Ozymândias de Percy Shelley

ramsesII

Trad. André Vallias. [2015]
em: Acontecimentos, 12/03/15, em Escamandro.

Disse o viajante de uma antiga terra:
“Duas pernas de pedra, no deserto,
Despontam gigantescas, e bem perto
Há um rosto destroçado que descerra

Os lábios num sorriso de comando
Que atesta: o escultor leu com mestria
Paixões que na matéria inerte e fria
A mão que as entalhou vão perdurando.

‘Meu nome é Ozymândias, rei dos reis:
Desesperai perante as minhas obras!’
Alerta uma inscrição no pedestal.

Mas são ruínas tudo o que ali sobra,
E um mar de areia, em árida nudez,
Circunda a decadência colossal”.

 

Original  de Persy Shelley.

 

I met a traveller from an antique land
Who said: ― Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter’d visage lies, whose frown

And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp’d on these lifeless things,
The hand that mock’d them and the heart that fed.

And on the pedestal these words appear:
“My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!”

Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.

Os aromas da cidade

Campos 093
Maria Fumaça

Godoy

Na cidade que rescende à resina de araucária,

Delicados beija-flores duelam ferozmente

com os floretes de seus bicos.

Na cidade que exala a flor de cerejeira,

Os habitantes da construção holandesa,

adornada pelo jardim japonês, são nipônicos.

Na cidade que cheira a chocolate,

Coelhos assustados cruzam estradas;

Nuvens de algodão envolvem

casas, árvores, cabeças.

Marias-fumaça encorpam nuvens baixas

E evocam tempos antigos.

Na cidade que ostenta aroma de forno a lenha,

Barracos, pousadas, Palácios

nos lembram de coisas que nunca

existiram em seu tempo certo ali.

Telhados inclinados esperam

para sempre a neve que nunca virá.

Numa estrada da cidade que exala a cerveja feita a mão Baden Baden,

cai um homem…

Os montesinos não o socorrem.

Na cidade de pesadelos e sonhos,

Numa dança de aromas doces e acres,

Os enamorados se escondem.

 

Campos do Jordão, outubro de 2012.

Dama

Stéphane Mallarmé

Soneto

Dama
sem tanto ardor embora ainda flamante
A rosa que cruel ou lacerada e lassa
Se deveste do alvor que a púrpura deslaça
Para em sua carne ouvir o choro do diamante

 

Sim sem crises de orvalho antes em doce alento
Nem brisa o fragor do céu leve ao fracasso
Com ciúme de criar não sei bem qual espaço
No simples dia o dia real do sentimento,

 

Não te ocorre, talvez, que a cada ano que passa
Quando em tua fronte se alça o encanto ressurreto
Basta-me um dom qualquer natural de tua graça

 

Como na alcova o cintilar de um leque inquieto
A reviver do pouco de emoção que grassa
Todo o nosso nativo e monótono afeto.

1887

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Revolução de Jasmim, in memoriam de Mohamed Bouazizi

ثورة الياسمين

A púrpura tirou-lhe o pão

E a humilde banca de frutas.

Sem meios para o sustento,

Azizi vende dor “a todos aqueles que sonham com a liberdade”.

 

Nos muros, palavras oníricas viraram concreto pelo concreto

Ou virarão algum dia?

Ele imaginou o saldo de seu gesto?

Se soubesse, novamente se imolaria?

 

Nas Revoluções com nomes de cores e flores

O sinistro e o sublime se misturam:

quão apavorante é a arrastada miséria humana,

que um arrepiante gesto de horror instantâneo aliviaria?

 

Ascende o novo modo velho de ser e de pensar.

O que se perderá, o que se ganhará?

As belezas naturais e feminis encobertas aos filhos mestiços de antigos fenícios,

são visitadas pelos curiosos e reveladas aos peregrinos pagãos.

 

A esse lirismo brutal e pronto me debruço,

Esperando, desse jasmineiro, o fruto.

10-09-2012

Jasmine-Oil-Arabian-jasmine-

Apenas palavras

As palavras são nada.

Em si, carecem de sentidos, se não as escoltar os gestos.

Assim o silêncio é louvável a alguns algures.

Imprudência fiar-se no verbo, já que quem mente mergulha a todos em fantasia?

Sonha que a todos ludibria? Para si, ciladas cria?

Mas não ilude plenamente: há uma gota de verdade em cada mentira.

Há um dizer exato em cada calada!

Mas a palavra não poderá ser sempre friamente refreada,

Pois que liberta quem a profere de sentimentos inconfessáveis.

As palavras libertam os tímidos  de si mesmos, desconfiados de revelar seu ser ao universo.

Libertam um povo da opressão.

Libertam seres de sua invisibilidade.

Libertam ao revelar a descoberta e afirmação de si, a si mesmo e à humanidade.

No Norte, quantos tons de branco conhecem os esquimós?

Para cada branco, uma palavra.

Para nós, só há um branco e mais nada…

Para cada coisa que há e sabemos que há, há uma palavra.

A tudo que nasce, damos um nome.

Mas para quem nunca viu tantos brancos, se ouvir seus nomes diferentes, nem precisa se mudar para lá.

A enxergá-los, em algum momento, passará.

Assim os nomes nascem das coisas, mas o saber também nasce das palavras.

O que pensamos que é sabido de todos, mas nunca foi divulgado verbalmente, pode também deixar de haver e ser olvidado na próxima temporada.

Se o amor verdadeiro está implícito em amostras de sentimentos, também provas perdem seu sentido no automatismo dos gestos habituais.

Então, a elegância contemporânea, que, com demonstrações de afeto, se acanha, acaba por enregelar a todos de todo.

Você não pode mais me ouvir,

Então falo para mim mesma,

Para saber que sinto o que sinto,

Para lembrar e me aquecer

E me libertar do não-dizer:

“Não enxergamos os brancos dos esquimós nem temos nomes para eles…

Nunca pensei que talvez você não enxergasse em quantas cores era amado.

Hoje não cansaria de dizer de todas as formas possíveis,

Com quantas palavras existem: Persy, eu amo você!”

28-07-2012

rumi

O Dedo do meio de Deus

Deus é brasileiro!

Temos seu dedo para provar.

Teremos o dedo do meio de Deus

Até o fim dos tempos?

Tanta beleza e destruição

desses exuberantes templos

Esculpidos em pedra!

O Paquequer em degradação.

Os descendentes de Ceci e Peri

pendurados nos morros

bem próximos à Granja Comari…

O zunido de helicópteros abafa o de mosquitos.

A Casa da Cultura às margens do rio serpente cercada de curumins, pipas, lixo e sorrisos, apesar de tudo.

Von Martius e seus livros foram esquecidos.

Emboloram mais e mais a cada nuvem que passa por esses picos.

A floresta se vinga das pessoas erradas, avançando sobre quem a amou e recuando diante dos inimigos!

Fomos amaldiçoados e proscritos?

Vivemos uma constante comédia de erros.

Nada é o que parece.

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TGM

 

 

 

Consoada

Consoada

Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

 

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Consolo na Praia

Carlos  Drummond de Andrade

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te – de vez – nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

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Vampiro de Charles Baudelaire

VAMPIRO

Tu que, como uma punhalada
Invadiste meu coração triste,
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar o leito ao ascendente,
– Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,

Como a seu jogo o jogador,
Como à garrafa o beberrão,
Como aos vermes a podridão
– Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz
Dar-me a liberdade, um dia,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.

Mas não! O veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeiro
“Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro

Ah! imbecil – de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!”

A-Dança-dos-Vampiros-1967-4
A Dança dos Vampiros de Roman Polanski com Sharon Tate e Jack MacGowran como o Prof. Abronsius

 

Belo belo

Manuel Bandeira

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

Petrópolis, fevereiro de 1947