Guimarães Rosa

Excertos

Grande Sertão Veredas

“O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas.”
“Viver é um rasgar-se e remendar-se.”

“Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.”

“Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina..”

“Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria… Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos… Essa… a alegria que ele quer”

“O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam.”

“Amor é sede depois de se ter bem bebido.”

“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

“Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era – ficar sendo!”

Miguilim

“Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!”

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FORTUNA CRÍTICA DA OBRA DE RIMBAUD | Gaveta do Ivo

Chanson de la Plus Haute Tour

Oisive jeunesse
À tout asservie;
Par délicatesse
J’ ai perdu ma vie.
Ah! Que le temps vienne
Où les coeurs s’ éprennent.

Je me suis dit: laisse,
Et qu’ on ne te voi:
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t’ arrête
Auguste retraite.

J’ ai tant fait patience
Qu’ a jamais j’ oublie;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine

Obscurcit mes veines.

Ainsi la Prairie
À l’ oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D’ encens et d’ ivraies
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.

Canção da Torre Mais Alta

Mocidade presa
A tudo oprimida
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! Que o tempo venha
Em que a alma se empenha.

Eu me disse: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
De algum bem que seja.
A ti só aspiro
Augusto retiro.

Tamanha paciência
Não me hei de esquecer.
Temor e dolência,
Aos céus fiz erguer.
E esta sede estranha
A ofuscar-me a entranha.

Qual o Prado imenso
Condenado a olvido,
Que cresce florido
De joio e de incenso
Ao feroz zunzum das
Moscas imundas.

via FORTUNA CRÍTICA DA OBRA DE RIMBAUD | Gaveta do Ivo

Anjos

Quantas formas teve Zeus?

Quantas vezes desceu do seu Olimpo tomado de anseios por mortais?

Se ele as tomasse em toda a sua Glória, elas sucumbiriam por sua superior existência.

O Deus se animalizou para não transformar em pó uma mortal.

Todo anjo é terrível. Pois o belo é terrível. Secretamente quer nos destruir.

Não se pode fitar o sol.

Nenhum anjo ouviria se eu gritasse.

 

(Releitura da primeira Elegia de Rilke)

TMG

Mentiras sinceras

Hay silencios que lo dicen todo
Y palabras que no dicen nada
Hay corduras que me vuelven loco
Y noches negras de esperanza

Hay riquezas que nos hacen pobres
Y perdones que tan solo acusan
Grandes libertades, que censura esconden
Y disfraces que te desnudan

Y hay disparos que me da la vida
Y amores que matan de veras
Hay insultos que son poesía
Y risas que guardan tristezas
Es siempre la misma ironía
Tiene dos puntas la flecha
Hay verdades que son Mentiras

y Mentiras Sinceras

Hay peligros que al final me salvan
Valentías que despiertan miedos
Entre laberintos, que el camino encausan
Huellas que no tocan el suelo

Y hay disparos que me da la vida
Y amores que matan de veras
Hay insultos que son poesía
Y risas que guardan tristezas
Es siempre la misma ironía
Tiene dos puntas la flecha
Hay verdades que son Mentiras

Esa es la lección que aprendo cada día
Solo cerrare mis ojos cuando quiera ver

Y hay disparos que me da la vida
Y amores que matan de veras
Hay insultos que son poesía
Y risas que guardan tristezas
Es siempre la misma ironía
Tiene dos puntas la flecha
Hay verdades que son Mentiras

y Mentiras Sinceras

Trinta e cinco

No Jaraguá, o homem deitado foi a única testemunha muda daquele encontro de duas almas puras.

O imberbe garoto subiu a montanha para entregar-lhe um buquê de rosas vermelhas.

Na esquina da casa da menina, de onde se avista todo o vale e o horizonte, aquele projeto de beijo tão macio e hesitante.

Tudo tão belo e assustador.

Nada sabiam sobre os mistérios da existência nem sobre protocolos.

Os velhos maliciam porque se esquecem como é ser inocente.

Flores escondidas? Deve ser sortilégio.

Flores vermelhas … deveriam ser brancas.

Era cedo demais para nós.

Agora é tarde.

Pelo menos você me amou um dia.

E eu nem sabia nada de mim.

O sonho permanecerá para sempre cristalizado, imutável.

“Sonhos realizados são sonhos frustrados.”

TGM

Erros

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Mulher de Pedra, Teresópolis

 

Loco nomina

Na Serra dos Órgãos, do Mirante do Inferno pode-se ver a Agulha do Diabo

Bem ao lado do Dedo de Deus e da Pedra da Cruz.

O Frade com seu Capucho, seu Queixo e a Verruga no Nariz olha para o céu esperando o advento.

A Pedra do Garrafão também se avista mais adiante.

Em outra direção, a Mulher de Pedra permanece deitada debaixo do Sol escaldante.

Rebatizem-na Serra do Convento.

 

13-07-2017

O Dedo do meio de Deus

Deus é brasileiro!

Temos seu dedo para provar.

Teremos o dedo do meio de Deus

Até o fim dos tempos?

Tanta beleza e destruição

desses exuberantes templos

Esculpidos em pedra!

O Paquequer em degradação.

Os descendentes de Ceci e Peri

pendurados nos morros

Bem próximos à Granja Comari…

O zunido de helicópteros abafa o de mosquitos.

A Casa da Cultura às margens do rio serpente cercada de curumins, pipas, lixo e sorrisos, apesar de tudo.

Von Martius e seus livros foram esquecidos.

Emboloram mais e mais a cada nuvem que passa por esses picos.

A floresta se vinga das pessoas erradas, avançando sobre quem as amou e recuando diante dos inimigos!

Fomos amaldiçoados e proscritos?

Vivemos uma constante comédia de erros.

Nada é o que parece.

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TGM

 

 

 

Camus/Sartre: le mote de la fin

Il y a six mois, hier encore, on se demandait: «Que va-t-il faire?» Provisoirement, déchiré par des contradictions qu’il faut respecter, il avait choisi le silence. Mais il était de ces hommes rares, qu’on peut bien attendre parce qu’ils choisissent lentement et restent fidèles à leur choix. Un jour, il parlerait. Nous n’aurions pas même osé risquer une conjecture sur ce qu’il dirait. Mais nous pensions qu’il changeait avec le monde comme chacun de nous: cela suffisait pour que sa présence demeurât vivante.

Nous étions brouillés, lui et moi: une brouille, ce n’est rien – dût-on ne jamais se revoir -, tout juste une autre manière de vivre ensemble et sans se perdre de vue dans le petit monde étroit qui nous est donné. Cela ne m’empêchait pas de penser à lui, sentir son regard sur la page du livre, sur le journal qu’il lisait et de me dire: «Qu’en dit-il? Qu’en dit-il EN CE MOMENT?»

Son silence que, selon les événements et mon humeur, je jugeais parfois trop prudent et parfois douloureux, c’était une qualité de chaque journée, comme la chaleur ou la lumière, mais humaine. On vivait avec ou contre sa pensée, telle que nous la révélaient ses livres – «la Chute», surtout, le plus beau peut-être et le moins compris – mais toujours à travers elle. C’était une aventure singulière de notre culture, un mouvement dont on essayait de deviner les phases et le terme final.

Il représentait en ce siècle, et contre l’Histoire, l’héritier actuel de cette longue lignée de moralistes dont les oeuvres constituent peut-être ce qu’il y a de plus original dans les lettres françaises. Son humanisme têtu, étroit et pur, austère et sensuel, livrait un combat douloureux contre les événements massifs et difformes de ce temps. Mais, inversement, par l’opiniâtreté de ses refus, il réaffirmait, au coeur de notre époque, contre les machiavéliens, contre le veau d’or du réalisme, l’existence du fait moral.

Il était pour ainsi dire cette inébranlable affirmation. Pour peu qu’on lût ou qu’on réfléchît, on se heurtait aux valeurs humaines qu’il gardait dans son poing serré: il mettait l’acte politique en question. Il fallait le tourner ou le combattre: indispensable en un mot, à cette tension qui fait la vie de l’esprit. Son silence même, ces dernières années, avait un aspect positif: ce cartésien de l’absurde refusait de quitter le sûr terrain de la moralité et de s’engager dans les chemins incertains de la pratique. Nous le devinions et nous devinions aussi les conflits qu’il taisait: car la morale, à la prendre seule, exige à la fois la révolte et la condamne.

Nous attendions, il fallait attendre, il fallait savoir: quoi qu’il eût pu faire ou décider par la suite, Camus n’eût jamais cessé d’être une des forces principales de notre champ culturel, ni de représenter à sa manière l’histoire de la France et de ce siècle. Mais nous eussions su peut-être et compris son itinéraire. Il avait tout fait – toute une oeuvre – et, comme toujours, tout restait à faire. Il le disait: «Mon oeuvre est devant moi.» C’est fini. Le scandale particulier de cette mort, c’est l’abolition de l’ordre des hommes par l’inhumain.[…] Rarement, les caractères d’une oeuvre et les conditions du moment historique ont exigé si clairement qu’un écrivain vive.

L’accident qui a tué Camus, je l’appelle scandale parce qu’il fait paraître au coeur du monde humain l’absurdité de nos exigences les plus profondes. Camus, à 20 ans, brusquement frappé d’un mal qui bouleversait sa vie, a découvert l’absurde, imbécile négation de l’homme. Il s’y est fait, il a pensé son insupportable condition, il s’est tiré d’affaire. Et l’on croirait pourtant que ses premières oeuvres seules disent la vérité de sa vie, puisque ce malade guéri est écrasé par une mort imprévisible et venue d’ailleurs. L’absurde, ce serait cette question que nul ne lui pose plus, qu’il ne pose plus à personne, ce silence qui n’est même plus un silence, qui n’est absolument plus rien.

Je ne le crois pas. Dès qu’il se manifeste, l’humain devient partie de l’humain. Toute vie arrêtée même celle d’un homme si jeune -, c’est à la fois un disque qu’on casse et une vie complète. Pour tous ceux qui l’ont aimé, il y a dans cette mort une absurdité insupportable. Mais il faudra apprendre à voir cette oeuvre mutilée comme une oeuvre totale.

Dans la mesure même où l’humanisme de Camus contient une attitude humaine envers la mort qui devait le surprendre, dans la mesure où sa recherche orgueilleuse et pure du bonheur impliquait et réclamait la nécessité inhumaine de mourir, nous reconnaîtrons dans cette oeuvre et dans la vie qui n’en est pas séparable la tentative pure et victorieuse d’un homme pour reconquérir chaque instant de son existence sur sa mort future.

Jean-Paul Sartre

(Texte publié le 7 janvier 1960 dans « France Observateur ».)

Reunião+no+ateliê+de+Picasso,+em+Paris

“Protesto pacífico” não é possível sem investimentos em Educação

“Protesto pacífico” não é possível sem investimentos em Educação

O que me espanta é que a violência não seja muito maior

                                                                                                                                   Thaís de Godoy

Todos os dias, aproximadamente 14 milhões de desempregados, outros tantos assalariados e subempregados assistem às notícias sobre a roubalheira de empresários e políticos, que passa a casa dos bilhões. A população injustiçada, que não tem Educação de qualidade, nem saúde, nem segurança, e paga seus impostos diretamente nos produtos que compra, se sente cada dia mais tripudiada pelos poderosos.

Um Estado violento, um jornalismo violento, que repete continuamente que bandido bom é bandido morto, estimula o instinto de violência dos espectadores. Nesse momento, porém, os maiores bandidos são os políticos e empresários pois com apenas uma assinatura podem matar aos milhares pessoas do país inteiro.

Ontem, a imprensa apesar dos fatores acima rotulou os manifestantes dos protestos contra o governo de vândalos, sem a menor análise do contexto em que vivemos, numa abordagem simplista da situação que a própria mídia vem causando.  É preciso analisar o que vem ocorrendo nesses protestos que não atendem aos interesses do governo.

Nesse protesto se infiltraram elementos da polícia mascarados a paisana para começar a agressão e ter um pretexto para a polícia fardada atacar os verdadeiros manifestantes. Foi flagrado por filmagens amadoras um grupo infiltrado que combinava um ataque, agindo totalmente contra as orientações dos carros de som de quem organizava o evento. Essa tática é muito conhecida de manifestantes opositores de governos autoritários.

Num relato de policiais civis, que mostraram seus rostos, deram seus nomes e patentes, Major Hélio Cunha, Tenente Fonseca e o Diretor do Sinpol, a versão é de que o ataque gratuito partiu da PM de forma covarde contra os cidadãos sem que eles tivessem sequer com reagir às bombas.

Um fato “estranho” é por que os manisfestantes queimariam os próprios banheiros que foram colocados ali para servi-los por sindicatos e outras organizações? Outro é como os funcionários públicos dos Ministérios sabiam com antecedência que esses grupos se dirigiriam até esse local e evacuaram os edifícios com antecedência?

Então, jornalistas, como se tivessem nascido ontem, ficam espantados quando a população se revolta e parte para a violência. O que me espanta é que a violência não seja muito maior.

Para a população, vandalismo é desviar o dinheiro da previdência que ela pagou por 30 anos, enquanto um político trabalha só 8, é roubar de Hospitais, de Escolas, da Merenda das crianças. O vandalismo dos protestos é uma reação ao vandalismo predatório que os políticos e empresários praticam diariamente sobre os cofres públicos. O chavão “violência gera violência” não deixa de ser verdadeiro por ser uma frase desgastada, mas seu uso frequente no discurso parece não ter eco nas ações cotidianas das autoridades.

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Métodos pacíficos de protesto não podem ser ensinados na escola, ou podem? Na escola sem partido, isso seria uma doutrinação? Sem nenhuma educação sobre protestos pacíficos, negociação diplomática de conflitos o que me deixa espantada é que esses incidentes de violência não sejam mais numerosos e não tenham tantos participantes como os protestos contra o aumento da passagem dos ônibus.

Cidadãos brasileiros, que veem os cortes do orçamento afetarem apenas os mais pobres e o Presidente Michel Temer perdoar as dívidas bilionárias de Bancos, naturalmente estão com muita raiva. Quem não está com raiva ou está mal informado e alienado, ou não tem princípios, ou é monge budista.

A integridade física do povo brasileiro é desrespeitada todos os dias quando é levado como gado para seus trabalhos em um transporte coletivo indigno de um ser humano. As pessoas da classe média ficam chocadas quando se queimam os ônibus, mas não entendem como é ficar por horas esperando, pagar para ser espremido ou simplesmente ter que parar de estudar porque a empresa resolveu interromper a circulação no horário noturno.

Claro que as consequências serão sofridas pelo próprio povo e ele sabe disso, mas em algum momento o sentimento de vingança contra todas as mazelas das quais são vítimas eclode e fica irrefreável. Nem o medo de bombas de efeito moral é capaz de estancar a revolta de pessoas que já não têm mais nada a perder.

Hospitaldo rio

A integridade física do povo nunca foi respeitada pelos poderosos. O povo sofre esse vandalismo diariamente.

Veja se algum político ou empresário algum dia se preocupou com a integridade física do povo. Agora os jornalistas estão com pena dos funcionários públicos e políticos ilhados em Brasília? O que os jornalistas esperavam? Que os brasileiros aceitassem ser feitos de palhaços a vida toda? O povo não aguenta mais.

Se é muito difícil para uma pessoa que tem fortes princípios pacifistas se controlar nesta situação; outra que não os têm nem tenta. Quem incutirá princípios pacifistas no povo? O Bolsonaro? Que diz que a população tem que se armar? Imaginem essas pessoas revoltadas em Brasília (com razão) e armadas como quer o mito? O único mito que se enquadra no perfil desse político é o do Caos, que se instalaria no Brasil se um povo com tanta raiva e sem formação para negociar diplomaticamente conflitos, começasse a se armar. Os primeiros a serem mortos, provavelmente, seriam os políticos bandidos e o mito se enquadra nesse perfil também, como ele mesmo confessou, recentemente.

Por isso, um dia, os políticos vão se arrepender amargamente de não terem cumprido suas promessas de campanha de investir em Educação de qualidade.

Proposição borgeana

Você tem um pesadelo assustador com uma pessoa há muito esquecida, há muito distante, há muito perdida.

Acorda e verifica em seguida que ela viu, enquanto você dormia, uma imagem que você exibia.

Como não lembrar da proposição  borgeana: e se você sonhasse com uma flor e quando acordasse, encontrasse a mesma flor pousada sobre a sua cama?

O que você pensaria?

O que motivou esse pesadelo?

E essa estranha sincronia?

E se algo ruim estiver para acontecer com ela?

E se você sentiu medo de que algo ruim aconteça a ela?

E se você teve uma premonição?

E se ela precisar de ajuda?

E se for apenas uma situação desagradável do seu dia que lhe trouxe à memória o quão essa pessoa era desagradável?

E se, sem saber, você desejar que o pesadelo se realize?

E se você sentiu terror por não aceitar que é capaz de desejar a alguém o mal?

E se…. o pesadelo só disser algo sobre você mesmo?

A limpeza étnica da Palestina

DANIEL AVELAR
DE SÃO PAULO
27/04/2017 07h00

Israel não conseguirá manter o sistema ideológico que o sustenta para sempre. Quem faz o prognóstico é o historiador israelense Ilan Pappé.

Estamos em uma encruzilhada: as pessoas em Israel sabem do que o país fez no passado e faz no presente, mas a maioria ainda aceita isso e parece não se importar”, afirma o historiador, para quem pressões externas e “novas gerações” provocarão mudanças em Israel.

Pappé, 62, é um dos principais nomes dos chamados “novos historiadores israelenses”, grupo que analisa criticamente os eventos que levaram à fundação do Estado de Israel, em 1948, a partir do estudo de arquivos militares mantidos em sigilo até a década de 1980.

Ele escreveu o livro “A Limpeza Étnica na Palestina”, no qual argumenta que houve um processo planejado de expulsão e massacre de milhares de palestinos que viviam no território que viria a ser o Estado de Israel.

Sua hipótese contradiz a narrativa tradicional sobre o tema, segundo a qual os palestinos fugiram da região devido à guerra iniciada pelos países árabes contra Israel.

O historiador sofreu pressões e ameaças desde que publicou a obra, em 2006, e por isso hoje vive exilado no Reino Unido, onde é professor na Universidade de Exeter. Pappé, que está no Brasil para uma série de palestras de lançamento da edição brasileira da obra (ed. Sundermann), conversou com a Folha.

Leia, abaixo, trechos da entrevista.

*

Folha – Em seu livro, você defende a tese de que Israel foi fundado com base na limpeza étnica dos palestinos que viviam ali. Como seus compatriotas reagiram a essa ideia?

Ilan Pappé – No início, tentaram ignorar o livro e eu fui muito criticado, o que causou muitos problemas para mim. Aparentemente, para a academia israelense, falar que nosso país cometeu crimes contra a humanidade é cruzar uma linha vermelha.

A verdade é que as pessoas olham para os mesmos fatos com lentes diferentes. Se você vê o que aconteceu na Palestina em 1948 de uma perspectiva humanista, só se pode chegar a uma conclusão: as forças sionistas expulsaram milhares de pessoas e demoliram centenas de vilas palestinas, o que configura limpeza étnica.

Os israelenses não são os únicos a colonizar uma terra estrangeira, várias nações europeias fizeram isso no passado. Mas os israelenses são os únicos a negar o que fizeram.

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Você acredita que a sociedade israelense mudou a percepção que tem sobre si mesma nos últimos anos?

Atualmente, há mais conhecimento do que nas últimas décadas sobre os acontecimentos de 1948. A grande maioria dos israelenses sabe que milhares de palestinos foram expulsos de suas casas e que 500 vilas foram apagadas do mapa. Estamos em uma encruzilhada: as pessoas em Israel sabem do que o país fez no passado e faz no presente, mas muitos ainda aceitam isso e parecem não se importar.

Eu acredito que uma resposta global dura e mudanças de percepção na comunidade judaica ao redor do mundo são fundamentais para que Israel deixe de cometer atrocidades.

Falo com muitos israelenses jovens e vejo uma atitude diferente, mais crítica do que as gerações anteriores. Por isso, sou otimista. Penso que Israel não conseguirá manter o sistema ideológico que o sustenta para sempre.

Donald Trump já indicou possíveis mudanças na política dos EUA para Israel, como transferir a embaixada para Jerusalém. O que seu governo pode representar?

Honestamente, creio que a política dos EUA para Israel não é apenas baseada na personalidade de um presidente. Todos pensavam que Barack Obama era pró-Palestina, mas na prática ele não mudou em nada as diretrizes da política americana. Há outros fatores em jogo, como o lobby pró-Israel e o as pressões do complexo militar-industrial, que ainda vê Israel como um ativo.

Por outro lado, a sociedade civil e a comunidade judaica nos EUA nunca foram tão críticas a Israel quanto hoje. Penso que muitas coisas vão mudar nos EUA, e Trump não é a causa dessas mudanças. Talvez seja um sintoma.

2017 marca o 50º aniversário da Guerra dos Seis Dias. Qual a relação desse evento com o processo que você chama de limpeza étnica?

Há uma continuidade histórica. Os judeus foram para a Palestina porque precisavam fugir do genocídio na Europa, mas implementaram um projeto colonial. Para o sionismo, que considero ser o último movimento colonial, é preciso ter o máximo da Palestina com o mínimo de palestinos possível, caso contrário o projeto não consegue se concretizar.

Em 1948, expulsaram a maioria dos palestinos para, ironicamente, criar uma democracia judaica em parte do território. Em 1967, resolveram ocupar o resto da Palestina, incorporando muitos dos palestinos que haviam sido expulsos em 1948. Isso criou um problema demográfico.

Para resolver esse problema, não houve expulsões sistemáticas, mas se fez algo tão ruim quanto a limpeza étnica. Israel implementou uma ocupação militar sem conceder cidadania, negando aos palestinos o direito de decidir sobre o próprio futuro.

Isso criou o que eu chamo de “megaprisões palestinas”, com graus diferentes de liberdade. Em algumas partes da Cisjordânia se é mais livre, como se fosse uma “prisão aberta”, mas Gaza, por exemplo, é tão fechada que nem se entra mais lá, só se bombardeia.

Quando, e por que, você passou a se opor ao sionismo?

Foi um processo longo, com várias etapas. Eu queria virar um historiador e percebia que as evidências que via não batiam com a narrativa sobre Israel que era apresentada para mim.

Na universidade, eu tive um orientador árabe e, quando estudei em Oxford, pude conversar com palestinos de igual para igual. Penso que o divisor de águas nesta travessia foi a invasão israelense ao Líbano em 1982. Pela TV, eu podia ver o que meu país estava fazendo e não tinha como justificar todas aquelas atrocidades.

Eu não tenho problemas com a ideia de um Estado judeu, mas isso se torna moralmente inaceitável quando depende da expulsão e opressão sistemática dos palestinos. Tenho lutado contra isso minha vida inteira.

Penso que existe uma alternativa para essa situação. Judeus e palestinos podem viver juntos em um Estado democrático, não precisam viver em um sistema de apartheid.

Por que você apoia o BDS (campanha de boicote, desinvestimento e sanções contra Israel)?

Eu acreditava que a diplomacia e o processo de paz poderiam resolver o problema, mas passaram-se anos e a ocupação continuou. Também comecei a perceber que o problema não era a política do governo, mas a ideologia do Estado.

Por isso, passei a apoiar o BDS. Como israelense, aceitar isso era difícil para mim no começo, era o mesmo que dizer “por favor, me boicote”. Os israelenses contrários à campanha a acusam de ser antissemita ou, no caso do boicote às universidades israelenses, dizem que é um ataque à liberdade de expressão. Repetem que a solução é dialogar.

Mas a verdade é que as tentativas de diálogo anteriores fracassaram e o BDS, de algum modo, nos obriga a conversar, ainda que não seja uma conversa agradável.

Acusar o BDS de ser antissemita não é um argumento bem pensado, embora possa convencer pessoas inteligentes. Não há qualquer paralelo entre uma forma de preconceito que está aí há milhares de anos e os pedidos para que um grupo —que diz agir em nome de todos os judeus– pare de cometer violações de direitos humanos.

Eu acredito que precisamos mudar todo o vocabulário que usamos para nos referir à questão Israel/Palestina. Em vez de falar em processo de paz, devemos começar a falar em descolonização.

Isso é um grande desafio pois sabemos como ocorreram descolonizações no passado, mas não fazemos ideia do que isso significa no século 21. Palestinos vivem situações muito diferentes em Gaza, na Cisjordânia e em Israel, e também é preciso pensar no retorno dos refugiados.

Para mim, é muito inspiradora a forma como o processo de descolonização se deu na África do Sul. Esse exemplo nos mostra exatamente o que buscamos: não queremos vingança, mas reparação.

*

RAIO-X
ILAN PAPPÉ

Nascimento
Haifa (Israel), 7 de novembro de 1954

Formação
Graduação em história na Universidade Hebraica de Jerusalém e pós-doutorado na Universidade de Oxford

Ocupação
Professor da Universidade de Exeter

Principais obras
“História da Palestina Moderna: Uma Terra, Dois Povos”, “Os Palestinos Esquecidos: A História dos Palestinos em Israel” e “A Limpeza Étnica da Palestina” (ed. Sundermann)

 

O Amor, Meu Amor

O Amor, Meu amor

Mia Couto

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

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No livro “Idades cidades divindades”

A Casa Branca Nau Preta

A Casa Branca Nau Preta

Álvaro de Campos

Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se…

Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro…

Não existe manhã para o meu torpor nesta hora…

Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim…

Há uma interrupção lateral na minha consciência…

Continuam encostadas as portas da janela desta tarde

Apesar de as janelas estarem abertas de par em par…

Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo,

E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma…

Quem dera que houvesse

Um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois…

Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem…

A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar

Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir…

 

As naus seguiram,

Seguiram viagem não sei em que dia escondido,

E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,

Os ritmos perdidos das canções mortas do marinheiro de sonho…

 

Árvores paradas da quinta, vistas através da janela,

Árvores estranhas a mim a um ponto inconcebível à consciência de as estar vendo,

Árvores iguais todas a não serem mais que eu vê-las,

Não poder eu fazer qualquer coisa gênero haver árvores que deixasse de doer,

Não poder eu coexistir para o lado de lá com estar-vos vendo do lado de cá.

E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no chão…

 

Que sonhos? … Eu não sei se sonhei … Que naus partiram, para onde?

Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteira

Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim,

E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,

Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,

E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida…

 

Quem pôs as formas das árvores dentro da existência das árvores?

Quem deu frondoso a arvoredos, e me deixou por verdecer?

 

Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele,

Sentir sem auxílio de poder para quando quiser, e o mar alto

E a última viagem, sempre para lá, das naus a subir…

Não há, substância de pensamento na matéria de alma com que penso …

Há só janelas abertas de par em par encostadas por causa do calor que já não faz,

E o quintal cheio de luz sem luz agora ainda-agora, e eu.

Na vidraça aberta, fronteira ao ângulo com que o meu olhar a colhe

A casa branca distante onde mora… Fecho o olhar…

E os meus olhos fitos na casa branca sem a ver

São outros olhos vendo sem estar fitos nela a nau que se afasta.

E eu, parado, mole, adormecido,

Tenho o mar embalando-me e sofro…

Aos próprios palácios distantes a nau que penso não leva.

As escadas dando sobre o mar inatingível ela não alberga.

Aos jardins maravilhosos nas ilhas inexplícitas não deixa.

Tudo perde o sentido com que o abrigo em meu pórtico

E o mar entra por os meus olhos o pórtico cessando.

Caia a noite, não caia a noite, que importa a candeia

Por acender nas casas que não vejo na encosta e eu lá?

 

Úmida sombra nos sons do tanque noturna sem lua, as rãs rangem,

Coaxar tarde no vale, porque tudo é vale onde o som dói.

 

Milagre do aparecimento da Senhora das Angústias aos loucos,

Maravilha do enegrecimento do punhal tirado para os atos,

Os olhos fechados, a cabeça pendida contra a coluna certa,

E o mundo para além dos vitrais paisagem sem ruínas…

 

A casa branca nau preta…

Felicidade na Austrália…

 

Bares e restaurantes literários

É bom beber e discutir um pouco de literatura, não? Não só beber, é claro, mas aproveitar um bom jantar também enquanto isso. E que tal então fazer isso em um lugar perfeitamente apropriado? Digamos, em bares ou restaurantes inspirados em literatura? Gostou da ideia?

Então veja abaixo uma lista com alguns bares e restaurantes diretamente inspirados na literatura! E não pense que são só lugares fora do Brasil, tem alguns muito bons por aqui mesmo. Há restaurante com o poema O Corvo do Poe na parede, mas claro que, para quem vai para o exterior, também há lugares incríveis com decorações desde Wonderland, no Japão, até Senhor dos Anéis, na Nova Zelândia. São opções para os mais diversos gostos. Então, vamos à lista, um brinde à literatura e bon appétit!

Annabel Lee’s Tavern – Baltimore, Maryland

Como todo bom fã de Poe, preciso começar a lista por um dos lugares inspirados no grande mestre do conto. O pub Annabel Lee Tavern fica exatamente na cidade onde viveu o escritor, ou seja, em Baltimore. O lugar tem uma decoração belíssima, com direito a uma pintura do corvo na porta, um retrato de Poe na parede, sobre o qual pode-se ver um corvo pousado, além, é claro, do poema Annabel Lee, pintado na parede.

No lugar ocorrem apresentações e celebrações ao aniversário de Poe e o cardápio inclui hambúrgueres, fritas, pizzas e alguns pratos mais elaborados, com algumas opções vegetarianas, que podem ser vistas nos cardápios publicados no facebook do pub. No que se refere a bebidas, também há muitas opções, porém a que mais se destaca é The Raven Beer, que já vale só pelo visual da embalagem!

The Raven – Porto Alegre, RS

Depois do pub Annabel Lee Tavern, nos Estados Unidos, aqui vai uma dica de lugar também inspirado no mestre Poe e aqui no Brasil mesmo! O restaurante The Raven, localizado na Cidade Baixa, na Rua Sarmento Leite, tem uma decoração no estilo restaurantes antigos, com paredes de tijolos à vista e lustres, contando com uma placa de madeira com um corvo na entrada e o poema de Poe pendurado na parede. As opções de cardápio são bem variadas, contendo muitos pratos elaborados, com diferentes opções de entradas, pratos principais e sobremesas. Além disso, é claro, há várias opções de bebidas desde cervejas artesanais até drinks destilados e vinhos.

 

Bar Bukowski – Rio de Janeiro, RJ

Apesar do nome, o lugar é mais uma casa de festas rock’n roll do que apenas um bar mesmo. Lá são realizadas diversas festas desde eventos temáticos de Halloween, festas à fantasia e, é claro, comemorações no dia do aniversário de Bukowski. É a casa de rock mais antiga do Rio de Janeiro, sendo que foi estabelecida em 1997 e continua até hoje sendo um dos mais importantes bares do Rio. Inclusive, foi lançado neste ano um livro sobre histórias do bar, escrito por Bernardo Vilhena, compositor de músicas interpretadas por artistas desde Cazuza até Lobão entre outros.

Dirty Old Man – Porto Alegre, RS

O grande Bukowski, seja por ter sido ele mesmo um grande frequentador de bares ou por sua alta influência na literatura e cultura em geral das gerações seguintes, inspirou muitos bares a levarem o seu nome, ou, como neste caso, o nome de sua obra. O nome do bar porto alegrense, Dirty Old Man, para os poucos que por acaso não tenham reconhecido, é uma referência à coluna de Bukowski no jornal Los Angeles Open City, a qual deu origem ao livro de mesmo nome.

O Dirty Old Man fica na Cidade Baixa, centro de maior concentração de bares e vida noturna em Porto Alegre. O bar, que completou um ano recentemente, já é muito frequentado (é bom chegar cedo, porque quase sempre lota!) e tem uma decoração diretamente ligada à literatura, incluindo máquinas de escrever, cardápio com trechos da obra de Bukowski, estantes com livros, além, é claro, de fotos do grande escritor americano cuja obra serviu de inspiração para o lugar. Ótimo para quem gosta de Bukowski e de beber!

Restaurante Alice no País das Maravilhas – Tóquio, Japão

Situado em um shopping, na zona comercial do distrito de Ginza, em Tóquio, este restaurante é uma experiência visual única de entrar na Wonderland de Lewis Carrol. O lugar tem um espaço de mais de 200 metros quadrados, divididos em vários ambientes que representam as diferentes partes da trajetória de Alice, desde a entrada, com livros gigantes, para fazer o cliente se sentir pequeno, como Alice quando diminui para entrar na porta que leva à Wonderland, até um labirinto, a entrada do ambiente da Rainha, com guardas de cartas e corredores cobertos com as ilustrações originais de Carrol.

Além da decoração, o cardápio também é inspirado no livro: você pode pedir a “pizza rabo de gato Cheshire” ou a “bochecha de carne assada Queen of Hearts com molho de vinho tinto”. E quem irá servi-lo não será apenas um atendente com uniforme normal, mas um personagem da Wonderland! Pois os empregados do restaurante usam uniformes temáticos para realmente dar a impressão de que o cliente entrou no mundo criado por Lewis Carrol!

The Green Dragon Pub – Matamata, Nova Zelândia

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Localizado exatamente onde foi construída a cidade dos Hobbits para a gravação de O Senhor dos Anéis, na vila de Hobbiton na cidade de Matamata, parte da zona rural da Nova Zelândia, o pub é descrito em sua Fan Page no facebook como “um lugar para beber, um lugar de encontro, um lugar para descansar os seus pés peludos”. Ou seja, um lugar perfeito para os fâs de Tolkien, que já se tornou um grande ponto turístico do país.

Texto original publicado em Literatortura em Julho de 2016.

 

Alegria

Alegria

Não se desesperem com as PECs no meio do caminho,

com a alta do dólar,

com a venda do Brasil,

com a perda dos salários, com a falta de trabalho

com a corrupção, com os privilégios dos políticos, dos ricos, dos magistrados

com a morte da poesia

com a vitória de um imbecil.

Não se desesperem se disserem que vocês devem ser tratadas como mercadoria,

Ou se um dia perceberem que o céu não é mais anil.

Não se desesperem com a morte das crianças na Síria.

Apesar de tudo e contra tudo: ALEGRIA.

Velvet Goldmine-David Bowie

Velvet Goldmine-David Bowie

 

You got crazy legs, you got amazing head
You got rings on your fingers and your hair’s hot red
You got wit from my tongue, name on the sun
I gotcha going to my breast
Cause you’re the only one, who uses school to pleasure

You make me act real gone, you make me trawl along
I had to ravish your capsule, suck you dry
Feel the teeth in your bone, heal ya head with my own
Why if I don’t have you home, we’ll have to fight alone
Hang all together

Velvet Goldmine, you stroke me like the rain
Snake it, take it, panther princess you must stay
Velvet Goldmine, naked on your chain
I’ll be your king volcano right for you again and again
My Velvet Goldmine

You’re my taste, my trip, I’ll be your master zip
I’ll suck your hair for kicks, you’ll make me jump to my feet
So you’ll give me your hand, give me your sound
Let my sea wash your face, I’m falling, I can’t stand
Oooh! Put your mink on

Velvet Goldmine, you stroke me like the rain
Snake it, take it, panther princess you must stay
Velvet Goldmine, naked on your chain
I’ll be your king volcano right for you again and again
My Velvet Goldmine

Oh
Shoot you down, bang bang

Velvet Goldmine, you stroke me like the rain
Snake it, take it, panther princess you must stay
Velvet Goldmine, naked on your chain
I’ll be your king volcano right for you again and again
My Velvet Goldmine

Velvet Goldmine,
Velvet Goldmine,
My Velvet Goldmine
Velvet Goldmine

 

Os Homens Ocos – T.S. Eliot

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Os Homens Ocos
(T. S. Eliot)

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

— Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular.

 

(Trecho de Os Homens Ocos, de T.S. Eliot. Tradução de Ivan Junqueira)

Consoada

Consoada

Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

 

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CANTO DA ESTRADA ABERTA

Canto da estrada aberta

Walt Whitman

A pé e de coração leve

Eu enveredo pela estrada aberta,

Saudável, livre, o mundo à minha frente,

À minha frente o longo atalho pardo

Levando-me aonde eu queria.

 

Daqui em diante não peço mais boa-sorte,

Boa-sorte sou eu.

Daqui em diante não lamento mais,

Não transfiro, não careço de nada;

Nada de queixas atrás das portas,

De bibliotecas, de tristonhas críticas;

Forte e contente vou eu

Pela estrada aberta.

 

A terra é quanto basta:

Eu não quero as constelações mais perto

Nem um pouquinho, sei que se acham muito bem

Onde se acham, sei que são suficientes

Para os que estão em relação com elas.

 

(Carrego ainda aqui

os meus antigos fardos de delícias,

carrego – homens e mulheres –

carrego-os comigo por onde eu vou,

confesso que é impossível para mim

ficar sem eles: deles estou recheado

e em troca eu os recheio.)

 

A terra a se expandir

À esquerda e à direita,

Pintura viva – cada parte com

A luz mais adequada,

A música a se ouvir onde faz falta

E a se calar onde não é querida,

A jubilosa voz da estrada aberta,

A alegre e fresca sensação da estrada.

 

Ó estrada que percorro, é a mim que dizes

“não me deixes”?

Dizes “não te aventures, se me deixas

Estás perdido”?

Dizes “já estou preparada,

Bem batida e transitada,

Fica comigo”?

Ó estrada minha e de todos,

O que lhe posso dizer

É que não tenho medo de deixá-la,

Por mais que a ame: você me expressa melhor

Do que eu expresso a mim mesmo,

Você há de ser para mim

Mais do que o meu poema.

 

 

Allons! Nós não devemos

Ficar aqui parados, por mais doces

Que sejam estes armazéns fornidos,

Por mais conveniente

Que pareça esta casa, nós aqui

Não podemos ficar,

Por mais abrigado que seja o porto

E por mais calmas que estas águas sejam,

Aqui nós não devemos ancorar;

Por mais acolhedora

Que seja a hospitalidade que nos cerca,

Não nos é permitida desfrutá-la

Senão por bem pouco tempo.

 

Ouça-me! Eu vou ser franco com você:

Não ofereço velhos prêmios fáceis,

O que ofereço são novos prêmios difíceis.

Eis como hão de ser os dias que lhe podem suceder:

Você não acumulará riquezas, assim chamadas,

Distribuirá com mão pródiga

Tudo o que venha a adquirir ou ganhar,

Nem bem chegando à cidade a qual era destinado

Dificilmente se há de estabelecer

E ter alguma satisfação

sem que ouça um apelo irresistível

a de novo partir,

terá de acostumar-se às zombarias

e aos risinhos irônicos

dos que foram ficando para trás,

aos acenos de amor

que receber

você dará em resposta

somente apaixonados beijos de despedida,

e não permitirá

o abraço das pessoas que vierem

com as mãos suplicantes

em sua direção.

 

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Estrada Real

O GLOBO pede fim do ensino superior gratuito

Hum Historiador

Em editorial publicado neste domingo (24), O Globo pede o fim do ensino superior gratuito no Brasil. Embora não seja surpresa que tal instituição defenda a privatização das universidades públicas, uma vez que ela já demonstrou, em diversas oportunidades, estar sempre na contramão do interesse público, do acesso democrático às instituições e da democracia, em si, como já tivemos oportunidade de escrever neste blog (O Globo saúda Golpe Militar; Globofilmes destrói cinema nacional; Globo manipula dados na cobertura das eleições venezuelanas), o destaque é a maneira cruel e covarde como ela argumenta pela extinção do ensino superior gratuito.

Segundo o texto, o que justificaria o fim do ensino superior gratuito é a sua “injustiça” e o gatilho que está dando oportunidade ao governo golpista de Michel “Fora” Temer privatizá-lo é a crise, como indica o título do editorial. O argumento principal do editorialista é que a maior parte das vagas…

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Vampiro de Charles Baudelaire

VAMPIRO

Tu que, como uma punhalada
Invadiste meu coração triste,
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar o leito ao ascendente,
– Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,

Como a seu jogo o jogador,
Como à garrafa o beberrão,
Como aos vermes a podridão
– Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz
Dar-me a liberdade, um dia,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.

Mas não! O veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeiro
“Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro

Ah! imbecil – de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!”

A-Dança-dos-Vampiros-1967-4

A Dança dos Vampiros de Roman Polanski com Sharon Tate e Jack MacGowran como o Prof. Abronsius

 

Asa de beija-flor

Silvio Rodrigues

 

Hoje eu me proponho fundar um partido de sonhos,

oficinas onde consertar asas de beija-flores

Admitem-se loucos, enfermos, gordos sem amor,

tolhidos, anões, vampiros e dias sem sol.

 

Hoje eu vou patrocinar a candura desenganada,

essa massa crítica de Deus que não é pós e nem moderna.

Admite-se proscritos, raivosos, povos sem lar,

desaparecidos devedores do banco mundial.

 

Por uma rua

descascada

por uma mão

bem apertada.

 

Hoje eu vou fazer uma assembléia de flores murchas,

de restos de festa infantil, de pinhatas usadas,

de almas penadas -do reino do natural-

que otorgam licença à qualquer artefato de amar.

 

Pelo levante,

pelo poente,

pelo desejo,

pela semente.

por tanta noite,

pelo sol diário,

em companhia

e em solitário.

 

Asa de beija-flor,

leve e pura.

Asa de beija-flor

para a cura.

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Primeiro livro impresso colorido do mundo ganha versão digital – Follow the Colours

O 1º livro colorido impresso do mundo, chamado de ‘Manual de Caligrafia e Pintura’, foi aberto e digitalizado. Confira desenhos e páginas em alta resolução!

Fonte: Primeiro livro impresso colorido do mundo ganha versão digital – Follow the Colours

“A desgraça cria, em certas almas, um vasto deserto, onde a voz de Deus repercute.” in “A Comédia Humana” de Balzac

Fragmentos

Estou lendo A Comédia Humana de Balzac vol.2 (tradução de Vidal de Oliveira) e vou publicar aqui, conforme vou lendo, as frases de seus personagens ou dos narradores que mais me emocionaram levando-me às lágrimas ou me fizeram refletir sobre a condição humana.

Em Uma estreia na vida:

“Não existe, ou antes, existe raramente, um criminoso que seja completamente criminoso. Com mais forte razão, dificilmente se encontrará uma desonestidade maciça. Podem-se fazer contas de chegar com o patrão, ou puxar mais brasa para a própria sardinha; mas, embora constituindo um capital por meios mais ou menos lícitos, poucos homens há que não se permitam algumas boas ações. Quanto mais não fosse por curiosidade, por amo-próprio, como contraste, por acaso, todo homem teve esse momento de generosidade; ele o classifica como um erro, não recomeça; mas sacrifica ao bem, como o mais casmurro sacrifica às Graças, uma ou duas vezes na vida.”

Essa análise foi feita em relação ao personagem Moreau um administrador corrupto que enriquece desviando recursos da propriedade do Conde de Sérisy, mas surpreendentemente ajuda uma antiga amiga muito pobre com mantimentos, o aluguel e até com a educação e colocação profissional de seu filho Oscar, o estreante na vida ao qual o título se refere.

“A corrupção veio com a fortuna, como sempre” pensamento de Moreau.

“Esse rapaz é só vaidade _ disse o conde depois de ter, em vão esperado as desculpas de Oscar. _ Um orgulhoso se humilha, pois há grandeza em certas humilhações. Receio muito que jamais possam fazer alguma coisa desse rapaz.”

Para se exibir, Oscar, após revelar a viajantes, numa carruagem, as traições da esposa do conde para o próprio conde sem o reconhecer, se recusa a pedir-lhe desculpas por sua indiscrição e perde qualquer chance de obter a proteção de um nobre para sua almejada ascensão social.

Esse trecho, para mim, é genial:

“Além das recomendações da manhã, Oscar sentia espontaneamente certa aversão por Jorge; sentia-se humilhado ante aquela testemunha da cena do salão de Presles, quando Moreau o atirara aos pés do Conde de Sérisy. A ordem moral tem suas leis, que são implacáveis, e sempre se é castigado por infringi-las. Há sobretudo uma, à qual o próprio animal obedece instintivamente, e sempre. É a que nos ordena fugir de qualquer pessoa que nos foi nociva uma primeira vez, com ou sem intenção, voluntária ou involuntariamente. A criatura de quem recebemos dano ou desprazer sempre nos será funesta. Qualquer que seja a sua categoria social, seja qual for o grau de afeição que nos ligue, é forçoso romper com ela, pois nos é enviada pelo nosso gênio mau. Embora o sentimento cristão se oponha a esse procedimento, a obediência  a essa lei terrível é essencialmente social e conservadora. A filha de Jacques II, que se sentou no trono do pai, deve ter-lhe feito mais de um ferimento antes da usurpação. Judas seguramente deve ter dado algum golpe funesto a Jesus antes de traí-lo. Há em nós uma vista interior, o olho da alma, que pressente as catástrofes, e a repugnância que sentimos por esse ser fatal é o resultado dessa previsão; se a religião nos ordena vencê-la, fica-nos a desconfiança, cuja voz deve ser incessantemente ouvida. Podia Oscar aos vinte anos ter tanta sagacidade?”

Em Alberto Savarus:

“Alcançar o alvo expirando como o corredor antigo! Ver a fortuna e a morte chegarem juntas aos umbrais de nossa porta! Obtermos aquela que amamos no momento em que o amor se extingue! Não temos mais a faculdade de gozar, quando se conquistou o direito de viver feliz!” Alberto em carta a um amigo se refere ao fato de ter se apaixonado pela princesa Francesca Argaiolo impedida, por ser casada, de retribuir seu amor.

“A desgraça cria, em certas almas, um vasto deserto, onde a voz de Deus repercute.” Alberto após ter a vida arruinada por uma mocinha que se apaixonou por ele.

Honore-de-Balzac

Ouve-me

Ouve-me

Mesmo que anseies ser
Só sombra a te espelhar,
Vives a meio caminho
Entre a luz e o meu olhar!

Mesmo que na floresta te unas à matilha
Para nela te vislumbrares,
Tua essência reside num país
Onde as palavras não podem penetrar!

Mesmo que a uma fôrma tente te conformares,
Para, do indefinido, te ocultares,
O universo em tuas formas vem se abrigar!

Teu verdadeiro eu
Poderiam ser venerados
Em todos os altares.
Por isso o mar que elegeste
É muito raso para navegares!

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Na Palestina: O velho, a árvore, o ônibus

À Abd Al-Hasib Atta Zaloum

Sobre o solo, jaz a carcaça do que um dia fora um ônibus.

Hoje, tornou-se abrigo do velho sem lar.

As estrelas no céu velam por eles à noite.

O frio passa pela vidraça estilhaçada,

Vem sorrateiro lhes acompanhar.

Assim que ficou pronta,

sua antiga morada foi demolida;

sua terra, por colonos, roubada.

Converteram-na em área de segurança.

Segurança para quem,

se o velho agora vive ao relento?

Não é o velho, de humanos, rebento?

Não necessita de segurança também?

É menos humano que as crianças da escola ali próxima?

Já que delas só recebe desdém?

Sob o sol escaldante, a sombra vem de uma árvore solitária.

A árvore de dia e o ônibus à noite são o seu reino,

Que nem o rei da Jordânia igual tem.

Como a vida que poderia ter tido foi interrompida,

Nesse solo só quer seus olhos cansados plantar

Para não mais ver tantas guerras sua terra assolar.

Na Palestina: O velho, a árvore, o ônibus

Poética de Botequim

À Abd Al-Hasib Atta Zaloum

Sobre o solo, jaz a carcaça do que um dia fora um ônibus.

Hoje, tornou-se abrigo do velho sem lar.

As estrelas no céu velam por eles à noite.

O frio passa pela vidraça estilhaçada,

Vem sorrateiro lhes acompanhar.

Assim que ficou pronta,

sua antiga morada foi demolida;

sua terra, por colonos, roubada.

Converteram-na em área de segurança.

Segurança para quem,

se o velho agora vive ao relento?

Não é o velho, de humanos, rebento?

Não necessita de segurança também?

É menos humano que as crianças da escola ali próxima?

Já que delas só recebe desdém?

Sob o sol escaldante, a sombra vem de uma árvore solitária.

A árvore de dia e o ônibus à noite são o seu reino,

Que nem o rei da Jordânia igual tem.

Como a vida que poderia ter tido foi interrompida,

Nesse solo só quer seus olhos cansados plantar

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