Bizarro

Dói tanto em mim a dor da sua solidão,

Dói tanto, que se, para si,

Tomasse outra pessoa qualquer,

Através dela, sentiria que estamos

juntos numa perfeita comunhão.

 

Como gêmeos siameses que habitam o mesmo corpo

Ou entidade que incorpora alguém,

através dela, moveria meu ser

E sentiria que você me possui também.

 

Ao sentir essa mulher,

Porque serei uma, se lhe convêm,

Formaríamos uma fraternidade,

Uma santíssima trindade

tão sagrada, que todos teriam de dizer amém.

Até mesmo você, que não acredita em ninguém…

 

Godoy

24-09-2012

FoujitaCafe

 

À Síria

Palmira, tuas palmeiras há muito não balançam ao vento!

O vento só traz até ti pó, cinzas, farelos

Que sobram das ambições de todos os tempos.

Culpada por demorar-te no meio do caminho.

 

Como tua irmã, anciã entre as localidades;

Lar dos fundadores da Acádia,

Essa coroa de fogo da deusa do amor e da guerra.

 

Alepo, algo mais nefasto que o mais nefasto

Dos terremotos perscruta teus filhos;

Sonda tuas antigas ágoras,

que viraram catedrais

que agora são mesquitas!

Em vão perguntas “por quem definho?”

 

Como tua vizinha Ebla, rocha branca,

Berço de onde partimos, nosso ninho!

Nem 5 milênios tanto dano causou a tua ancestral alegria.

Ser ruína de ruínas é teu destino?

 

Tua terra é a desejada de todas as gentes:

Persas, macedônios, romanos, árabes,

Bizantinos, cruzados, mongóis, mamelucos,

Turcos, franceses, ingleses,

Russos, estadunidenses.

Foi o que os ventos trouxeram a teus pés

E sobre tua cabeça, pobre Síria: louco desatino!

 

Lares divididos, subdivididos,

Todos somos teus descendentes.

Quebra-cabeças de venais interesses!

Joias deste Oriente, quem sentirá tua agonia?

Godoy

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Meus olhos

 

Aainy, meus olhos!

Aainy, meu amado!

Meu olho d’água num deserto de humanidade!

Minha devoção, feito cachoeira, transborda e cai dos meus olhos,

Em você, meu lago translúcido, no oásis em que sempre vou beber,

Depois de atravessar estes ermos.

Beba, então, também estas águas

Porque elas o refrescarão do seu deserto.

Depois vamos rir juntos de tudo;

Vamos rir como só são capazes os loucos.

Não porque desconhecemos o mal,

E somos ingênuos, imaginando que tudo está certo,

Mas sim porque, em meio a girassóis e miosótis, estamos um no outro.

 

Feliz aniversário, Fernando!

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Morto

de Ricardo Costa

 

Penso que nasci morto

Vivi meio que morto

No ponto morto

Me fiz de morto

Vivo-morto já é um morto

Vivo pode ser morto

Morto não pode ser morto

Mas morto é morto

Se morno não está morto

Se frio talvez quase morto

Gelado, com certeza morto

Amarelo encerado é um morto

Deitado caixão com flor é morto

Cem por cento morto

Até baralho tem morto

Que fica de lado como morto

Se joga bem pega o morto

Só então vive o morto

Desconectar da vida está morto

Na solidão você é um morto

Sozinho está morto

Morto bom é um bom morto

Seu futuro terá um morto

Você será um morto

Ninguém tem inveja de morto

Chora quando vê um morto

Morto por morto

Melhor um bem morto.

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Lawrence Olivier em Hamlet

Além de minhas forças

Além de minhas forças

Doce brisa trouxe até mim um pássaro canoro
Que coloriu meus dias amenos;
Que em minhas manhãs colocou um sorriso;
Que aspergiu vigor em meus membros
E aspirou de mim o cansaço.

Silêncio! Quero escutar sua serenata
Para embalar o meu sono sereno;
Elevar sobre mim meu espírito;
Fazê-lo pousar no meu braço.

Quero seu entusiasmo.
Quero seu sopro de vida divino,
Sua leveza, sua graça, seu brilho.
Sem querer, sob suas asas eu vivo!

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Vício

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Sísifo, de Ticiano, 1549

 

Sim, sempre tenho um vício.

Subscrevo, confesso, admito!

Sim, sou viciada, mas não naquilo que imagina o meritíssimo.

Mas sim em querer coisas que nunca existiram.

Viciada em fingir um poema para cada ser que gostaria de ser eterno:

 

Cada pequena folha que de uma árvore cai sem fazer alarde;

Cada música que em mim provoca um sentimento terno;

Cada cão sarnento que em minha rua late;

Cada carcaça cansada que em minha cama arde;

Cada cabeça que rola,  secando ao sol e esfriando ao relento…

 

É vício porque é inútil como trabalho de Sísifo.

Se me proponho a fazê-lo, porém, saia do meu caminho,

senão eu  ……………!

 

04-01-2013

Incubus

Incubus

No vale, uma sombra esgueira-se pelo silencioso jardim,

Passa diante da solitária janela  do campo.

 

Do indefeso corpo cansado de colher

O sono logo se apossa.

 

A inocência do repouso perturbada.

Vitalidade dragada à exaustão.

Espírito de satisfação sedento e preso sob o peso

De encantos enganosos

De deleites incertos

De horripilante prazer,

Num diabólico festim.

 

Thaís GM

Incubus
Mulher dormindo

O Dedo do meio de Deus

Deus é brasileiro!

Temos seu dedo para provar.

Teremos o dedo do meio de Deus

Até o fim dos tempos?

Tanta beleza e destruição

desses exuberantes templos

Esculpidos em pedra!

O Paquequer em degradação.

Os descendentes de Ceci e Peri

pendurados nos morros

bem próximos à Granja Comari…

O zunido de helicópteros abafa o de mosquitos.

A Casa da Cultura às margens do rio serpente cercada de curumins, pipas, lixo e sorrisos, apesar de tudo.

Von Martius e seus livros foram esquecidos.

Emboloram mais e mais a cada nuvem que passa por esses picos.

A floresta se vinga das pessoas erradas, avançando sobre quem a amou e recuando diante dos inimigos!

Fomos amaldiçoados e proscritos?

Vivemos uma constante comédia de erros.

Nada é o que parece.

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TGM

 

 

 

Consoada

Consoada

Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

 

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Consolo na Praia

Carlos  Drummond de Andrade

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te – de vez – nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

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O Corvo

Edgar Allan Poe traduzido por Machado de Assis

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: “Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais.”

Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: “Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais.”
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
“Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais.”

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: “O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: “Nunca mais”.

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: “Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora.”
E o corvo disse: “Nunca mais!”

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
“Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: “Nunca mais”.

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: “Nunca mais”.

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: “Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: “Nunca mais.”

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

anoika09.

Vinícius de Moraes

SONETO DO AMOR TOTAL

 

Rio de Janeiro, 1951

 

Amo-te tanto, meu amor… não cante

O humano coração com mais verdade…

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.

 

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

 

Amo-te como um bicho, simplesmente,

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

 

E de te amar assim muito e amiúde,

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.

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Eros e Psiquê