A conferência dos pássaros*

“Eu conheci um coveiro muito velho e lhe perguntei:

_Você que passou a vida a cavar sepulturas, o que você viu de maravilhoso?

_O que eu vi de maravilhoso _ ele respondeu_ é que durante 70 anos eu cavei sepulturas e nunca enterrei os meus sonhos.”

*A conferência dos pássaros (Mantiq ut-tair) foi escrita pelo poeta persa do século XII, Farid ud-Din Attar, um dos maiores sufis de todos os tempos.Conquanto pouco se saiba, com certeza, a respeito da sua vida, parece que nasceu em 1120, perto de Nishapur, no noroeste da Pérsia. Durante quase quarenta anos viajou por muitos países, estudando em mosteiros e colecionando os escritos de sufis devotos,juntamente com lendas e histórias. Diz-se que possuía um conhecimento mais profundo das idéias sufistas do que qualquer outra pessoa do seu tempo. A tradução para o inglês de C. S. Nott baseia-se na conhecida edição francesa, em prosa, de Garcin de Tassy, aversão que melhor transmite “o sabor, o espírito e os ensinamentos do poema de Attar”.

Poema final

Camilo Pessanha

Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,

_ Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,

Represados clarões, cromáticas vesânias,

No limbo onde esperais a luz que vos batize,

As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.

Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,

Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,

E escutando o correr da água na clepsidra,

Vagamente sorris, resignados e ateus,

Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.

Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,

Que toda a noite errais, doces almas penando,

E as asas lacerais na aresta dos telhados,

E no vento expirais em um queixume brando,

Adormecei. Não suspireis. Não respireis.

O beijo do amado

Rumi

O ladrão de corações

Deu-me um único beijo e partiu.

O que seria de mim

Se me tivesse dado sete ?

 

Todo lábio que o meu amado beija
Guarda sempre a sua marca:
Rachaduras abertas na ânsia de sugar
A doçura de seus lábios.

 

Guarda ainda outra marca:
O desejo louco da água da vida
Que a cada instante força o amor
A remover mil fogueiras.

 

E outra marca mais: o corpo,
Assim como o coração, desembestado,
Corre de encontro ao beijo
Para tornar-se leve e delicado
Como os lábios do meu amado.

 

Ah, que suavidade inebriante vem
Desse amor que desconhece limites !

rumi

A Divina Comédia – Dante Alighieri

Divina Comédia IX, Gustave Doré
Divina Comédia IX, Gustave Doré

E a ambos me dirigindo, eu disse, atento:
“Francisca, a triste história que narraste
move-me ao pranto e a grande sofrimento.

Revela-me a razão porque passaste
do puro anelo e do inocente amor
à culpa amarga que tão cedo expiaste”.

“Não existe”, falou-me, “maior dor
que recordar, no mal, a hora feliz;
e bem o sabe, creio, esse doutor.

Mas já que o nosso amor desde a raiz
ansiosamente queres conhecer,
narrá-lo vou, como quem chora e diz.

Estávamos um dia por lazer
de Lancelote a bela história lendo,
sós e tranqüilos, nada por temer.

Às vezes um para o outro o olhar erguendo,
nossa vista tremia, perturbada;
e a um ponto fomos, que nos foi vencendo.

Divina Comédia - Inferno - Canto V, Gustave Doré
Divina Comédia – Inferno – Canto V, Gustave Doré

Ao ler que, perto, a boca desejada
sorria, e foi beijada pelo amante,
este, de quem não fui mais apartada,

os lábios me beijou, trêmulo, arfante.
Galeoto achamos nós no livro e autor:
e nunca mais foi a leitura adiante

Enquanto aquela sombra o triste amor

lembrava, a outra gemia em desconforto;
e quase à morte eu fui, de tanta dor.

E caí, como cai um corpo morto.*

* Fonte: Prof. Dr. Sílvio Medeiros e o link para o site http://www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros.

Bernardo  e Francesca

Epônimos Divinos

Num insondável labirinto auricular, perdi minha língua
E em minha hélice deitaram-se doces palavras
A turbilhonar, mesmo quando as proferia sem pretensão.

Fui mortalmente ferida pelas oscilações de seu arco do cupido.
Escalar meu monte para em seguida se atolar
Em minhas covinhas de Vênus foi mais nefasto
Que me ferir o calcanhar de Aquiles.

De seu singelo céu da boca brotam,
Como de grutas escoiceadas, as águas da vida,
Aonde todas as ninfas vêm se banhar,
Nas horas quentes do dia.

Não me transformou em pedra por estarem
Abertas minhas meninas-dos-olhos
E, finalmente, atravessou triunfante o arco de minhas sobrancelhas.
Caesar van Everdingen - Four Muses and Pegasus on Parnassus - 1650
Caesar van Everdingen – Four Muses and Pegasus on Parnassus – 1650

 

Hilas e as Ninfas, de John William Waterhouse (1896)
Hilas e as Ninfas, de John William Waterhouse (1896)

Mergulho II

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Vou mergulhar na vida

Que de ti brota!

Vou mergulhar na lagoa

De tua vida e nela me banhar

Da cabeça ao calcanhar

Esquerdo que o direito

Pertence a outro par..

14-11-2012

A última noite

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Esta noite não seria eterna.

Com esta noite apenas,

Eu me contentaria.

Minha memória gravá-la-ia

Com fogo e sangue na superfície

Dos ossos do meu crânio,

Em tatuagens profundas.

Esta noite, eu levaria

A todos os lugares.

Esta noite alimentaria

O resto dos meus dias.

O lobo solitário II

Lobo-guará no cerrado
Lobo-guará no cerrado

 

Agora me tornei o lobo solitário.

Ele saiu de dentro de mim,

De onde estava entocado!

Com suas garras, com seus dentes,

Com sua fúria sem precedentes

Porque muito o atiçaram.

O lobo está cansado de sentir-se acuado!

Agora saiam da frente

Que a sujeição hoje é passado!

 

14-11-2012

Miragem

Oásis no Saara
Oásis no Saara

Tudo, o que pensei ser,

Agora não é mais nada

do que eu mesma construí.

Fiz-me uma outra pessoa

que nunca… jamais existi.

Fui uma personagem?

Fui uma miragem?

A mim mesma iludi.

28-07-2012

Mensagem

Leonardo da Vinci_Annunciation
Leonardo da Vinci_Annunciation

Arcanjo,

Você apenas
foi o mensageiro,
o mensageiro
do verdadeiro
Cria… dor.

Thaís G.

06.08.2012

Quimera

destaque-135176-leao

Olhos de leão

Corpo de urso.

No leão nado.

O urso abraço.

O leão tarda.

O urso não falha,

Porque espera,

Mesmo sendo

Quimera!

Sol nascendo 18-12-2012

Poemas minimalistas

Pingo

Um pingo

É um dilúvio

Para um cílio
Gota

Uma gota

É coisa pouca

Mas encerra

O sal da boca

Lágrima com cílio