Bizarro

Dói tanto em mim a dor da tua solidão,

Dói tanto, que se, para ti,

Tomasses outra pessoa qualquer,

Através dela, sentiria que estamos

juntos numa perfeita comunhão.

 

Como gêmeos que habitam o mesmo corpo

Ou entidade que incorpora alguém,

através dela, moveria meu ser

E sentiria que tu me possuis também.

 

 

Ao sentir essa mulher,

Porque serei uma, se te convêm,

Formaríamos uma fraternidade,

Uma santíssima trindade

tão sagrada, que todos teriam de dizer amém.

Até mesmo tu, que não acreditas em ninguém…

Olhos de Paisagem

Com seus cílios pinto

Uma paisagem atemporal,

estou me esvaindo por seus rios,

estou sendo arrastada

por sua correnteza,

Estou sucumbindo.

Sobre as árvores rostos observam curiosos

E impassíveis minha queda.

Nenhum ombro me ampara.

Pensam que flutuo na torrente,

Que, à superfície, se assemelha

A um lago plácido.

Mas,submerso, um turbilhão

retorce minhas entranhas.

Quem poderia me salvar de ser dragada

E impedir que eu seja afogada

em suas íris?

“Indescrição”

Não sou um cão

cansado de viver,
Não sou a garça,
Não sou a Graça,
Não sou o quer que eu seja
Nem o que quer que seja.
Nem Beatriz nem Tereza
Nem anjo nem capeta
Nem estável ou volúvel
Ou frágil e forte

Ou uma dama de negro,

que anuncia sua morte.
Nem uma das almas
impassíveis  do inferno,
Que não foram más
tampouco boas.
Não sou resoluta ou indecisa
Nem perdulária ou sovina.
Não sou gênio nem lâmpada
Nem despeitada ou símia.
Não sou fresca nem delicada
Nem esforçada, sensível ou sensitiva.
Nem vidente ou visionária.
Não sou doida; falsa, menos ainda.
Nem ninfeta ou senil
Nem menina nem mulher de verdade
Nem pagã nem ateia nem carola.
Meus genes não são maus!
Perfeitos não são também!
Querem-me até
cachorra e homicida?
Deixem-me em paz!
Por que me afligem?
Nada mudará, se me imolarem!
Se fui ao menos
uma dessas coisas,
nada mais sei.
Perdi-me de mim mesma,
Num turbilhão de espelhos deformados;
Numa sobrecarga de tintas e borrões.
Deixem-me viver!
Vivo como aprendiz de ser
primordial e brutalmente alguém….

Poesia

Até quando tudo será um pedaço de outra coisa?
Até quando velaremos fragmentos?
Cacos, puzzles inacabados e reticências?
Histórias sem meio nem final.
Tudo será sempre só o início
De algo que poderia ter sido?
Uma promessa?
Uma esperança?
O Nada
Ou pior que o nada:
Sugestões de coisas diversas
do que são na verdade.
O improviso de um amador
que se esqueceu como é viver
Quando sentiu que vivia.

O que importa

Pouco importa se isto

vem do suor dos escravos

Ou das lágrimas fingidas dos nobres!

Que me importa se a origem disto
é o lodo fosco do pântano

Ou o brilho reluzente
do ouro e do diamante?

Que importância há se isto
brota do êxtase de um santo

Ou da humilhação
de um rejeitado amante?

Do néctar das flores
ou do pus dos ferimentos
de um mendigo?

Se isto foi extraído do sangue
de uma presa abatida,

Do frescor ou da podridão?

Se do belo corpo ou da carcaça?

Quem dá mais importância à pedreira de onde

O escultor retirou a pedra, do que à vida

que ele arrancou de dentro dela

Nasceu cego, mas não sabe!

Camille Claudel
Camille Claudel

Mulher dormindo

Na noite calada, quando o silêncio visita as moradas, um ladrão invadiu o sossego do meu sono.

Depôs seus bens ao chão.

Ajoelhou-se sobre a criança, que volto a ser, quando durmo.

Desnudou meu sono, sem se importar em violar-me os olhos puros.

Num susto, acordo, mas já foge longe meu ladrão de sonhos.

“Isso é só o fim”

* In memoriam das crianças assassinadas em Sabra e Chatila

 

Quando atos ignóbeis são perpetrados inda

É mais abominável que o mundo não pare,

É mais infame que tudo não se acabe,

que as vozes não se calem

E que não voltemos todos

Cabisbaixos ao barro do qual fomos forjados.

Todos os sons do universo,

Desde a explosão primordial,

Deveriam silenciar-se de vergonha,

Deveriam recolher-se dizendo

Que nada, nunca, ninguém,

Deveria ter surgido de coisa alguma

e que, se surgiu, deveria

Esvanecer-se prontamente

Sepultada sobre sua própria infâmia,

Soterrada em gritos abjetos.

O nada seria melhor que um só humano

Testemunhar a evitável

interrupção da vida de curumim.

O vazio silencioso seria um alento,

Se era para macular,

Abominavelmente, a vida, assim.

Quando algo tão vergonhoso sucede,

Como o mundo pode seguir seu curso?

Depois dessa febre assassina,

Que nos leva à carnificina,

Deveria o mundo estacar!

O fim não pareceria tão ruim.

Sem nem lembrar que os homens

Vieram um dia a vida execrar,

A bonança reinaria sem par!

18-09-2012

*Marcelo Nova, Camisa de Vênus

Iniciado em 16 de setembro de 1982, o massacre de Sabra e Chatila foi o morticínio de refugiados civis palestinos e libaneses indefesos perpetrado pela milícia maronita liderada por Elie Hobeika após o assassinato do presidente eleito do país e líder falangista de extrema direita, Bachir Gemayel. O evento ocorreu nos campos palestinos de Sabra (صبرا, Sabrā) e Shatila (وشاتيلا, Shātīlā), situados na periferia de Beirute, a sul da cidade, área que se encontrava então sob proteção das forças armadas de Israel. Na época, a revista Veja tinha como seu correspondente no Líbano o repórter Alessandro Porro, judeu nascido na Itália e naturalizado brasileiro, que desmontou a alegação de que o exército de Israel não percebera a ocorrência do massacre. Porro chegou mesmo a contar os 183 passos que separavam os campos de refugiados e o quartel israelense, no que foi considerado um furo jornalístico. “Segundo o testemunho de um major do Exército libanês, confirmado pelo guardião da antiga Embaixada do Kuwait, uma unidade israelense com três tanques Merkava e pelo menos cinco blindados estava aquartelada a menos de 200 metros daquelas primeiras casas do setor sul de Chatila.

                         

Atenção recomendo prudência pois contém imagens fortes:

http://bigdogdotcom.wordpress.com/2012/09/17/remembering-sabra-and-shatila/

Em memória das crianças assassinadas em Sabra e Chatila

Em 2019 ainda não consigo escrever sobre isso, ainda sou fraca.

Ontem tentei criar um poema em memória das crianças assassinadas em Sabra e Chatila, mas isso foi demais para mim. Por isso, cito o discurso de Ivan Karamázov, (personagem do romance Os irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski)*, sobre o sofrimento das crianças. Uma, especificamente, é estraçalhada por uma matilha a mando de um general, por ter ferido com uma pedra a pata de um de seus cães preferidos, enquanto sua mãe é obrigada a assistir a carnificina:

“Penso que se o diabo não existe e foi por conseguinte criado pelo homem, este deve tê-lo feito à sua imagem.”

“Se todos devem sofrer, a fim de concorrer com seu sofrimento para a harmonia eterna, qual o papel das crianças?”

“Acredita-me, Aliócha, pode ser que eu viva até esse momento ou que ressuscite então, e exclamarei talvez com os outros, vendo a mãe beijar o carrasco de seu filho: “Tu tens razão, Senhor Deus!”, mas será contra minha vontade. Enquanto ainda é tempo, recuso-me a aceitar essa harmonia superior. Acho que não vale ela uma lágrima de criança, daquela pequenina vítima que batia no peito e rezava ao “bom Deus”, no seu canto infecto; não as vale, porque aquelas lágrimas não foram redimidas. Enquanto assim for, não se poderá falar de harmonia. Ora, não há possibilidade de redimi-las. Os carrascos sofrerão no inferno, dir-me-ás tu. Mas de que serve esse castigo, uma vez que as crianças tiveram também o seu inferno? Aliás, que vale essa harmonia que comporta um inferno? Quero o perdão, o beijo universal, a supressão do sofrimento. E, se o sofrimento das crianças serve para perfazer a soma das dores necessárias à aquisição da verdade, afirmo desde agora que essa verdade não vale tal preço. Não quero que a mãe perdoe ao carrasco, não tem esse direito. Que lhe perdoe seu sofrimento de mãe, mas não o que sofreu seu filho estraçalhado pelos cães. Ainda mesmo que seu filho perdoasse, não teria ela o direito. Se o direito de perdoar não existe, que vem a tornar-se a harmonia? Há no mundo um ser que tenha esse direito? Por amor pela humanidade é que não quero essa harmonia. Prefiro conservar meus sofrimentos não redimidos e minha indignação persistente, mesmo se não tivesse razão! Aliás, deram realce excessivo a essa harmonia, a entrada custa demasiado caro para nós. Prefiro entregar meu bilhete de entrada. Como homem de bem, tenho mesmo obrigação de devolvê-lo o mais cedo possível. É o que faço. Não recuso admitir Deus, mas muito respeitosamente devolvo-lhe meu bilhete.” 251

*Ивана Карамазова, (персонаж романа Братья Карамазовы Федор Достоевский