Os aromas da cidade

Na cidade que rescende à resina de araucária,
Delicados beija-flores duelam ferozmente
pelo néctar com os floretes de seus bicos.
Na cidade que exala a flor de cerejeira,
Os habitantes da construção holandesa,
adornada pelo jardim japonês, são nipônicos.
Na cidade que cheira a chocolate,
Coelhos assustados cruzam estradas;
Nuvens de algodão envolvem
casas, árvores, cabeças.
Marias-fumaça encorpam nuvens baixas
E evocam tempos antigos.
Na cidade que ostenta aroma de forno a lenha,
Barracos, pousadas, castelos e Palácios
nos lembram de coisas que nunca
existiram em seu tempo certo ali.
Telhados inclinados esperam
para sempre a neve que nunca virá.
Numa estrada da cidade que exala a cerveja
feita a mão Baden Baden,
cai um homem
E os montesinos não o acodem.
Na cidade de pesadelo e sonho,
Nessa dança de aromas doces e acres,
Os enamorados se escondem.
“Carece de ter coragem”
Sempre repetia minha madrinha: “O medo não é de Deus”! Olhos arregalados, completava ainda: “O medo é a ausência de fé em Deus. Falta de uma fortaleza interna!” Mesmo que minha fé me abandonasse Vez ou outra, quando conseguia Reconhecer minha covardia, lembrava: “O medo não é de Deus!” Tememos muitas coisas. “Hesito, logo existo” É o bordão modernizado. Por isso nos surpreende o gesto heroico. Num átimo, o ser não duvida de nada. Não duvida do que tem de fazer imediatamente, Mesmo que isso seja irracional. Mesmo que isso seja loucura Porque, naquele instante, Mesmo o mais vacilante passa a ter certeza do que deve, precisa e deseja fazer. Então ergue-se nele essa fortaleza. De onde ela vem? Nem sempre da fé em um Deus, Mas simplesmente da fé: Fé na mudança Fé no fim da injustiça Fé em si mesmo Fé em poder mudar o mundo! Mesmo que seja apenas um menino e sua única arma uma ingênua pedra diante de um tanque, diante de toneladas de ferro, diante de incalculável ódio E, finalmente, diante do medo. In memoriam de Faris Odeh, morto com apenas 13 anos, no dia 8 de novembro de 2000, por um sniper israelense
O Sem-nome’
Mergulho

A memória me abisma.
Cativa-me a liberdade.
Deleita-me a doçura.
Seu desejo me arrebata.
Assim carrego o abstrato em minha mente,
Que é o verdadeiro coração de gente
Que quer não querendo de todo,
De gente que, privada de quase tudo,
Resolveu dar só um pouco de quase nada.
Como se mergulhasse, mas volta e meia,
emergisse para respirar.
Um lapso é a minha respiração,
É meu mergulho com vísceras insufladas.
O resto é agonia e desejo de respirar aliviada.
Duplo Carimbo
Quando insisto que preciso
Ser as roupas que te envolvem,
Ninguém entende o motivo.
À tua pele estaria colada,
Te revestindo, te protegendo
Do frio, do sol, da chuva,
De olhares que alhures
Pudessem perturbar teu pudor
E enciumar esta distante
Imaginação que te perscruta.
Ao me perfumar, teus doces bálsamos,
Curariam a ânsia que me domina.
O espectro de tua presença
Se impregnaria em meus
Tecidos me acompanhando.
Tuas formas se desenhariam em mim,
Grudadas ao entrelaçamento de meus fios,
Guardando a memória residual de tua estada.
Também meus botões, fechos,
Costuras marcariam tua pele.
Assim, viveríamos numa troca
eterna: ora te sigo
Ora me segues,
Como duplo carimbo.
O Portal da Vida e da Morte
Quando estava perdido, Tentando conciliar a dor e a alegria, O corpo e o espírito, Você e eu, Soube que existe um lugar, Um lugar onde há um portal, O “Portal da Vida e da Morte”. O portal que nos levará à Revolução tão esperada, Quando, finalmente, o claro e o escuro, a pedra e a pluma, o céu e a terra serão parte de um mesmo todo, Sem se digladiar. Mas onde o Portal da Vida e da Morte estará? Só sei que é perto do “Ponto de Ouro de um Milhão". Esse é o segredo da vida, que há pouco intuí, mas nunca completo vi.
Bizarro
Dói tanto em mim a dor da tua solidão,
Dói tanto, que se, para ti,
Tomasses outra pessoa qualquer,
Através dela, sentiria que estamos
juntos numa perfeita comunhão.
Como gêmeos que habitam o mesmo corpo
Ou entidade que incorpora alguém,
através dela, moveria meu ser
E sentiria que tu me possuis também.
Ao sentir essa mulher,
Porque serei uma, se te convêm,
Formaríamos uma fraternidade,
Uma santíssima trindade
tão sagrada, que todos teriam de dizer amém.
Até mesmo tu, que não acreditas em ninguém…







