Mergulho

A memória me abisma.
Cativa-me a liberdade.
Deleita-me a doçura.
Seu desejo me arrebata.
Assim carrego o abstrato em minha mente,
Que é o verdadeiro coração de gente
Que quer não querendo de todo,
De gente que, privada de quase tudo,
Resolveu dar só um pouco de quase nada.
Como se mergulhasse, mas volta e meia,
emergisse para respirar.
Um lapso é a minha respiração,
É meu mergulho com vísceras insufladas.
O resto é agonia e desejo de respirar aliviada.
Duplo Carimbo
Quando insisto que preciso
Ser as roupas que te envolvem,
Ninguém entende o motivo.
À tua pele estaria colada,
Te revestindo, te protegendo
Do frio, do sol, da chuva,
De olhares que alhures
Pudessem perturbar teu pudor
E enciumar esta distante
Imaginação que te perscruta.
Ao me perfumar, teus doces bálsamos,
Curariam a ânsia que me domina.
O espectro de tua presença
Se impregnaria em meus
Tecidos me acompanhando.
Tuas formas se desenhariam em mim,
Grudadas ao entrelaçamento de meus fios,
Guardando a memória residual de tua estada.
Também meus botões, fechos,
Costuras marcariam tua pele.
Assim, viveríamos numa troca
eterna: ora te sigo
Ora me segues,
Como duplo carimbo.
O Portal da Vida e da Morte
Quando estava perdido, Tentando conciliar a dor e a alegria, O corpo e o espírito, Você e eu, Soube que existe um lugar, Um lugar onde há um portal, O “Portal da Vida e da Morte”. O portal que nos levará à Revolução tão esperada, Quando, finalmente, o claro e o escuro, a pedra e a pluma, o céu e a terra serão parte de um mesmo todo, Sem se digladiar. Mas onde o Portal da Vida e da Morte estará? Só sei que é perto do “Ponto de Ouro de um Milhão". Esse é o segredo da vida, que há pouco intuí, mas nunca completo vi.
Bizarro
Dói tanto em mim a dor da tua solidão,
Dói tanto, que se, para ti,
Tomasses outra pessoa qualquer,
Através dela, sentiria que estamos
juntos numa perfeita comunhão.
Como gêmeos que habitam o mesmo corpo
Ou entidade que incorpora alguém,
através dela, moveria meu ser
E sentiria que tu me possuis também.
Ao sentir essa mulher,
Porque serei uma, se te convêm,
Formaríamos uma fraternidade,
Uma santíssima trindade
tão sagrada, que todos teriam de dizer amém.
Até mesmo tu, que não acreditas em ninguém…
Olhos de Paisagem
Com seus cílios pinto
Uma paisagem atemporal,
estou me esvaindo por seus rios,
estou sendo arrastada
por sua correnteza,
Estou sucumbindo.
Sobre as árvores rostos observam curiosos
E impassíveis minha queda.
Nenhum ombro me ampara.
Pensam que flutuo na torrente,
Que, à superfície, se assemelha
A um lago plácido.
Mas,submerso, um turbilhão
retorce minhas entranhas.
Quem poderia me salvar de ser dragada
E impedir que eu seja afogada
em suas íris?
“Indescrição”
Não sou um cão
Ou uma dama de negro,
impassíveis do inferno,
tampouco boas.
cachorra e homicida?
uma dessas coisas,








