Bares, cafés e clubes, a partir do século XIX, não eram apenas um ambiente para a happy hour. Eles foram o cenário onde questões políticas, filosóficas, movimentos artísticos revolucionários se espalharam. O propósito deste site é o mesmo: criar um espaço virtual para expressão livre de ideais, reflexões e sentimentos, com espírito crítico em relação a nossa Cultura.
minha arrogância me fez desdenhar das paixões.
os descomedidos Romeu, Werther, Paolo e Francesca
eram para mim caricaturas disformes e descontroladas,
eram para mim fracos seres irracionais,
eram para mim loucos...
admirava suas experiências
que me atingiam pela beleza.
eis a que se resumia minha propalada
sensibilidade para o lirismo.
cínica que eu fui,
em tempos cínicos.
a ironia e o sarcasmo são nossas heranças.
ah! tola! nem imaginava que tudo que eu havia
sentido até então eram mediocridades
pela distância
pelo orgulho
causados pelo medo vital.
acha-me sábia e experiente
superior por me preocupar com as dores de amores dos desvairados.
superior a ponto de sentir raiva dos descontroles alheios
que ferem,
que escandalizam,
que levam ao suplício.
“O calor dos animais aqueceu melhor o menino Jesus
na manjedoura” do que eu a meus afetos...
só agora entendo profundamente o que significa:
a experiência de Santa Tereza,
as pulsões que inspiraram “Uma temporada no Inferno”,
que reli na Livraria Cultura entre lágrimas,
por ter recebido essa graça desconhecida da maioria
por só agora entender, não cerebralmente
por só agora entender não com o covarde
“cauteloso pouco a pouco” burguês
ou com a aurea mediocritas clássica;
por só agora entender vivendo o que significa
“The road of excess leads to the palace of wisdom;
for we never know what is enough
until we know what is more than enough.”
chorei por só agora entender, não com a mente,
mas com cada fibra do meu corpo
que agora, só agora pulsa em outra frequência.
meu coração caiu a quatro palmos do lugar original.
tudo que eu li,
tudo que vi,
tudo que toquei e degustei,
precisarei provar novamente agora.
Sempre repetia minha madrinha:
“O medo não é de Deus”!
Olhos arregalados, completava ainda:
“O medo é a ausência de fé em Deus.
Falta de uma fortaleza interna!”
Mesmo que minha fé me abandonasse
Vez ou outra, quando conseguia
Reconhecer minha covardia, lembrava:
“O medo não é de Deus!”
Tememos muitas coisas.
“Hesito, logo existo”
É o bordão modernizado.
Por isso nos surpreende o gesto heroico.
Num átimo, o ser não duvida de nada.
Não duvida do que tem
de fazer imediatamente,
Mesmo que isso seja irracional.
Mesmo que isso seja loucura
Porque, naquele instante,
Mesmo o mais vacilante
passa a ter certeza do que deve,
precisa e deseja fazer.
Então ergue-se nele essa fortaleza.
De onde ela vem?
Nem sempre da fé em um Deus,
Mas simplesmente da fé:
Fé na mudança
Fé no fim da injustiça
Fé em si mesmo
Fé em poder mudar o mundo!
Mesmo que seja apenas um menino
e sua única arma uma ingênua pedra
diante de um tanque,
diante de toneladas de ferro,
diante de incalculável ódio
E, finalmente, diante do medo.
In memoriam de Faris Odeh, morto com apenas 13 anos, no dia 8 de novembro de 2000, por um sniper israelense
Quando estava perdido,
Tentando conciliar a dor e a alegria,
O corpo e o espírito,
Você e eu,
Soube que existe um lugar,
Um lugar onde há um portal,
O “Portal da Vida e da Morte”.
O portal que nos levará à Revolução tão esperada,
Quando, finalmente, o claro e o escuro,
a pedra e a pluma,
o céu e a terra serão parte de um mesmo todo,
Sem se digladiar.
Mas onde o Portal da Vida e da Morte estará?
Só sei que é perto do “Ponto de Ouro de um Milhão".
Esse é o segredo da vida, que há pouco intuí, mas nunca completo vi.