Destaque

Todo Cambia

Hoje tive grande prazer e emoção ao ouvir a música Tudo Cambia interpretada pela cantora jacareiense Vívian Pelodan e um violonista (infelizmente não sei o nome dele), ambos de talento ímpar. Estou grata por haver tanta beleza e por  pessoas que espalham lindezas como essa pelo mundo. Hoje eles se apresentam no WiFi.

Todo Cambia

Mercedes Sosa

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo
Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante
Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera
Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente
Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Pero no cambia mi amor

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

 

 

Destaque

Quarto de despejo e a norma culta

Thaís de Godoy

Abaixo há um trecho do diário de Carolina Maria de Jesus, moradora da favela do Canindé, em São Paulo, catadora de lixo e mãe de três filhos. Suas palavras foram transcritas letra por letra, desconsiderando o fato de que ela escreve fora da norma culta e no ano de 1955, antes da Reforma Ortográfica.

Observe como era difícil para ela enfrentar  os julgamentos que recebia devido à linguagem usada em seu diário: para os vizinhos, ela era culta, simplesmente por saber escrever e usar palavras desconhecidas; para os eruditos, uma semi-analfabeta, por não usar a norma padrão.

Alguns criticam seus leitores porque creditam o sucesso de vendas nacional e internacional de sua obra (talvez o maior best-seller da literatura nacional) a uma espécie de curiosidade mórbida sobre a realidade “exótica” da vida cotidiana em uma favela, como a atenção que um circo de horrores inimagináveis despertaria na classe média alfabetizada. A fim de preservar melhor esse efeito, o texto original deveria ser mantido.

Também para servir de objeto de estudos linguísticos, melhor seria manter sua ortografia e estrutura estropiada mesmo. Os fenômenos da língua inculta e não tão bela seriam, então, dissecados e classificados para deleite dos tarados pela taxonomia.

Outros ainda defendiam que deveria ser mantido o texto original por uma espécie de condescendência culpada de elite por não fornecer os recursos das quais uma mulher, chefe de família, precisa dispor para escrever melhor, tais como uma vida digna e escolas de qualidade. Vamos dar voz aos descamisados, vamos deixar que falem do seu jeito, que se expressem como sempre, vamos publicá-los assim mesmo. Pelo mesmo motivo e outros mais, alguns defendiam que o texto original deveria ser corrigido, seguindo os padrões da norma culta, completando sua obra inadequada e imperfeita. Vamos domesticá-la, talvez tenham dito os mais mordazes e conservadores do idioma.

Então, professores de gramática (como eu) sentiriam cócegas de canetar tudo imediatamente com círculos e acentos de cor vermelha numa compulsão obsessiva. Os historiados criticariam a falsidade, o anacronismo ao se tentar corrigir um documento importante, e a amputação da possibilidade de corrigir nossos erros sem a preservação da memória.

Tive uma conversa interessante com a Profª Maria Vilani Gomes (mãe do rapper Criolo) na qual ela defendeu as correções de acordo com a norma culta para maior divulgação e aceitação (nas escolas principalmente) de textos de jovens escritores que não tiveram acesso a um ensino de qualidade ou estão em processo de alfabetização. Outro argumento também é de que a manutenção do texto inculto poderia desestimular o jovem escritor em seu aprimoramento na aquisição de uma escrita mais elaborada, afinal os socialmente desprivilegiados, os jovens, todos nós temos sim a capacidade e o direito inalienável de nos apropriar desse patrimônio cultural que é a língua portuguesa culta.

São excelentes argumentos, contudo a questão relevante para os estetas é muito diferente das questões exclusivamente sociais classistas, linguísticas, didáticas ou mercadológicas. Para os estetas, a verdadeira e relevante questão, eliminada pelos outros saberes, é a qualidade literária intrínseca do Diário de uma favelada. Ela existe? Claro que sim. A qualidade literária, as reflexões e emoções estéticas que ela desperta no leitor dependem ou não da forma como Carolina Maria de Jesus se expressa? É possível separar forma, conteúdo, expressividade, subjetividade, afetividade, gramaticalidade, sociedade etc.? O efeito da leitura sobre nós não depende justamente das “escolhas” daqueles vocábulos errados feitas pela autora? Tentar separar esses elementos não seria decepar elementos essenciais da obra?

“Tábua de tiro ao alvo”, por exemplo, jamais terá o mesmo efeito emocional no nosso inconsciente coletivo, a mesma expressividade que “tauba de tiro ao alvaro”. O que há aqui, não é mera condescendência classista pelos pobres, romantização da pobreza pitoresca, ou culto do bizarro, mas sim uma identificação com a cultura popular, e um sentimento de irmandade entre os brasileiros de qualquer classe, (excetuando para os esnobes, afetados e eurocêntricos, é claro): a mistura de esculacho, comicidade e afetividade, uma tristeza alegre por sermos capazes de criar usando toda a nossa precariedade.

Deleitem-se com estas preciosidades:

20 de julho de 1955

Carolina Maria de Jesus

Deixei o leito as 4 horas para escrever. Abri a porta e contemplei o céu estrelado. Quando o astro-rei começou despontar eu fui buscar água. Tive sorte! As mulheres não estavam na torneira. Enchi minha lata e zarpei. (…) Fui no Arnaldo buscar o leite e o pão. Quando retornava encontrei o senhor Ismael com uma faca de 30 centimetros mais ou menos. Disse-me que estava a espera do Binidito e do Miguel para matá-los, que êles lhe expancaram quando êle estava embriagado.
Lhe aconselhei a não brigar, que o crime não trás vantagens a ninguem, apenas deturpa a vida. Senti o cheiro do alcool, disisti. Sei que os ébrios não atende. O senhor Ismael quando não está alcoolizado demonstra sua sapiencia. Já foi telegrafista. E do Circulo Exoterico. Tem conhecimentos bíblicos, gosta de dar conselhos. Mas não tem valor. Deixou o alcool lhe dominar, embora seus conselho seja util para os que gostam de levar vida decente.

Preparei a refeição matinal. Cada filho prefere uma coisa. A Vera, mingau de farinha de trigo torrada. O João José, café puro. O José Carlos, leite branco. E eu, mingau de aveia.
Já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir, procuro lhe dar uma refeição condigna.

Terminaram a refeição. Lavei os utensílios. Depois fui lavar roupas. Eu não tenho homem em casa. É só eu e meus filhos. Mas eu não pretendo relaxar. O meu sonho era andar bem limpinha, usar roupas de alto preço, residir numa casa confortável, mas não é possivel. Eu não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja. Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir em favela.

… Durante o dia, os jovens de 15 e 18 anos sentam na grama e falam de roubo. E já tentaram assaltar o empório do senhor Raymundo Guello. E um ficou carimbado com uma bala. O assalto teve inicio as 4 horas. Quando o dia clareou as crianças catava dinheiro na rua e no capinzal. Teve criança que catou vinte cruzeiros em moeda. E sorria exibindo o dinheiro. Mas o juiz foi severo. Castigou impiedosamente.

Fui no rio lavar as roupas e encontrei D. Mariana. Uma mulher agradavel e decente. Tem 9 filhos e um lar modelo. Ela e o espôso tratam-se com iducação. Visam apenas viver em paz. E criar filhos. Ela tambem ia lavar roupas. Ela disse-me que o Binidito da D. Geralda todos os dias ia prêso. Que a Radio Patrulha cançou de vir buscá-lo. Arranjou serviço para êle na cadêia. Achei graça. Dei risada!… Estendi as roupas rapidamente e fui catar papel. Que suplicio catar papel atualmente! Tenho que levar a minha filha Vera Eunice. Ela está com dois anos, e não gosta de ficar em casa. Eu ponho o saco na cabeça e levo-a nos braços. Suporto o pêso do saco na cabeça e suporto o pêso da Vera Eunice nos braços. Tem hora que revolto-me. Depois domino-me. Ela não tem culpa de estar no mundo.

Refleti: preciso ser tolerante com os meus filhos. Êles não tem ninguem no mundo a não ser eu. Como é pungente a condição de mulher sozinha sem um homem no lar.

Aqui, todas impricam comigo. Dizem que falo muito bem. Que sei atrair os homens. (…) Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo.

Resultado de imagem para carolina maria de Jesus

Destaque

Sonhos abortados

mais um Corpo ou só a fração de um Corpo
dividido, subdividido
uma perna
um tronco
um pes
co
ço.
Só um Corpo.

não maria, não josé
não um idoso
não um moço
um es
bo
ço.
O esTrondo meDonho de uma Onda de Lodo.
Só mais um Corpo.

não aquele boi morto,
boi morto
boi
que rola entre os escombros.
Mais um Corpo Só.

não um só corpo!
Só um Corpo sem passAdo sem futUro sem o sOpro
O abOrto de um sOnho
de
com
posto
pelos Engodos do Vale do Choro.

Só Matéria nos cômputos brutos dos Diários xucros.

Godoy

Imagem relacionada

 

 

Destaque

Não te rendas

Mario Benedetti

Dw3gOAmW0AE8bJq
Grafite representando protesto dos coletes amarelos, releitura do quadro “A liberdade guiando o povo”, Delacroix

 

 

Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos,
largar o lastro,
retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
continuar a viagem,
perseguir os teus sonhos,
destravar os tempos,
arrumar os escombros,
e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento:
ainda há fogo na tua alma
ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,
porque o quiseste e eu te amo,
porque existe o vinho e o amor,
porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
tirar os ferrolhos,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto,
baixar a guarda e estender as mãos,
abrir as asas
e tentar de novo
celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:
mesmo que o frio queime,
mesmo que o medo morda,
mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo na tua alma,
ainda existe vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo início,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, por eu te amo.

 

Destaque

Somos Professores

Não sei a autoria deste texto, que está sendo divulgado nas redes sociais anonimamente. Como professora, eu me identifiquei totalmente com a mensagem.

Somos professores e recebemos palpites e julgamentos de todo mundo. Do ministro da educação, do jornalista, do pai do aluno, das famílias. Aquela piadinha que o professor tem regalias, duas férias por ano, que ganha bem , que não deveria se aposentar…A sensação é de que estamos sós.
É preciso mandar um “aguente firme” para os professores de verdade.
Pra quem dá aula em duas ou três escolas e almoça no caminho.
Pra quem não consegue almoçar e engole um salgado enquanto assina o ponto.
Pra quem fica acordado na madrugada baixando vídeo e música pra usar na aula.
Pra quem faz as cópias na sua impressora.
Pra quem compra o material da aula com grana do bolso.
Pra quem passa do horário pra ajudar no evento.
Pra quem passa o final de semana corrigindo.
Pra aquele que leva as atividades na viagem do final de semana.
Pra aquele que leva um lanchinho a mais na excursão, para o aluno que não tem condições.
Pra aquele que compra livros pra turma.
Pra aquele que vai trabalhar doente porque não quer deixar os alunos na mão aquele dia.
Pra aquele que não falta de jeito nenhum…
Pra aquele que vê o aluno se perdendo na quebrada e tenta salvar aquela alma.
Pra aquele que briga com a família até levarem o pequeno no médico.
Pra aquele que deixa seus problemas em casa, porque sabe que na escola tem abuso sexual e físico, fome, violência e doença pra mediar.
Pra aquele que já teve o carro roubado indo pro trabalho.
Pra aquele que já foi agredido verbalmente por alunos e familiares.
Pra aquele que é xingado enquanto dá aula.
Pra aquele que não é respeitado enquanto dá aula.
Pra aquele que é compromissado com o processo de aprendizagem, mesmo que seus alunos não sejam.
Pra aquele que vê mais seus alunos que os seus filhos.
Pra aquele que mesmo passando por tudo isso, não desiste!
“Aguente firme”, esse país não te merece, mas precisa MUITO de você.(desconheço a autoria).
Se você é professor e tem orgulho de ser, copie e cole no seu mural. E você que não exerce esta profissão mas quer nos dar um incentivo, apoio e encorajamento também podes fazê-lo.
Copiado e colado com louvor…

Unknown

Destaque

Tema da redação do Enem 2018: ‘manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet’

Seis professores de redação e um especialista em tecnologia comentam o tema da prova, e alertam: não vale só falar sobre ‘notícias falsas’.

Por Ana Carolina Moreno e Elida Oliveira, G1 –  

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem 2018) é “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. A prova teve quatro textos motivadores, sendo que três deles são trechos de reportagens e um trouxe um gráfico com dados.

Duas das três reportagens citam diretamente os algoritmos e foram publicados em 2016. Um deles, “O gosto na era do algoritmo”, foi publicado em 2016 pelo jornal “El País” e escrito pelo jornalista Daniel Verdú. O outro, chamado “A silenciosa ditadura do algoritmo“, é de autoria do jornalista brasileiro Pepe Escobar.

A terceira reportagem, também de 2016, foi publicada pela BBC Future. De autoria de Tom Chatfield, o texto chama “Como a internet influencia secretamente nossas escolhas“.

O gráfico que aparece na prova de redação é um organograma de dados produzido pelo IBGE com o perfil dos usuários de internet no Brasil em 2016, com detalhes sobre o uso da internet entre homens e mulheres.

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) no início da tarde deste domingo (5).

Os candidatos têm 5h30 para fazer o primeiro dia de provas do Enem 2018. Além da redação, são 45 questões de linguagens e outras 45 de ciências humanas.

 

Destaque

O Nada

Coletivo Sincronistas

Hoje, infelizmente, faleceu a avó de uma de nossas sincronistas: Viviane. Gostaria de homenagear essa senhora, embora nunca a tenha conhecido, creio que se ela ajudou a educar nossa querida amiga tão bem, ela só pode ter sido uma mulher fantástica.

O nada

Thaís de Godoy Morais

Nada se extingue.

Tudo o que há é um reflexo

Do que já houve.

O que já houve são ecos ressoando

No presente…

Se aqui ninguém seu tinir ouve,

É porque nada,

Na dor de um ser ausente,

Se distingue.

gestao-de-tempo-TB.png

Ver o post original

Destaque

O operário que sonhava ser poeta – parte I

Homenagem ao meu amado pai, Manir. Quanta saudade que não cabe em mim! Procurei seguir seu último pedido feito a mim: o de escrever um poema sobre ele. Embora eu tenha sido, até aquele dia derradeiro, apenas uma leitora, me esforcei na tarefa, cujo resultado está muito aquém do valor desse grande homem.

 

In memoriam de Manir de Godoy

 

Era uma vez um menino meio nômade,

Que vivia entre o interior e a cidade grande.

O pai morrera de gangrena.

A mãe costureira sustentava

Com esforço seis filhos:

Eupídio , Cássio, Dirce,

Tó, Manir e Iracema!

 

Vendedor de doces no cinema, engraxate,

Chegou a operário de fábrica de chocolate.

Nada fantástica era a vida desse guri,

Que vivia em um cortiço no Pari.

 

Mas tudo mudou no dia em que encontrou

As letrinhas de metal jogadas na calçada

Que formaram o primeiro poema

do menino sentado no meio fio.

As letrinhas graciosas eram

seu único brinquedo nas horas vagas.

 

Um dia o dono das letras o viu e chamou pra trabalhar.

Ali, sua formação interrompida continuaria.

O menino-operário da tipografia,

Montava admirado textos de poetas e aspirantes;

Panfletos dos primeiros socialistas do país

Que viviam gravitando a sua volta.

Com muito esforço, lia de Lobato e Verne

ao Príncipe Valente e Flash Gordon,

Assim foi se alfabetizando.

 

No cortiço sua mãe se arriscava,

Não levava desaforo pra casa!

Engajado na causa operária,

Começou a ler obras mais sisudas

Do que as que lera numa escola em Bragança.

 

Considerava sincero apenas o “cavaleiro da esperança”…

Por isso, aos 16, fugiu de casa e fundou

o PC em São João da Boa Vista.

Lá via filmes do Mazzaropi,

Dormia em carros alheios,

Tocava violino na praça…

 

Ps.: Por coincidência ou não eu também saí de casa aos 16 anos.

Um dia talvez eu consiga continuar, mas me falta inspiração no momento.

Jaraguá1968

Meu pai me contava que, quando eu era bebê, eu ria até perder o fôlego e ficavam todos com medo de eu sufocar de tanto rir por causa de uma brincadeira do meu irmãozinho Ibsen, que imitava o som das explosões das pedreiras próximas, falando: “Peleila: bum!”

“O Palácio”, de Kaveh Akbar, por Layla Oliveira

escamandro

Os poemas de Kaveh Akbar foram publicados em jornais como The New Yorker, Poetry, Paris Review, Best American Poetry, The New York Times, e muitos outros. Ele é o autor de duas coletâneas completas: Pilgrim Bell (Graywolf, 2021) and Calling a Wolf a Wolf (Alice James, 2017). Ganhador do Prêmio Levis Reading, múltiplos prêmios Pushcart, e Ruth Lilly and Dorothy Sargent Rosenberg Poetry Fellowship, Kaveh é o editor-fundador do Divedapper, site de entrevistas com as maiores vozes da poesia contemporânea. Nascido no Teerã, Iran, leciona na Universidade de Purdue e nos programas de baixa residência do MFA no Randolph College e Warren Wilson. O site dele é http://kavehakbar.com/#/.

Layla Gabriel de Oliveira é poeta, atriz e estudante de Letras na Universidade Federal do Paraná. Está atualmente traduzindo o livro inédito do poeta Kaveh Akbar, Pilgrim Bell, para publicação simultânea nas duas línguas…

Ver o post original 1.029 mais palavras

INSTRUÇÕES PARA ESQUIVAR O MAU TEMPO

INSTRUÇÕES PARA ESQUIVAR O MAU TEMPO
Paco Urondo

Em primeiro lugar, não se desespere e em caso de agitação não siga as regras que o furacão quererá lhe impor.
Refugie-se em casa e feche as trancas quando todos os seus estiverem a salvo.
Compartilhe o mate e a conversa com os companheiros, os beijos furtivos e as noites clandestinas com quem lhe assegure ternura.
Não deixe que a estupidez se imponha.
Defenda-se.
Contra a estética, ética.
Esteja sempre atento.
Não lhes bastará empobrecê-lo, e quererão subjugá-lo com sua própria tristeza.
Ria ostensivamente.
Tire sarro: a direita é mal comida.
Será imprescindível jantar juntos a cada dia até que a tormenta passe.
São coisas simples, mas nem por isso menos eficazes.
Diga para o lado bom dia, por favor e obrigado.
E tomar no cu quando o solicitem de cima.
Dê tudo o que tiver, mas nunca sozinho.
Eles sabem como emboscá-lo na solidão desprevenida de uma tarde.
Lembre que os artistas serão sempre nossos.
E o esquecimento será feroz com o bando de impostores que os acompanha.
Tudo vai ficar bem se você me ouvir.
Sobreviveremos novamente, estamos maduros.
Cuidemos dos garotos, que eles quererão podar.
Só é preciso se munir bem e não amesquinhar amabilidades.
Devemos ter à mão os poemas indispensáveis, o vinho tinto e o violão.
Sorrir aos nossos pais como vacina contra a angústia diária.
Ser piedosos com os amigos.
Não confundir os ingênuos com os traidores.
E, mesmo com estes, ter o perdão fácil quando voltarem com as ilusões acabadas.
Aqui ninguém sobra.
E, isto sim, ser perseverantes e tenazes, escrever religiosamente todos os dias, todas as tardes, todas as noites.
Ainda sustentados em teimosias se a fé desmoronar.
Nisso, não haverá trégua para ninguém.
A poesia dói nesses filhos da puta.

Paco Urondo (1930 – 1976) foi escritor, jornalista, poeta, militante político e guerrilheiro argentino.

Franko-Wiktor-399x600

Enem 2019

No Enem 2019: 

A terra será plana; 

O nazismo será de esquerda; 

Em 1964, não haverá Golpe Militar; 

A Ditadura Militar será uma democracia forte; 

A Matemática começará na Bíblia; 

-O triângulo será uma quase reta; 

O aquecimento global será uma conspiração comunista; 

Os políticos serão Jesus Cristo; 

Lugar de criança será na fábrica e na lavoura;

Será muito bom para brasileiros perder todos os direitos que adquiriram pagando muitos impostos; 

Agrotóxico será ótimo para a sua saúde; 

Os índios roubarão as terras dos brancos; 

Os africanos pularão nos navios para se tornarem escravos; 

Não existirão famélicos no Brasil. 

Resultado de imagem para enem

 

Decepção: a “Sinfonia Eroica” e a política

“Ao escrever esta sinfonia Beethoven tinha pensado em Buonaparte, mas Buonaparte como Primeiro Cônsul. Naquela época, Beethoven tinha a maior estima por ele e o comparou aos máximos cônsules da antiga Roma. Não só eu, mas muitos dos amigos mais próximos de Beethoven, vimos esta sinfonia em sua mesa, lindamente copiados à mão, com a palavra “Buonaparte” inscrito no topo da página-título e “Ludwig van Beethoven” na parte inferior. …Eu fui o primeiro a dizer a notícia de que Bonaparte havia se auto-declarado imperador, quando de repente teve um acesso de fúria e exclamou, “Então ele não é mais do que um mortal comum! Agora, também, ele vai pisar no pé de todos os direitos do homem, saciando somente a sua vontade; agora ele vai pensar que é superior a todos os homens, se tornando um tirano!” Beethoven foi até a mesa, pegou a página-título, rasgou ao meio e jogou-o no chão. A página tinha de voltar a ser copiada e foi só agora que a sinfonia recebeu o título de “Sinfonia Eroica.””

Tatiana Pequeno (1979-)

escamandro

Tatiana Pequeno

Tatiana Pequeno nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Tem dois livros publicados: réplica das urtigas (2009) e Aceno (2014), ambos pela Oficina Raquel. Trabalha como professora de literatura na Universidade Federal Fluminense, onde coordena grupo de pesquisa sobre a relação entre corpo, gênero, sexualidades e as literaturas de língua portuguesa.

* * *

BREVE ENSAIO CONTRA A MINHA INDIFERENÇA À CRACOLÂNDIA DO JACARÉ
avanço protegida por uma película
de vidro — esta janela — por onde
filtro cegada pelo sol o bebê caído
de uma teta mirrada de mãe verde
entrando pelo coletivo e assumindo
seu desejo de transbordar tudo o
que for falta. queria escutá-la mas
havia uma transparência imanente
eu a trouxe para cá, todavia
queria que ela falasse no meu poema
ela pede centavos para não morrer
e diz a cerveja poderia me ajudar a parar
a cerveja no entanto é muito lenta
abro a bolsa…

Ver o post original 339 mais palavras

O autismo e os probióticos

O Ponto de Mutação e a teoria de sistemas*

Absolutamente todos os problemas atuais estão interligados e é impossível resolver um de forma decisiva sem lidar com todos.

 

“O Ponto de Mutação” é um filme de 1990, dirigido pelo cineasta Bernt Capra, e inspirado na obra homônima de seu irmão, o físico Fritjof Capra. O filme, tecnicamente, é muito simples: a fotografia e a trilha sonora têm uma qualidade boa, embora não se destaquem por serem as melhores que já se viu. A mudança de cenas é rara. Apesar disso, o filme possui um ótimo desenvolvimento, com um roteiro filosófico e muito bem escrito, que pode ser considerado um pouco denso demais para espectadores leigos.

O ponto principal da filosofia do filme talvez seja a crítica à maneira mecanicista de ver o mundo, provocada pela personagem Sonia Hoffmann, uma física desiludida por ter visto seus projetos sendo usados para fins militares, quando deveriam ajudar a medicina. Sonia critica exaustivamente esse jeito mecanicista e cartesiano de enxergar o mundo, que, apesar de já ter sido útil um dia, hoje já não nos serve mais. Ela acredita na “teoria de sistemas” – absolutamente todos os problemas atuais estão interligados, e é impossível resolver um de forma decisiva sem lidar com todos.

O cineasta deixa claro que ele mesmo é adepto dessa teoria, ao dar mais espaço à física no filme do que aos outros dois personagens principais – Jack Edwards, um político norte-americano, e Thomas Harriman, um poeta. A mensagem final do filme é que todos os problemas que enfrentamos atualmente no século XX, como a fome, o aquecimento global, a obesidade, a ameaça nuclear, guerras constantes e as desigualdades sociais e econômicas, são, na verdade, resultado de apenas uma crise: a crise de percepção, causada pela visão mecanicista de mundo, que em parte justifica a avareza e o egocentrismo. A mudança e resolução de todos esses problemas só virá quando mudarmos radicalmente nossos métodos e valores, e deixarmos de lado nossa cultura individualista e exploradora.

*A teoria de sistemas tem como base o pensamento holístico

A seguir um trecho do livro:

O Ponto de Mutação

“Perdoem-me, mas vocês, políticos, dificultam as coisas. As idéias da maioria de vocês, de direita ou de esquerda, parecem-me antiquadas e mecânicas como um relógio. Para me explicar, eu preciso retroceder até Descartes, que foi o primeiro arquiteto da visão do mundo como relógio. Uma visão mecanicista que ainda domina especialmente vocês. É como se a natureza funcionasse feito um relógio. Vocês a desmontam, a reduzem a um monte de peças simples e fáceis de entender, analisam-nas e, aí, pensam que passam a entender o todo.

capa

Mas não foi sempre assim. Não antes de Descartes. Quando ele introduziu isso, provocou uma ruptura revolucionária com a Igreja. Descartes queria saber como o mundo funcionava sem a ajuda do Papa, pois para ele, o mundo era só uma máquina. Aí Descartes ficou fascinado pela máquina do relógio e fez dele a sua principal metáfora: ‘vejo o corpo como nada mais que uma máquina’. Um homem saudável é um relógio bem-feito, e um doente, um relógio malfeito. E funciona tão bem que os cientistas passaram a acreditar que todos os seres vivos, plantas, animais, nós, não passamos de máquinas, e isto é falso. Isto tomou conta de tudo: arte, política etc.

Mas os tempos mudaram. Precisamos de uma nova maneira de entender a vida. A ciência já passou o pensamento mecanicista. Mas vocês, políticos, parecem ainda ter essa máquina dentro de suas cabeças.

A grande dívida – Bem, tomemos o problema da superpopulação. Nós não o resolveremos olhando as formas de contracepção isoladamente. Pesquisas demonstram que o contraceptivo mais eficaz são ganhos econômicos e sociais que reduziriam as famílias grandes.

Vocês sabiam que, no mundo todo, todo dia 40 mil crianças morrem de desnutrição e doenças evitáveis? Quase a todo segundo?

Mas estas curtas vidas não podem ser vistas isoladamente. Elas são parte de um sistema maior, que envolve a economia, o meio ambiente, e sobretudo à grande dívida do Terceiro Mundo.

O fardo dos empréstimos frenéticos não recai sobre quem tem contas no estrangeiro ou empresas, mas sim sobre os que já não têm nada! Há três anos, um presidente perguntou: ‘Crianças devem passar fome para pagarmos a dívida?’

Tal pergunta foi respondida na prática, e a resposta foi ‘sim’, porque, desde então, milhares de crianças do Terceiro Mundo deram a vida delas para pagar a dívida de seus países e outros milhões pagam os juros com corpos e mentes subnutridos.

O Brasil, por exemplo. Vocês sabiam que lá eles destroem a Floresta Amazônica à razão de um campo de futebol por segundo?

Por quê? Tentam pagar a dívida nacional com o gado e as terras. Nem têm tempo para vender a madeira! Põem fogo na floresta! E o desmatamento é uma das causas principais do efeito estufa na atmosfera. Enquanto isto, nós gastamos na corrida armamentista!

Como veem, vocês não podem olhar em separado os problemas globais tentando entendê-los e resolvê-los. Claro que podem consertar uma peça, mas ela vai quebrar de novo em um segundo, porque se ignorou o que se conecta a ela. Precisamos mudar tudo de uma vez, ao mesmo tempo. Os ideais, as instituições, os valores. Todas essas novas tecnologias, comunicações e banco de dados causam mais problemas do que os resolvem. A medicina, por exemplo, avançou espantosamente em tecnologia, mas o seu custo subiu igualmente. Tornou-se medicina para ricos. E a saúde pública não melhorou muito, embora pudesse melhorar se apenas mudássemos nossos hábitos alimentares.

Em vez disso, especialistas pensam em corações artificiais. Se nossa agricultura nos alimentasse melhor, em vez de desmatar a Amazônia para criar gado que tem carne vermelha e é uma das principais causas dos enfartes, talvez não gastássemos tanto dinheiro com corações artificiais. E por aí vai. São só alguns exemplos de conexões.

Outro princípio – A questão política é: ‘Como começar?’ Mudando nossa maneira de ver o mundo. Vocês ainda procuram a peça certa para consertar primeiro. Não veem que todos os problemas são fragmentos de uma só crise, uma crise de percepção.

A medicina mecanicista, por exemplo, tem tido sucesso até certo ponto, pois simplesmente bloqueia os mecanismos da doença E isso não é curar. É como na política. Apenas mudam-se os problemas de lugar. Os sistemas não encorajam a prevenção, só a intervenção.

Não quero condenar o pensamento de Descartes, mas só reconhecer suas limitações. Ver o mundo como uma máquina pode ter sido útil por 300 anos, mas essa percepção, hoje, além de errada, na verdade é nociva. Precisamos de uma nova visão do mundo. O mundo muda mais rápido que a percepção das pessoas. Não seria um grande desafio político pular o abismo, informar, permitir que nos sintamos responsáveis? O povo nem confia mais em vocês, políticos. Na última eleição, só 50% deram-se ao trabalho de votar.

A ciência moderna, a tecnologia e os negócios não fizeram o que Bacon sugeriu: torturar o nosso planeta? Não podemos mais nos esquivar. Não podemos correr o risco. As marés estão diminuindo, talvez por causa do lixo jogado na baía, ou dos fertilizantes. Lagos podem morrer, oceanos inteiros ficam poluídos, o solo, as florestas, as águas, envenenados, mortos! As coisas mudam tão rápido nas mãos do homem. A natureza se fragiliza, a chuva toma-se ácida.

Há dois grandes princípios em todo ser vivo: o masculino, que é dominador, agressivo, seja lá o que for; e o feminino, que é nutriente, gentil! Esses princípios costumavam estar equilibrados e, agora, o homem criou ferramentas e armas físicas e intelectuais para desequilibrá-los completamente! Demos ferramentas mecanicistas às pessoas sedentas de poder! Estou dizendo que vocês, homens, perderam o controle! E vocês, eu, todos nós somos as vítimas. Então qual é o risco ou o erro em darem uma chance a outro princípio?

Pensamento ecológico – Toda manhã eu tento entender a linguagem da natureza: ‘As pedras falam, e eu me calo’. Gosto de escrever isso, a que eu chamo de ‘pensamento ecológico’, em oposição ao pensamento cartesiano. Gostaria de propor um novo modo de ver as coisas, que nos ajudasse a superar esta crise de percepção.

Descobri que pensar de maneira ecológica simplesmente faz mais sentido. Dá uma compreensão mais firme da realidade, dá força. Saber é poder, sim, mas no sentido de poder pessoal, e não do velho impulso masculino de ter poder sobre outros.

Foi Isaac Newton, na verdade, que o concretizou, que o transformou em teoria científica, em poder. Veneravam Newton quase como a um Deus, reduzindo todo fenômeno físico ao movimento de partículas causado pela força da gravidade. Ele conseguia descrever o efeito exato da gravidade em qualquer objeto, com equações precisas. Chamadas de Leis do Movimento, elas são o maior feito da ciência no século XVII.

Bem, nas mãos certas, ou melhor, nas mentes certas tais equações funcionavam lindamente. Eu poderia usar as leis de Newton para explicar cada movimento. Era um feito tão incrível para a época, que essas leis logo foram adoradas como a teoria correta da realidade, as leis finais da natureza.

O sonho cartesiano do mundo como uma máquina perfeita tornara-se um fato consumado. Isto trouxe inúmeros benefícios às pessoas. Elas podiam fazer coisas com as quais nem sonhavam antes. Era irresistível e, claro, a velha noção do mundo como um ser vivo, sumiu do mapa.

Lembrem-se de que todos os conceitos newtonianos baseavam-se em coisas que podiam ser vistas ou ao menos visualizadas. Mas o que estavam descobrindo neste mundo estranho e novo eram conceitos que não podiam mais ser visualizados.

Ao se depararem com os absurdos fenômenos da física atômica tiveram de admitir que não tinham uma linguagem, nem mesmo uma forma adequada de pensar nas novas descobertas. Foram obrigados a pensar em conceitos radicalmente novos. Para entender porque a matéria é tão sólida precisavam desafiar até as idéias convencionais sobre a existência da matéria, e após muitos anos de frustrações tiveram de admitir que a matéria não existe com certeza e em lugares definidos, mas sim, mostra tendência a existir. Em linguagem científica, não falamos em tendências, falamos em probabilidades. Todas as partículas subatômicas, elétrons, prótons e nêutrons, manifestam essa estranha existência entre potencialidade e realidade. Então, no nível subatômico não há objetos sólidos. Portanto o que torna a rocha sólida, vai além do poder da nossa imaginação. Não posso explicar isto visualmente a vocês, e sim usar equações. Não há metáforas possíveis. ‘Se as portas da percepção se abrissem, tudo pareceria como é’, disse William Blake.

Ética universal – A vida é um monte de padrões de probabilidades de conexões. Essas probabilidades não são probabilidades de coisas e, sim, probabilidades de conexões. Uma partícula é, essencialmente, um conjunto de relações que se estendem para se conectarem a outras coisas. Conexões de outras coisas, mas que também são conexões, e assim por diante. Na física atômica, nunca se tem objetos. A natureza essencial da matéria não está nos objetos, mas nas conexões.

A essência do acorde está nas relações. É a relação entre a duração e a frequência que compõe a melodia. As relações formam a música. As relações formam a matéria. Esta visão do universo feito de harmonia de sons e relações não é uma descoberta nova. Os físicos estão apenas provando que o que chamamos de objeto, átomo, molécula ou partícula, é só uma aproximação, uma metáfora. No nível subatômico, há uma troca contínua de matéria e energia. Somos todos parte de uma teia inseparável de relações.

Assim como a luz, muitas outras partículas de alta energia, os raios cósmicos, bombardeiam a Terra. Todas essas partículas colidem com o ar e criam mais partículas, interagem, criam e destroem outras partículas, e nós estamos no meio da dança cósmica de criação e destruição. Todos nós, todo o tempo.

Sabiam que nunca falamos de responsabilidade na universidade, nem nunca discutimos ética no meu tempo? Nunca nos ensinaram valores morais. Ninguém nos impôs a sabedoria dos índios americanos que tomavam todas as decisões pensando na sétima geração. Nunca nos ensinaram a pensar no futuro assim. A ciência pura não existe mais! O cientista não se tranca em seu laboratório e escolhe o assunto que mais o fascina. A ciência é cara e o Pentágono, que paga a maior parte dela, é que decide o que é fascinante. 70% da pesquisa científica nos EUA, atualmente, é paga pelos militares.

Partido verde – Pacifistas, ambientalistas, feministas, veteranos, eles foram todos para o Partido Verde, o que mostra que o pensamento ecológico está ficando mais forte. As pessoas veem o quadro geral, veem que as questões estão relacionadas.

Acho que lidamos com um processo histórico tão profundo que nem os americanos resistirão muito. Quando olho para o campo científico, vejo um padrão, a mesma noção holística surgindo. Pensar em processos, e não em estruturas. Isto está acontecendo nos EUA também. Quando algo toma conta do meio cientifico, espalha-se para todo o canto, quer nós gostemos, quer não.

Estou tentando fazê-los aceitar uma visão, mas vocês, políticos, só estão interessados na embalagem. Acho que enquanto continuar a ver as coisas nessa velha ótica patriarcal, cartesiana, newtoniana, vocês deixarão de ver o mundo como ele realmente é. Vocês, eu, todos nós precisamos de uma nova visão do mundo e de uma ciência mais abrangente para nos apoiar.

Há uma teoria surgindo agora que coloca todas as idéias ecológicas de que falamos numa estrutura científica coesa e coerente. Nós a chamamos de Teoria dos Sistemas, dos Sistemas Vivos. Todos os seres vivos, bem como os sistemas sociais e os ecossistemas. Essa teoria ajudaria muito na compreensão das ciências que lidam com a vida. Isto é ciência, e muitos cientistas, incluindo alguns prêmios Nobel, têm trabalhado nestas idéias. Isto é ciência, mas de um tipo novo. Em vez de picotar as coisas, ela olha para os sistemas vivos como um todo.

Um cartesiano olharia para uma árvore e a dissecaria, mas aí ele jamais entenderia a natureza da árvore. Um pensador de sistemas veria as trocas sazonais entre a árvore e a terra, entre a terra e o céu. Ele veria o ciclo anual que é como uma gigantesca respiração que a Terra realiza com suas florestas, dando-nos o oxigênio. O sopro da vida, ligando a Terra ao céu e nós ao Universo. Um pensador de sistemas veria a vida da árvore somente em relação à vida de toda floresta. Ele veria a árvore como o habitat de pássaros, o lar de insetos. Já se vocês, políticos, tentarem entender a árvore como algo isolado, ficariam intrigados com os milhões de frutos que produz na vida, pois só uma ou duas árvores resultarão deles. Mas se vocês virem a árvore como um membro de um sistema vivo maior, tal abundância de frutos fará sentido, pois centenas de animais e aves sobreviverão graças a eles.

Interdependência – A árvore também não sobrevive sozinha. Para tirar água do solo, ela precisa dos fungos que crescem na raiz. O fungo precisa da raiz e a raiz do fungo. Se um morrer, o outro morre também. Há milhões de relações como esta no mundo, cada uma envolvendo uma interdependência.

A teoria dos sistemas reconhece esta teia de relações, como a essência de todas as coisas vivas. Só um desinformado chamaria tal noção de ingênua ou romântica, porque a dependência comum a todos nós é um fato científico. Uma teia de relações. Sim, mas desta vez é a própria teia da vida.

A teoria dos sistemas realmente dá o perfil de uma resposta àquela questão eterna: o que é a vida?

Na linguagem dos sistemas, a resposta seria que a essência da vida é a auto-organização. E significa algo específico, também. Significa que um sistema vivo se mantém, se renova e se transcende sozinho. Um sistema vivo, embora dependa do ambiente, não é determinado por ele. Os campos de centeio nesta ilha francesa deveriam ser verdes o ano inteiro, por causa das chuvas. Mas todo verão eles ficam amarelos. Por quê? Para usar uma metáfora, cada planta se ‘lembra’ que surgiu no clima seco do sul da Ásia. Ela ‘lembra’, e nem o clima muito diferente muda este mecanismo. Ela se mantém e se organiza sozinha.

Nós, por exemplo, como todo ser vivo, nos renovamos sempre em ciclos contínuos. Bem mais rápido do que imaginam. Sabiam que o pâncreas humano substitui a maior parte de suas células a cada 24 horas? Acordamos com um pâncreas novo todos os dias e uma nova mucosa gástrica também. Nossa pele descama à razão de milhares de células por minuto. Sabiam que a maior parte do pó das nossas casas é só pele morta?

Ao mesmo tempo em que as células mortas caem, igual número se divide e forma a nova pele. Assim a vida se renova. Embora as células sejam trocadas, reconhecemos um ao outro porque o padrão de nossa organização continua o mesmo. Esta é uma das características importantes da vida: mudança estrutural contínua, mais estabilidade nos padrões de organização do sistema. E há a autotranscendência.

A auto-organização não consiste apenas nos sistemas vivos se manterem e se renovarem continuamente. Significa também que têm uma tendência a se transcenderem, a se estenderem, e a criarem novas formas. Esta, para mim, é uma das partes mais emocionantes de entender a vida A dinâmica evolutiva básica da vida não é a adaptação. É a criatividade. A criatividade é um elemento básico da evolução. Cada organismo vivo tem potencial para a criatividade, para surpreender e transcender a si mesmo. Para criar beleza também. Evolução é muito mais do que adaptação ao meio ambiente. 0 que é o meio ambiente senão um sistema vivo, que evolui e se adapta criativamente?

Então, quem se adapta a quem?

Um se adapta ao outro. Eles coevoluem. A evolução é uma dança em progresso, uma conversa em progresso. ‘Não evoluímos no planeta, evoluímos com o planeta’. Então, não seria extraordinário e poderoso se pudesse introduzir só essa idéia no diálogo político?

A questão central é a busca obsessiva do crescimento! Isso precisa parar.

Para começar, é dando importância à próxima geração e à seguinte. Foi só quando não as incluímos em nossas teorias científicas e na busca do crescimento, que colocamos toda a vida em perigo.

Pensem apenas no fato horripilante de estarmos deixando para nossos filhos o mais venenoso dos detritos: o plutônio! Ele continuará venenoso até a próxima geração, e a seguinte. Continuará venenoso por meio milhão de anos!

Nunca deveríamos ter aceitado a teoria de que saber é poder, nem a idéia de que o que é bom para a GM é bom para os EUA!

Precisamos de uma sociedade sustentável, em que nossas necessidades sejam satisfeitas sem diminuir as possibilidades da próxima geração!”

Manifesto da poesia Pau-Brasil

 Osvaldo de Andrade

A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.

O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança.

Toda a história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de Jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil.

O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos. O Império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho.

A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade universitária.

Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram.

A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, critica, donas de casa tratando de cozinha.

A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem.

Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo : o teatro de tese e a luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris.

Ágil o teatro, filho do saltimbanco. Agil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a poesia.

A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança.

Uma sugestão de Blaise Cendrars : – Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino.

Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das idéias.

A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.

Não há luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros.

Uma única luta – a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil, de exportação.

Houve um fenômeno de democratização estética nas cinco partes sábias do mundo. Instituíra-se o naturalismo. Copiar. Quadros de carneiros que não fosse lã mesmo, não prestava. A interpretação no dicionário oral das Escolas de Belas Artes queria dizer reproduzir igualzinho… Veio a pirogravura. As meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a máquina fotográfica. E com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa e da misteriosa genialidade de olho virado – o artista fotógrafo.

Na música, o piano invadiu as saletas nuas, de folhinha na parede. Todas as meninas ficaram pianistas. Surgiu o piano de manivela, o piano de patas. A pleyela. E a ironia eslava compôs para a pleyela. Stravinski.

A estatuária andou atrás. As procissões saíram novinhas das fábricas.

Só não se inventou uma máquina de fazer versos – já havia o poeta parnasiano.

Ora, a revolução indicou apenas que a arte voltava para as elites. E as elites começaram desmanchando. Duas fases: 1º) a deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário. De Cézanne e Malarmé, Rodin e Debussy até agora. 2º) o lirismo, a apresentação no templo, os materiais, a inocência construtiva.

O Brasil profiteur. O Brasil doutor. E a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil.

Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos.

A síntese

O equilíbrio

O acabamento de carrosserie

A invenção

A surpresa

Uma nova perspectiva

Uma nova escala.

Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Pau-Brasil

O trabalho contra o detalhe naturalista – pela síntese; contra a morbidez romântica – pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pela surpresa.

Uma nova perspectiva.

A outra, a de Paolo Ucello criou o naturalismo de apogeu. Era uma ilusão ética. Os objetos distantes não diminuíam. Era uma lei de aparência. Ora, o momento é de reação à aparência. Reação à cópia. Substituir a perspectiva visual e naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua.

Uma nova escala:

A outra, a de um mundo proporcionado e catalogado com letras nos livros, crianças nos colos. O redame produzindo letras maiores que torres. E as novas formas da indústria, da viação, da aviação. Postes. Gasômetros Rails.

Laboratórios e oficinas técnicas. Vozes e tics de fios e ondas e fulgurações. Estrelas familiarizadas com negativos fotográficos. O correspondente da surpresa física em arte.

A reação contra o assunto invasor, diverso da finalidade. A peça de tese era um arranjo monstruoso. O romance de idéias, uma mistura. O quadro histórico, uma aberração. A escultura eloquente, um pavor sem sentido.

Nossa época anuncia a volta ao sentido puro.

Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz.

A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.

Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres.

Temos a base dupla e presente – a floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a geometria, a algebra e a química logo depois da mamadeira e do chá de erva-doce. Um misto de “dorme nenê que o bicho vem pegá” e de equações.

Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas; nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional. Pau-Brasil.

Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia preguiça solar. A reza. O Carnaval. A energia íntima. O sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos pajés e os campos de aviação militar. Pau-Brasil.

O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Acertar o relógio império da literatura nacional.

Realizada essa etapa, o problema é outro. Ser regional e puro em sua época.

O estado de inocência substituindo o estada de graça que pode ser uma atitude do espírito.

O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica.

A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna.

Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia.

Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil

 

Fonte: https://www.passeiweb.com/estudos/livros/manifesto_pau_brasil

Antigas Raízes

Deixarei minhas palavras soltas
fugirem leves entre flocos de algodão,
cruzando o triste
limite dos sonhos,
enfeitarei o horizonte com balões coloridos
não esquecendo as cores mais sórdidas
por serem as mais tristes,
beberei uma água cristalina
roubada da nascente vazia das palavras
transportarei troncos
antigas raízes de arvores
por entre as correntezas se despojando do infinito,
procurarei saber se o gosto visual
da flor é capaz de me enlouquecer
diante do tempo,
olharei para o dentro dos mapas
e meu roteiro
será sempre o desespero
uma eterna viagem feita de desconhecido
e recoberto de palavras ansiosas,
aprenderei com os poetas
ler o que fica escondida no crepúsculo
depois deixarei
o sol fugir da minha pele
de minha noite
para iluminar o mundo
com palavras viajantes !

carlos bueno guedes

%d blogueiros gostam disto: