A Guerra da Arte

A VIDA NÃO VIVIDA

A maioria de nós possui duas vidas. A vida que vivemos e a vida não-vivida que existe dentro de nós. Entre as duas, encontra-se a Resistência.

Você já levou para casa uma esteira ergométrica e deixou-a acumulando poeira no sótão? Já abandonou uma dieta, um curso de yoga, unia prática de meditação? Já se esquivou de um chamado para envolver-se numa prática espiritual, para dedicar-se a uma vocação humanitária, para consagrar sua vida ao serviço de outros? Já quis ser mãe, médico, advogado dos fracos e desamparados? Concorrer a um cargo público, tomar parte numa cruzada para salvar o planeta, fazer campanha pela paz mundial ou pela preservação do meio ambiente? Tarde da noite, já experimentou uma visão da pessoa que você poderia se tornar, da obra que conseguiria realizar, do ser realizado que você deveria ser? Você é um escritor que não escreve, um pintor que não pinta, um empresário que nunca se aventurou num empreendimento de risco? Então você sabe o que é Resistência.

Uma noite, quando eu estava deitado,

Ouvi papai conversando com mamãe.

Ouvi papai dizer para deixar o garoto tocar o boogie-woome

Porque isso está dentro dele e ele tem que colocar para fora *

*John Lee Hooker, letra da canção Booaie Chillen

 

A Resistência é a força mais tóxica do planeta. É fonte de mais infelicidade do que pobreza, doença e disfunção erétil. Ceder à Resistência deforma nosso espírito. Atrofia-nos e nos torna menores do que nascemos para ser. Se você acredita em Deus (e eu acredito), deve considerar a Resistência um mal, pois nos impede de alcançar a vida que Deus planejou para nós ao dotar cada ser humano de seu próprio e único gênio criativo. A palavra gênio vem do latim genius. Os romanos usavam-na para designar um espírito interior, sagrado e inviolável, que nos protege, guiando-nos para nossa vocação. Um escritor escreve com seu gênio; um artista pinta com o seu; todo aquele que cria o faz a partir deste centro sagrado. E a morada de nossa alma, o receptáculo que abriga nosso ser potencial, é o nosso farol, nossa estrela polar.

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Todo sol lança uma sombra e a sombra do gênio é a Resistência. Por mais forte que seja o chamado de nossa alma para a realização, igualmente potentes são as forças da Resistência reunidas contra ele. A Resistência é mais rápida do que o projétil de uma arma, mais poderosa do que uma locomotiva, mais difícil de renegar do que cocaína. Não estaremos sozinhos se formos dizimados pela Resistência; milhões de mulheres e homens bons foram derrubados antes de nós. E o pior é que nem ficamos sabendo o que nos atingiu. Eu nunca soube. Dos 24 aos 32 anos, a Resistência me jogou treze vezes da Costa Leste para a Oeste e novamente para a Leste e eu nem sequer sabia de sua existência. Procurava o inimigo em toda parte e não conseguia vê-lo bem diante de mim.

Você provavelmente já ouviu a história: mulher fica sabendo que tem câncer, seis meses de vida. Em poucos dias, pede demissão do trabalho, retoma seu sonho de compor canções Tex-Mex que abandonou para cuidar da família (ou começa a estudar grego clássico ou muda-se para a cidade e dedica-se a cuidar de bebês com AIDS). Os amigos da mulher acham que ela enlouqueceu; ela mesma nunca se sentiu mais feliz. Há um pós-escrito: o câncer da mulher começa a regredir.

É necessário tudo isso? É preciso encarar a morte para nos levantarmos e confrontarmos a Resistência? É preciso que a Resistência aleije e desfigure nossas vidas para despertarmos para a sua existência? Quantos de nós se tornaram bêbados e viciados, desenvolveram tumores e neuroses, sucumbiram a analgésicos, mexericos e uso compulsivo do telefone celular, simplesmente por não fazer aquilo que nossos corações, nosso gênio interior, nos impele a fazer? A Resistência nos derrota. Se amanhã de manhã, por algum passe de mágica, toda alma atordoada e ignorante acordasse com o poder de dar o primeiro passo para ir atrás de seus sonhos, todo psiquiatra na lista telefônica fecharia as portas do consultório. As prisões se esvaziariam. As indústrias de bebidas alcoólicas e de cigarro iriam à falência, assim como os negócios de comida pronta de má qualidade, de cirurgia cosmética e de programas de entretenimento “instrutivos” na TV, sem mencionar indústrias farmacêuticas, hospitais e a profissão médica de alto a baixo. Os maus-tratos domésticos se extinguiriam, assim como o vício, a obesidade, enxaquecas, fúria no trânsito e caspa. Olhe no fundo do seu coração. A menos que eu seja louco, neste mesmo instante uma vozinha fraca está sussurrando, dizendo-lhe, como já fez milhares de vezes, qual é a vocação que é sua e apenas sua. Você sabe. Ninguém tem que lhe dizer. E a menos que eu seja louco, você não está mais perto de tomar uma atitude em relação a ela do que estava ontem ou estará amanhã. Acha que a Resistência não é real? A Resistência o matará.

Sabe, Hitler queria ser artista. Aos 18 anos, pegou sua herança, setecentos Krones, e mudou-se para Viena para viver e estudar. Inscreveu-se na Academia de Belas-Artes e posteriormente na Faculdade de Arquitetura. Já viu algum quadro dele? Eu também não. A Resistência o derrotou. Pode achar que é exagero, mas vou dizer mesmo assim: foi mais fácil para Hitler deflagrar a 2ª Guerra Mundial do que encarar uma tela em branco.


Pressfield, Steven
Guerra da arte; tradução de Geni Hirata. – Rio de Janeiro : Ediouro, 2005, da pág. 18 a 21.
ISBN 85-00-01534-9
1. Pressfield, Steven. 2. Criação (Literária, artística etc.).
3. Pensamento criativo. 4. Resistência (Psicanálise).
5. Procrastinação. 6. Inibição.

 

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