FORTUNA CRÍTICA DA OBRA DE RIMBAUD | Gaveta do Ivo

Chanson de la Plus Haute Tour

Oisive jeunesse
À tout asservie;
Par délicatesse
J’ ai perdu ma vie.
Ah! Que le temps vienne
Où les coeurs s’ éprennent.

Je me suis dit: laisse,
Et qu’ on ne te voi:
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t’ arrête
Auguste retraite.

J’ ai tant fait patience
Qu’ a jamais j’ oublie;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine

Obscurcit mes veines.

Ainsi la Prairie
À l’ oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D’ encens et d’ ivraies
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.

Canção da Torre Mais Alta

Mocidade presa
A tudo oprimida
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! Que o tempo venha
Em que a alma se empenha.

Eu me disse: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
De algum bem que seja.
A ti só aspiro
Augusto retiro.

Tamanha paciência
Não me hei de esquecer.
Temor e dolência,
Aos céus fiz erguer.
E esta sede estranha
A ofuscar-me a entranha.

Qual o Prado imenso
Condenado a olvido,
Que cresce florido
De joio e de incenso
Ao feroz zunzum das
Moscas imundas.

via FORTUNA CRÍTICA DA OBRA DE RIMBAUD | Gaveta do Ivo

Na Palestina: O velho, a árvore, o ônibus

Poética de Botequim

À Abd Al-Hasib Atta Zaloum

Sobre o solo, jaz a carcaça do que um dia fora um ônibus.

Hoje, tornou-se abrigo do velho sem lar.

As estrelas no céu velam por eles à noite.

O frio passa pela vidraça estilhaçada,

Vem sorrateiro lhes acompanhar.

Assim que ficou pronta,

sua antiga morada foi demolida;

sua terra, por colonos, roubada.

Converteram-na em área de segurança.

Segurança para quem,

se o velho agora vive ao relento?

Não é o velho, de humanos, rebento?

Não necessita de segurança também?

É menos humano que as crianças da escola ali próxima?

Já que delas só recebe desdém?

Sob o sol escaldante, a sombra vem de uma árvore solitária.

A árvore de dia e o ônibus à noite são o seu reino,

Que nem o rei da Jordânia igual tem.

Como a vida que poderia ter tido foi interrompida,

Nesse solo só quer seus olhos cansados plantar

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Anjos

Quantas formas teve Zeus?

Quantas vezes desceu do seu Olimpo tomado de anseios por mortais?

Se ele as tomasse em toda a sua Glória, elas sucumbiriam por sua superior existência.

O Deus se animalizou para não transformar em pó uma mortal.

Todo anjo é terrível. Pois o belo é terrível. Secretamente quer nos destruir.

Não se pode fitar o sol.

Nenhum anjo ouviria se eu gritasse.

 

(Releitura da primeira Elegia de Rilke)

TMG