanto elogiam
hoje em dia
e que o atual
presidente
do nosso Supremo Tribunal Federal
decidiu
que agora vai chamar
de “movimento”
em vez de
“golpe militar”
para adoçar um pouco a boca
amarga
do sangue
impregnado
que não vai sumir assim
mudando a nomenclatura
desnomeando a já tão dita
“ditadura”
mas esse des-
-equilíbrio
ético
que diz
preferir uma autocracia
perfeita
a uma
defeituosa
democracia
esse
erro
que nenhum arrependimento será
capaz de reparar
quando for tarde
demais
ainda dá
para evitar
ainda
é tarde
de menos
para
conter
o ódio,
o horror e o ódio
ainda

dd
a
d

Resultado de imagem para the wall
The Wall, Pink Floyd

 

Um poema inédito de André Luiz Pinto — escamandro

André Luiz Pinto da Rocha nasceu em 1975, Vila Isabel, Rio. Doutor em Filosofia pela UERJ, é autor de: Flor à margem (1999), Um brinco de cetim / Un pediente de satén (Maneco, 2003), Primeiro de Abril (Hedra, 2004), ISTO (Espectro Editorial, 2005), Ao léu (Bem-te-vi, 2007), Terno Novo (7Letras, 2012), Mas valia (Megamíni, 2016), […]

via Um poema inédito de André Luiz Pinto — escamandro

O lobo solitário II

Poética de Botequim

Lobo-guará no cerrado
Lobo-guará no cerrado

Agora me tornei o lobo solitário.
Ele saiu de dentro de mim,
De onde estava entocado!
Com suas garras, com seus dentes,
Com sua fúria sem precedentes
Porque muito o atiçaram.
O lobo está cansado de sentir-se acuado!
Agora saiam da frente
Que a sujeição hoje é passado!

14-11-2012

Ver o post original

Maria Lúcia Alvim (1932) — escamandro

Algumas famílias nos pasmam. Veja esta Alvim: gerou o mais reconhecido, Francisco (1938—), Maria Ângela (1926-1959, cf. post na Modo de usar & co.) e só há pouco fui descobrir, gerou também Maria Lúcia Alvim (1932—), essa poeta impressionante, versátil, tesa, pontilhista, de virtuoso domínio técnico (passando pelo haiku à la Guilherme de Almeida, o […]

via Maria Lúcia Alvim (1932) — escamandro

Meu anjo de Natal

Um sonho que virou poesia

Pedi em oração 

A meu anjo da guarda
Meu fíel irmão.

Que aos corações distantes
A minha mensagem
Gentilmente entregar.

Presente em sentimento
Um abraço e um sorriso
Em pacote de felicidade
Com fitas de alegria.

E queria o destino
Que encantado momento
Viesse em noite de Natal
Essa benção a ti meu anjo
Foi lhe entregar.

Que tenha noites felizes
Que tenha coragem nas dificuldades
Fraternidade em cada abraço
Amigos para amar
E um coração para completar.

Que sejá feliz
Meu amigo, minha amigaEm abençoado Natal!

Ver o post original

“Nossa luta não é só por democracia, mas por outra civilização”, diz Mujica

Ecologia dos Saberes

“Fomos transformados em uma máquina de consumismo. A acumulação capitalista necessita que compremos, compremos e gastemos e gastemos. Vendem mentiras até que te tiram o último dinheiro. Essa é a nossa cultura e a única saída é a contracultura”, afirmou o ex-presidente do Uruguai.

A reportagem é de  Camilla Hoshino, Carolina Goetten e Gibran Mendes, publicada pelo Jornal Brasil de Fato, 27-07-2016.

Para o senador e ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, o atual contexto político do Brasil e da América Latina, com o avanço das forças de direita, não pode ser visto com desânimo. “Nós aprendemos muito mais com as derrotas do que com as vitórias. É preciso levantar e começar de novo”, declarou Mujica durante o Seminário Democracia na América Latina, que reuniu milhares de pessoas nesta quarta-feira (27) em Curitiba.

Segundo o senador, a democracia está em risco no mundo inteiro…

Ver o post original 807 mais palavras

Três mulheres, de Sylvia Plath, por Rafael Zacca — escamandro

SOBRE A TRADUÇÃO Sylvia Plath (1932-1963) compôs Três mulheres como um livro-poema radiofônico. Nesse sentido, não foi escrito para ser lido individualmente, em silêncio, mas para ser falado. Inclui, em sua própria forma, um desejo comunitário. Trata-se, de fato, de uma comunidade de incomuns. As três Vozes do poema são de mulheres que tomaram rumos […]

via Três mulheres, de Sylvia Plath, por Rafael Zacca — escamandro