The Ballad of a Thin Man

The Ballad of a Thin Man

Bob Dylan

You walk into the room
With your pencil in your hand
You see somebody naked
And you say, “Who is that man ?”
You try so hard
But you don’t understand
Just what you’ll say
When you get home.

Because something is happening here
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

You raise up your head
And you ask, “Is this where it is ?”
And somebody points to you and says
“It’s his”
And you says, “What’s mine ?”
And somebody else says, “Well, what is ?”
And you say, “Oh my God
Am I here all alone ?”

But something is happening here
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

You hand in your ticket
And you go watch the geek
Who immediately walks up to you
When he hears you speak
And says, “How does it feel
To be such a freak ?”
And you say, “Impossible”
As he hands you a bone.

And something is happening here
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

You have many contacts
Among the lumberjacks
To get you facts
When someone attacks your imagination
But nobody has any respect
Anyway they already expect you
To all give a check
To tax-deductible charity organizations.
You’ve been with the professors
And they’ve all liked your looks
With great lawyers you have
Discussed lepers and crooks
You’ve been through all of
F. Scott Fitzgerald’s books
You’re very well read
It’s well known.

But something is happening here
And you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

Well, the sword swallower, he comes up to you
And then he kneels
He crosses himself
And then he clicks his high heels
And without further notice
He asks you how it feels
And he says, “Here is your throat back
Thanks for the loan”.

And you know something is happening
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

Now you see this one-eyed midget
Shouting the word “NOW”
And you say, “For what reason ?”
And he says, “How ?”
And you say, “What does this mean ?”
And he screams back, “You’re a cow
Give me some milk
Or else go home”.

Because something is happening
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

Well, you walk into the room
Like a camel and then you frown
You put your eyes in your pocket
And your nose on the ground
There ought to be a law
Against you comin’ around
You should be made
To wear earphones.

But something is happening
And you don’t know what it is
Do you, Mister Jones?

 

Só posso chamar a todos que não consideram a obra de Dylan merecedora de um Prêmio Nobel de Literatura de Senhores Jones. A questão agora parece ser outra: se Ele vai aceitar ou não o prêmio, já que os organizadores desse evento não conseguem entrar em contato com ele. A uns e outros, Bob Dylan tem ignorado igualmente mantendo sua atitude blasé. Não fez nenhum pronunciamento sobre sua premiação. Talvez a melhor atitude a ser tomada diante de tanta controvérsia seja o silêncio.

Consoada

Consoada

Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

 

img_3980-copy

O Corvo

Edgar Allan Poe traduzido por Machado de Assis

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: “Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais.”

Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: “Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais.”
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
“Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais.”

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: “O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: “Nunca mais”.

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: “Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora.”
E o corvo disse: “Nunca mais!”

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
“Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: “Nunca mais”.

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: “Nunca mais”.

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: “Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: “Nunca mais.”

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

anoika09.

“Lista” dos dez livros mais difíceis do “Mundo” ignora o Oriente

Listas sobre os livros mais relevantes do século, os mais criativos, os melhores do ano e os mais importantes de se ler antes de morrer. As relações são infinitas, embora muitas vezes bastante duvidosas, mas sempre populares no mercado editorial.
A mais recente foi divulgada esta semana pelo jornal britânico The Guardian. O site literário independente The Millions elegeu, após uma pesquisa de três anos, as dez obras consideradas por eles como as mais difíceis do mundo.
Para chegar a essa relação, o site teve como critério livros complicados de ler por conta de sua extensão, ou pelo estilo ou estranheza estrutural do texto, pela experimentação, além da abstração da linguagem.
Na lista, nada de Guerra e Paz, de Liev Tolstói, nem o tão aclamado Ulysses, de James Joyce. O autor irlandês até aparece, mas desta vez com Finnegans Wake. A escritora inglesa Virginia Woolf também está na relação. Desta vez, não foi citada pela brilhante (e difícil) obra A Viagem, por exemplo. Mas está na lista do The Millions com Ao Farol (título original To the Lighthouse).
No geral, apenas trabalhos europeus e norte-americanos foram relacionados. As outras obras consideradas como as mais difíceis do mundo, segundo o website, foram: Nightwood, da escritora norte-americana Djuna Barnes; A Tale of a Tub, de Jonathan Swift; A Fenomenologia do Espírito, de Hegel; Clarissa, de Samuel Richardson; Ser e Tempo, do filósofo alemão Martin Heidegger; The Faerie Queene, do inglês Edmund Spenser; The Making of Americans, de Gertrude Stein; e Women and Men, de Joseph McElroy.
Os organizadores da lista ignoraram totalmente obras monumentais como o Mahabarata dificílima quer por sua extensão,  quer pelas diferenças culturais, distanciamento temporal e significado esotérico. “A Grande História dos Bharatas”, como se traduz seu título, é o principal épico religioso da civilização indiana – e também o maior poema de todos os tempos, com cerca de 200 000 versos. Só para ter uma ideia, isso equivale a sete vezes a soma da Ilíada com a Odisseia, os dois épicos atribuídos ao poeta grego Homero que inauguraram a literatura ocidental.
Kurukshetra
Insira uma legenda

Manuscrito ilustrado da batalha de Kurukshetra, onde se vê o deus Krishna manejando o carro de combate do arqueiro pandava Arjuna, que dispara suas flechas contra os Kuravas

Vinícius de Moraes

SONETO DO AMOR TOTAL

 

Rio de Janeiro, 1951

 

Amo-te tanto, meu amor… não cante

O humano coração com mais verdade…

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.

 

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

 

Amo-te como um bicho, simplesmente,

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

 

E de te amar assim muito e amiúde,

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.

430fea38ce63429be95988949adbccb8
Eros e Psiquê

O Velho do Restelo – Camões

Eis a arenga do Velho do Restelo contra as viagens marítimas e a ambição desmedida e corrupção dos portugueses no livro Os Lusíadas de Luis Vaz de Camões, poeta português:

 

94

Mas um velho, de aspecto venerando,

Que ficava nas praias, entre a gente,

Postos em nós os olhos, meneando

Três vezes a cabeça, descontente,

A voz pesada um pouco alevantando,

Que nós no mar ouvimos claramente,

C’um saber só de experiências feito,

Tais palavras tirou do experto peito:

95

— “Ó glória de mandar! Ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

Ó fraudulento gosto, que se atiça

C’uma aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça

Fazes no peito vão que muito te ama!

Que mortes, que perigos, que tormentas,

Que crueldades neles experimentas!

96

— “Dura inquietação d’alma e da vida,

Fonte de desamparos e adultérios,

Sagaz consumidora conhecida

De fazendas, de reinos e de impérios:

Chamam-te ilustre, chamam-te subida,

Sendo digna de infames vitupérios;

Chamam-te Fama e Glória soberana,

Nomes com quem se o povo néscio engana!

97

— “A que novos desastres determinas

De levar estes reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas

Debaixo dalgum nome preminente?

Que promessas de reinos, e de minas

D’ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? que histórias?

Que triunfos, que palmas, que vitórias?

 

Partida das naus na praia do Restelo em Portugal e discurso da personagem da epopeia "Os Lusíadas" do poeta Camões
Partida das naus para as Índias da praia do Restelo em Portugal e discurso da personagem da epopeia “Os Lusíadas” do poeta Camões

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,

Depois da Luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas a alegria.

 

Porém se acaba o Sol, por que nascia?

Se formosa a Luz é, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto da pena assim se fia?

 

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,

Na formosura não se dê constância,

E na alegria sinta-se tristeza.

 

Começa o mundo enfim pela ignorância,

E tem qualquer dos bens por natureza

A firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos Guerra (1636-1696)

Antonio_de_Pereda_-_Allegory_of_Vanity

Com ajuda da literatura, morador de rua de BH vence o crack

Ago­ra po­e­ta, Roberto Nascimento se sus­ten­ta com a ven­da de seus dois li­vros e já pla­ne­ja lan­çar ou­tro

postado em 19/12/2015
 

 

“De mo­ra­dor de rua a poe­ta.” É com es­sa fra­se que Ro­ber­to Nas­ci­men­to, um va­la­da­ren­se de 51 anos, re­su­me o en­re­do da pró­pria vi­da. O ví­cio em cra­ck o fez per­der a fa­mí­lia, os ami­gos de in­fân­cia, o em­pre­go, a au­toes­ti­ma e o sor­ri­so. A von­ta­de de ven­cer o ví­cio e o con­ta­to diá­rio com a li­te­ra­tu­ra lhe de­vol­ve­ram a ale­gria. “Fui um sem-te­to até fe­ve­rei­ro pas­sa­do. Ago­ra, gan­ho a vi­da ne­go­cian­do meus li­vros”, con­ta, or­gu­lho­so, o au­tor de O poe­ta am­bu­lan­te I e O poe­ta am­bu­lan­te II – ca­da um cus­ta R$ 5.

A cha­ma­da po­pu­la­ção em si­tua­ção de rua cres­ceu 57% em Be­lo Ho­ri­zon­te em 10 anos, so­man­do 1.827 ho­mens e mu­lhe­res em 2013, ano-ba­se do úl­ti­mo cen­so so­bre o as­sun­to. Pro­ble­mas fa­mi­lia­res (52% das res­pos­tas) são o prin­ci­pal mo­ti­vo en­tre os que le­va­ram es­sas pes­soas a dei­xa­rem seus la­res. O se­gun­do é a de­pen­dên­cia do ál­cool ou dro­gas ilí­ci­tas (43,9%).

Ro­ber­to dei­xou Go­ver­na­dor Va­la­da­res, na com­pa­nhia da mãe e de três ir­mãos, quan­do crian­ça. A fa­mí­lia mo­rou em bair­ros da Re­gião Les­te de BH, on­de o ra­paz es­tu­dou até a sex­ta sé­rie, se ca­sou e te­ve três fi­lhos. Já adul­to, co­nhe­ceu o cra­ck. Lo­go se tor­nou um dependente químico. E seu ca­sa­men­to, de 20 anos, não re­sis­tiu aos pro­ble­mas cau­sa­dos pe­la de­pen­dên­cia da dro­ga.

“Pa­ra ban­car o con­su­mo do cra­ck, ven­di até os apa­re­lhos de ce­lu­lar dos meus fi­lhos. A es­po­sa me lar­gou. Foi com as crian­ças – te­nho duas me­ni­nas e um ra­paz – pa­ra Sa­li­nas (Nor­te do es­ta­do). Já eu fui pa­ra a rua”, re­cor­da. A dro­ga tam­bém não lhe pou­pou o em­pre­go de pe­drei­ro. Fo­ram dias e noi­tes di­fí­ceis. “Fi­quei de­bai­xo de mar­qui­se por qua­se dois anos e meio.

Em 27 de fe­ve­rei­ro de 2013, nu­ma abor­da­gem po­li­cial, um sar­gen­to me dis­se que duas ou três pes­soas, em ca­da 100 vi­cia­dos, con­se­guem lar­gar o cra­ck. Daí eu pen­sei: ‘Sou um des­ses dois ou três’. O po­li­cial me le­vou pa­ra o pro­gra­ma SOS Dro­gas”. Am­pa­ra­do por es­pe­cia­lis­tas, Ro­ber­to foi en­ca­mi­nha­do ao Cen­tro Mi­nei­ro de To­xi­co­ma­nia (CMT). E co­me­çou a fre­quen­tar a uni­da­de do Bair­ro Cru­zei­ro do cen­tro de re­fe­rên­cia em saú­de men­tal (Cer­sam), cu­jo ob­je­ti­vo é aju­dar o pa­cien­te a re­cons­truir a vi­da.

Via­gens Foi lá que o va­la­da­ren­se co­me­çou a ter con­ta­to com a poe­sia. Das via­gens da dro­ga, ele pas­sou a via­jar nos tex­tos de Gon­çal­ves Dias (1823-1864) e Cas­tro Al­ves (1847-1871). “Tam­bém nos de Vi­ní­cius de Mo­raes (1913-1980). Es­tu­dei ape­nas até a sex­ta sé­rie, mas sem­pre gos­tei mui­to de ler”, con­ta o ra­paz, que co­me­çou a criar e a de­cla­mar ver­sos. Os pro­fis­sio­nais do Cer­sam o es­ti­mu­la­ram a pu­bli­car a pri­mei­ra obra, con­cluí­da em 2014. A se­gun­da foi lan­ça­da há pou­cos me­ses.

Uma das poe­sias tem a La­goa da Pam­pu­lha, car­tão-pos­tal da ca­pi­tal, co­mo pa­no de fun­do. Ba­ti­za­do de O pa­to ro­dou, o tex­to su­ge­re um fi­nal in­fe­liz: “Eu fi­quei ima­gi­nan­do/ O mis­té­rio da na­tu­re­za/ Aque­le pa­to na­dan­do/ Quan­ta calma e su­ti­le­za/ Me lem­brei do ja­ca­ré/ Me ba­teu uma tris­te­za”. Ele re­cor­reu à fau­na pa­ra ou­tra poe­sia: “Ti­co-ti­co no fu­bá/ Sa­biá na la­ran­jei­ra/ Tar­ta­ru­ga tra­ca­já/ Ma­ri­ta­ca ba­gun­cei­ra/ A pre­gui­ça lá es­tá/ Dor­min­do a tar­de in­tei­ra”.

O tex­to foi ba­ti­za­do de Bi­chos do Ma­to, no­me que faz Ro­ber­to se lem­brar da épo­ca em que mo­ra­va na rua: “Cer­ta vez, fi­quei 16 dias sem to­mar ba­nho. Pa­re­cia um bi­cho. Eu não aguen­ta­va o meu pró­prio chei­ro. Usei a mes­ma cue­ca. Quan­do to­mei ba­nho, no ter­mi­nal ro­do­viá­rio de Be­lo Ho­ri­zon­te, fi­quei as­sus­ta­do com a cor da água”.

Ro­ber­to ago­ra tra­ba­lha em um no­vo pro­je­to. Es­ti­mu­la­do pe­la atriz, can­to­ra, con­ta­do­ra de his­tó­ria e pro­fes­so­ra de li­te­ra­tu­ra Jhê De­la­croix, ele pla­ne­ja pu­bli­car uma co­le­tâ­nea de cor­del no pró­xi­mo ano. “Per­ce­bi que ele tem ti­no pa­ra o cor­del. Os cor­de­lis­tas es­tão ca­da vez mais ra­ros nos gran­des cen­tros ur­ba­nos”, con­ta a pro­fes­so­ra.

Jhê adian­ta que o tra­ba­lho te­rá co­mo te­ma a vi­são de um ho­mem so­bre o uni­ver­so fe­mi­ni­no, le­van­do-se em con­ta os mo­vi­men­tos so­ciais. “É a vi­são de­le, co­mo ho­mem, so­bre o uni­ver­so fe­mi­ni­no, as­sim co­mo o que as mu­lhe­res que­rem ho­je em dia”, re­for­çou a pro­fes­so­ra.

Os livros curam

O número caiu em minha cabeça e quase me machuca: o mundo produz um novo livro —um título novo, milhares de exemplares de um título novo— a cada 15 segundos. São mais de dois milhões de títulos por anos; uma tiragem média de 2.000 exemplares vira 4 bilhões de volumes que inundam o planeta todos os anos, árvores caindo em profusão, uma chuva de livros pior que o pior dos dilúvios, um tsunami de livros. Era, com certeza, mais do que o suficiente para me convencer a não escrever nunca mais —e, entretanto.

Todos caem na armadilha-livro: o livro é uma marca de prestígio. Mesmo sendo tantos, mesmo sendo tão díspares, a categoria livro conserva sua reputação: pensamos livro e pensamos em um objeto respeitável, portador dos saberes que o mundo necessita. As categorias são dissimuladas: pensamos livro e damos a todos o prestígio que alguns poucos merecem. Caímos fácil na tentação de achar que o primeiro Dom Quixote e o último MasterChef têm algo em comum —porque os dois sujam de tinta um bloco de papel unidos pela lombada. E seus fabricantes, não faltavam mais nada, aproveitam a confusão: pedem condições especiais, melhoras impositivas, privilégios que o prestígio do objeto livro supostamente justifica. Reivindicam a importância cultural das elucubrações de Mariló Montero e Paulo Coelho, defendem o peso social do Horticultor Autossuficiente e o Manual Prático para Falar com os Mortos.

Mas existem livros que mudam sua vida. Ou, pelo menos, é isso que dizem os “biblioterapeutas” da School of Life, uma instituição dirigida em Londres pelo filósofo best-seller Alain de Botton. “A vida é muito curta para ler livros ruins”, diz sua apresentação, “o problema é que, com milhares de livros publicados, é difícil saber por onde começar”. Eles querem guiá-lo e, para começar, explicam as vantagens dos livros. Para mim, que nunca soube por que lia ou escrevia, foi uma revelação atrás da outra —ou quase:

—que ler parece uma perda de tempo, mas na realidade é uma economia enorme, porque apresenta conjuntos de fatos e emoções que você levaria anos, séculos para viver;

—que ler é entrar em um simulador de vida que o leva a testar sem perigo todo tipo de situações e decidir o que lhe convém mais;

—que ler produz a magia de mostrar como os demais veem as coisas e então mostra as consequências de suas ações e isso o faz, dizem, ser uma pessoa melhor;

—que ler o faz sentir menos sozinho porque mostra que outros pensaram as coisas estranhas que você pensa, que souberam colocar em palavras que lhe descrevem ainda melhor do que você mesmo poderia;

—que ler o prepara para isso que a crueldade do mundo moderno chama “fracassar”, mostrando a falsidade, a banalidade disso que o mundo chama “sucesso”.

Para isso, dizem, não podemos tratar a leitura como um entretenimento, um passatempo de férias, mas como um instrumento para viver e morrer com mais sentido e sabedoria. Ou seja: uma terapia. A biblioterapia, sua criação, consiste em conversar com o “paciente”, escutar seus problemas, seus gostos, suas experiências de leitura e recomendar-lhe três ou quatro livros que podem ajudá-lo melhor. Cada consulta não custa mais do que 110 euros (383 reais) —uns cinco ou seis livros. Mas ainda não existem estudos sobre sua eficácia; por enquanto sabemos que a biblioterapia já chegou à França —e ameaça cruzar os Pirineus.

a128c67328b036957036f31bfe5bf204

via Os livros curam | Cultura | EL PAÍS Brasil.

Umberto Eco e o manual do mau jornalismo — CartaCapital

Por Kelly Velazquez

O famoso escritor e ensaísta italiano Umberto Eco apresentou nesta semana na Itália seu novo romance, Número zero, uma espécie de manual do mau jornalismo ambientado na redação de um jornal imaginário.

O novo livro do influente intelectual italiano, autor do famoso romance O nome da rosa e de importantes tratados de semiótica, é uma história de ficção ambientada em 1992, um ano particular para a Itália contemporânea, marcado pelos escândalos de corrupção e pela investigação “Mani Pulite” (Mãos limpas), que arrasou com boa parte da classe política da época.

O livro se concentra, sobretudo, nos mistérios não resolvidos que sacudiram nestes anos a Itália, entre eles o protagonizado pela loja maçônica Propaganda 2 do temido Licio Gelli, que queria dar um “golpe branco”. “É o primeiro romance de Eco que fala de uma época tão recente”, reconhece Elisabetta Sgarbi, diretora da editora Bompiani.

Eco descreve a redação imaginária de um jornal, criado naquele ano, para desinformar, difamar adversários, chantagear, manipular, elaborar dossiês e documentação secreta. “Para mim é um manual da comunicação de nossos dias”, sustenta Roberto Saviano, renomado jornalista antimáfia da Itália, que vive sob escolta pelas ameaças de morte que recebe das organizações criminosas.

Em uma conversa entre Eco e Saviano, publicada pela revista L’Espresso, o semiólogo afirma que não quis escrever um “tratado de jornalismo”, mas contar uma história sobre os limites da informação, sobre como funciona uma máquina de denegrir, e não tanto sobre o trabalho de informar. “Escolhi o pior caso. Quis dar uma imagem grotesca do mundo, ainda que o mecanismo da máquina para sujar, de lançar insinuações, já fosse usado durante a Inquisição”, comentou Eco.

Saviano, que considera que as redes sociais multiplicaram esta forma de denegrir gerando verdadeiros monstros, acredita que o magnata das comunicações e ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi marcou o início dessa era, entre boatos e informações, vida e vícios tanto privados quanto públicos. “Escolhi 1992 porque considero que este ano marca o momento de um declínio na história da sociedade italiana”, disse Eco em uma entrevista ao Corriere della Sera.

No livro, o semiólogo se diverte citando frases famosas ou lugares comuns do jornalismo, como “no olho do furacão”, “um duro revés” ou “com a água no pescoço”. “Não é necessário estrangular a avó para perder a credibilidade. É suficiente contar que o juiz usa meias na cor laranja. Por que será?”, contou Eco citando um caso verdadeiro durante uma longa entrevista à RAI.

Graças aos delírios de um redator paranoico, Eco conta fatos concretos, mas reconstruídos a partir de teorias bizarras ou que se entrelaçam estranhamente com outras e que terminam por criar uma nova notícia.

É o caso da loja maçônica P2, do suposto assassinato do papa Luciani (João Paulo I), dos cúmplices das brigadas vermelhas que trabalhavam para os serviços secretos, dos tentáculos da CIA, dos atentados e até de um falso cadáver de Benito Mussolini com o qual conseguiram salvá-lo e enviá-lo à Argentina. Todas são histórias que o leitor não conseguirá determinar se são fatos inventados ou a descrição da realidade, segundo o escritor.

Trata-se do sétimo romance de Eco, que publicou, entre outros, O Cemitério de Praga e O Pêndulo de Foucault.

via Umberto Eco e o manual do mau jornalismo — CartaCapital.

Uns tomam éter, outros cocaína. Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria

Não sei Dançar

Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria…
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.
Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.
Mistura muito excelente de chás…
Esta foi açafata…
— Não foi arrumadeira.
E está dançando como o ex-prefeito municipal:
Tão Brasil!
De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil…
Há até a fração incipiente amarela
Na figura de um japonês.
O japonês também dança maxixe:
Acugêlê banzai!
A filha do usineiro de Campos
Olha com repugnância
Para a crioula imoral.
No entanto o que faz a indecência da outra
É dengue nos olhos maravilhosos da moça.
E aquele cair de ombros…
Mas ela não sabe…
Tão Brasil!
Ninguém se lembra de política…
Nem dos oito mil quilômetros de costa…
O algodão do Seridó é o melhor do mundo?…Que me importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos.
A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria!

manuel-bandeira
Manuel Bandeira, poeta pernambucano

Petrópolis, 1925