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Abismos

Ser o que vocês sonharam para nós
Está nos rasgando em pequenos pedaços.
E em nossa estrada, em cada curva se estendem
As cruzes de seu passado mal resolvido,
Até onde nosso olhar alcança …

Tentar nos esquivar do inevitável,
Está nos dilacerando membro por membro…

Oh criador, contemple suas criaturas
Perceba nossa imobilidade por coisas vazias
Somos assépticos
Somos ascetas
¬- Assim nada, nada pode dar errado!

Recolhemos nossos sorrisos barulhentos
Para evitar tantas ameaças à nossa pureza!
Nós nos deitamos num altar de sacrifícios
Pela nossa e por todas as gerações anteriores a nós.
Vocês precisaram dessa hecatombe
E nós aceitamos por nossa bondade.

Vivemos nas montanhas…
É o preço a pagar por nossa limpeza.
Permanecemos nas rochas inacessíveis
Aonde ainda podemos morar sem cair nos abismos.
Lá embaixo um oceano nos observa e espera…

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Consciência

Você já leu A elite do atraso? É fundamental para entender as verdadeiras raízes do Brasil. Nesse livro, Jessé de Souza analisa a sociedade brasileira e afirma que a esquerda foi sequestrada pela direita por causa da análise de sociólogos, como Sérgio Buarque de Holanda, do conceito de paternalismo e patrimonialismo como elementos fundadores de nossa sociedade, o que seria a herança de uma tradição ibérica. Para ele, essa visão é uma distração do que verdadeiramente nos define: nossa história escravocrata e a corrupção da elite econômica.

Ao dar principal destaque à corrupção do Estado, que trata a coisa pública como privada, Buarque responsabilizou apenas os políticos pela corrupção; deixou, assim, a elite econômica oculta e desviou a atenção para o grupo político, que na verdade fica com a menor fatia dos recursos desviados: quem lucra muito mais com a corrupção é uma elite econômica, que tem imposto, desde o período colonial, à sociedade brasileira seus interesses particulares acima do bem comum.

Ao contrário de outros países, onde a elite se mostra um pouco mais solidária, um pouco mais generosa, menos gananciosa e predatória, a elite brasileira continua, através do seu desprezo aos pobres e negros, tentando justificar a perseguição, destruição, matança, encarceramento e desrespeito à qualquer direito que eles possam vir a reivindicar. Esse menosprezo aos menos favorecidos foi disseminado pelo falso análise de que a corrupção do pobre é semelhante a dos políticos, cunhando-se termos pejorativos como “jeitinho brasileiro”, malandragem, brasileiro preguiçoso ( porque o sujeito não quer trabalhar de graça, até a morte como na época da escravidão), por exemplo.

Outra falácia, que deve ser descontruída, o mito da “democracia racial”, inventado por Gilberto Freire, prejudica até hoje a luta pela igualdade entre negros e brancos.

Para Jessé, o uso depreciativo do termo “populismo” é uma forma de racismo disfarçado que despreza qualquer iniciativa de diminuir a miséria ou de inserir os negros à sociedade brasileira, depois de tê-los deserdado de seus bens, de sua terra natal, de sua família, de sua história, de sua identidade. A sociedade nada fez para oferecer alguma compensação (se é que isso é possível) por essa tragédia humana. Muito pelo contrário, os senhores de escravos ainda ostentam com orgulho seu passado de torturas, poder e lucro vergonhosos, da mesma forma que antes. O racismo foi institucionalizado por meio de leis que criminalizaram todas as práticas e cultura dos ex-escravos por medo de pedidos de indenização por todas as perdas infligidas aos negros.

Para esse autor, o que nos define, como povo, não é o “jeitinho brasileiro”, o qual deveria ser considerado uma forma desesperada de luta pela sobrevivência dos que foram largados à própria sorte e tiveram de se virar como podiam. Dessa forma, o tal jeitinho deveria ser visto como algo positivo, como resiliência quando praticado pelos esquecidos do poder público, que só se lembram do povo na hora de cobrar impostos sobre todo produto que ele ainda consegue consumir.

A pior corrupção que há é a da elite econômica, que sequestra o poder público para o seu benefício, mas desvia a atenção de si mesma, através dos espetáculos televisivos que miram, preferencialmente, nos políticos. Estes ficam com uma parcela muito pequena do lucro das negociatas, porque a maior parte do ganho com a corrupção fica com grandes empresários e banqueiros que conseguem se livrar dos holofotes na maioria dos casos.

Assim, o que nos define como povo é nosso passado escravocrata e o seu consequente racismo estrutural que permanece na sociedade atual, haja vista a total falta de empatia de certa elite saudosista do período anterior ao da assinatura da lei Áurea, quando não havia nenhum direito trabalhista. Os novos patrões visam ao lucro acima da dignidade humana e não se responsabilizam nem são solidários com os demais brasileiros pobres. Tal egoísmo, eles tentam justificar com os estudos de intelectuais do porte de Sérgio Buarque de Holanda. Todas as características dos brasileiros, vistas por Gilberto Freire como positivas (nossa afetividade, nossa alegria, por exemplo), em Sérgio Buarque de Holanda passaram a ser negativas. Isso é o que Jessé de Souza chama de “racismo estrutural” da nossa sociedade e explica, mas não justifica, o seguinte raciocínio: “Não merecemos nossas riquezas, não merecemos nossas grandes empresas públicas porque somos corruptos, somos inferiores, somos uma sub-raça, por isso devemos entregar tudo o que temos de valioso aos colonizadores, ao capital estrangeiro etc.”

O racismo é o “pretexto” para justificar a venda de estatais a preços abaixo do valor de mercado. O racismo, portanto, afeta a todos os brasileiros e nos condena a perpetuar nossa escravidão e nos tornar empregados também de outras nações no mundo globalizado. Muitos ainda escravizam nos porões de suas oficinas, nas lavouras, nas mineradoras e devemos sim lutar contra isso, mas temos que ter consciência de que o racismo causa danos ao tecido social de forma tão arraigada dentro de nós que nos sentimos os últimos povos do planeta. A partir disso não percebemos a nossa própria exploração por povos que são considerados superiores, mais honestos, mais eficientes, mais puros do que nós: é o chamado complexo de vira-lata que proporciona lucros absurdos para essa elite que vê assim todo seu egoísmo, sua ganância justificadas aos próprios olhos.

O racismo estrutural está na raiz do sentimento de inferioridade em relação ao que é estrangeiro, no deslumbramento por tudo o que não somos nós mesmos. É preciso, portanto, desconstruir esse raciocínio de que somos os piores em tudo e de que é preciso fugir do Brasil na primeira oportunidade. Afinal, lá fora, o racismo não vai acabar porque fora daqui, em muitos momentos, seremos vistos como cidadãos de segunda classe por sermos “latinos”, por não falarmos o idioma nativo corretamente, por sermos estrangeiros roubando o emprego de autóctones.

As recentes reformas trabalhistas partem dessa mesma elite que se ressente de qualquer progresso na situação da classe trabalhadora, por menor que seja, como no caso dos programas sociais que pretendem diminuir a desigualdade social e a concentração de renda, cada vez mais perversa com a globalização e os juros extorsivos praticados pelos agiotas  banqueiros.

Passar o Brasil a limpo, portanto, passa por uma total revisão da nossa história, dos direitos trabalhistas, dos lucros e juros extorsivos, das oportunidades de emprego, da distribuição do espaço urbano e rural, da melhoria da educação oferecida aos negros.

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Poesia III

Tirei minha Tristeza pra dançar.
Dançamos uma valsa de silêncios dolorosos,
Rodopiei por salas habitadas
Por todas as partidas prematuras
Em que ela me guiava, me girando pelos ares.

Com um nó preso bem no fundo da garganta,
Entreguei, sem luta e por cansaço,
Minhas fibras à cadência de seus passos.

Olhando bem no fundo de meus olhos, ela me dizia:
_ Eu sou sua! Você é minha!

Sobre lustres refletidos em espelhos multicores,
A Tristeza, me estreitando em seus braços,
Embalou-me numa nuvem luminosa
Onde vive a poesia.

José de Godoy

2018

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Poeta obscuro

Poeta obscuro,

Eu vejo você quando chora à noite
Por seus sonhos perdidos
E em sua cela sozinho, deseja dormir
E talvez sonhar.
Eu vejo quando sente o peso das injustiças
Presentes e passadas, sem conseguir mais orar.
Eu vejo você quando quer braços quentes
E abraça o vazio.
Vejo seus ombros caídos de tanto lutar.
Vejo o desespero em seus olhos nas horas fatais.
Sinto sua vertigem,
Quando o ponto sem retorno avança sutil.
Sei que você sabe que as tiranias
Sempre vão longe demais,
Não suportam alegria
E condenam ideais.
Vejo seu coração quando um obtuso pelotão
Se prepara para atirar.

 

Manir de Godoy*

  • Eu imaginei como seria um poema escrito por meu pai, se ele estivesse vivo, em homenagem a Carlos Guedes e Federico Garcías Lorca, ambos poetas que foram presos devido a regimes totalitários que esmagam pessoas idealistas. Infelizmente, meu pai faleceu e não teve a oportunidade de conhecer a história de Carlos Guedes, um poeta com centenas de poemas sem nenhum livro publicado, um poeta torturado pelo regime militar no Brasil. Fico imaginando que meu pai e Carlos poderiam ter se tornado grandes amigos, se os seus caminhos pelo mundo tivessem se cruzado. E esse encontro de dois idealistas inspiraria o poema acima.

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Todo Cambia

Hoje tive grande prazer e emoção ao ouvir a música Tudo Cambia interpretada pela cantora jacareiense Vívian Pelodan e um violonista (infelizmente não sei o nome dele), ambos de talento ímpar. Estou grata por haver tanta beleza e por  pessoas que espalham lindezas como essa pelo mundo. Hoje eles se apresentam no WiFi.

Todo Cambia

Mercedes Sosa

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo
Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante
Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera
Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente
Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Pero no cambia mi amor

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

 

 

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Quarto de despejo e a norma culta

Thaís de Godoy

Abaixo há um trecho do diário de Carolina Maria de Jesus, moradora da favela do Canindé, em São Paulo, catadora de lixo e mãe de três filhos. Suas palavras foram transcritas letra por letra, desconsiderando o fato de que ela escreve fora da norma culta e no ano de 1955, antes da Reforma Ortográfica.

Observe como era difícil para ela enfrentar  os julgamentos que recebia devido à linguagem usada em seu diário: para os vizinhos, ela era culta, simplesmente por saber escrever e usar palavras desconhecidas; para os eruditos, uma semi-analfabeta, por não usar a norma padrão.

Alguns criticam seus leitores porque creditam o sucesso de vendas nacional e internacional de sua obra (talvez o maior best-seller da literatura nacional) a uma espécie de curiosidade mórbida sobre a realidade “exótica” da vida cotidiana em uma favela, como a atenção que um circo de horrores inimagináveis despertaria na classe média alfabetizada. A fim de preservar melhor esse efeito, o texto original deveria ser mantido.

Também para servir de objeto de estudos linguísticos, melhor seria manter sua ortografia e estrutura estropiada mesmo. Os fenômenos da língua inculta e não tão bela seriam, então, dissecados e classificados para deleite dos tarados pela taxonomia.

Outros ainda defendiam que deveria ser mantido o texto original por uma espécie de condescendência culpada de elite por não fornecer os recursos das quais uma mulher, chefe de família, precisa dispor para escrever melhor, tais como uma vida digna e escolas de qualidade. Vamos dar voz aos descamisados, vamos deixar que falem do seu jeito, que se expressem como sempre, vamos publicá-los assim mesmo. Pelo mesmo motivo e outros mais, alguns defendiam que o texto original deveria ser corrigido, seguindo os padrões da norma culta, completando sua obra inadequada e imperfeita. Vamos domesticá-la, talvez tenham dito os mais mordazes e conservadores do idioma.

Então, professores de gramática (como eu) sentiriam cócegas de canetar tudo imediatamente com círculos e acentos de cor vermelha numa compulsão obsessiva. Os historiados criticariam a falsidade, o anacronismo ao se tentar corrigir um documento importante, e a amputação da possibilidade de corrigir nossos erros sem a preservação da memória.

Tive uma conversa interessante com a Profª Maria Vilani Gomes (mãe do rapper Criolo) na qual ela defendeu as correções de acordo com a norma culta para maior divulgação e aceitação (nas escolas principalmente) de textos de jovens escritores que não tiveram acesso a um ensino de qualidade ou estão em processo de alfabetização. Outro argumento também é de que a manutenção do texto inculto poderia desestimular o jovem escritor em seu aprimoramento na aquisição de uma escrita mais elaborada, afinal os socialmente desprivilegiados, os jovens, todos nós temos sim a capacidade e o direito inalienável de nos apropriar desse patrimônio cultural que é a língua portuguesa culta.

São excelentes argumentos, contudo a questão relevante para os estetas é muito diferente das questões exclusivamente sociais classistas, linguísticas, didáticas ou mercadológicas. Para os estetas, a verdadeira e relevante questão, eliminada pelos outros saberes, é a qualidade literária intrínseca do Diário de uma favelada. Ela existe? Claro que sim. A qualidade literária, as reflexões e emoções estéticas que ela desperta no leitor dependem ou não da forma como Carolina Maria de Jesus se expressa? É possível separar forma, conteúdo, expressividade, subjetividade, afetividade, gramaticalidade, sociedade etc.? O efeito da leitura sobre nós não depende justamente das “escolhas” daqueles vocábulos errados feitas pela autora? Tentar separar esses elementos não seria decepar elementos essenciais da obra?

“Tábua de tiro ao alvo”, por exemplo, jamais terá o mesmo efeito emocional no nosso inconsciente coletivo, a mesma expressividade que “tauba de tiro ao alvaro”. O que há aqui, não é mera condescendência classista pelos pobres, romantização da pobreza pitoresca, ou culto do bizarro, mas sim uma identificação com a cultura popular, e um sentimento de irmandade entre os brasileiros de qualquer classe, (excetuando para os esnobes, afetados e eurocêntricos, é claro): a mistura de esculacho, comicidade e afetividade, uma tristeza alegre por sermos capazes de criar usando toda a nossa precariedade.

Deleitem-se com estas preciosidades:

20 de julho de 1955

Carolina Maria de Jesus

Deixei o leito as 4 horas para escrever. Abri a porta e contemplei o céu estrelado. Quando o astro-rei começou despontar eu fui buscar água. Tive sorte! As mulheres não estavam na torneira. Enchi minha lata e zarpei. (…) Fui no Arnaldo buscar o leite e o pão. Quando retornava encontrei o senhor Ismael com uma faca de 30 centimetros mais ou menos. Disse-me que estava a espera do Binidito e do Miguel para matá-los, que êles lhe expancaram quando êle estava embriagado.
Lhe aconselhei a não brigar, que o crime não trás vantagens a ninguem, apenas deturpa a vida. Senti o cheiro do alcool, disisti. Sei que os ébrios não atende. O senhor Ismael quando não está alcoolizado demonstra sua sapiencia. Já foi telegrafista. E do Circulo Exoterico. Tem conhecimentos bíblicos, gosta de dar conselhos. Mas não tem valor. Deixou o alcool lhe dominar, embora seus conselho seja util para os que gostam de levar vida decente.

Preparei a refeição matinal. Cada filho prefere uma coisa. A Vera, mingau de farinha de trigo torrada. O João José, café puro. O José Carlos, leite branco. E eu, mingau de aveia.
Já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir, procuro lhe dar uma refeição condigna.

Terminaram a refeição. Lavei os utensílios. Depois fui lavar roupas. Eu não tenho homem em casa. É só eu e meus filhos. Mas eu não pretendo relaxar. O meu sonho era andar bem limpinha, usar roupas de alto preço, residir numa casa confortável, mas não é possivel. Eu não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja. Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir em favela.

… Durante o dia, os jovens de 15 e 18 anos sentam na grama e falam de roubo. E já tentaram assaltar o empório do senhor Raymundo Guello. E um ficou carimbado com uma bala. O assalto teve inicio as 4 horas. Quando o dia clareou as crianças catava dinheiro na rua e no capinzal. Teve criança que catou vinte cruzeiros em moeda. E sorria exibindo o dinheiro. Mas o juiz foi severo. Castigou impiedosamente.

Fui no rio lavar as roupas e encontrei D. Mariana. Uma mulher agradavel e decente. Tem 9 filhos e um lar modelo. Ela e o espôso tratam-se com iducação. Visam apenas viver em paz. E criar filhos. Ela tambem ia lavar roupas. Ela disse-me que o Binidito da D. Geralda todos os dias ia prêso. Que a Radio Patrulha cançou de vir buscá-lo. Arranjou serviço para êle na cadêia. Achei graça. Dei risada!… Estendi as roupas rapidamente e fui catar papel. Que suplicio catar papel atualmente! Tenho que levar a minha filha Vera Eunice. Ela está com dois anos, e não gosta de ficar em casa. Eu ponho o saco na cabeça e levo-a nos braços. Suporto o pêso do saco na cabeça e suporto o pêso da Vera Eunice nos braços. Tem hora que revolto-me. Depois domino-me. Ela não tem culpa de estar no mundo.

Refleti: preciso ser tolerante com os meus filhos. Êles não tem ninguem no mundo a não ser eu. Como é pungente a condição de mulher sozinha sem um homem no lar.

Aqui, todas impricam comigo. Dizem que falo muito bem. Que sei atrair os homens. (…) Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo.

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Sonhos abortados

mais um Corpo ou só a fração de um Corpo
dividido, subdividido
uma perna
um tronco
um pes
co
ço.
Só um Corpo.

não maria, não josé
não um idoso
não um moço
um es
bo
ço.
O esTrondo meDonho de uma Onda de Lodo.
Só mais um Corpo.

não aquele boi morto,
boi morto
boi
que rola entre os escombros.
Mais um Corpo Só.

não um só corpo!
Só um Corpo sem passAdo sem futUro sem o sOpro
O abOrto de um sOnho
de
com
posto
pelos Engodos do Vale do Choro.

Só Matéria nos cômputos brutos dos Diários xucros.

Godoy

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Não te rendas

Mario Benedetti

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Grafite representando protesto dos coletes amarelos, releitura do quadro “A liberdade guiando o povo”, Delacroix

 

 

Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos,
largar o lastro,
retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
continuar a viagem,
perseguir os teus sonhos,
destravar os tempos,
arrumar os escombros,
e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento:
ainda há fogo na tua alma
ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,
porque o quiseste e eu te amo,
porque existe o vinho e o amor,
porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
tirar os ferrolhos,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto,
baixar a guarda e estender as mãos,
abrir as asas
e tentar de novo
celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:
mesmo que o frio queime,
mesmo que o medo morda,
mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo na tua alma,
ainda existe vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo início,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, por eu te amo.

 

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Somos Professores

Não sei a autoria deste texto, que está sendo divulgado nas redes sociais anonimamente. Como professora, eu me identifiquei totalmente com a mensagem.

Somos professores e recebemos palpites e julgamentos de todo mundo. Do ministro da educação, do jornalista, do pai do aluno, das famílias. Aquela piadinha que o professor tem regalias, duas férias por ano, que ganha bem , que não deveria se aposentar…A sensação é de que estamos sós.
É preciso mandar um “aguente firme” para os professores de verdade.
Pra quem dá aula em duas ou três escolas e almoça no caminho.
Pra quem não consegue almoçar e engole um salgado enquanto assina o ponto.
Pra quem fica acordado na madrugada baixando vídeo e música pra usar na aula.
Pra quem faz as cópias na sua impressora.
Pra quem compra o material da aula com grana do bolso.
Pra quem passa do horário pra ajudar no evento.
Pra quem passa o final de semana corrigindo.
Pra aquele que leva as atividades na viagem do final de semana.
Pra aquele que leva um lanchinho a mais na excursão, para o aluno que não tem condições.
Pra aquele que compra livros pra turma.
Pra aquele que vai trabalhar doente porque não quer deixar os alunos na mão aquele dia.
Pra aquele que não falta de jeito nenhum…
Pra aquele que vê o aluno se perdendo na quebrada e tenta salvar aquela alma.
Pra aquele que briga com a família até levarem o pequeno no médico.
Pra aquele que deixa seus problemas em casa, porque sabe que na escola tem abuso sexual e físico, fome, violência e doença pra mediar.
Pra aquele que já teve o carro roubado indo pro trabalho.
Pra aquele que já foi agredido verbalmente por alunos e familiares.
Pra aquele que é xingado enquanto dá aula.
Pra aquele que não é respeitado enquanto dá aula.
Pra aquele que é compromissado com o processo de aprendizagem, mesmo que seus alunos não sejam.
Pra aquele que vê mais seus alunos que os seus filhos.
Pra aquele que mesmo passando por tudo isso, não desiste!
“Aguente firme”, esse país não te merece, mas precisa MUITO de você.(desconheço a autoria).
Se você é professor e tem orgulho de ser, copie e cole no seu mural. E você que não exerce esta profissão mas quer nos dar um incentivo, apoio e encorajamento também podes fazê-lo.
Copiado e colado com louvor…

Unknown

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Tema da redação do Enem 2018: ‘manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet’

Seis professores de redação e um especialista em tecnologia comentam o tema da prova, e alertam: não vale só falar sobre ‘notícias falsas’.

Por Ana Carolina Moreno e Elida Oliveira, G1 –  

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem 2018) é “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. A prova teve quatro textos motivadores, sendo que três deles são trechos de reportagens e um trouxe um gráfico com dados.

Duas das três reportagens citam diretamente os algoritmos e foram publicados em 2016. Um deles, “O gosto na era do algoritmo”, foi publicado em 2016 pelo jornal “El País” e escrito pelo jornalista Daniel Verdú. O outro, chamado “A silenciosa ditadura do algoritmo“, é de autoria do jornalista brasileiro Pepe Escobar.

A terceira reportagem, também de 2016, foi publicada pela BBC Future. De autoria de Tom Chatfield, o texto chama “Como a internet influencia secretamente nossas escolhas“.

O gráfico que aparece na prova de redação é um organograma de dados produzido pelo IBGE com o perfil dos usuários de internet no Brasil em 2016, com detalhes sobre o uso da internet entre homens e mulheres.

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) no início da tarde deste domingo (5).

Os candidatos têm 5h30 para fazer o primeiro dia de provas do Enem 2018. Além da redação, são 45 questões de linguagens e outras 45 de ciências humanas.

 

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O Nada

Coletivo Sincronistas

Hoje, infelizmente, faleceu a avó de uma de nossas sincronistas: Viviane. Gostaria de homenagear essa senhora, embora nunca a tenha conhecido, creio que se ela ajudou a educar nossa querida amiga tão bem, ela só pode ter sido uma mulher fantástica.

O nada

Thaís de Godoy Morais

Nada se extingue.

Tudo o que há é um reflexo

Do que já houve.

O que já houve são ecos ressoando

No presente…

Se aqui ninguém seu tinir ouve,

É porque nada,

Na dor de um ser ausente,

Se distingue.

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O operário que sonhava ser poeta – parte I

Homenagem ao meu amado pai, Manir. Quanta saudade que não cabe em mim! Procurei seguir seu último pedido feito a mim: o de escrever um poema sobre ele. Embora eu tenha sido, até aquele dia derradeiro, apenas uma leitora, me esforcei na tarefa, cujo resultado está muito aquém do valor desse grande homem.

 

In memoriam de Manir de Godoy

 

Era uma vez um menino meio nômade,

Que vivia entre o interior e a cidade grande.

O pai morrera de gangrena.

A mãe costureira sustentava

Com esforço seis filhos:

Eupídio , Cássio, Dirce,

Tó, Manir e Iracema!

 

Vendedor de doces no cinema, engraxate,

Chegou a operário de fábrica de chocolate.

Nada fantástica era a vida desse guri,

Que vivia em um cortiço no Pari.

 

Mas tudo mudou no dia em que encontrou

As letrinhas de metal jogadas na calçada

Que formaram o primeiro poema

do menino sentado no meio fio.

As letrinhas graciosas eram

seu único brinquedo nas horas vagas.

 

Um dia o dono das letras o viu e chamou pra trabalhar.

Ali, sua formação interrompida continuaria.

O menino-operário da tipografia,

Montava admirado textos de poetas e aspirantes;

Panfletos dos primeiros socialistas do país

Que viviam gravitando a sua volta.

Com muito esforço, lia de Lobato e Verne

ao Príncipe Valente e Flash Gordon,

Assim foi se alfabetizando.

 

No cortiço sua mãe se arriscava,

Não levava desaforo pra casa!

Engajado na causa operária,

Começou a ler obras mais sisudas

Do que as que lera numa escola em Bragança.

 

Considerava sincero apenas o “cavaleiro da esperança”…

Por isso, aos 16, fugiu de casa e fundou

o PC em São João da Boa Vista.

Lá via filmes do Mazzaropi,

Dormia em carros alheios,

Tocava violino na praça…

 

Ps.: Por coincidência ou não eu também saí de casa aos 16 anos.

Um dia talvez eu consiga continuar, mas me falta inspiração no momento.

Jaraguá1968

Meu pai me contava que, quando eu era bebê, eu ria até perder o fôlego e ficavam todos com medo de eu sufocar de tanto rir por causa de uma brincadeira do meu irmãozinho Ibsen, que imitava o som das explosões das pedreiras próximas, falando: “Peleila: bum!”

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Revolução de Jasmim, in memoriam de Mohamed Bouazizi

ثورة الياسمين

 

A púrpura tirou-lhe o pão

E a humilde banca de frutas.

Sem meios para o sustento,

Azizi vende dor “a todos aqueles que sonham com a liberdade”.

 

Nos muros, palavras oníricas viraram concreto pelo concreto

Ou virarão algum dia?

Ele imaginou o saldo de seu gesto?

Se soubesse, novamente se imolaria?

 

Nas Revoluções com nomes de cores e flores

O sinistro e o sublime se misturam:

quão apavorante é a arrastada miséria humana,

que um arrepiante gesto de horror instantâneo aliviaria?

 

Ascende o novo modo velho de ser e de pensar.

O que se perderá, o que se ganhará?

As belezas naturais e feminis encobertas aos filhos mestiços de antigos fenícios,

são visitadas pelos curiosos e reveladas aos peregrinos pagãos.

 

A esse lirismo brutal e pronto me debruço,

Esperando, desse jasmineiro, o fruto.

 

10-09-2012

Jasmine-Oil-Arabian-jasmine-

Três mulheres, de Sylvia Plath, por Rafael Zacca — escamandro

SOBRE A TRADUÇÃO Sylvia Plath (1932-1963) compôs Três mulheres como um livro-poema radiofônico. Nesse sentido, não foi escrito para ser lido individualmente, em silêncio, mas para ser falado. Inclui, em sua própria forma, um desejo comunitário. Trata-se, de fato, de uma comunidade de incomuns. As três Vozes do poema são de mulheres que tomaram rumos […]

via Três mulheres, de Sylvia Plath, por Rafael Zacca — escamandro

John Wieners (1934-2002), por Rafael Mantovani — escamandro

John Wieners (1934 – 2002) foi um poeta estadunidense associado à geração Beat. Nascido numa família de classe média-baixa no Massachusetts, partiu muito jovem para a Costa Oeste e teve uma vida errante por vários anos, participando de comunidades experimentais de poetas, dentre as quais o Black Mountain College. Seu primeiro livro, The Hotel Wentley […]

via John Wieners (1934-2002), por Rafael Mantovani — escamandro

Para que ninguém a quisesse

Porque os homens olhavam demais para a sua mulher, mandou que descesse a bainha dos vestidos e parasse de se pintar. Apesar disso, sua beleza chamava a atenção, e ele foi obrigado a exigir que eliminasse os decotes, jogasse fora os sapatos de saltos altos. Dos armários tirou as roupas de seda, da gaveta tirou todas as jóias. E vendo que, ainda assim, um ou outro olhar viril se acendia à passagem dela, pegou a tesoura e tosquiou-lhe os longos cabelos.

Agora podia viver descansado. Ninguém a olhava duas vezes, homem nenhum se interessava por ela. Esquiva como um gato, não mais atravessava praças. E evitava sair.
Tão esquiva se fez, que ele foi deixando de ocupar-se dela, permitindo que fluísse em silêncio pelos cômodos, mimetizada com os móveis e as sombras.

Uma fina saudade, porém, começou a alinhavar-se em seus dias. Não saudade da mulher. Mas do desejo inflamado que tivera por ela.

Então lhe trouxe um batom. No outro dia um corte de seda. À noite tirou do bolso uma rosa de cetim para enfeitar-lhe o que restava dos cabelos.

Mas ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas, nem pensava mais em lhe agradar. Largou o tecido em uma gaveta, esqueceu o batom. E continuou andando pela casa de vestido de chita, enquanto a rosa desbotava sobre a cômoda.

 

COLASANTI, Marina. “Para que ninguém a quisesse”.
In: Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. P. 111-2.

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Alegria

Quando a “indesejada das gentes”
Passa a não ser tão indesejada assim?
Há um momento em que o cansaço
Vence o entusiasmo e a morte
Passa a ser almejada: por crianças, jovens e
Até por um povo inteiro!

Gente como a menina que deveria estudar,
Segura, trancada no quarto,
ao invés de se enforcar.
Ou gente que vive agora
Na miséria mais degradante,
Que se esquece, num rompante,
De seus filhos para alimentar!

Gente como os índios Kaiowás
De quem vão se lembrar
Apenas pelo nome de algum lugar:
De uma rua de um bairro de periferia.
Num mundo de arrepiar:
Vivem sem lei, sem rei e sem fé
que os protejam e acolham
tudo o que eles são.

Se permitirem, a “civilização” os extinguirá,
porém, horripilantemente,
em museus de raros espécimes, os conservará.

Mas há também gente tão inocente
que, contra todas as expectativas,
Contra todas as probabilidades
Resiste à insuportabilidade da vida.
Gente que canta, vive e sorri
E, nesse decrépito mundo,
Ainda encontra a Alegria!

 

 

Dançarinas do Grupo de Artes Performativas da Associação Chinesa de Pessoas com Deficiência exibem o seu número mais conhecido, a dança Qianshou Kuanyin, ou Bodhisattva de 1000 mãos. a dança do Buda de Mil Mãos prende a atenção de todos, pois são 21 dançarinas surdas e mudas trajadas de dourado, formando uma fila vertical e 42 braços promovem diferentes gestos simultaneamente, levando a todos a imagem do Buda de Mil Mãos, encontrada em muitas grutas da China. A dança maravilhosa foi criada por um famoso coreógrafo chinês, Zhang Jigang.

Victor Squella — escamandro

Victor Squella [1994] nascido em junho no Rio de Janeiro, onde vive atualmente, escreve e traduz. Publica, pela 7letras, seu primeiro livro, a ser lançado no dia 28/10 na Lado7 [Galeria Vitrine de Ipanema. Rua Visconde de Pirajá, 580, 3º andar]. Abaixo, alguns poemas de Escápula [7letras, 2019]. * Conto de Verão começa com […]

via Victor Squella — escamandro

XANTO|Poesia brasileira, livros da década: parte VII — escamandro

uma casa para conter o caosdez anos de poesia brasileira[2008 – 2018] Parte VII Como anunciado e, agora, dando continuidade, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Sivleira Ribeiro. A quem não tenha visto os posts anteriores, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o […]

via XANTO|Poesia brasileira, livros da década: parte VII — escamandro

SONETO LXXXII

É BOM, amor, sentir-te perto de mim na noite,
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.

Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.

Erguida, serás outras que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos

algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
como fogo suas secretas criaturas.

 

Pablo Neruda

O chamado ou Da redenção
O Chamado