Poesia

Até quando tudo será um pedaço de outra coisa?
Até quando velaremos fragmentos?
Cacos, puzzles inacabados e reticências?
Histórias sem meio nem final.
Tudo será sempre só o início
De algo que poderia ter sido?
Uma promessa?
Uma esperança?
O Nada
Ou pior que o nada:
Sugestões de coisas diversas
do que são na verdade.
O improviso de um amador
que se esqueceu como é viver
Quando sentiu que vivia.

O que importa

Pouco importa se isto

vem do suor dos escravos

Ou das lágrimas fingidas dos nobres!

Que me importa se a origem disto
é o lodo fosco do pântano

Ou o brilho reluzente
do ouro e do diamante?

Que importância há se isto
brota do êxtase de um santo

Ou da humilhação
de um rejeitado amante?

Do néctar das flores
ou do pus dos ferimentos
de um mendigo?

Se isto foi extraído do sangue
de uma presa abatida,

Do frescor ou da podridão?

Se do belo corpo ou da carcaça?

Quem dá mais importância à pedreira de onde

O escultor retirou a pedra, do que à vida

que ele arrancou de dentro dela

Nasceu cego, mas não sabe!

Camille Claudel
Camille Claudel

A partícula de Deus

No início era o verbo

E de repente

Num dado instante

Rebentou no vazio

tirando nesse parto

do nada o tudo

E tudo pelo embate

transformou-se em outra coisa

diversa de si mesma no princípio.

Cada coisa diversa também uma da outra,

Babel de massas!

E o singular fez-se plural.

04-07-2012

Mulher dormindo

Na noite calada, quando o silêncio visita as moradas, um ladrão invadiu o sossego do meu sono.

Depôs seus bens ao chão.

Ajoelhou-se sobre a criança, que volto a ser, quando durmo.

Desnudou meu sono, sem se importar em violar-me os olhos puros.

Num susto, acordo, mas já foge longe meu ladrão de sonhos.

“Isso é só o fim”

* In memoriam das crianças assassinadas em Sabra e Chatila

 

Quando atos ignóbeis são perpetrados inda

É mais abominável que o mundo não pare,

É mais infame que tudo não se acabe,

que as vozes não se calem

E que não voltemos todos

Cabisbaixos ao barro do qual fomos forjados.

Todos os sons do universo,

Desde a explosão primordial,

Deveriam silenciar-se de vergonha,

Deveriam recolher-se dizendo

Que nada, nunca, ninguém,

Deveria ter surgido de coisa alguma

e que, se surgiu, deveria

Esvanecer-se prontamente

Sepultada sobre sua própria infâmia,

Soterrada em gritos abjetos.

O nada seria melhor que um só humano

Testemunhar a evitável

interrupção da vida de curumim.

O vazio silencioso seria um alento,

Se era para macular,

Abominavelmente, a vida, assim.

Quando algo tão vergonhoso sucede,

Como o mundo pode seguir seu curso?

Depois dessa febre assassina,

Que nos leva à carnificina,

Deveria o mundo estacar!

O fim não pareceria tão ruim.

Sem nem lembrar que os homens

Vieram um dia a vida execrar,

A bonança reinaria sem par!

18-09-2012

*Marcelo Nova, Camisa de Vênus

Iniciado em 16 de setembro de 1982, o massacre de Sabra e Chatila foi o morticínio de refugiados civis palestinos e libaneses indefesos perpetrado pela milícia maronita liderada por Elie Hobeika após o assassinato do presidente eleito do país e líder falangista de extrema direita, Bachir Gemayel. O evento ocorreu nos campos palestinos de Sabra (صبرا, Sabrā) e Shatila (وشاتيلا, Shātīlā), situados na periferia de Beirute, a sul da cidade, área que se encontrava então sob proteção das forças armadas de Israel. Na época, a revista Veja tinha como seu correspondente no Líbano o repórter Alessandro Porro, judeu nascido na Itália e naturalizado brasileiro, que desmontou a alegação de que o exército de Israel não percebera a ocorrência do massacre. Porro chegou mesmo a contar os 183 passos que separavam os campos de refugiados e o quartel israelense, no que foi considerado um furo jornalístico. “Segundo o testemunho de um major do Exército libanês, confirmado pelo guardião da antiga Embaixada do Kuwait, uma unidade israelense com três tanques Merkava e pelo menos cinco blindados estava aquartelada a menos de 200 metros daquelas primeiras casas do setor sul de Chatila.

                         

Atenção recomendo prudência pois contém imagens fortes:

http://bigdogdotcom.wordpress.com/2012/09/17/remembering-sabra-and-shatila/

Em memória das crianças assassinadas em Sabra e Chatila

Em 2019 ainda não consigo escrever sobre isso, ainda sou fraca.

Ontem tentei criar um poema em memória das crianças assassinadas em Sabra e Chatila, mas isso foi demais para mim. Por isso, cito o discurso de Ivan Karamázov, (personagem do romance Os irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski)*, sobre o sofrimento das crianças. Uma, especificamente, é estraçalhada por uma matilha a mando de um general, por ter ferido com uma pedra a pata de um de seus cães preferidos, enquanto sua mãe é obrigada a assistir a carnificina:

“Penso que se o diabo não existe e foi por conseguinte criado pelo homem, este deve tê-lo feito à sua imagem.”

“Se todos devem sofrer, a fim de concorrer com seu sofrimento para a harmonia eterna, qual o papel das crianças?”

“Acredita-me, Aliócha, pode ser que eu viva até esse momento ou que ressuscite então, e exclamarei talvez com os outros, vendo a mãe beijar o carrasco de seu filho: “Tu tens razão, Senhor Deus!”, mas será contra minha vontade. Enquanto ainda é tempo, recuso-me a aceitar essa harmonia superior. Acho que não vale ela uma lágrima de criança, daquela pequenina vítima que batia no peito e rezava ao “bom Deus”, no seu canto infecto; não as vale, porque aquelas lágrimas não foram redimidas. Enquanto assim for, não se poderá falar de harmonia. Ora, não há possibilidade de redimi-las. Os carrascos sofrerão no inferno, dir-me-ás tu. Mas de que serve esse castigo, uma vez que as crianças tiveram também o seu inferno? Aliás, que vale essa harmonia que comporta um inferno? Quero o perdão, o beijo universal, a supressão do sofrimento. E, se o sofrimento das crianças serve para perfazer a soma das dores necessárias à aquisição da verdade, afirmo desde agora que essa verdade não vale tal preço. Não quero que a mãe perdoe ao carrasco, não tem esse direito. Que lhe perdoe seu sofrimento de mãe, mas não o que sofreu seu filho estraçalhado pelos cães. Ainda mesmo que seu filho perdoasse, não teria ela o direito. Se o direito de perdoar não existe, que vem a tornar-se a harmonia? Há no mundo um ser que tenha esse direito? Por amor pela humanidade é que não quero essa harmonia. Prefiro conservar meus sofrimentos não redimidos e minha indignação persistente, mesmo se não tivesse razão! Aliás, deram realce excessivo a essa harmonia, a entrada custa demasiado caro para nós. Prefiro entregar meu bilhete de entrada. Como homem de bem, tenho mesmo obrigação de devolvê-lo o mais cedo possível. É o que faço. Não recuso admitir Deus, mas muito respeitosamente devolvo-lhe meu bilhete.” 251

*Ивана Карамазова, (персонаж романа Братья Карамазовы Федор Достоевский

Perdão

Ser exposto é ser crucificado.
Todos temos um pouco
Do leão,
E do cordeiro,
Da vítima e do algoz.

Se alguém desfecha

sua ira sobre nós,
queremos esse alguém aniquilado.
Todos os dias pregamos
as mãos de alguém no madeiro,
Por isso o mito é eterno
E o homem pequeno.

Thaís de Godoy

Requerer

 

Como pedir a uma gota de chuva que se suspenda no ar?

Como pedir, em pleno voo, às asas dos pássaros que parem de bater?

Como pedir ao vento que pare de soprar?

Ou a um rio que pare de correr;

 

Como solicitar a um tigre faminto que não devore sua presa?

Ou requerer a um raio que interrompa seu curso,

Para não chamuscar uma árvore indefesa?

Ou pedir ao sol que pare de brilhar?

Como? Como? Como?

Só as rochas podem pedir uma coisa assim…

Se algo se consegue controlar prudentemente,

É porque seu querer não é tão ardente…

À Palestina,

o sangue, que jorra das veias de seu povo,

é esquecido, é ignorado

até quando fingiremos que tudo é normal?

até quando viraremos as costas àqueles que sofrem

de um grande mal?

“assim caminha a humanidade”, uns dizem.

outros permanecem calados,

enquanto seus filhos se esquivam da morte sem

saber se seus passos serão lembrados

todos eles serão só números quantificados?

alguns ainda virarão dissertação ou teses de doutorado,

mas sem nome, sem lar

nem água nem chão,

todos seus filhos serão

prisioneiros em seu próprio torrão?

e todos nós sem a vergonha de deixar

que isso aconteça a um irmão?

12-07-2012

Rastro

O vazio deixou um rastro, deixou um rastro

em minhas veias.

Caminhou por elas como em ruas após

a chuva, quando o mundo ainda

está abrigado e

fica no ar o cheiro do pó

que virou

barro.

Quero ser a Palestina

Quero ser a Palestina

Quero ser a Palestina

Mas não quero ser a Palestina de Israel

Não seja para mim o que Israel

é para a Palestina.

Não me transforme em vítima das vítimas.

Quero ser aquela Palestina

Que você quer salvar...

 

  

 

 

 

 

 

 

Sonho de menina

Lembra-se daquela menina
tão pequenina
Que queria ser bailarina?

Caiu sentada na escada
Não fica mais na ponta do pé
nem sai de casa
Com dores nas costas.

Por que todos os sonhos
de menina têm de morrer um dia?

O milagre é haver quem ainda sonhe em ser bailarina!
Os sonhos de menina são sagrados;
Erijam-se templos em sua homenagem!

O Lobo Solitário

Há algo num lobo solitário,
algo sombrio,
algo assustador.
O lobo solitário
anda desgarrado
da matilha,
procurando alguma rês
também desgarrada
Que possa abater.
O lobo solitário é livre.
Armadilhas não existem
para lhe prender.