Epifania

minha arrogância me fez desdenhar das paixões.
os descomedidos Romeu, Werther, Paolo e Francesca
eram para mim caricaturas disformes e descontroladas,
eram para mim fracos seres irracionais,
eram para mim loucos...
admirava suas experiências
que me atingiam pela beleza.
eis a que se resumia minha propalada
sensibilidade para o lirismo.

cínica que eu fui,
em tempos cínicos.
a ironia e o sarcasmo são nossas heranças.
ah! tola! nem imaginava que tudo que eu havia
sentido até então eram mediocridades
pela distância
pelo orgulho
causados pelo medo vital.

acha-me sábia e experiente
superior por me preocupar com as dores de amores dos desvairados.
superior a ponto de sentir raiva dos descontroles alheios
que ferem,
que escandalizam,
que levam ao suplício.

“O calor dos animais aqueceu melhor o menino Jesus
na manjedoura” do que eu a meus afetos...
só agora entendo profundamente o que significa:
a experiência de Santa Tereza,
as pulsões que inspiraram “Uma temporada no Inferno”,
que reli na Livraria Cultura entre lágrimas,
por ter recebido essa graça desconhecida da maioria
por só agora entender, não cerebralmente
por só agora entender não com o covarde
“cauteloso pouco a pouco” burguês
ou com a aurea mediocritas clássica;
por só agora entender vivendo o que significa

“The road of excess leads to the palace of wisdom;
for we never know what is enough
until we know what is more than enough.”

chorei por só agora entender, não com a mente,
mas com cada fibra do meu corpo
que agora, só agora pulsa em outra frequência.
meu coração caiu a quatro palmos do lugar original.
tudo que eu li,
tudo que vi,
tudo que toquei e degustei,
precisarei provar novamente agora.

Os aromas da cidade

Maria Fumaça

 

Na cidade que rescende à resina de araucária,

Delicados beija-flores duelam ferozmente

pelo néctar com os floretes de seus bicos.

Na cidade que exala a flor de cerejeira,

Os habitantes da construção holandesa,

adornada pelo jardim japonês, são nipônicos.

Na cidade que cheira a chocolate,

Coelhos assustados cruzam estradas;

Nuvens de algodão envolvem

casas, árvores, cabeças.

Marias-fumaça encorpam nuvens baixas

E evocam tempos antigos.

Na cidade que ostenta aroma de forno a lenha,

Barracos, pousadas, castelos e Palácios

nos lembram de coisas que nunca

existiram em seu tempo certo ali.

Telhados inclinados esperam

para sempre a neve que nunca virá.

Numa estrada da cidade que exala a cerveja

feita a mão Baden Baden,

cai um homem

E os montesinos não o acodem.

Na cidade de pesadelo e sonho,

Nessa dança de aromas doces e acres,

Os enamorados se escondem.

“Carece de ter coragem”

Sempre repetia minha madrinha:
“O medo não é de Deus”!
Olhos arregalados, completava ainda:
“O medo é a ausência de fé em Deus.
Falta de uma fortaleza interna!”

Mesmo que minha fé me abandonasse
Vez ou outra, quando conseguia
Reconhecer minha covardia, lembrava:
“O medo não é de Deus!”

Tememos muitas coisas.
“Hesito, logo existo”
É o bordão modernizado.
Por isso nos surpreende o gesto heroico.

Num átimo, o ser não duvida de nada.
Não duvida do que tem
de fazer imediatamente,

Mesmo que isso seja irracional.
Mesmo que isso seja loucura
Porque, naquele instante,
Mesmo o mais vacilante
passa a ter certeza do que deve,
precisa e deseja fazer.
Então ergue-se nele essa fortaleza.

De onde ela vem?
Nem sempre da fé em um Deus,
Mas simplesmente da fé:
Fé na mudança
Fé no fim da injustiça
Fé em si mesmo
Fé em poder mudar o mundo!

Mesmo que seja apenas um menino
e sua única arma uma ingênua pedra
diante de um tanque,
diante de toneladas de ferro,
diante de incalculável ódio
E, finalmente, diante do medo.

In memoriam de Faris Odeh, morto com apenas 13 anos, no dia 8 de novembro de 2000, por um sniper israelense

O Sem-nome’

Entre as costelas, uma flor com pétalas grandes se abriu;
às vezes parece dor
às vezes só calor
às vezes um oco frio.
Falta sustentação.
Deito, solto o peso, flutuo.
Todo peso torna-se leve.
A cabeça solta para trás quer se encontrar com a outra ponta e ao círculo voltar.
Ondas vindo me afogar.
Medo, morro ou mais vivo?

Mergulho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A memória me abisma.

Cativa-me a liberdade.

Deleita-me a doçura.

Seu desejo me arrebata.

Assim carrego o abstrato em minha mente,

Que é o verdadeiro coração de gente

Que quer não querendo de todo,

De gente que, privada de quase tudo,

Resolveu dar só um pouco de quase nada.

Como se mergulhasse, mas volta e meia,

emergisse para respirar.

Um lapso é a minha respiração,

É meu mergulho com vísceras insufladas.

O resto é agonia e desejo de respirar aliviada.

Duplo Carimbo

Quando insisto que preciso

Ser as roupas que te envolvem,

Ninguém entende o motivo.

À tua pele estaria colada,

Te revestindo, te protegendo

Do frio, do sol, da chuva,

De olhares que alhures

Pudessem perturbar teu pudor

E enciumar esta distante

Imaginação que te perscruta.

Ao me perfumar, teus doces bálsamos,

Curariam a ânsia que me domina.

O espectro de tua presença

Se impregnaria em meus

Tecidos me acompanhando.

Tuas formas se desenhariam em mim,

Grudadas ao entrelaçamento de meus fios,

Guardando a memória residual de tua estada.

Também meus botões, fechos,

Costuras marcariam tua pele.

Assim, viveríamos numa troca

eterna: ora te sigo

Ora  me segues,

Como duplo carimbo.

O Portal da Vida e da Morte





Quando estava perdido,
Tentando conciliar a dor e a alegria,
O corpo e o espírito,
Você e eu,
Soube que existe um lugar,
Um lugar onde há um portal,

O “Portal da Vida e da Morte”.
O portal que nos levará à Revolução tão esperada,
Quando, finalmente, o claro e o escuro,
a pedra e a pluma,
o céu e a terra serão parte de um mesmo todo,
Sem se digladiar.
Mas onde o Portal da Vida e da Morte estará?
Só sei que é perto do “Ponto de Ouro de um Milhão".
Esse é o segredo da vida, que há pouco intuí, mas nunca completo vi.