Livro da Semana

Recomendo essa matéria sobre os contos de fadas, em suas versões originais, nas quais se basearam os irmãos Grimm, postada no blog Cultura no Prato. Sugiro também a matéria da Revista Bravo de José Geraldo Couto, Infância Apimentada sobre o livro: Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos, de Jacob e Wilhelm Grimm. Tradução de Christine Röhrig. Ilustrações de J. Borges. Editora Cosac Naify.

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Contos sem cortes

 

Fiquei pasmo e absorto quando soube o verdadeiro desfecho do conto infantil do ‘sapo que vira príncipe’. Onde já se viu tamanha audácia em uma narrativa destinada às crianças, pensei com meus botões.  Esses irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), nascidos na Alemanha, bem que tentaram radicalizar, mas tiveram suas histórias amenizadas por outros escritores. Por conta disso, hoje conhecemos Branca de Neve, A Bela Adormecida, João e Maria, Rapunzel em edições ‘light’, que ganharam até animações na Disney.

No entanto, eis que as páginas do recém-lançado Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos, com tradução de Christine Röhrig e introdução do professor de Teoria Literária na Universidade de São Paulo, Marcus Mazzari, chegaram para botar os pingos nos ‘is’. Não, não era como a gente imaginava, a Rapunzel tentou esconder sua gravidez de gêmeos enquanto o tal sapo não foi beijado para…

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Noite na Taverna

NOITE NA TAVERNA

Álvares de Azevedo

MACÁRIO
Onde me levas?
SATAN
A uma orgia. Vais ler uma página da vida, cheia de sangue e de vinho—que importa?
MACÁRIO
Eu vejo-os. É uma sala fumacenta. A roda da mesa estão sentados cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas, umas lívidas, outras vermelhas Que noite!
How now, Horatio? you tremble, and look pale. Is not this something more than fantasy? What think you on’s? Hamlet.

Ato I
JOB STERN
UMA NOITE DO SÉCULO
Bebamos! nem um canto de saudade! Morrem na embriaguez da vida as cores! Que importam sonhos, ilusões desfeitas? Fenecem como as flores!
José Bonifácio
— Silêncio! moços!! acabai com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as mulheres dormem ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o sono da embriaguez pesa negro naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da volúpia??
—Cala-te, Johann! enquanto as mulheres dormem e Arnold—o loiro—cambaleia e adormece murmurando as canções de orgia de Tieck, que musica mais bela que o alarido da saturnal? Quando as nuvens correm negras no céu como um bando de corvos errantes, e a lua desmaia como a luz de uma lâmpada sobre a alvura de uma beleza que dorme, que melhor noite que a passada ao reflexo das tachas?
—És um louco, Bertram! não e a lua que lá vai macilenta: e o relâmpago que passe e ri de escárnio as agonies do povo que morre, aos soluços que seguem as mortalhas do cólera!
—O cólera! e que importa? Não há por ora vida bastante nas veias do homem? não borbulha a febre ainda as ondas do vinho? não reluz em todo o seu fogo a lâmpada da vida na lanterna do crânio?
—Vinho! vinho! Não vês que as taças estão vazias bebemos o vácuo, como um sonâmbulo?
—E o Fichtismo na embriguez! Espiritualista, bebe a imaterialidade da embriaguez!

—Oh! vazio meu copo esta vazio! Olá taverneira, não vês que as garrafas estão esgotadas? Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?

Encontre aqui a obra completa: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000023.pdf

Mergulho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A memória me abisma.

Cativa-me a liberdade.

Deleita-me a doçura.

Seu desejo me arrebata.

Assim carrego o abstrato em minha mente,

Que é o verdadeiro coração de gente

Que quer não querendo de todo,

De gente que, privada de quase tudo,

Resolveu dar só um pouco de quase nada.

Como se mergulhasse, mas volta e meia,

emergisse para respirar.

Um lapso é a minha respiração,

É meu mergulho com vísceras insufladas.

O resto é agonia e desejo de respirar aliviada.

Amoras nos muros

A meu primo Marcelo Balberde Boccuzzi

Como é difícil colher amoras!

— É muito perigoso!

Há pontas de cacos

de vidro nos muros

os quais só alguns podem pular.

Só eles podem subir

na árvore e alcançar

seus frutos maduros.

O sangue do crime

nas mãos rubras de amoras!

Ah! Quem dera ser maior e mais forte!

Os galhos do outro lado

do muro cortante alcançar!

Mas, ainda assim, precisaria enfrentar

as aranhas nas folhas escondidas,

os escorpiões, as cobras,

peçonhas esperando

mãozinhas inocentes e limpas.

Quem pode com elas?

Só eles… eles podem!

O vento bondoso derruba

as mais maduras, pesadas,

dos altos galhos que pendem do lado

de cá da muralha intransponível.

Mas seu gosto amassado, passado

O tempo estragou!

No ladrilho vermelho,

seu sumo jaz esparramado.

As tenras e frescas,

só eles podem comer.

Dia escuro, nuvens cinza-carregadas,

Cascatas de suco rolam as escadas.

_ Com ácido, limpa-se tudo!

Asas, asas, dêem-me asas para alcançá-las.

Ah! quebrar os cacos, derrubar

o muro a machadadas,

e elas, todas aqui, assim!

15 de setembro de 1998

Na Palestina: O velho, a árvore, o ônibus

À Abd Al-Hasib Atta Zaloum

Sobre o solo, jaz a carcaça do que um dia havia sido um ônibus.
Hoje, tornou-se abrigo do velho sem moradia.
As estrelas no céu velam por eles à noite.
O frio passa pelas vidraças estilhaçadas,
Vem sorrateiro seu rosto açoitar.

Sob o sol escaldante,
a sombra vem de uma árvore solitária.
O ônibus à noite e a árvore de dia
São todo o seu reino, como nem
o rei da Jordânia tem.

Assim que ficou pronta,
sua antiga casa foi demolida;
sua terra, por colonos, roubada.
Converteram seu território em "área de segurança".

Segurança pra quem,
se o velho agora vive ao relento?
Não é o velho, de humanos, rebento?
Não necessita de segurança também?
É menos humano que as crianças da escola
atrás daquela muralha, já que delas só recebe desdém?

Como a vida, que poderia ter tido, foi interrompida,
Perdeu sua costumeira esperança
e neste solo devastado só quer plantar seus olhos cansados
Para não verem mais a guerra assolar o seu lar.