Amoras nos muros

A meu primo Marcelo Balberde Boccuzzi

Como é difícil colher amoras!

— É muito perigoso!

Há pontas de cacos

de vidro nos muros

os quais só alguns podem pular.

Só eles podem subir

na árvore e alcançar

seus frutos maduros.

O sangue do crime

nas mãos rubras de amoras!

Ah! Quem dera ser maior e mais forte!

Os galhos do outro lado

do muro cortante alcançar!

Mas, ainda assim, precisaria enfrentar

as aranhas nas folhas escondidas,

os escorpiões, as cobras,

peçonhas esperando

mãozinhas inocentes e limpas.

Quem pode com elas?

Só eles… eles podem!

O vento bondoso derruba

as mais maduras, pesadas,

dos altos galhos que pendem do lado

de cá da muralha intransponível.

Mas seu gosto amassado, passado

O tempo estragou!

No ladrilho vermelho,

seu sumo jaz esparramado.

As tenras e frescas,

só eles podem comer.

Dia escuro, nuvens cinza-carregadas,

Cascatas de suco rolam as escadas.

_ Com ácido, limpa-se tudo!

Asas, asas, dêem-me asas para alcançá-las.

Ah! quebrar os cacos, derrubar

o muro a machadadas,

e elas, todas aqui, assim!

15 de setembro de 1998

Perdão, padre, porque pequei!

_Perdão, padre, porque pequei!

Tive um sentimento vergonhoso,

não consigo contar.

_O que foi, minha filha?

Deus é misericordioso.

_Tive innnvejjaa.

_O quê? Inveja?

_Sim, inveja.

_De quem?

_Da cantineira de minha escola.

_Mas por quê?

_Porque ela sabe virar

panquecas no ar…

_Só isso?

_Não, também tive inveja

Das moças que dormem…

_Como?

_Sim padre, das moças que dormem.

_Só isso?

_Não, tive também dos pássaros que voam,

Dos peixes que podem ir

a lugares onde não posso estar.

Tenho inveja de tanta coisa…

Das roupas de meu amado,

Do ar que ele respira.

Nem a luz escapa.

E dos mortos todos

que talvez já saibam

de coisas que eu não sei

e talvez estejam reunidos em algum altar

aonde eu não sei quando vou chegar,

Ou talvez já não sintam mais

O mundo todo fora do lugar…

Jacareí, 24 de junho de 2012

Na Palestina: O velho, a árvore, o ônibus

À Abd Al-Hasib Atta Zaloum

Sobre o solo, jaz a carcaça do que um dia fora um ônibus.

Hoje, tornou-se abrigo do velho sem lar.

As estrelas no céu velam por eles à noite.

O frio passa pela vidraça estilhaçada,

Vem sorrateiro lhes acompanhar.

Assim que ficou pronta,

sua antiga morada foi demolida;

sua terra, por colonos, roubada.

Converteram-na em área de segurança.

Segurança para quem,

se o velho agora vive ao relento?

Não é o velho, de humanos, rebento?

Não necessita de segurança também?

É menos humano que as crianças da escola ali próxima?

Já que delas só recebe desdém?

Sob o sol escaldante, a sombra vem de uma árvore solitária.

A árvore de dia e o ônibus à noite são o seu reino,

Que nem o rei da Jordânia igual tem.

Como a vida que poderia ter tido foi interrompida,

Nesse solo só quer seus olhos cansados plantar

Para não mais ver tantas guerras sua terra assolar.