Da ardósia

Adiantaria lhe dizer

Que a mais rara essência

É oferecida nos menores frascos?

Ou que um bruto diamante,

é reduzido ao ser polido,

Até libertar seu brilho?

Adiantaria falar que você é constituído

Pela mesma matéria das estrelas?

Que o macro contém o micro?

Ou que até os maiores astros

São formados por elementos

tão pequenos, que estão em todos

os lugares neste momento?

Da Ardósia

Perdão, padre, porque pequei!

_Perdão, padre, porque pequei! Tive um sentimento vergonhoso, não consigo contar. _O que foi, minha filha? Deus é misericordioso. _Tive innnvejjaa. _O quê? Inveja? _Sim, inveja. _De quem? _Da canti…

Fonte: Perdão, padre, porque pequei!

Na Palestina: O velho, a árvore, o ônibus

Avatar de GodoyPoética de Botequim

À Abd Al-Hasib Atta Zaloum

Sobre o solo, jaz a carcaça do que um dia fora um ônibus.

Hoje, tornou-se abrigo do velho sem lar.

As estrelas no céu velam por eles à noite.

O frio passa pela vidraça estilhaçada,

Vem sorrateiro lhes acompanhar.

Assim que ficou pronta,

sua antiga morada foi demolida;

sua terra, por colonos, roubada.

Converteram-na em área de segurança.

Segurança para quem,

se o velho agora vive ao relento?

Não é o velho, de humanos, rebento?

Não necessita de segurança também?

É menos humano que as crianças da escola ali próxima?

Já que delas só recebe desdém?

Sob o sol escaldante, a sombra vem de uma árvore solitária.

A árvore de dia e o ônibus à noite são o seu reino,

Que nem o rei da Jordânia igual tem.

Como a vida que poderia ter tido foi interrompida,

Nesse solo só quer seus olhos cansados plantar

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Trinta e cinco

No Jaraguá, o homem deitado foi a única testemunha muda daquele encontro de duas almas puras.

O imberbe garoto subiu a montanha para entregar-lhe um buquê de rosas vermelhas.

Na esquina da casa da menina, de onde se avista todo o vale e o horizonte, aquele projeto de beijo tão macio e hesitante.

Tudo tão belo e assustador.

Nada sabiam sobre os mistérios da existência nem sobre protocolos.

Os velhos maliciam porque se esquecem como é ser inocente.

Flores escondidas? Deve ser sortilégio.

Flores vermelhas … deveriam ser brancas.

Era cedo demais para nós.

Agora é tarde.

Pelo menos você me amou um dia!

E eu nem sabia nada de mim.

O sonho permanece cristalizado, imutável.

“Algumas vezes, sonhos realizados são sonhos frustrados.”

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Pico do Jaraguá (o Homem Deitado), São Paulo, capital.

TGM

“Protesto pacífico” não é possível sem investimentos em Educação

“Protesto pacífico” não é possível sem investimentos em Educação

O que me espanta é que a violência não seja muito maior

                                                                                                                                   Thaís de Godoy

Todos os dias, aproximadamente 14 milhões de desempregados, outros tantos assalariados e subempregados assistem às notícias sobre a roubalheira de empresários e políticos, que passa a casa dos bilhões. A população injustiçada, que não tem Educação de qualidade, nem saúde, nem segurança, e paga seus impostos diretamente nos produtos que compra, se sente cada dia mais tripudiada pelos poderosos.

Um Estado violento, um jornalismo violento, que repete continuamente que bandido bom é bandido morto, estimula o instinto de violência dos espectadores. Nesse momento, porém, os maiores bandidos são os políticos e empresários pois com apenas uma assinatura podem matar aos milhares pessoas do país inteiro.

Ontem, a imprensa apesar dos fatores acima rotulou os manifestantes dos protestos contra o governo de vândalos, sem a menor análise do contexto em que vivemos, numa abordagem simplista da situação causada em partes pela própria mídia.  É preciso analisar o que vem ocorrendo nesses protestos que não atendem aos interesses do governo.

Nesse protesto se infiltraram elementos da polícia mascarados a paisana para começar a agressão e ter um pretexto para a polícia fardada atacar os verdadeiros manifestantes. Foi flagrado por filmagens amadoras um grupo infiltrado que combinava um ataque, agindo totalmente contra as orientações dos carros de som de quem organizava o evento. Essa tática é muito conhecida de manifestantes opositores de governos autoritários.

Num relato de policiais civis, que mostraram seus rostos, deram seus nomes e patentes, Major Hélio Cunha, Tenente Fonseca e o Diretor do Sinpol, a versão é de que o ataque gratuito partiu da PM de forma covarde contra os cidadãos sem que eles tivessem sequer como reagir às bombas.

Um fato “estranho” é por que os manisfestantes queimariam os próprios banheiros que foram colocados ali para servi-los por sindicatos e outras organizações? Outro é como os funcionários públicos sabiam com antecedência que esses grupos se dirigiriam até os prédios dos Ministérios e decidiram evacuar os edifícios com antecedência e a polícia não? Se a polícia sabia dessa ação por que não os impediu de se dirigirem para lá?

Então, jornalistas, como se tivessem nascido ontem, ficam espantados quando a população se revolta e parte para a violência. O que me espanta é que a violência não seja muito maior e que a população inteira não esteja protestando.

Para a população, vandalismo é desviar o dinheiro da previdência que ela pagou por 30 anos, enquanto um político trabalha só 8, é roubar de hospitais, de escolas, da merenda das crianças. O vandalismo dos protestos é uma reação ao vandalismo predatório que os políticos e empresários praticam diariamente sobre os cofres públicos. O chavão “violência gera violência” não deixa de ser verdadeiro por ser uma frase desgastada, mas seu uso frequente no discurso parece não ter eco nas ações cotidianas das autoridades.

Protestos24 de maio
Métodos pacíficos de protesto não podem ser ensinados na escola, ou podem? Na escola sem partido, isso seria uma doutrinação? Sem nenhuma educação sobre protestos pacíficos, negociação diplomática de conflitos, o que me deixa espantada é que esses incidentes de violência não sejam mais numerosos e não tenham tantos participantes como os protestos contra o aumento da passagem dos ônibus há dois anos.

Cidadãos brasileiros, que veem os cortes do orçamento afetarem apenas os mais pobres e o Presidente Michel Temer perdoar as dívidas bilionárias de Bancos, naturalmente estão com muita raiva. Quem não está com raiva ou está mal informado e alienado, ou não tem princípios, ou é monge budista.

A integridade física do povo brasileiro é desrespeitada todos os dias quando é levado como gado para seus trabalhos em um transporte coletivo indigno de um ser humano. As pessoas da classe média ficam chocadas quando se queimam os ônibus, mas não entendem como é ficar por horas esperando, pagar para ser espremido ou simplesmente ter que parar de estudar porque a empresa resolveu interromper a circulação no horário noturno.

Claro que as consequências serão sofridas pelo próprio povo e ele sabe disso, mas em algum momento o sentimento de vingança contra todas as mazelas das quais são vítimas eclode e fica irrefreável. Nem o medo de bombas de efeito moral é capaz de estancar a revolta de pessoas que já não têm mais nada a perder.

Hospitaldo rio
A integridade física do povo nunca foi respeitada pelos poderosos. O povo sofre esse vandalismo diariamente.

Veja se algum político ou empresário algum dia se preocupou com a integridade física do povo. Agora os jornalistas estão com pena dos funcionários públicos e políticos ilhados em Brasília? O que os jornalistas esperavam? Que os brasileiros aceitassem ser feitos de palhaços a vida toda? O povo não aguenta mais.

Se é muito difícil para uma pessoa que tem fortes princípios pacifistas se controlar nesta situação; outra que não os têm nem tenta. Quem incutirá princípios pacifistas no povo? O Bolsonaro? Que diz que a população tem que se armar? Imaginem essas pessoas revoltadas em Brasília (com razão) e armadas como quer o mito? O único mito que se enquadra no perfil desse político é o do Caos, que se instalaria no Brasil se um povo com tanta raiva e sem formação para negociar diplomaticamente conflitos, começasse a se armar. Os primeiros a serem mortos, provavelmente, seriam os políticos bandidos e o mito se enquadra nesse perfil também, como ele mesmo confessou, recentemente.

Por isso, um dia, os políticos vão se arrepender amargamente de não terem cumprido suas promessas de campanha de investir em Educação de qualidade.

Além de minhas forças

Doce brisa trouxe até mim um pássaro canoro

Que coloriu meus dias amenos;

Que em minhas manhãs colocou um sorriso;

Que aspergiu vigor em meus membros

E aspirou de mim o cansaço.

 

Silêncio, quero escutar sua serenata

Para embalar o meu sono sereno;

Elevar sobre mim meu espírito;

Fazê-lo pousar no meu braço.

 

Quero seu entusiasmo.

Quero seu sopro de vida divino,

Sua leveza, sua graça, seu brilho.

Sem querer, sob suas asas eu moro!

 

 

22 de fevereiro de 2013

Síria

Palmira, tuas palmeiras há muito não balançam ao vento!
O vento só traz até ti muito pó, cinzas, farelos
Que sobram das ambições de todos os tempos.
Culpada por demorar-te no meio do caminho.

Como tua irmã, anciã entre as localidades;
Lar dos fundadores da Acádia,
Essa coroa de fogo da deusa do amor e da guerra.
Alepo, algo mais nefasto que o mais nefasto
Dos terremotos perscruta teus filhos!
Sonda tuas antigas ágoras,
que viraram catedrais
que agora são mesquitas!
Em vão perguntas “por quem definho?”

Como tua vizinha Ebla, rocha branca,
Berço de onde partimos, nosso ninho!
Nem 5 milênios tanto dano causou à tua ancestral alegria.
Ser ruína de ruínas é teu destino?

Tua terra é a desejada de todas as gentes:
Persas, macedônios, romanos, árabes,
Bizantinos, cruzados, mongóis, mamelucos,
Turcos, franceses, ingleses,
Russos, estadunidenses!
Foi o que os ventos trouxeram a teus pés: triste agonia.
E sobre tua cabeça, pobre Síria: louco desatino!

Lares divididos, subdivididos,
Todos somos teus descendentes.
Quebra-cabeças de venais interesses!
Joias deste oriente, quem sentirá teu martírio?

 

440242

Epifania

minha arrogância me fez desdenhar das paixões.
os descomedidos Romeu, Werther, Paolo e Francesca
eram para mim caricaturas disformes e descontroladas,
eram para mim fracos seres irracionais,
eram para mim loucos...
admirava suas experiências
que me atingiam pela beleza.
eis a que se resumia minha propalada
sensibilidade para o lirismo.

cínica que eu fui,
em tempos cínicos.
a ironia e o sarcasmo são nossas heranças.
ah! tola! nem imaginava que tudo que eu havia
sentido até então eram mediocridades
pela distância
pelo orgulho
causados pelo medo vital.

acha-me sábia e experiente
superior por me preocupar com as dores de amores dos desvairados.
superior a ponto de sentir raiva dos descontroles alheios
que ferem,
que escandalizam,
que levam ao suplício.

“O calor dos animais aqueceu melhor o menino Jesus
na manjedoura” do que eu a meus afetos...
só agora entendo profundamente o que significa:
a experiência de Santa Tereza,
as pulsões que inspiraram “Uma temporada no Inferno”,
que reli na Livraria Cultura entre lágrimas,
por ter recebido essa graça desconhecida da maioria
por só agora entender, não cerebralmente
por só agora entender não com o covarde
“cauteloso pouco a pouco” burguês
ou com a aurea mediocritas clássica;
por só agora entender vivendo o que significa

“The road of excess leads to the palace of wisdom;
for we never know what is enough
until we know what is more than enough.”

chorei por só agora entender, não com a mente,
mas com cada fibra do meu corpo
que agora, só agora pulsa em outra frequência.
meu coração caiu a quatro palmos do lugar original.
tudo que eu li,
tudo que vi,
tudo que toquei e degustei,
precisarei provar novamente agora.

Os aromas da cidade

Maria Fumaça

 

Na cidade que rescende à resina de araucária,

Delicados beija-flores duelam ferozmente

pelo néctar com os floretes de seus bicos.

Na cidade que exala a flor de cerejeira,

Os habitantes da construção holandesa,

adornada pelo jardim japonês, são nipônicos.

Na cidade que cheira a chocolate,

Coelhos assustados cruzam estradas;

Nuvens de algodão envolvem

casas, árvores, cabeças.

Marias-fumaça encorpam nuvens baixas

E evocam tempos antigos.

Na cidade que ostenta aroma de forno a lenha,

Barracos, pousadas, castelos e Palácios

nos lembram de coisas que nunca

existiram em seu tempo certo ali.

Telhados inclinados esperam

para sempre a neve que nunca virá.

Numa estrada da cidade que exala a cerveja

feita a mão Baden Baden,

cai um homem

E os montesinos não o acodem.

Na cidade de pesadelo e sonho,

Nessa dança de aromas doces e acres,

Os enamorados se escondem.

“Carece de ter coragem”

Sempre repetia minha madrinha:
“O medo não é de Deus”!
Olhos arregalados, completava ainda:
“O medo é a ausência de fé em Deus.
Falta de uma fortaleza interna!”

Mesmo que minha fé me abandonasse
Vez ou outra, quando conseguia
Reconhecer minha covardia, lembrava:
“O medo não é de Deus!”

Tememos muitas coisas.
“Hesito, logo existo”
É o bordão modernizado.
Por isso nos surpreende o gesto heroico.

Num átimo, o ser não duvida de nada.
Não duvida do que tem
de fazer imediatamente,

Mesmo que isso seja irracional.
Mesmo que isso seja loucura
Porque, naquele instante,
Mesmo o mais vacilante
passa a ter certeza do que deve,
precisa e deseja fazer.
Então ergue-se nele essa fortaleza.

De onde ela vem?
Nem sempre da fé em um Deus,
Mas simplesmente da fé:
Fé na mudança
Fé no fim da injustiça
Fé em si mesmo
Fé em poder mudar o mundo!

Mesmo que seja apenas um menino
e sua única arma uma ingênua pedra
diante de um tanque,
diante de toneladas de ferro,
diante de incalculável ódio
E, finalmente, diante do medo.

In memoriam de Faris Odeh, morto com apenas 13 anos, no dia 8 de novembro de 2000, por um sniper israelense

O Sem-nome’

Entre as costelas, uma flor com pétalas grandes se abriu;
às vezes parece dor
às vezes só calor
às vezes um oco frio.
Falta sustentação.
Deito, solto o peso, flutuo.
Todo peso torna-se leve.
A cabeça solta para trás quer se encontrar com a outra ponta e ao círculo voltar.
Ondas vindo me afogar.
Medo, morro ou mais vivo?

Mergulho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A memória me abisma.

Cativa-me a liberdade.

Deleita-me a doçura.

Seu desejo me arrebata.

Assim carrego o abstrato em minha mente,

Que é o verdadeiro coração de gente

Que quer não querendo de todo,

De gente que, privada de quase tudo,

Resolveu dar só um pouco de quase nada.

Como se mergulhasse, mas volta e meia,

emergisse para respirar.

Um lapso é a minha respiração,

É meu mergulho com vísceras insufladas.

O resto é agonia e desejo de respirar aliviada.

O Portal da Vida e da Morte





Quando estava perdido,
Tentando conciliar a dor e a alegria,
O corpo e o espírito,
Você e eu,
Soube que existe um lugar,
Um lugar onde há um portal,

O “Portal da Vida e da Morte”.
O portal que nos levará à Revolução tão esperada,
Quando, finalmente, o claro e o escuro,
a pedra e a pluma,
o céu e a terra serão parte de um mesmo todo,
Sem se digladiar.
Mas onde o Portal da Vida e da Morte estará?
Só sei que é perto do “Ponto de Ouro de um Milhão".
Esse é o segredo da vida, que há pouco intuí, mas nunca completo vi.