Parte V – Escarrando no próprio prato

Bem, já disse que não havia esperanças de solucionar esses crimes, por isso o que sucedeu em seguida espantou a todos que tiveram notícias desta história. Nunca, nunca o assassino seria preso, não havia nenhuma pista, nenhuma testemunha, então o que aconteceu, até hoje é um mistério para qualquer um que é mau e quer sempre continuar praticando seus crimes, suas atrocidades impunemente e até para quem é bom e não vê coerência nas atitudes deste assassino.

Um dia, ao raiar do sol, como uma besta escapara de um sítio próximo a Bragança, um dos seus peões foi incumbido de encontrá-la e trazê-la de volta no laço. Quando a procurava pela estrada por onde seus passos indicavam que ela havia passado, o peão deu de cara com um rapaz que trazia uma moça da vida em cada braço. Estava meio alto da farra de uma boa noitada.

Como estava vindo do mesmo lado das pegadas, perguntou-lhe:

_Vosmecê não viu uma besta que escapou do sítio do Seu Tonico?

Sem mais nem menos, o outro respondeu:

_A única besta que há por aqui sou eu, porque fui eu que matei os dois irmãos do sítio do nhô Ciccilo!

Ele se deixou laçar e ser levado ao distrito. Todos ficaram sem saber o que pensar novamente. Como podia um criminoso, se entregar assim sem mais nem porquê; sem se preocupar com a própria pele.

Chamaram a nona e quem pôde vir dos irmãos para ouvir seu relato. Lá, Isaias contou tudo como havia acontecido.

Como sabia que era a época da venda da colheita e que a mãe ia rezar o terço com as comadres, aproveitou a ocasião para tentar a riqueza rapidamente. Só não esperava que os manos estivessem lá. Quando chegou, eles estavam na varanda proseando. Para separá-los, pediu a Nicola que fizesse um café fresco.

Assim que teve oportunidade, perguntou onde a mãe guardava o dinheiro. Surpreso, Nicola indagou o motivo daquela pergunta suspeita. Tomado de fúria, Isaias pegou a foice atrás da porta e, num único golpe, desferiu-a na garganta de Nicola.

Ao ouvir o estrondo do corpo caindo, Pedro acudiu, mas foi dominado na porta sob ameaça de acontecer-lhe o mesmo se não mostrasse onde estava o dinheiro. Isaias pegou o que queria, e saiu com o irmão pelos campos, até se distanciar o suficiente para seus gritos não serem escutados. Depois que liquidou com Pedro, ainda teve tempo de voltar ao sítio e consolar a mãe pra não levantar suspeitas.

A riqueza, que daria para sustentar modestamente toda família por um ano, durou muito pouco nas esbórnias das zonas dos arrabaldes.

Continua: Desfecho

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Parte IV – O nem-sei-que-diga

Hoje, Bragança é conhecida por seus dotes gastronômicos. Sempre ouvia as tias de minha mãe enaltecendo a manteiga produzida lá como a melhor do Estado ou, quiçá, do Brasil. E a linguiça bragantina, então: nada se compara ao seu aroma. Nas estradas que dão acesso a essa modesta localidade, os moradores vendem com orgulho a melhor de todas as linguiças já produzidas em qualquer lugar.

No tempo de meus antepassados, porém, a cidade ficou famosa por outro motivo: o assassinato frio de meu tio-bisavô, Nicola. Toda colônia italiana ajudou a procurar o outro irmão Pedro, que estava desaparecido.

Passados dois dias, após várias buscas, encontraram-no caído numa vala. Fora degolado da mesma forma que o irmão. Meu nono, que ainda estava se recuperando, quando soube, veio a ter outro derrame. Por sorte, estava sob intensos cuidados médicos e foi socorrido rapidamente.

A nona chorava ininterruptamente. Ninguém conseguia consolá-la: nem padres nem bispo nem Cristo, embora não saísse da igreja.

O tempo foi passando e, notícias do crime solucionado, ninguém esperava mais. Era um mistério, ninguém conseguia imaginar quem teria coração tão frio para fazer algo assim.

Alguns especulavam se não seria o próprio coisa-ruim que viera à terra cometer tamanha maldade de fazer sofrer uma pobre senhora tão respeitada, tão religiosa, apenas para provar-lhe a fé. Ou talvez para fazê-la se revoltar contra o Deus que ela, até então, seguira submissamente. Enfim, fossem quais fossem os desígnios do Altíssimo, o fato de uma senhora tão boa sofrer assim não parecia justo aos moradores de Bragança.

E ainda por cima, a justiça tardava. Tudo indicava que os crimes passariam impunes, visto que as autoridades não colheram nenhum indício de quem os cometera.

Continuação: Escarrando no próprio prato

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Assassinato culposo

Fiquei tão feliz por, após tantos anos, te reencontrar.

Surgiste como que por geração espontânea

Em meu humilde lar;

A ostentar tuas coloridas

E pintalgadas e aladas partes

Produzidas com delicada arte.

 

Se daí do teu céu _ se ele há _ puder me anistiar,

Talvez, eu mesma consiga me perdoar por assassinar-te.

Sem intenção, vejo que tu partes,

Senhora dos insetos, Joanhinha-ladybug!

Que essa notícia não se divulgue,

Para que tuas irmãs eu não assuste!

 

30-12-2012

Joaninha
Joaninha