QUINZE MILHÕES, PATRIMÔNIO DO ÚNICO POLÍTICO “HONESTO” DO BRASIL – Folha de São Paulo denuncia enriquecimento ilícito de Bolsonaro e filhos

Jornal Flit Paralisante

Patrimônio de Jair Bolsonaro e filhos se multiplica na política

RANIER BRAGON
CAMILA MATTOSO
DE BRASÍLIA
ITALO NOGUEIRA
DO RIO

O deputado e presidenciável Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e seus três filhos que exercem mandato são donos de 13 imóveis com preço de mercado de pelo menos R$ 15 milhões, a maioria em pontos altamente valorizados do Rio de Janeiro, como Copacabana, Barra da Tijuca e Urca.

Levantamento feito pela Folha em cartórios identificou que os principais apartamentos e casas, comprados nos últimos dez anos, registram preço de aquisição bem abaixo da avaliação da Prefeitura do Rio à época.

Em um dos casos, a ex-proprietária vendeu uma casa em condomínio à beira-mar na Barra a Bolsonaro com prejuízo –pelo menos no papel– de R$ 180 mil em relação ao que havia pago quatro meses antes.

O…

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Aqui

Na pequena vargem mineira,

Não se veem nem anjos barrocos

Nem discos voadores nem alienígenas.

 

Retornando ao Vale, cinco pequenos pássaros atacaram um gavião na estrada.

Na antiguidade, diriam “esse é o sinal de que um poderoso

Será destronado pelo povo.”

 

Mas não, nada.

Para nós, os céus estão mudos.

E o único anjo é nosso amigo que quebrou suas Asas da Mantiqueira

Num coqueiro da praia.

 

Oramos para nosso céu, com mais estrelas,

Para nossos campos com mais flores

E só vemos o fogo de uma Geena

Que aos mais pobres condena.

Aqui, o véu nunca será rasgado?

Nem se verá a ira do cordeiro

Que, todo fim de ano, vira doloroso assado?

Aquele que é, que era e que vem, está há séculos atrasado,

mais uma triste prova de que Ele é mesmo um brasileiro!

O livro, aqui, é amargo na boca e no estômago também.

Todos, sem paz, foram pacificados e continuam repetindo amém.

 

Satanás (1)

11-2017

A Doutrina do Choque – A Ascensão do Capitalismo do Desastre

Fridmann, o economista que defendeu o capitalismo neoliberal, e suas ideias são considerados os responsáveis pelas crises econômicas dos últimos 40 anos. Inclusive pelo crash de 2008, pela qual nenhum responsável foi preso. Apesar de defender a não intervenção do estado na economia, as empresas de seguro aceitaram dinheiro do governo para cobrir seu rombo e ainda ganharam bonificação. O lucro é privado, mas o investimento é público, porque o povo americano com seus impostos salvou essas empresas particulares.

As teorias econômicas de Fridmann, que eram consideradas loucuras após a crise de 1929, ganharam força na década de 1950, contudo recentemente foram descartadas por dois vencedores do prêmio Nobel, devido aos desastres econômicos que têm causado, mas os políticos ainda não estudaram o resultado catastrófico dessas teorias e continuam aplicando como se ainda estivéssemos na década de 1910. O laissez-faire fracassou várias vezes, o controle total do Estado também. No entanto, nenhum político fala em adotar um meio termo ou uma terceira via para solução das crises econômicas. Grécia, Portugal, Espanha, EUA são alguns dos países que quebraram recentemente, após a globalização que não trouxe o progresso prometido para a classe trabalhadora pelo menos.

Com esse documentário, chega-se à conclusão de que paz e capitalismo neoliberal são incompatíveis. O capitalismo precisa da guerra, precisa da crise, o que é trágico. Segue um resumo do livro “A Doutrina do Choque” (2009): documentário dirigido por M. Whitercross e M. Winterbottom, roteiro de Naomi Klein.Naomi Klein põe um fim ao mito de que o mercado livre global triunfou democraticamente. Expondo o modo de pensar, o rasto do dinheiro e os fios de marioneta por detrás das crises e guerras mundiais das últimas quatro décadas. “A Doutrina do Choque” é a história absorvente de como as políticas de “mercado livre” da América têm vindo a dominar o mundo – através da exploração de povos e países em choque devido a inúmeros desastres. Na conjuntura mais caótica da guerra civil do Iraque, é apresentada uma nova lei que permitiria à Shell e à BP reclamar para si as vastas reservas petrolíferas do país…

Imediatamente a seguir ao 11 de Setembro, a administração Bush concessiona, sem alarido, a gestão da “Guerra contra o Terror” à Halliburton e à Blackwater… Depois de um tsunami varrer as costas do sudeste asiático, as praias intocadas são leiloadas ao desbarato a resorts turísticos… Os residentes de Nova Orleães, espalhados pelo furacão Katrina, descobrem que as suas habitações sociais, os seus hospitais e as suas escolas jamais serão reabertas.

Estes acontecimentos são exemplos da “doutrina de choque”: o aproveitamento da desorientação pública no seguimento de enormes choques colectivos – guerras, ataques terroristas ou desastres naturais – para ganhar controlo impondo uma terapia de choque económica. Por vezes, quando os dois primeiros choques não são bem sucedidos em eliminar a resistência, é empregue um terceiro choque: o eléctrodo na cela da prisão ou a arma Taser nas ruas. Baseado em investigações históricas inovadoras e em quatro anos de relatos no terreno em zonas de desastre, “A Doutrina do Choque” mostra de forma vívida que o capitalismo de desastre – a rápida reorganização corporativa de sociedades que tentam recuperar do choque – não começou com o 11 de Setembro de 2001. O livro traça um percurso das suas origens que nos leva há cinquenta anos atrás, à Universidade de Chicago sob o domínio de Milton Friedman, que produziu muitos dos principais pensadores neoconservadores e neoliberais cuja influência, nos nossos dias, ainda é profunda em Washington. São estabelecidas novas e surpreendentes ligações entre a política económica, a guerra de “choque e pavor” e as experiências secretas financiadas pela CIA em electrochoques e privação sensorial na década de 1950, pesquisa essa que ajudou a escrever os manuais de tortura usados hoje na Baía de Guantanamo.
Jorge Fernandes

Poética de Botequim

Com esse documentário, chega-se a conclusão de que paz e capitalismo neoliberal são incompatíveis. O capitalismo precisa da guerra, o que é trágico.

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Duas notas sobre a Palestina

MATERIALISMO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO

Deixo abaixo duas notas que fiz em minha página do facebook sobre a Palestina.

Sobre a “questão palestina”

Apenas acordo e, viciadíssimo nas redes sociais, abro a página do facebook onde encontro um post da “Eurasia – Rivista di Studi Geopolitici”, divulgando um número especial sobre a Palestina (edição n. 2, 2009). Nada mal, sabendo usar, até que as redes sociais podem contribuir para o nosso esclarecimento acerca deste “mundo grande e terrível”.

Único texto livre de pagamento, o editorial (Palestina, Provincia d’Eurasia) é bastante completo, até mesmo em termos de reconstituição histórica, e logo me põe a conhecer dados demográficos realmente aterradores. Vamos a eles.

Em 1880 a comunidade judaica na Palestina — que por esta época era uma estável província do Império Otomano, gozando mesmo de um importante desenvolvimento econômico, social e cultural — era de apenas cerca de 24 mil indivíduos; de 1880 a 1908 passa…

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À Palestina

À Palestina,

o sangue, que jorra das veias de seu povo,
É esquecido, é ignorado.
Até quando fingiremos que tudo é normal?
Até quando viraremos as costas àqueles que sofrem
de um grande mal?

“Assim caminha a humanidade”, uns dizem.
Outros permanecem calados,
Enquanto seus filhos se esquivam da morte sem
Saber se seus passos serão lembrados.
Todos eles serão só números quantificados?
Alguns ainda virarão teses de doutorado,
Mas sem nome, sem lar, nem água nem chão,
Todos seus filhos serão prisioneiros em seu próprio torrão?
E todos nós sem a vergonha de deixar
que isso aconteça a um irmão?

Godoy
11-07-À Palestina,2012

 

 

O grande equívoco de Jorge Luis Borges

Videla, Borges y Sábato - 1
Ditador Videla, Borges e Sábato, em um almoço em 1976, onde os convidados teriam expressado sua preocupação com escritores presos ou desaparecidos. Em 2012, Videla admitiu que foi responsável pela morte de 8000 pessoas.

É difícil imaginar o autor argentino como um rebelde, já que o senso comum acredita que ele era apenas um homem em sua biblioteca, um dândi alheio à política, em sua torre de marfim. Ele próprio dizia-se avesso à política e autodefiniu-se como um anarquista conservador.

Contudo, sua vida e suas escolhas polêmicas dizem o oposto. Borges foi diretor da Biblioteca Nacional entre 1955 e 1972. Por ser anti-peronista radical, o escritor foi demitido de seu cargo quando Perón assumiu seu terceiro mandato. Assim, os mais de 1000 livros doados de sua biblioteca pessoal para a Biblioteca Nacional foram “esquecidos” pelos funcionários peronistas e ficaram encaixotados por mais de 30 anos. Recentemente, uma busca tem revelado que outros livros foram doados por ele,  mas omitiram a identidade do doador. O autor “alienado” foi perseguido por suas posições políticas.

Borges tinha horror ao nazismo e às consequências da Segunda Grande Guerra. O guarda-costas de Evita Perón,  Otto Skorzeny havia sido o preferido de Hitler e de Mussolini. Otto auxiliou a fuga de vários nazistas para a Argentina com auxílio de Perón. Borges foi um forte opositor aos nazistas radicados na argentina que representavam, para ele, um perigo gravíssimo à comunidade judaica local. Por isso, Borges posicionou-se desastradamente a favor da ditadura na Argentina, acreditando que na época era a única alternativa ao peronismo. Além disso as perseguições, que sofreu por manifestar suas posições políticas em voz alta, causou uma ruptura irreconciliável com o governante populista.

Um almoço com o ditador Videla é o momento mais assustador de sua biografia, mas teria ele aprendido que a rebeldia não lhe valeria nada, apenas o desemprego? Condescendeu para não ter que fugir como outros escritores e poder escrever sem o bafo da censura em seu cangote? Foi ingênuo acreditando que dos males aquela Ditadura seria o menor? Ou foi arrivista? Enfim, só podemos constatar que a sociedade argentina não conseguiu pegar uma terceira via, criar opções políticas democráticas também por questões externas: o braço dos EUA e seu projeto para a América Latina.

No fim de sua vida, perguntaram-lhe que mensagem deixaria aos jovens, ele respondeu o seguinte: “Eu não soube administrar minha vida, então não posso dirigir a vida dos outros. Minha vida foi uma série de equívocos. Não posso dar conselhos. Ando um pouco à deriva. Quando penso no meu passado, sinto vergonha. Eu não transmito mensagens, os políticos transmitem mensagens.”

Sentiremos vergonha?

Contudo, a mensagem que podemos aprender desse terrível equívoco borgeano é o seguinte: no Brasil o ódio a certo partido político, tido como “populista”, pode nos levar ao pior dos pesadelos, já que temos assistido ao crescimento de um candidato com posicionamentos radicais, muito similares aos dos nazistas. Em seus comícios, tal candidato afirma que tornará o Brasil um país unicamente cristão e expulsará as minorias; Hitler também tentou eliminar todos os judeus ou qualquer um que fosse diferente do alemão típico, se é que isso existe. Este é Jair Bolsonaro que confessou ter recebido 200 milhões de reais em propina da JBS (dona da Friboi), além de ter planejado atentado contra o seu próprio quartel para falsamente acusar comunistas, na época em que era militar. Por isso foi expulso da corporação.

Teremos, então, uma teocracia, onde não  existirá mais o direito de professar sua fé livremente. Tal direito só pode ser defendido por um Estado laico que deveria proteger todas as religiões igualmente, inclusive o direito de não professar fé alguma. Nossa democracia, já rudimentar, está seriamente ameaçada, visto que a bancada evangélica ganha cada vez mais força, apelando para um pânico moralista ao invés de se ater às questões de interesse público que visem o bem comum. Corremos inocentemente para o abismo fazendo piadas, subestimando um homem perigoso, sem perceber que não há apanhadores no campo de centeio.

 

Godoy

Juventude perdeu o medo do capitalismo

Filósofo contesta mitos sobre “geração despolitizada”, propõe intensificar choque de valores e sugere que é preciso hackear instituições conservadoras

Entrevista a Beatriz Macruz, Guilherme Zocchio e Rute Pina* 

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Que caracteriza o comportamento da geração que, ao chegar à faixa dos vinte anos, começa a sondar seus papéis políticos? Por que ela não adere a hábitos valorizados no passado, como o engajamento num partido ou a leitura de um jornal diário? Como expressa seus desejos de transformação, que parecem desdobrar-se em múltiplas causas e campanhas, às vezes fragmentadas? Que atitudes assumirá, no futuro próximo?

O filósofo Vladimir Safatle é um dos que têm dedicado parte de seu tempo a refletir sobre estas questões. Conhecido de muitos pelas colunas que publica em “Carta Capital” e “Folha de S.Paulo”, ele é, muito mais que isso, um estudioso profundo da herança (e presença…) da ditadura brasileira; e um pensador que, à maneira de Slavoj Zizek, procura articular marxismo renovado com teoria psicanalítica.

Suas reflexões têm produzido interpretações instigantes sobre a nova geração. Ele rechaça, é claro, os pontos de vista superficiais, segundo os quais o fato de não haver “povo saindo às ruas” indicaria uma fase de despolitização. É preciso ir mais fundo, examinar os valores que mobilizam e os que já não encantam; a partir deles é que será possível fazer previsões de longo prazo.

Safatle anima-se, quando se dedica a esta sondagem. Ele destaca que aspirações como ascender socialmente, ser “bem-sucedido” segundo as regras e critérios do sistema, “fazer curso de publicidade ou entrar no departamento de marketing” já não cativam. Há sinais de desconforto social. Busca-se outros encantos e prazeres: talvez, participar em redes de colaboração, contribuir para uma distribuição menos desigual das riquezas produzidas por todos, construir novas relações entre o ser humano e a natureza.

Mais: segundo o filósofo, já é possível vislumbrar o momento em que desaparecerá a cultura do medo disseminada pelo capitalismo após a queda do (mal-)chamado “socialismo real”. Está em xeque, diz ele, a ideia de que “se quisermos grandes mudanças, provocaremos catástrofes” e “só estaremos seguros no presente – por mais que o detestemos e o julguemos insuportável”…

É natural, diz Safatle, que a nova geração busque organizar-se de forma não-tradicional. “Os grandes partidos já não têm força alguma para mobilizar as pessoas. E os pequenos, cobram caro pela mobilização: um tipo de adesão que boa parte dos jovens não está disposta a dar, pelas melhores razões. Eles não querem virar instrumentos para uma lógica partidária”.

À falta de instrumentos eficazes para expressar vontades coletivas, seria o caso de optar exclusivamente pela micropolítica, ou pela ação à margem das instituições? Safatle pensa que não. Ele rejeita fórmulas como a de John Holloway, que propõe uma esquerda totalmente afastada do Estado. Alfineta: “se tal postura prevalecer, os donos do poder irão atrapalhar todas as nossas tentativas de mudar o mundo: não conseguiremos fazer nada”.

Mas propõe-se a sondar saídas. “Há algo no meio do caminho [entre as lutas e as instituições], que você opera pressionando de fora (…) O Estado, os partidos e o parlamento não vão desaparecer. No entanto, você pode operar as estruturas políticas em outras chaves. Forçar a democracia plebiscitária, esvaziar atribuições do parlamento, ativar processos de democracia direta”. Operar o que outros pensadores chamam de “hackeamento das instituições”.

Safatle falou sobre todos estes temas numa longa e preciosa entrevista, feita por três estudantes de jornalismo da PUC – São Paulo. “Outras Palavras” tem a satisfação de publicá-la a seguir (A.M.)

Você consegue imaginar por que é a geração da juventude de hoje, e não a que viveu ou ainda pegou o resto da ditadura, que está promovendo os esculachos contra agentes do regime militar?

Safatle: Porque esta é uma das gerações mais politizadas que tivemos nos últimos trinta anos. Contrariamente ao que algumas pessoas querem nos fazer acreditar, não vivemos num processo irreversível de despolitização juvenil. Acredito exatamente no contrário. Acho que a geração que hoje tem vinte, vinte e poucos anos, é muito mais politizada do que a minha, de pessoas que hoje têm quase quarenta. A minha era de pessoas que tinham como maiores preocupações ascender socialmente no mercado, fazer curso de publicidade, entrar no departamento de marketing… As preocupações políticas eram nulas. Existia todo um discurso de que as ideologias haviam terminado, havíamos chegado ao fim da história e não havia outra forma de vida possível, a não ser a institucionalizada pelas sociedades capitalistas avançadas.

A atual, é uma geração que vive a experiência da crise social, de uma crise econômica mundial (mesmo que o Brasil seja um caso à parte). Há um esgotamento da confiança na democracia parlamentar, a ascensão da extrema direita, o retorno do racismo e da xenofobia: são questões de profunda natureza política. É muito normal que uma parcela de jovens, no Brasil, volte-se para o que resta da ditadura, seu legado, a impossibilidade de saber que há um acerto de contas com os crimes do passado; e que faça mobilizações como as que começamos a enxergar.

Isso também demonstra algo interessante: as sociedades nunca esquecem. Até hoje, fala-se no genocídio armênio, há mais de cem anos. As experiências das ditaduras podem ser simbolizadas, quando você encontra uma inscrição simbólica adequada para este tipo de experiência. Como isso não existiu no Brasil, dá-se um fenômeno descrito por Lacan: o que é expulso do simbólico, retorna no real, e de forma violenta. Como nunca tivemos uma inscrição simbólica da violência da ditadura, ela volta agora sob a forma do desprezo, que várias parcelas da juventude têm a figuras que cometeram crimes contra a humanidade. Estamos falando do uso do aparato do Estado, da tortura, assassinato, estupros, ocultações de cadáver e coisas desta natureza.

Mas esta manifestação civil não chega em uma instância oficial do Estado. Você acha que ela também pode contribuir para que surja um debate sobre o tema?

Safatle: Acho que demonstra claramente a existência de um desconforto social – e é o primeiro passo. O argumento de quem quer esquecer a qualquer custo é que a sociedade já se pacificou e reconciliou, não haveria nenhuma razão de o Estado intervir em um processo resolvido. Essas manifestações demonstram que tudo isso é falso, uma mentira, a reconciliação foi extorquida. A própria Lei da Anistia é um exemplo claríssimo: foi votada só por membros do partido do governo. A oposição não se reconhecia de no projeto. Que tipo de acerto é esse? Conseguiram extorquir a reconciliação, e querem fazer passar a ideia que ela resultou de ampla negociação por debate. Sem contar que as instâncias de justiça de transição, no mundo inteiro, são completamente contrárias à de uma anistia autoconcedida. Os militares concederam anistia para si mesmos. Isso é, em qualquer situação, uma aberração jurídica.

Você acha que o fato de isso aparecer no momento que o estado brasileiro está se organizando para instaurar uma Comissão da Verdade revela um desconforto?

Safatle: É uma maneira de pressionar o debate, tentar impedir que a Comissão da Verdade seja uma farsa, como tudo indica que pode ocorrer. É uma comissão esvaziada, tem apenas sete membros. Vai operar sem poder de mandar material para a Justiça, pois, a princípio, sua função é descobrir o que realmente aconteceu. Essa é uma questão importantíssima: não sabemos o que aconteceu. “Existem quatrocentos e poucos mortos”. Quem disse que foram quatrocentos e poucos? Isso foi o que a gente conseguiu descobrir.

Num processo de Comissão da Verdade, os crimes vão aparecendo. Quem nos garante que não aconteceu no Brasil algo como na Argentina: sequestro de crianças, essa brutalidade que é, para mim, o pior dos crimes. Entrega-se os filhos dos torturados para os torturadores. Corta-se a possibilidade de memória da dor. Esse lado maquiavélico da ditadura argentina coincide com a pior experiência do nazismo. Primo Levi dizia que a pior frase que ouvira, quando estava no campo de concentração, era a de um oficial nazista: “tudo o que a gente fez é tão inacreditável, que ninguém vai ouvir ou acreditar no que você disser. E a gente vai apagar todos os rastros”.

Você percebe uma mudança na forma, na estética dos esculachos para os movimentos na época da ditadura?

Safatle: Com certeza. Você tem a identificação clara de um indivíduo e uma pressão, um movimento claro de desprezo. É um recado: “você pode conseguir segurar algumas coisas na imprensa e escapar de tudo, menos do o desprezo social”. É completamente distinto das manifestações que ocorreram no período militar, de luta contra um aparato repressivo. Temos agora consciência de como o reconhecimento social é central na vida política. Retira-se o reconhecimento social ao dizer: “Você não pode ser um cidadão de plenos direitos. Você é um criminoso”.

Você enxerga uma relação entre a mudança de ativismo no Brasil e o movimento Occupy, que propõe uma nova forma de se manifestar?

Safatle: Há algo em comum: todos estes movimentos são feitos à margem de partidos. As estruturas partidárias – pelo menos as grandes – não têm mais força alguma parra mobilizar as pessoas. E os pequenos partidos cobram caro pela mobilização: um tipo de adesão que acredito que boa parte dos jovens não está disposta a dar, pelas melhores razões. Eles não querem virar instrumentos para uma lógica partidária. Essas mobilizações se fazem em torno de temas: você se organiza para certos objetivos, cria estruturas ou fóruns ligados a eles; depois, eles se dissolvem. É bem provável que isso seja cada vez mais utilizado.

O Occupy forneceu um modelo para este tipo de processo. Mas… o que eles conseguiram? Francamente, não é esta a questão. O ponto de vista por trás de tal pergunta é muito rasteiro. “ – Deu um resultado logo em seguida? – Não. – Então, não deu resultado algum”.

Não faz sentido: às vezes os resultados precisam de anos. Um primeiro movimento produz um desdobramento aqui, outro ali… Lá na frente, anos depois, você vai enxergar resultados mais concretos. Essa visão de ato e reflexo, bate aqui e vê se acontece alguma coisa ali, é a antipolítica por excelência. Acho que os movimentos foram muito bem-sucedidos. Eles tensionaram um acordo que parecia intocável, forneceram o modelo de um processo de mobilização e isso não terminou.

No Chile há, até hoje, grandes manifestações sobre a educação, 400 mil pessoas nas ruas contra o governo, por uma escola pública de qualidade. O processo é mesmo lento, ninguém ache que vai conseguir modificar o tabuleiro do xadrez do debate político de um dia para a noite, mas toda grande caminhada começa com um passo – e ele foi dado.

Penso numa frase de Deleuze, segundo a qual os jovens necessitam muito ser motivados. Nossa geração pede isso. Você não acha que falta uma noção maior do que tudo isso representa?

Safatle: Isso é muito normal, porque tivemos um esgotamento das grandes explicações. Não porque estivessem completamente erradas, mas estavam parcialmente erradas. Não deram conta de uma série de processos ocorridos nos últimos vinte, trinta anos. É normal que você precise reconstruí-las agora, em novas bases. Aquilo que um dia Jean-François Lyotard chamou das grandes metanarrativas. Tem um lado certo e um errado, da crítica que fazia. Ele disse que as grandes metanarrativas, a ascensão proletária, o movimento revolucionário, a teleologia histórica, isso tudo era um grande equívoco.

Eu diria que não foi um pequeno equívoco. Você não pode abandonar perspectivas de largo desenvolvimento histórico. Do contrário, os acontecimentos ficam completamente opacos, você torna-se incapaz de enxergá-los. Os fatos parecem vir no ritmo do acaso, da completa contingência.

No entanto, existe o espaço da contingência. Ou seja, há acontecimentos completamente imprevisíveis, que exigem uma reformulação ampla dessa perspectiva de análise histórica. Isso não aconteceu. Eu diria que uma tarefa atual é compreender o lugar da contingência no interior de uma dinâmica onde a necessidade vai se construindo. Ninguém enxerga muito bem o que está acontecendo, isso só é possível depois. Em certos momentos da história, algumas pessoas conseguem mobilizar mais e dizer: “vejam, existe uma abertura, um desfiladeiro. A gente consegue passar por aqui”.

Falta acreditar que os processos abertos não necessariamente terminam em catástrofe. A gente absorveu muito essa ideia: se quisermos grandes mudanças, provocaremos catástrofes. Segundo tal lógica, só estaríamos seguros no presente – por mais que o detestemos e o julguemos insuportável. Espero que esse raciocínio desapareça o mais rápido possível. Ele expressa a cultura do medo: você não projeta nada para frente. Você se rende ao presente.

Nos momentos de crise, há tanto busca de novos referenciais, quanto retorno do autoritarismo. Num país como o Brasil, em que as correntes conservadoras são muito fortes, não há risco de que esta segunda posição prevaleça?

Safatle: Essa é uma luta que existe no Brasil hoje. Nosso debate político é hoje cultural. Os projetos econômicos são mais ou menos iguais. Existem distinções, mas não são enormes, reais. Ninguém prega grandes reformas. Nenhum partido importante sugere: “vamos fazer uma democracia plebiscitária”. Há um grande consenso.

Onde está o debate político? Está no campo da cultura, dos costumes, dos hábitos. O aborto virou um dos temas mais importantes do Brasil. Casamento homossexual, todos os outros problemas ligados à modernização dos costumes.

Isso tem um lado bom. A gente está brigando por formas de vida distintas. Mas isso também demonstra que o debate centrado na cultura sempre tocou muito mais os jovens e sempre é um debate da esquerda. Hoje, há uma direita cultural, um pensamento cultural de direita forte, conservador, que consegue mobilizar camadas da juventude. Julgo isso algo muito grave, mas lembro que é característica de todos os processos históricos ricos: a juventude dividindo-se ao meio. Há uma ala conservadora, outra progressista. Na época da ditadura militar, esse processo era muito claro.

A França viveu uma eleição agora. Um partido de extrema-direita ficou em terceiro lugar – e em primeiro, nos votos dos jovens entre 18 e 25 anos. Por que? Eles trazem questões culturais: imigração; nossos valores; nossa forma de vida; nossa religião contra a religião “atrasada” dos “outros. São debates que estão, de uma maneira ou de outra, chegando no Brasil. A gente precisa se preparar para isso, também. Para uma divisão que vai ocorrer, de maneira cada vez mais forte. Não há como escapar dela.

Você conseguiria apontar quais são alguns agentes dessa direita cultural?

Safatle: Existe uma proliferação de blogues de extrema-direita no Brasil, que a juventude lê. São colunistas de jornal, que se assumem claramente como conservadores. Isso não deve ser negligenciado: é um fenômeno que veio para ficar.

Significa o quê? Que o debate cultural deve ser feito com toda a força. A discussão sobre a memória é um aspecto decisivo. Que tipo de sociedade queremos? Uma sociedade que acredita que, esquecendo crimes do passado, você tem um presente melhor? Uma sociedade que tem medo de fazer memória? Onde você publica um artigo sobre a ditadura na internet, e surgem 150 pessoas comentando como era fantástica a vida naquele tempo, como pelo menos não tinha corrupção?

Há um preceito liberal que se chama “Direito de Resistência”. Não está em Lênin, mas em Locke, que era a favor do tiranicídio. Dizia: “se um tirano usurpa os seus direitos, as liberdades individuais e as liberdades sociais, ele merece a morte”. Isso está também no Rousseau – ou seja, na tradição liberal do pensamento político. Se algumas pessoas têm a coragem de usar a famosa teoria dos dois demônios,segundo a qual havia terroristas de esquerda e de direita, elas colocam-se aquém da perspectiva liberal de política.

Que tipo de sociedade essas pessoas procuram realizar no presente? Penso que não é mais possível admitir mais esse tipo de situação. Eles querem dizer que, mesmo numa ditadura, a violência contra o Estado não é aceitável. Para mim, é uma das proposições mais antidemocráticas que se possa imaginar. Na década de 1920, greve era um crime. Mas foi graças a esse crime que os direitos trabalhistas foram universalizados.

Uma esquerda mais clássica, organizada em partidos, fala numa disputa entre hegemonia e contra-hegemonia – e sugere disputar instituições como a mídia, o governo, o parlamento. Este tipo de opinião pode enfraquecer os movimentos da juventude que procuram uma saída não-institucional e novas formas de política?

Safatle: Acho que não – e é um ótimo tema. Há momentos em que você precisa saber como se organizar institucionalmente. A Primavera Árabe demonstra isso claramente. Começou, sempre, com movimentos jovens: na Tunísia, diplomados desempregados; no Egito, o movimento 6 de Abril, composto por jovens de várias tendências políticas. Conseguiram resultados imediatos mas, na hora de gerir o processo, não existia uma estrutura institucional, uma organização. Quem colheu todos os frutos do processo foram  os partidos islâmicos, mais organizados e com capilaridade popular.

Qual o modelo de organização para grupos que não admitem o partido como a figura clássica de organização? Uma nova estrutura política? Frentes mais flexíveis? É algo que precisaremos, em algum momento, responder. Do contrário, todas as estruturas institucionais serão dominadas por aqueles que já sabem operá-las. E elas não vão desparecer. O Estado, as eleições, os sindicatos não vão desaparecer.

Novas instituições poderiam superar as que existem agora? Poderíamos imaginar a fundação de um novo Estado e uma nova forma sociedade? Ou é muita pretensão?

Safatle: Sempre fui firmemente contrário ao slogan “mudar o mundo sem tomar o poder”, de John Holloway. Os donos do poder agradecem: se tal postura prevalecer, irão atrapalhar todas as nossas tentativas de mudar o mundo: não conseguiremos fazer nada.

Não existe política completamente à margem da estrutura institucional, da mesma maneira como não se pode fazê-la só dentro das instituições. Há uma região limítrofe, que é necessário saber operar. Precisamos ir além do pensamento binário, do “ou  totalmente fora, ou totalmente dentro”. Há algo no meio do caminho, que você opera pressionando de fora. Isso, ainda não conseguiu constituir. Só há um grupo que conseguiu fazer isso: os lobistas. Os lobbies estão semi-institucionalizados. Operam de fora, forçando a estrutura institucional. É necessário uma espécie de lobby popular, que seja contraponto ao lobby econômico.

Pensei no texto “O que é ser contemporâneo?”, do Giorgio Agamben. Ele sugere reconhecer a época em que vivemos, assumir que ela tem instituições, e ao mesmo tempo negá-la, querer deixá-la. É isso que inspira a juventude?

Safatle: Sim, com certeza existe essa região limítrofe que é necessário saber operar. Volto a insistir: o Estado, os partidos e o parlamento não vão desparecer. No entanto, você pode operar as estruturas políticas em outras chaves. Forçar a democracia plebiscitária, esvaziar atribuições do parlamento, transferir decisões para a população, ativando processos de democracia direta.

Qual é a estratégia de desmobilização? É dizer: “ou você está dentro do Estado de Direito, ou você está fora; ou aceita a estrutura institucional tal como ela é hoje, ou está completamente fora e portanto faz apologia da ditadura”. Não existe isso.

Você pode perfeitamente admitir que algumas estruturas vão continuar e, ao mesmo tempo, construir processos de transferência direta de poder. Esse me parece o grande desafio ao pensamento político atual. Como a gente constrói, como dá figura para as demandas de democracia real? Há muitos exemplos. Um deles: a Islândia foi um dos primeiros países a mergulhar na crise econômica europeia. Bancos islandeses tomaram dinheiro emprestado nos Países Baixos e Inglaterra. Quando quebraram, a Inglaterra e os Países Baixos apresentaram a conta ao governo islandês: os bancos eram privados, mas a conta foi para o Estado. O parlamento se dobrou, aceitando a conta bilionária. A população – pequena, em torno de 250 mil habitantes – teria de pagar durante cinquenta anos a dívida dos bancos.

Bem, havia um presidente, um pouco mais sensato, que lembrou uma regra da Constituição islandesa, segundo a qual os presidentes têm o direito de consultar a sociedade, antes de promulgar leis. Convocou-se um plebiscito: o povo foi chamado a votar se queria ou não pagar a dívida. Pode-se imaginar o terrorismo: em caso de não-pagamento, dizia-se, o país iria converter-se em pária internacional.

Mas o povo disse não. Hoje, a Islândia está melhor do que todos os outros países que entraram na crise à mesma época: Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda. Isso ensina que é possível politizar a economia, tirar poderes indevidos. Alegar que um parlamento sozinho não pode decidir uma questão tão central como essa. Um parlamento é composto de pessoas que têm as eleições pagas por bancos… O parlamentar deve para o banco: há uma nova eleição daqui a quatro anos e ele sabe que, se votar contra, não tem mais financiamento, não vai ser reeleito. Como uma pessoa dessas pode tomar esse tipo de decisão?

Mas no caso da Espanha, por exemplo, os indignados não conseguiram construir alternativas como essa. O movimento caminha nessa direção?

Safatle: Na Islândia, já havia o mecanismo institucional. Tiveram a sorte de contar com um presidente um pouco mais sensato, que deu realidade ao processo. Mas é um dado extremamente interessante, porque pode ser transformado em bandeira: “quero que na Espanha a lei islandesa seja aplicada”. É possível fazer o mesmo em várias outras situações. Você tensiona o debate. Os conservadores reagirão: “a população não pode decidir sobre essas coisas, são muito complexas, só tecnocratas têm que decidir”.

“Mas, então, fala, fala na nossa frente: só tecnocrata de banco vai decidir o que vão fazer com o nosso dinheiro?” Vamos ver o que vai acontecer. Este é um recurso muito importante: você obriga o poder a falar os seus absurdos, que ele normalmente não tematiza. Todo mundo sabe que quem decide é tecnocrata, mas ninguém fala. Quando certas coisas são ditas, algo acontece, mesmo que exista um acordo tácito entre as pessoas. Por isso, uma questão política central é obrigar o poder a falar, colocá-lo contra a parede.

 

*Estudantes de jornalismo da PUC-SP e colaboradores de Outras Palavras

Camus/Sartre: le mote de la fin

Il y a six mois, hier encore, on se demandait: «Que va-t-il faire?» Provisoirement, déchiré par des contradictions qu’il faut respecter, il avait choisi le silence. Mais il était de ces hommes rares, qu’on peut bien attendre parce qu’ils choisissent lentement et restent fidèles à leur choix. Un jour, il parlerait. Nous n’aurions pas même osé risquer une conjecture sur ce qu’il dirait. Mais nous pensions qu’il changeait avec le monde comme chacun de nous: cela suffisait pour que sa présence demeurât vivante.

Nous étions brouillés, lui et moi: une brouille, ce n’est rien – dût-on ne jamais se revoir -, tout juste une autre manière de vivre ensemble et sans se perdre de vue dans le petit monde étroit qui nous est donné. Cela ne m’empêchait pas de penser à lui, sentir son regard sur la page du livre, sur le journal qu’il lisait et de me dire: «Qu’en dit-il? Qu’en dit-il EN CE MOMENT?»

Son silence que, selon les événements et mon humeur, je jugeais parfois trop prudent et parfois douloureux, c’était une qualité de chaque journée, comme la chaleur ou la lumière, mais humaine. On vivait avec ou contre sa pensée, telle que nous la révélaient ses livres – «la Chute», surtout, le plus beau peut-être et le moins compris – mais toujours à travers elle. C’était une aventure singulière de notre culture, un mouvement dont on essayait de deviner les phases et le terme final.

Il représentait en ce siècle, et contre l’Histoire, l’héritier actuel de cette longue lignée de moralistes dont les oeuvres constituent peut-être ce qu’il y a de plus original dans les lettres françaises. Son humanisme têtu, étroit et pur, austère et sensuel, livrait un combat douloureux contre les événements massifs et difformes de ce temps. Mais, inversement, par l’opiniâtreté de ses refus, il réaffirmait, au coeur de notre époque, contre les machiavéliens, contre le veau d’or du réalisme, l’existence du fait moral.

Il était pour ainsi dire cette inébranlable affirmation. Pour peu qu’on lût ou qu’on réfléchît, on se heurtait aux valeurs humaines qu’il gardait dans son poing serré: il mettait l’acte politique en question. Il fallait le tourner ou le combattre: indispensable en un mot, à cette tension qui fait la vie de l’esprit. Son silence même, ces dernières années, avait un aspect positif: ce cartésien de l’absurde refusait de quitter le sûr terrain de la moralité et de s’engager dans les chemins incertains de la pratique. Nous le devinions et nous devinions aussi les conflits qu’il taisait: car la morale, à la prendre seule, exige à la fois la révolte et la condamne.

Nous attendions, il fallait attendre, il fallait savoir: quoi qu’il eût pu faire ou décider par la suite, Camus n’eût jamais cessé d’être une des forces principales de notre champ culturel, ni de représenter à sa manière l’histoire de la France et de ce siècle. Mais nous eussions su peut-être et compris son itinéraire. Il avait tout fait – toute une oeuvre – et, comme toujours, tout restait à faire. Il le disait: «Mon oeuvre est devant moi.» C’est fini. Le scandale particulier de cette mort, c’est l’abolition de l’ordre des hommes par l’inhumain.[…] Rarement, les caractères d’une oeuvre et les conditions du moment historique ont exigé si clairement qu’un écrivain vive.

L’accident qui a tué Camus, je l’appelle scandale parce qu’il fait paraître au coeur du monde humain l’absurdité de nos exigences les plus profondes. Camus, à 20 ans, brusquement frappé d’un mal qui bouleversait sa vie, a découvert l’absurde, imbécile négation de l’homme. Il s’y est fait, il a pensé son insupportable condition, il s’est tiré d’affaire. Et l’on croirait pourtant que ses premières oeuvres seules disent la vérité de sa vie, puisque ce malade guéri est écrasé par une mort imprévisible et venue d’ailleurs. L’absurde, ce serait cette question que nul ne lui pose plus, qu’il ne pose plus à personne, ce silence qui n’est même plus un silence, qui n’est absolument plus rien.

Je ne le crois pas. Dès qu’il se manifeste, l’humain devient partie de l’humain. Toute vie arrêtée même celle d’un homme si jeune -, c’est à la fois un disque qu’on casse et une vie complète. Pour tous ceux qui l’ont aimé, il y a dans cette mort une absurdité insupportable. Mais il faudra apprendre à voir cette oeuvre mutilée comme une oeuvre totale.

Dans la mesure même où l’humanisme de Camus contient une attitude humaine envers la mort qui devait le surprendre, dans la mesure où sa recherche orgueilleuse et pure du bonheur impliquait et réclamait la nécessité inhumaine de mourir, nous reconnaîtrons dans cette oeuvre et dans la vie qui n’en est pas séparable la tentative pure et victorieuse d’un homme pour reconquérir chaque instant de son existence sur sa mort future.

Jean-Paul Sartre

(Texte publié le 7 janvier 1960 dans « France Observateur ».)

Reunião+no+ateliê+de+Picasso,+em+Paris

“Protesto pacífico” não é possível sem investimentos em Educação

“Protesto pacífico” não é possível sem investimentos em Educação

O que me espanta é que a violência não seja muito maior

                                                                                                                                   Thaís de Godoy

Todos os dias, aproximadamente 14 milhões de desempregados, outros tantos assalariados e subempregados assistem às notícias sobre a roubalheira de empresários e políticos, que passa a casa dos bilhões. A população injustiçada, que não tem Educação de qualidade, nem saúde, nem segurança, e paga seus impostos diretamente nos produtos que compra, se sente cada dia mais tripudiada pelos poderosos.

Um Estado violento, um jornalismo violento, que repete continuamente que bandido bom é bandido morto, estimula o instinto de violência dos espectadores. Nesse momento, porém, os maiores bandidos são os políticos e empresários pois com apenas uma assinatura podem matar aos milhares pessoas do país inteiro.

Ontem, a imprensa apesar dos fatores acima rotulou os manifestantes dos protestos contra o governo de vândalos, sem a menor análise do contexto em que vivemos, numa abordagem simplista da situação causada em partes pela própria mídia.  É preciso analisar o que vem ocorrendo nesses protestos que não atendem aos interesses do governo.

Nesse protesto se infiltraram elementos da polícia mascarados a paisana para começar a agressão e ter um pretexto para a polícia fardada atacar os verdadeiros manifestantes. Foi flagrado por filmagens amadoras um grupo infiltrado que combinava um ataque, agindo totalmente contra as orientações dos carros de som de quem organizava o evento. Essa tática é muito conhecida de manifestantes opositores de governos autoritários.

Num relato de policiais civis, que mostraram seus rostos, deram seus nomes e patentes, Major Hélio Cunha, Tenente Fonseca e o Diretor do Sinpol, a versão é de que o ataque gratuito partiu da PM de forma covarde contra os cidadãos sem que eles tivessem sequer como reagir às bombas.

Um fato “estranho” é por que os manisfestantes queimariam os próprios banheiros que foram colocados ali para servi-los por sindicatos e outras organizações? Outro é como os funcionários públicos sabiam com antecedência que esses grupos se dirigiriam até os prédios dos Ministérios e decidiram evacuar os edifícios com antecedência e a polícia não? Se a polícia sabia dessa ação por que não os impediu de se dirigirem para lá?

Então, jornalistas, como se tivessem nascido ontem, ficam espantados quando a população se revolta e parte para a violência. O que me espanta é que a violência não seja muito maior e que a população inteira não esteja protestando.

Para a população, vandalismo é desviar o dinheiro da previdência que ela pagou por 30 anos, enquanto um político trabalha só 8, é roubar de hospitais, de escolas, da merenda das crianças. O vandalismo dos protestos é uma reação ao vandalismo predatório que os políticos e empresários praticam diariamente sobre os cofres públicos. O chavão “violência gera violência” não deixa de ser verdadeiro por ser uma frase desgastada, mas seu uso frequente no discurso parece não ter eco nas ações cotidianas das autoridades.

Protestos24 de maio
Métodos pacíficos de protesto não podem ser ensinados na escola, ou podem? Na escola sem partido, isso seria uma doutrinação? Sem nenhuma educação sobre protestos pacíficos, negociação diplomática de conflitos, o que me deixa espantada é que esses incidentes de violência não sejam mais numerosos e não tenham tantos participantes como os protestos contra o aumento da passagem dos ônibus há dois anos.

Cidadãos brasileiros, que veem os cortes do orçamento afetarem apenas os mais pobres e o Presidente Michel Temer perdoar as dívidas bilionárias de Bancos, naturalmente estão com muita raiva. Quem não está com raiva ou está mal informado e alienado, ou não tem princípios, ou é monge budista.

A integridade física do povo brasileiro é desrespeitada todos os dias quando é levado como gado para seus trabalhos em um transporte coletivo indigno de um ser humano. As pessoas da classe média ficam chocadas quando se queimam os ônibus, mas não entendem como é ficar por horas esperando, pagar para ser espremido ou simplesmente ter que parar de estudar porque a empresa resolveu interromper a circulação no horário noturno.

Claro que as consequências serão sofridas pelo próprio povo e ele sabe disso, mas em algum momento o sentimento de vingança contra todas as mazelas das quais são vítimas eclode e fica irrefreável. Nem o medo de bombas de efeito moral é capaz de estancar a revolta de pessoas que já não têm mais nada a perder.

Hospitaldo rio
A integridade física do povo nunca foi respeitada pelos poderosos. O povo sofre esse vandalismo diariamente.

Veja se algum político ou empresário algum dia se preocupou com a integridade física do povo. Agora os jornalistas estão com pena dos funcionários públicos e políticos ilhados em Brasília? O que os jornalistas esperavam? Que os brasileiros aceitassem ser feitos de palhaços a vida toda? O povo não aguenta mais.

Se é muito difícil para uma pessoa que tem fortes princípios pacifistas se controlar nesta situação; outra que não os têm nem tenta. Quem incutirá princípios pacifistas no povo? O Bolsonaro? Que diz que a população tem que se armar? Imaginem essas pessoas revoltadas em Brasília (com razão) e armadas como quer o mito? O único mito que se enquadra no perfil desse político é o do Caos, que se instalaria no Brasil se um povo com tanta raiva e sem formação para negociar diplomaticamente conflitos, começasse a se armar. Os primeiros a serem mortos, provavelmente, seriam os políticos bandidos e o mito se enquadra nesse perfil também, como ele mesmo confessou, recentemente.

Por isso, um dia, os políticos vão se arrepender amargamente de não terem cumprido suas promessas de campanha de investir em Educação de qualidade.

A limpeza étnica da Palestina

DANIEL AVELAR
DE SÃO PAULO
27/04/2017 07h00

Israel não conseguirá manter o sistema ideológico que o sustenta para sempre. Quem faz o prognóstico é o historiador israelense Ilan Pappé.

Estamos em uma encruzilhada: as pessoas em Israel sabem do que o país fez no passado e faz no presente, mas a maioria ainda aceita isso e parece não se importar”, afirma o historiador, para quem pressões externas e “novas gerações” provocarão mudanças em Israel.

Pappé, 62, é um dos principais nomes dos chamados “novos historiadores israelenses”, grupo que analisa criticamente os eventos que levaram à fundação do Estado de Israel, em 1948, a partir do estudo de arquivos militares mantidos em sigilo até a década de 1980.

Ele escreveu o livro “A Limpeza Étnica na Palestina”, no qual argumenta que houve um processo planejado de expulsão e massacre de milhares de palestinos que viviam no território que viria a ser o Estado de Israel.

Sua hipótese contradiz a narrativa tradicional sobre o tema, segundo a qual os palestinos fugiram da região devido à guerra iniciada pelos países árabes contra Israel.

O historiador sofreu pressões e ameaças desde que publicou a obra, em 2006, e por isso hoje vive exilado no Reino Unido, onde é professor na Universidade de Exeter. Pappé, que está no Brasil para uma série de palestras de lançamento da edição brasileira da obra (ed. Sundermann), conversou com a Folha.

Leia, abaixo, trechos da entrevista.

*

Folha – Em seu livro, você defende a tese de que Israel foi fundado com base na limpeza étnica dos palestinos que viviam ali. Como seus compatriotas reagiram a essa ideia?

Ilan Pappé – No início, tentaram ignorar o livro e eu fui muito criticado, o que causou muitos problemas para mim. Aparentemente, para a academia israelense, falar que nosso país cometeu crimes contra a humanidade é cruzar uma linha vermelha.

A verdade é que as pessoas olham para os mesmos fatos com lentes diferentes. Se você vê o que aconteceu na Palestina em 1948 de uma perspectiva humanista, só se pode chegar a uma conclusão: as forças sionistas expulsaram milhares de pessoas e demoliram centenas de vilas palestinas, o que configura limpeza étnica.

Os israelenses não são os únicos a colonizar uma terra estrangeira, várias nações europeias fizeram isso no passado. Mas os israelenses são os únicos a negar o que fizeram.

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Você acredita que a sociedade israelense mudou a percepção que tem sobre si mesma nos últimos anos?

Atualmente, há mais conhecimento do que nas últimas décadas sobre os acontecimentos de 1948. A grande maioria dos israelenses sabe que milhares de palestinos foram expulsos de suas casas e que 500 vilas foram apagadas do mapa. Estamos em uma encruzilhada: as pessoas em Israel sabem do que o país fez no passado e faz no presente, mas muitos ainda aceitam isso e parecem não se importar.

Eu acredito que uma resposta global dura e mudanças de percepção na comunidade judaica ao redor do mundo são fundamentais para que Israel deixe de cometer atrocidades.

Falo com muitos israelenses jovens e vejo uma atitude diferente, mais crítica do que as gerações anteriores. Por isso, sou otimista. Penso que Israel não conseguirá manter o sistema ideológico que o sustenta para sempre.

Donald Trump já indicou possíveis mudanças na política dos EUA para Israel, como transferir a embaixada para Jerusalém. O que seu governo pode representar?

Honestamente, creio que a política dos EUA para Israel não é apenas baseada na personalidade de um presidente. Todos pensavam que Barack Obama era pró-Palestina, mas na prática ele não mudou em nada as diretrizes da política americana. Há outros fatores em jogo, como o lobby pró-Israel e o as pressões do complexo militar-industrial, que ainda vê Israel como um ativo.

Por outro lado, a sociedade civil e a comunidade judaica nos EUA nunca foram tão críticas a Israel quanto hoje. Penso que muitas coisas vão mudar nos EUA, e Trump não é a causa dessas mudanças. Talvez seja um sintoma.

2017 marca o 50º aniversário da Guerra dos Seis Dias. Qual a relação desse evento com o processo que você chama de limpeza étnica?

Há uma continuidade histórica. Os judeus foram para a Palestina porque precisavam fugir do genocídio na Europa, mas implementaram um projeto colonial. Para o sionismo, que considero ser o último movimento colonial, é preciso ter o máximo da Palestina com o mínimo de palestinos possível, caso contrário o projeto não consegue se concretizar.

Em 1948, expulsaram a maioria dos palestinos para, ironicamente, criar uma democracia judaica em parte do território. Em 1967, resolveram ocupar o resto da Palestina, incorporando muitos dos palestinos que haviam sido expulsos em 1948. Isso criou um problema demográfico.

Para resolver esse problema, não houve expulsões sistemáticas, mas se fez algo tão ruim quanto a limpeza étnica. Israel implementou uma ocupação militar sem conceder cidadania, negando aos palestinos o direito de decidir sobre o próprio futuro.

Isso criou o que eu chamo de “megaprisões palestinas”, com graus diferentes de liberdade. Em algumas partes da Cisjordânia se é mais livre, como se fosse uma “prisão aberta”, mas Gaza, por exemplo, é tão fechada que nem se entra mais lá, só se bombardeia.

Quando, e por que, você passou a se opor ao sionismo?

Foi um processo longo, com várias etapas. Eu queria virar um historiador e percebia que as evidências que via não batiam com a narrativa sobre Israel que era apresentada para mim.

Na universidade, eu tive um orientador árabe e, quando estudei em Oxford, pude conversar com palestinos de igual para igual. Penso que o divisor de águas nesta travessia foi a invasão israelense ao Líbano em 1982. Pela TV, eu podia ver o que meu país estava fazendo e não tinha como justificar todas aquelas atrocidades.

Eu não tenho problemas com a ideia de um Estado judeu, mas isso se torna moralmente inaceitável quando depende da expulsão e opressão sistemática dos palestinos. Tenho lutado contra isso minha vida inteira.

Penso que existe uma alternativa para essa situação. Judeus e palestinos podem viver juntos em um Estado democrático, não precisam viver em um sistema de apartheid.

Por que você apoia o BDS (campanha de boicote, desinvestimento e sanções contra Israel)?

Eu acreditava que a diplomacia e o processo de paz poderiam resolver o problema, mas passaram-se anos e a ocupação continuou. Também comecei a perceber que o problema não era a política do governo, mas a ideologia do Estado.

Por isso, passei a apoiar o BDS. Como israelense, aceitar isso era difícil para mim no começo, era o mesmo que dizer “por favor, me boicote”. Os israelenses contrários à campanha a acusam de ser antissemita ou, no caso do boicote às universidades israelenses, dizem que é um ataque à liberdade de expressão. Repetem que a solução é dialogar.

Mas a verdade é que as tentativas de diálogo anteriores fracassaram e o BDS, de algum modo, nos obriga a conversar, ainda que não seja uma conversa agradável.

Acusar o BDS de ser antissemita não é um argumento bem pensado, embora possa convencer pessoas inteligentes. Não há qualquer paralelo entre uma forma de preconceito que está aí há milhares de anos e os pedidos para que um grupo —que diz agir em nome de todos os judeus– pare de cometer violações de direitos humanos.

Eu acredito que precisamos mudar todo o vocabulário que usamos para nos referir à questão Israel/Palestina. Em vez de falar em processo de paz, devemos começar a falar em descolonização.

Isso é um grande desafio pois sabemos como ocorreram descolonizações no passado, mas não fazemos ideia do que isso significa no século 21. Palestinos vivem situações muito diferentes em Gaza, na Cisjordânia e em Israel, e também é preciso pensar no retorno dos refugiados.

Para mim, é muito inspiradora a forma como o processo de descolonização se deu na África do Sul. Esse exemplo nos mostra exatamente o que buscamos: não queremos vingança, mas reparação.

*

RAIO-X
ILAN PAPPÉ

Nascimento
Haifa (Israel), 7 de novembro de 1954

Formação
Graduação em história na Universidade Hebraica de Jerusalém e pós-doutorado na Universidade de Oxford

Ocupação
Professor da Universidade de Exeter

Principais obras
“História da Palestina Moderna: Uma Terra, Dois Povos”, “Os Palestinos Esquecidos: A História dos Palestinos em Israel” e “A Limpeza Étnica da Palestina” (ed. Sundermann)

 

Renato Janine Ribeiro: “No Brasil temos uma imprensa que efetivamente mente”

Leiam porque a Rede Globo, SBT e outras emissoras estão se esperneando tanto para derrubar a Dilma e porque os globais foram aos protestos

Por que a dívida da Globo não é manchete de jornal?

O que descobriríamos se os jornalistas brasileiros fossem atrás das denúncias de sonegação que envolvem grandes grupos de comunicação e que não viram notícia no país?

por Intervozes — publicado 31/07/2014 21h32, última modificação 02/08/2014 14h58

Por Bruno Marinoni*

“Siga o dinheiro”, aconselhava William Mark Felt, o “garganta profunda”, aos jovens jornalistas que, nos anos 70, revelaram todo um esquema de espionagem e corrupção no interior da Casa Branca. O que não descobriríamos então se os jornalistas da mídia brasileira investigassem, por exemplo, a denúncia de que a Globo deve mais de R$ 600 milhões aos cofres públicos porque sonegou o imposto decorrente da compra dos direitos de transmissão da Copa de 2002?

O caso, que já vinha sendo anunciado há algum tempo, ganhou novo capítulo no último dia 17 de julho, quando 29 páginas do processo na Receita Federal contra a Globo foram divulgados em um blog na internet. A emissora teria usado 10 empresas criadas em paraísos fiscais para esconder a fraude. Com o esquema, o sistema Globo teria incorrido em simulação e evasão fiscal. O imposto sobre importâncias enviadas para o exterior para aquisição de direitos de transmissão no caso da empresa beneficiária estar sediada em paraísos fiscais seria de 25%, se fosse pago.

E se os jornalistas da nossa mídia fossem, por outro exemplo, atrás do papel que a Igreja Universal, milionária e com isenção fiscal por se tratar de uma entidade religiosa, cumpre no financiamento da Record? Uma matéria intitulada “Macedo nega uso do dinheiro da igreja na compra de TV”, publicada na Folha de São Paulo, em setembro de 1998 (quando a emissora não era ainda uma competidora de peso), afirmou que investigações da Receita resultaram em uma multa de R$ 265 milhões ao grupo. A maior parte do pagamento, ou R$ 118 milhões, coube à Record; outros R$ 98 milhões, à própria Igreja Universal, e mais R$ 6 milhões, a Edir Macedo. Esses valores se refeririam a autuações e multas por sonegação fiscal e outras irregularidades.

Além disso, a imprensa já veiculou algumas vezes que a Igreja Universal compraria a faixa da madrugada da TV Record, que tem baixíssima audiência, por um preço muito acima do mercado. Todavia, até onde sabemos, nada foi feito para resolver essa questão.

Em 2010, foi a vez de Sílvio Santos, dono do SBT, se envolver em um escândalo de fraude fiscal, uma dívida de R$ 3,8 bilhões. O evento não se relacionava diretamente com os meios de comunicação, e sim com seu banco, o “Panamericano”. O dono da empresa, porém, empenhou todo o seu patrimônio, inclusive seus canais de TV, como garantia de que a dívida seria sanada.

Quando poucos grupos controlam os meios de comunicação, quando há concentração do poder midiático é fácil criar um bloqueio a informações desfavoráveis aos donos da mídia por meio de uma estratégia “positiva”: preenchendo-se a agenda de temas discutidos pela sociedade com uma série de assuntos que não atinjam os interesses daqueles que controlam os canais de comunicação.

Escândalos de corrupção e desvio de dinheiro público são sempre matérias na nossa imprensa, mas qual a seleção de casos que é feita? O que fica de fora? Quem fica de fora dessas páginas? Se há um grande número e diversidade de atores dirigindo os meios de comunicação, maior a possibilidade de nos relacionarmos com canais suficientemente independentes para nos fornecer informações de interesse público. Mas isso é algo em falta no Brasil.

* Bruno Marinoni é repórter do Observatório do Direito à Comunicação, doutor em Sociologia pela UFPE e integrante do Intervozes.

Filósofo e ex-ministro da Educação de Dilma critica falta de independência dos jornalistas e partidarização da imprensa no País

Fonte: Renato Janine Ribeiro: “No Brasil temos uma imprensa que efetivamente mente”