Parte I- Caim e Abel

Parte I

D. Maria Leiteira era uma famosa benzedeira da região de Bragança Paulista, imigrante de Salerno na Itália. Era uma devota católica e costumava rezar o terço quando as parturientes estavam para dar a luz. Segundo dizem, quando ela terminava o terço, a criança escorregava para o mundo cá fora, gritando com força e vontade.

Porém, em uma das vezes isso não aconteceu, a criança não saiu como o previsto de dentro da mãe, pois estava o bebê estava sentado. A parturiente era muito amiga e comadre de minha tataravó. Era uma ex-escrava,  mas continuara trabalhando na colheita de frutas junto com a italianada, ao contrário dos parentes dela que foram para a capital.

Antes de falecer devido a complicações, pediu à comadre que cuidasse de seu rebento, Isaías. Assim o fez D. Maria; criou-o junto dos filhos naturais e, como todos na roça familiar, o guri tinha que trabalhar na colheita, principalmente, e no trato dos animais. Quando ficou mais velho, porém, Isaías sentiu-se diferente e tornou-se rebelde. Não queria mais obedecer ao pai, se engraçava com as irmãs já mocinhas. Acharam melhor, então, que ele arranjasse trabalho remunerado no sítio de um amigo e por lá ficasse até criar juízo.

 

Continuação: Desespero

Wilbur e Orville Wright

Preâmbulos

 

Tenho que contar esta história, antes que seja tarde!

Antes que a pessoa que ma relatou não possa mais confirmar se acertei depois de tudo escrito. Como falta-lhe já a luz dos olhos, quero ler essa história para ela confirmar se escrevi direito.

Preciso contar, mesmo que ninguém leia depois; mesmo que ninguém a receba em seus ocupados ouvidos.Tão ocupados, que não podem parar tudo o que estão fazendo e ler uma simples história.

Simples nada! Esta história me arrepiou os cabelos, um frio correu minha espinha, por saber que era real e que aconteceu no seio de minha família. Embora seus protagonistas já estejam todos embaixo da terra e eu não os tenha conhecido, nunca pensei que havia tanto drama, tragédia, sangue e mortes horríveis em uma família a qual eu, por muito tempo, considerei pacata!

Há coisas que os parentes só revelam em último caso e, no meu caso, precisaram me contar esta história para torná-la um exemplo; contaram para que eu superasse a minha tragédia, vendo que existiam tragédias ainda piores e os sofredores envolvidos sobreviveram, portanto eu também seria capaz de sobreviver. Também para me educar e talvez para herdar uma tradição familiar que surgiu desta tragédia não-grega, mas ítalo-brasileira ou ítalo-bragantinha.

Sei lá, só sei que, neste  momento, tenho que contar e sairá tudo de qualquer jeito, sem nenhuma preocupação com a forma, porque se eu morrer enquanto estiver escrevendo esta história, os interessados (pelo menos dois, eu tenho certeza) poderão ler o esqueleto dela.

A tia de minha mãe, Tia duas vezes (ela era irmã de minha avó e casou-se com o irmão de meu avô, isto é, duas irmãs da família de Bellis se casaram com dois irmãos da Boccuzzi*) Maria de Bellis Boccuzzi, assim me contou a história de minha tataravó, Maria Caporrino Linardi, ou Maria Leiteira, como era conhecida:

Continuação: Caim e Abel

*Essa é outra história, que parece tirada do Livro das 1001 noites, mas é cheia de coincidências, ou sincronias reais fantásticas: A história das sete irmãs e um irmão e dos sete irmãos e uma irmã (ainda a ser redigida). αΩ

Maria leiteira

 

Restos II

Grande insensatez de minha vida

Ou seria desvario?

Onde vi o mar, havia lama.

Onde vi mel, havia fel;

Onde alimento, lamento;

Onde ternura, só angústia.

Para você enfim

Era “melhor viver comigo que sem mim”!

 

Celestial ride, Salvado Dali, 1957
Celestial ride, Salvado Dali, 1957

Pico do Jaraguá

Assim fala a lenda:

Quando as bandeiras balançavam rumo ao sertão,

Mulheres subiam ao cume

Dos joelhos do gigante adormecido

Para, de lá, despedirem-se de seus amados, brandindo lençóis,

Até que eles sumissem de suas vistas no horizonte.

 

Esperançosas de avistá-los ao longe,

Ali, elas regressavam sucessivamente,

Para dispor-se a receber cada qual seu sertanista,

Se um dia eles voltassem ao Planalto Paulista.

 

Até hoje,  porém, sobre a barriga e os joelhos do monstro,

Os lençóis surgem, em forma de nuvens que choram,

Porque as esposas e filhas e irmãs vêm ali lamentar

Eternamente a saudade dos que não puderam regressar.

Godoy. Jacareí, 03-01-2013

 

 

"Jaraguá" gravura de Evandro Carlos Jardim
“Jaraguá” gravura de Evandro Carlos Jardim

Sombra

Cada vulto que surge

Chama você ao meu pensamento,

Aparição assustada e assustadora!

Eu canto o canto de criança que chora baixinho

Para não acordar os irmãos.

Escondo o rosto com as mãos pequeninas,

Querendo que a sombra atrás do móvel

Logo passe, não toque, não fale.

Engula o nó da garganta, se for capaz!

Nenhum passe vai tirar essa sombra de meu calcanhar!

16-06-2012

a sombra que me persegue

A conferência dos pássaros*

“Eu conheci um coveiro muito velho e lhe perguntei:

_Você que passou a vida a cavar sepulturas, o que você viu de maravilhoso?

_O que eu vi de maravilhoso _ ele respondeu_ é que durante 70 anos eu cavei sepulturas e nunca enterrei os meus sonhos.”

*A conferência dos pássaros (Mantiq ut-tair) foi escrita pelo poeta persa do século XII, Farid ud-Din Attar, um dos maiores sufis de todos os tempos.Conquanto pouco se saiba, com certeza, a respeito da sua vida, parece que nasceu em 1120, perto de Nishapur, no noroeste da Pérsia. Durante quase quarenta anos viajou por muitos países, estudando em mosteiros e colecionando os escritos de sufis devotos,juntamente com lendas e histórias. Diz-se que possuía um conhecimento mais profundo das idéias sufistas do que qualquer outra pessoa do seu tempo. A tradução para o inglês de C. S. Nott baseia-se na conhecida edição francesa, em prosa, de Garcin de Tassy, aversão que melhor transmite “o sabor, o espírito e os ensinamentos do poema de Attar”.

Poema final

Camilo Pessanha

Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,

_ Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,

Represados clarões, cromáticas vesânias,

No limbo onde esperais a luz que vos batize,

As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.

Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,

Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,

E escutando o correr da água na clepsidra,

Vagamente sorris, resignados e ateus,

Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.

Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,

Que toda a noite errais, doces almas penando,

E as asas lacerais na aresta dos telhados,

E no vento expirais em um queixume brando,

Adormecei. Não suspireis. Não respireis.

O beijo do amado

Rumi

O ladrão de corações

Deu-me um único beijo e partiu.

O que seria de mim

Se me tivesse dado sete ?

 

Todo lábio que o meu amado beija
Guarda sempre a sua marca:
Rachaduras abertas na ânsia de sugar
A doçura de seus lábios.

 

Guarda ainda outra marca:
O desejo louco da água da vida
Que a cada instante força o amor
A remover mil fogueiras.

 

E outra marca mais: o corpo,
Assim como o coração, desembestado,
Corre de encontro ao beijo
Para tornar-se leve e delicado
Como os lábios do meu amado.

 

Ah, que suavidade inebriante vem
Desse amor que desconhece limites !

rumi

A Divina Comédia – Dante Alighieri

Divina Comédia IX, Gustave Doré
Divina Comédia IX, Gustave Doré

E a ambos me dirigindo, eu disse, atento:
“Francisca, a triste história que narraste
move-me ao pranto e a grande sofrimento.

Revela-me a razão porque passaste
do puro anelo e do inocente amor
à culpa amarga que tão cedo expiaste”.

“Não existe”, falou-me, “maior dor
que recordar, no mal, a hora feliz;
e bem o sabe, creio, esse doutor.

Mas já que o nosso amor desde a raiz
ansiosamente queres conhecer,
narrá-lo vou, como quem chora e diz.

Estávamos um dia por lazer
de Lancelote a bela história lendo,
sós e tranqüilos, nada por temer.

Às vezes um para o outro o olhar erguendo,
nossa vista tremia, perturbada;
e a um ponto fomos, que nos foi vencendo.

Divina Comédia - Inferno - Canto V, Gustave Doré
Divina Comédia – Inferno – Canto V, Gustave Doré

Ao ler que, perto, a boca desejada
sorria, e foi beijada pelo amante,
este, de quem não fui mais apartada,

os lábios me beijou, trêmulo, arfante.
Galeoto achamos nós no livro e autor:
e nunca mais foi a leitura adiante

Enquanto aquela sombra o triste amor

lembrava, a outra gemia em desconforto;
e quase à morte eu fui, de tanta dor.

E caí, como cai um corpo morto.*

* Fonte: Prof. Dr. Sílvio Medeiros e o link para o site http://www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros.

Bernardo  e Francesca

Epônimos Divinos

Num insondável labirinto auricular, perdi minha língua
E em minha hélice deitaram-se doces palavras
A turbilhonar, mesmo quando as proferia sem pretensão.

Fui mortalmente ferida pelas oscilações de seu arco do cupido.
Escalar meu monte para em seguida se atolar
Em minhas covinhas de Vênus foi mais nefasto
Que me ferir o calcanhar de Aquiles.

De seu singelo céu da boca brotam,
Como de grutas escoiceadas, as águas da vida,
Aonde todas as ninfas vêm se banhar,
Nas horas quentes do dia.

Não me transformou em pedra por estarem
Abertas minhas meninas-dos-olhos
E, finalmente, atravessou triunfante o arco de minhas sobrancelhas.
Caesar van Everdingen - Four Muses and Pegasus on Parnassus - 1650
Caesar van Everdingen – Four Muses and Pegasus on Parnassus – 1650

 

Hilas e as Ninfas, de John William Waterhouse (1896)
Hilas e as Ninfas, de John William Waterhouse (1896)

Mergulho II

debaixo-dc3a1gua-brooke-shaden

Vou mergulhar na vida

Que de ti brota!

Vou mergulhar na lagoa

De tua vida e nela me banhar

Da cabeça ao calcanhar

Esquerdo que o direito

Pertence a outro par..

14-11-2012