Da ardósia

 Da ArdósiaAdiantaria lhe dizer

Que o mais raro perfume

É oferecido nos menores frascos?

Ou que um bruto diamante,

é reduzido ao ser lapidado,

Até libertar seu lume

E virar brilhante?

Adiantaria falar que você é constituída

Pela mesma matéria das estrelas?

Que o macro contém o micro?

Ou que até os maiores astros

São formados por elementos

tão pequenos, que estão em todos

os lugares neste momento?

Cavaleiro Negro

Cavaleiro

 

Bravo cavaleiro, em tua
armadura prateada,
Tu não sabes que tua força
não te valerá de nada?

Primeiro um velho dragão,
Veio a nós cuspindo fogo,
para raptar a donzela
de nossa antiga morada,
Mas, como era feiticeira,
 Mudou o monstro terrível
 em um monturo de brasa.

Depois foi a vez de um feio
gigante fazer de nós
desprezível alimento.
Envenenamos um só
Que a todos nós livrou
Desse amargo sofrimento.

Agora vem cá o Senhor...
Quanto mais teu aríete
Forçar, de meu castelo
a entrada, mais se alçará a ponte
de minha altiva muralha.

29-09-2012

Se se morre de amor!

 Meere und Berge und Horizonte zwischen

den Liebenden – aber die Seelen versetzen

sích aus dem staubigen Kerker und treffen

sich im Paradiese der Liebe.

Schiller, Die Rüuber

Se se morre de amor! — Não, não se morre,

Quando é fascinação que nos surpreende

De ruidoso sarau entre os festejos;

Quando luzes, calor, orquestra e flores

Assomos de prazer nos raiam n’alma,

Que embelezada e solta em tal ambiente

No que ouve, e no que vê prazer alcança!

Simpáticas feições, cintura breve,

Graciosa postura, porte airoso,

Uma fita, uma flor entre os cabelos,

Um quê mal definido, acaso podem

Num engano d’amor arrebatar-nos.

Mas isso amor não é; isso é delírio,

Devaneio, ilusão, que se esvaece

Ao som final da orquestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes no morrer despedem:

Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,

D’amor igual ninguém sucumbe à perda.

Amor é vida; é ter constantemente

Alma, sentidos, coração — abertos

Ao grande, ao belo; é ser capaz d’extremos,

D’altas virtudes, té capaz de crimes!

Compr’ender o infinito, a imensidade,

E a natureza e Deus; gostar dos campos,

D’aves, flores, murmúrios solitários;

Buscar tristeza, a soledade, o ermo,

E ter o coração em riso e festa;

E à branda festa, ao riso da nossa alma

Fontes de pranto intercalar sem custo;

Conhecer o prazer e a desventura

No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto

O ditoso, o misérrimo dos entes;

Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, e não saber, não ter coragem

Para dizer que amor que em nós sentimos;

Temer qu’olhos profanos nos devassem

O templo, onde a melhor porção da vida

Se concentra; onde avaros recatamos

Essa fonte de amor, esses tesouros

Inesgotáveis, d’ilusões floridas;

Sentir, sem que se veja, a quem se adora,

Compr’ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,

Segui-la, sem poder fitar seus olhos,

Amá-la, sem ousar dizer que amamos,

E, temendo roçar os seus vestidos,

Arder por afogá-la em mil abraços:

Isso é amor, e desse amor se morre!

Se tal paixão porém enfim transborda,

Se tem na terra o galardão devido

Em recíproco afeto; e unidas, uma,

Dois seres, duas vidas se procuram,

Entendem-se, confundem-se e penetram

Juntas — em puro céu d’êxtases puros:

Se logo a mão do fado as torna estranhas,

Se os duplica e separa, quando unidos

A mesma vida circulava em ambos;

Que será do que fica, e do que longe

Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?

Pode o raio num píncaro caindo,

Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;

Pode rachar o tronco levantado

E dois cimos depois verem-se erguidos,

Sinais mostrando da aliança antiga;

Dois corações porém, que juntos batem,

Que juntos vivem, — se os separam, morrem;

Ou se entre o próprio estrago inda vegetam,

Se aparência de vida, em mal, conservam,

Ânsias cruas resumem do proscrito,

Que busca achar no berço a sepultura!

Esse, que sobrevive à própria ruína,

Ao seu viver do coração, — às gratas

Ilusões, quando em leito solitário,

Entre as sombras da noite, em larga insônia,

Devaneando, a futurar venturas,

Mostra-se e brinca a apetecida imagem;

Esse, que à dor tamanha não sucumbe,

Inveja a quem na sepultura encontra

Dos males seus o desejado termo!

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Poesia II
Ainda uma vez_Adeus!

Ainda uma vez — Adeus

English: Antônio Gonçalves Dias (August 10, 18...
English: Antônio Gonçalves Dias (August 10, 1823 — November 3, 1864) Português: (Photo credit: Wikipedia)

Gonçalves Dias

I

Enfim te vejo! — enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!

II

Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!

III

Louco, aflito, a saciar-me
D’agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esp’rança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!

IV

Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.

V

Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura…
Olha-me bem, que sou eu!

VI

Nenhuma voz me diriges!…
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias — bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!

VII

Oh! se lutei! . . . mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?

VIII

Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t’esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T’esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu, quinhão de dor!

IX

Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!

X

Tudo, tudo; e na miséria
Dum martírio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
“Ela é feliz (me dizia)
“Seu descanso é obra minha.”
Negou-me a sorte mesquinha. . .
Perdoa, que me enganei!

XI

Tantos encantos me tinham,
Tanta ilusão me afagava
De noite, quando acordava,
De dia em sonhos talvez!
Tudo isso agora onde pára?
Onde a ilusão dos meus sonhos?
Tantos projetos risonhos,
Tudo esse engano desfez!

XII

Enganei-me!… — Horrendo caos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra.
Não pode voltar atrás!
Amarga irrisão! reflete:
Quando eu gozar-te pudera,
Mártir quis ser, cuidei qu’era…
E um louco fui, nada mais!

XIII

Louco, julguei adornar-me
Com palmas d’alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
Co que se chama ideal?
O meu eras tu, não outro;
Stava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausência do mal.

XIV

Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera…
E eu! eu fui que a não quis!

XV

És doutro agora, e pr’a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!

XVI

Dói-te de mim, que t’imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!… de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!

XVII

Adeus qu’eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus!

XVIII

Lerás porém algum dia
Meus versos d’alma arrancados,
D’amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; — e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, — de compaixão,

Doeu? Blogue

Muito bom o texto sobre os efeitos terapêuticos da escrita e de sua divulgação através dos blogs. Nota 10!

Avatar de naomiSOMENTE BOAS NOTÍCIAS

Da revista Mente & Cérebro:

A busca por uma vida mais saudável pode ser um dos motivos do enorme aumento do número de blogs. Estima-se que sejam cerca de 3 milhões por todo o planeta. Cientistas e escritores há anos conhecem os benefícios terapêuticos de escrever sobre experiências pessoais, pensamentos e sentimentos. Mas, além de servir como um mecanismo para aliviar o stress, expressar-se por meio da escrita traz muitos benefícios fisiológicos. Pesquisas mostram que com a prática da escrita é possível aprimorar a memória e o sono, estimular a atividade dos leucócitos e reduzir a carga viral de pacientes com aids e até mesmo acelerar a cicatrização após uma cirurgia. Um estudo publicado na revista científica Oncologist mostra que pessoas com câncer que escreviam para relatar seus sentimentos logo depois, se sentiam muito melhor, tanto mental quanto fisicamente, em comparação a pacientes que não se deram a esse trabalho.

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Somente boas notícias

Adorei este blog! Para quem quiser ser mais feliz, eu recomendo porque ele só traz boas notícias!

Avatar de Tommy BeresfordSOMENTE BOAS NOTÍCIAS

Há políticos honestos ? Certamente que sim. Mas quem são, e por quais critérios podemos julgar o trabalho de um parlamentar ? Para ajudar os eleitores, surgiu um site com o nome “Ranking dos Políticos”, que tem como objetivo oferecer informação para, de forma objetiva, ajudar as pessoas a votarem melhor, criando um ranking que usa dados públicos de diversas fontes para dar ou tirar pontos dos políticos brasileiros:

http://www.politicos.org.br/

Conheça a ideia e o trabalho deste grupo pelo vídeo abaixo:

Ver o post original

Poesia II

o espírito da poesia me acordou?
ou escrevo para poder dormir?
ou será que estou com fome?
leite morno, biscoito Nestlè Classic Duo!
calmantes conseguem explicar
e entender o que sentimos?

só dá para identificar com
certeza aquilo que dói
porque o pretérito imperfeito
é o meu tempo.

22 de novembro de 2012.
Jaraguá, exata 1980, de Evandro Carlos Martins

Cantiga sua partindo-se, Cancioneiro Geral

Joam Roiz de Castel-Branco

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
      
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes,
tão fora d’ esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Cantiga de amigo

Arte e amanhã
Sem querer, o nosso abrigo
Transformou-se em artimanha
Para eu estar contigo
Ou você estar comigo,
Ainda outro amanhã.

Sem querer, estas palavras
Se combinam. Tanto faz
qual verdade lhe apraz
Definir tudo é maçante.

Só amigos sabem ouvir e aplicar a própria vida

Sem querer, meu amigo
Deixo que pense

Deixo que fale
Deixo que sinta

que você é o mais forte

e, por mim, carregue minha bagagem

Sem querer, o tempo todo,
Nem podia imaginar:
Que seu anseio era antigo,
Meu eterno e bom amigo!

Olhos II

“Jaraguá” gravura de Evandro Carlos Jardim

Lá fora o frio fere a alma,

Mas dentro padece

com o calor opresso.

Nos cumes de montes remotos,

O branco reluz seu lume.

E o universo todo, pela distância,

Tenta caber na moldura de uma janela.

Mas os olhos sabem

Que nessa messe

Só dentro deles

a vida inteira cabe.

Livro da Semana

Recomendo essa matéria sobre os contos de fadas, em suas versões originais, nas quais se basearam os irmãos Grimm, postada no blog Cultura no Prato. Sugiro também a matéria da Revista Bravo de José Geraldo Couto, Infância Apimentada sobre o livro: Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos, de Jacob e Wilhelm Grimm. Tradução de Christine Röhrig. Ilustrações de J. Borges. Editora Cosac Naify.

Avatar de Nilton CarvalhoCultura no Prato

Contos sem cortes

 

Fiquei pasmo e absorto quando soube o verdadeiro desfecho do conto infantil do ‘sapo que vira príncipe’. Onde já se viu tamanha audácia em uma narrativa destinada às crianças, pensei com meus botões.  Esses irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), nascidos na Alemanha, bem que tentaram radicalizar, mas tiveram suas histórias amenizadas por outros escritores. Por conta disso, hoje conhecemos Branca de Neve, A Bela Adormecida, João e Maria, Rapunzel em edições ‘light’, que ganharam até animações na Disney.

No entanto, eis que as páginas do recém-lançado Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos, com tradução de Christine Röhrig e introdução do professor de Teoria Literária na Universidade de São Paulo, Marcus Mazzari, chegaram para botar os pingos nos ‘is’. Não, não era como a gente imaginava, a Rapunzel tentou esconder sua gravidez de gêmeos enquanto o tal sapo não foi beijado para…

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Noite na Taverna

NOITE NA TAVERNA

Álvares de Azevedo

MACÁRIO
Onde me levas?
SATAN
A uma orgia. Vais ler uma página da vida, cheia de sangue e de vinho—que importa?
MACÁRIO
Eu vejo-os. É uma sala fumacenta. A roda da mesa estão sentados cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas, umas lívidas, outras vermelhas Que noite!
How now, Horatio? you tremble, and look pale. Is not this something more than fantasy? What think you on’s? Hamlet.

Ato I
JOB STERN
UMA NOITE DO SÉCULO
Bebamos! nem um canto de saudade! Morrem na embriaguez da vida as cores! Que importam sonhos, ilusões desfeitas? Fenecem como as flores!
José Bonifácio
— Silêncio! moços!! acabai com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as mulheres dormem ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o sono da embriaguez pesa negro naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da volúpia??
—Cala-te, Johann! enquanto as mulheres dormem e Arnold—o loiro—cambaleia e adormece murmurando as canções de orgia de Tieck, que musica mais bela que o alarido da saturnal? Quando as nuvens correm negras no céu como um bando de corvos errantes, e a lua desmaia como a luz de uma lâmpada sobre a alvura de uma beleza que dorme, que melhor noite que a passada ao reflexo das tachas?
—És um louco, Bertram! não e a lua que lá vai macilenta: e o relâmpago que passe e ri de escárnio as agonies do povo que morre, aos soluços que seguem as mortalhas do cólera!
—O cólera! e que importa? Não há por ora vida bastante nas veias do homem? não borbulha a febre ainda as ondas do vinho? não reluz em todo o seu fogo a lâmpada da vida na lanterna do crânio?
—Vinho! vinho! Não vês que as taças estão vazias bebemos o vácuo, como um sonâmbulo?
—E o Fichtismo na embriguez! Espiritualista, bebe a imaterialidade da embriaguez!

—Oh! vazio meu copo esta vazio! Olá taverneira, não vês que as garrafas estão esgotadas? Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?

Encontre aqui a obra completa: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000023.pdf