Categoria: Literatura
Poema final
Camilo Pessanha
Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,
_ Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clarões, cromáticas vesânias,
No limbo onde esperais a luz que vos batize,
As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.
Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da água na clepsidra,
Vagamente sorris, resignados e ateus,
Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.
Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,
Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,
Adormecei. Não suspireis. Não respireis.
O beijo do amado
Rumi
O ladrão de corações
Deu-me um único beijo e partiu.
O que seria de mim
Se me tivesse dado sete ?
Todo lábio que o meu amado beija
Guarda sempre a sua marca:
Rachaduras abertas na ânsia de sugar
A doçura de seus lábios.
Guarda ainda outra marca:
O desejo louco da água da vida
Que a cada instante força o amor
A remover mil fogueiras.
E outra marca mais: o corpo,
Assim como o coração, desembestado,
Corre de encontro ao beijo
Para tornar-se leve e delicado
Como os lábios do meu amado.
Ah, que suavidade inebriante vem
Desse amor que desconhece limites !
A Divina Comédia – Dante Alighieri

E a ambos me dirigindo, eu disse, atento:
“Francisca, a triste história que narraste
move-me ao pranto e a grande sofrimento.
Revela-me a razão porque passaste
do puro anelo e do inocente amor
à culpa amarga que tão cedo expiaste”.
“Não existe”, falou-me, “maior dor
que recordar, no mal, a hora feliz;
e bem o sabe, creio, esse doutor.
Mas já que o nosso amor desde a raiz
ansiosamente queres conhecer,
narrá-lo vou, como quem chora e diz.
Estávamos um dia por lazer
de Lancelote a bela história lendo,
sós e tranqüilos, nada por temer.
Às vezes um para o outro o olhar erguendo,
nossa vista tremia, perturbada;
e a um ponto fomos, que nos foi vencendo.

Ao ler que, perto, a boca desejada
sorria, e foi beijada pelo amante,
este, de quem não fui mais apartada,
os lábios me beijou, trêmulo, arfante.
Galeoto achamos nós no livro e autor:
e nunca mais foi a leitura adiante
Enquanto aquela sombra o triste amor
lembrava, a outra gemia em desconforto;
e quase à morte eu fui, de tanta dor.
E caí, como cai um corpo morto.*
* Fonte: Prof. Dr. Sílvio Medeiros e o link para o site http://www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros.

Epônimos Divinos
Num insondável labirinto auricular, perdi minha língua E em minha hélice deitaram-se doces palavras A turbilhonar, mesmo quando as proferia sem pretensão. Fui mortalmente ferida pelas oscilações de seu arco do cupido. Escalar meu monte para em seguida se atolar Em minhas covinhas de Vênus foi mais nefasto Que me ferir o calcanhar de Aquiles. De seu singelo céu da boca brotam, Como de grutas escoiceadas, as águas da vida, Aonde todas as ninfas vêm se banhar, Nas horas quentes do dia. Não me transformou em pedra por estarem Abertas minhas meninas-dos-olhos E, finalmente, atravessou triunfante o arco de minhas sobrancelhas.


Mergulho II
Vou mergulhar na vida
Que de ti brota!
Vou mergulhar na lagoa
De tua vida e nela me banhar
Da cabeça ao calcanhar
Esquerdo que o direito
Pertence a outro par..
14-11-2012
A última noite
Esta noite não seria eterna.
Com esta noite apenas,
Eu me contentaria.
Minha memória gravá-la-ia
Com fogo e sangue na superfície
Dos ossos do meu crânio,
Em tatuagens profundas.
Esta noite, eu levaria
A todos os lugares.
Esta noite alimentaria
O resto dos meus dias.
O lobo solitário II

- Lobo-guará no cerrado
- Agora me tornei o lobo solitário.
- Ele saiu de dentro de mim,
- De onde estava entocado!
- Com suas garras, com seus dentes,
- Com sua fúria sem precedentes
- Porque muito o atiçaram.
- O lobo está cansado de sentir-se acuado!
- Agora saiam da frente
- Que a sujeição hoje é passado!
14-11-2012
Miragem

Tudo, o que pensei ser,
Agora não é mais nada
do que eu mesma construí.
Fiz-me uma outra pessoa
que nunca… jamais existi.
Fui uma personagem?
Fui uma miragem?
A mim mesma iludi.
28-07-2012
Mensagem

Arcanjo,
Você apenas
foi o mensageiro,
o mensageiro
do verdadeiro
Cria… dor.
Thaís G.
06.08.2012
Quimera
Olhos de leão
Corpo de urso.
No leão nado.
O urso abraço.
O leão tarda.
O urso não falha,
Porque espera,
Mesmo sendo
Quimera!
Sol nascendo 18-12-2012
Poemas minimalistas
Pingo
Um pingo
É um dilúvio
Para um cílio
Gota
Uma gota
É coisa pouca
Mas encerra
O sal da boca









