Um dia

Num dia, venci este teu jogo atroz.

Se eu te amei um dia, foi porque, quando falavas com a boca cheia de alegria,

Iluminavas todos os meus dias.

Foi porque, quando me beijavas e falavas de poesia,

Tua boca te afogava em lascívia.

Foi porque atrás de fragilidades vi tua força.

Foi porque de trás da máscara escapou um pouco da tua essência magnífica.

E vi nobreza, e vi falta de malícia, e vi a lua cheia escondida e passei a persegui-la.

Por uma brecha, vi um lago plácido atrás de tanta correria.

Vi teu ser todo completo, pelo vão da cortina deste palco da agonia.

Porque por uma fresta vislumbrei o futuro.

Vislumbrei o Grande Homem que você seria um dia.

Se te amei um dia foi porque você me ofereceu

Matéria bruta para a minha poesia.

A paixão de ler

“Enquanto a Síria se suicida, Israel e EUA desfrutam do espetáculo”

English: Photograph of Noam Chomsky
English: Photograph of Noam Chomsky (Photo credit: Wikipedia)

Do Correio da Cidadania

Em entrevista exclusiva para o portal britânico Cessar Fogo (Ceasefire), o renomado intelectual Noam Chomsky falou com Frank Barat sobre a situação atual no Oriente Médio, em particular a crise da Síria, as negociações de paz entre Israel e os palestinos e o papel do poder dos EUA na região. “Se os EUA e Israel quisessem ajudar os rebeldes – não o fazem – poderiam fazê-lo sem intervenção militar”.
Leia a entrevista completa:
Qual é a definição das negociações entre Israel e Estados Unidos e porque a Autoridade Palestina (AP) continua a prestar-se a isso?
Do ponto de vista dos EUA, as negociações são, com efeito, um caminho para Israel continuar a sua política de tomar sistematicamente tudo o que quiser na Cisjordânia, mantendo o assédio brutal de Gaza, separando Gaza da Cisjordânia e, claro, ocupando os Montes Golã sírios, tudo com pleno apoio dos EUA. E o marco das negociações, igualmente aos últimos 20 anos de experiência de Oslo, simplesmente proporcionou o encobrimento desta situação.
Em sua opinião, por que a Autoridade Palestina (AP) continua a jogar esse jogo?
Provavelmente, em parte, por desespero. Podemos nos perguntar se é a decisão correta, mas ela não tem muitas alternativas.
Definitivamente, a AP aceita esse marco apenas para sobreviver?
Se ela se nega a negociar, tal como propõem os Estados Unidos, a sua base de apoio seria derrubada. A AP sobrevive essencialmente à base de doações. Israel assegurou que ela não tenha uma economia produtiva. É uma espécie do que em ídiche se chamaria “Sociedade Schnorrer”: pede emprestado e vive do que puder conseguir.
Se a AP tem outra alternativa, não está claro, mas se rejeitar a exigência dos EUA de acudir às negociações em condições totalmente inaceitáveis, a sua base de apoio iria erodir-se. E não tem apoio – externo – suficiente para que a elite palestiniana possa viver de maneira bastante decente – por tabela pródiga – no seu estilo de vida, enquanto a sociedade que a rodeia cai aos pedaços.
Desse modo, seria negativa a queda e desaparição da AP, depois disso tudo?
Depende do que vier a substituí-la. Se fosse permitido a Marwan Barghouti, por exemplo, unir-se à sociedade da forma como fez, por exemplo, Nelson Mandela, poderia ter um efeito dinamizador na organização de uma sociedade palestiniana, que poderia pressionar por exigências mais importantes. Mas lembre-se que eles não têm muitas opções.
De facto, se nos remetemos ao princípio dos Acordos de Oslo, há 20 anos, havia negociações em curso, as negociações de Madrid, nas quais a delegação palestiniana era encabeçada por Haider Abdel-Shafi, uma figura muito respeitada da esquerda nacionalista palestiniana. Abdel-Shafi negava-se a aceitar os termos dos EUA e Israel, que lhes permitiam fundamentalmente a continuidade da expansão dos colonatos. Negou-se, e as negociações estancaram sem chegar a lugar algum.
Enquanto isso, Arafat e os palestinianos do exterior foram paralelamente a Oslo, ganharam o controlo e Haider Abdel-Shafi opôs-se de forma tão contundente que nem sequer se apresentou à dramática cerimónia sem sentido, onde Clinton sorria enquanto Arafat e Rabin apertavam as mãos. Abdel-Shafi não se apresentou porque se deu conta de que era uma traição absoluta. Mas baseava-se em princípios e, portanto, não poderia chegar a nenhuma parte, a menos que conseguisse um importante apoio da União Europeia, dos Estados do Golfo e em última instância dos EUA.
O que acha que realmente está em jogo na Síria neste momento e o que significa para a região em geral?
A Síria está a suicidar-se. É uma história de terror e cada vez está pior. Não há uma saída no horizonte. O que provavelmente acontecerá, se continuar assim, é que a Síria será dividida em três regiões: uma região curda – que já está a formar-se – que poderia separar-se e unir-se de alguma maneira ao semi-autónomo Curdistão iraquiano, talvez com algum tipo de acordo com a Turquia.
O resto do país se dividiria entre uma região dominada pelo regime de Assad – um regime brutal, horrível – e outra secção dominada pelas diversas milícias, que vão desde o extremamente nocivo e violento até ao secular e democrático. Se olharmos o que saiu no New York Times, há uma citação de um funcionário israelita que expressa essencialmente a sua alegria de ver os árabes massacrando-se uns aos outros.
Sim, eu li.
Para os Estados Unidos, assim está bom, não querem outro tipo de saída. Se os EUA e Israel quisessem ajudar os rebeldes – não o fazem – poderiam fazê-lo, inclusive, sem intervenção militar. Por exemplo, com Israel mobilizando forças nos Montes Golã (claro, são as montanhas do Golã da Síria, mas por agora o mundo, mais ou menos, tolera ou aceita a ocupação ilegal de Israel). Se fizessem isso, obrigariam Assad a mover forças até ao sul, o que aliviaria a pressão sobre os rebeldes. Mas não há nenhum indício sequer disso. Mesmo assim, não estão a dar ajuda humanitária à grande quantidade de refugiados que sofrem, não estão a fazer nenhuma das coisas simples que poderiam fazer.
Tudo isso sugere que tanto Israel como os EUA preferem exatamente o que está a acontecer, tal como informava o NYT que mencionámos. Enquanto isso, Israel pode celebrar, a sua condição do que chamam de “cidade na selva”. Houve um interessante artigo do editor do Haaretz, Aluf Benn, que escreveu sobre como os israelitas vão à praia, desfrutam e congratulam-se de serem uma “cidade na selva”, enquanto as bestas selvagens de fora se desgarram entre si. E, claro, Israel, sob essa imagem, não está a fazer nada, exceto defender-se. Eles gostam dessa imagem e os EUA tampouco parecem muito descontentes com ela. O resto é conversa.
Assim, podemos falar de um ataque dos EUA, você acredita que ocorra?
Um bombardeamento?
Sim.
É uma espécie de debate interessante nos Estados Unidos. A ultra-direita, os extremistas da direita, que são uma espécie de espectro internacional, opõem-se, ainda que não seja pelas razões que me agradariam. Opõem-se porque pensam: “por que se dedicar a resolver os problemas dos outros e perder os nossos próprios recursos?” Estão literalmente a perguntar: “quem nos vai defender quando nos atacarem, se nós mesmos estamos dedicados a ajudar outros países, no estrangeiro?” Essa é a ultra-direita. Se nos fixamos na direita “moderada”, gente como, por exemplo, David Brooks, do New York Times, considerado um comentarista intelectual de direita, o seu ponto de vista é de que o esforço dos EUA em retirar as suas forças da região não está a ter um “efeito moderador”. Segundo Brooks, quando as forças norte-americanas estão na região, isso tem um efeito moderador, melhora a situação, como se pode ver no Iraque, por exemplo. Mas se vamos retirar as nossas forças, então já não somos capazes de moderar e melhorar a situação.
Essa é a visão normal da direita intelectual na corrente principal, os democratas liberais e outros. De modo que há um monte de indagações sobre como “devemos exercer a nossa ‘responsabilidade de proteger’”. Bom, basta dar uma olhada nos registos históricos dos EUA sobre a ‘responsabilidade de proteger’. O facto, inclusive, de dizer tais palavras revela algo de, certamente, insólito nos EUA e, de facto, na cultura moral e intelectual do Ocidente.
Isso é, à parte do facto em si, uma grave violação do direito internacional. A última linha de Obama é que ele não estabeleceu uma “linha vermelha”, mas que o mundo a estabeleceu, por meio das suas convenções sobre a guerra química. Bom, na verdade o mundo tem um tratado, que Israel não assinou e que os EUA descuidam totalmente – por exemplo, quando apoiaram o uso, realmente horrível, de armas químicas por Saddam Hussein. Hoje, isso é utilizado para denunciar Saddam Hussein, ignorando o facto de que não só se tolerava, mas, basicamente, havia o apoio do governo de Reagan. E, claro, a convenção não tem mecanismos de aplicação de sanções.
Tampouco existe o que se denomina ‘responsabilidade de proteger’, isso é uma fraude promovida na cultura intelectual do Ocidente. Há um conceito, na verdade dois: um aprovado pela Assembleia Geral da ONU, que se refere à ‘responsabilidade de proteger’, mas que não oferece nenhuma autorização a qualquer tipo de intervenção, exceto nas condições da Carta das Nações Unidas. Outra versão, que se aprovou só por parte do Ocidente, os EUA e os seus aliados, que é unilateral e diz que tal responsabilidade permite a “intervenção militar das organizações regionais na região da sua autoridade, sem a autorização do Conselho de Segurança”.
Pois bem, traduzindo, isso significa que se proporciona a autorização aos EUA e à NATO de utilizarem a violência aonde quiserem, sem autorização do Conselho de Segurança. Isso é o que se chama ‘responsabilidade de proteger’ no discurso ocidental. Se não fosse tão trágico, seria ridículo.
Frank Barat é coordenador do Tribunal Russell sobre a Palestina. O seu livro “Gaza in Crisis: Reflections on Israel’s War Against the Palestinians”, com Noam Chomsky e Ilan Pappe, já está disponível. A edição francesa do livro, publicada em 2013, conta com uma extensa entrevista com Stephane Hessel.
Entrevista originalmente publicada no portal Ceasefire. Tradução para espanhol de Rebelióne para português de Gabriel Brito, do Correio da Cidadania.

Soneto VI, in Livro dos Sonetos, vol I.

Danilo Borges
28 de setembro de 2013 às 18:53

Estando eu deitado em meu pobre leito

pertubou-me o devaneio, imaginações.

Ordenou-me e eu alto em seu conceito

obedeci às minhas belas obrigações.

 

Sem saber se pois terei o nome aceito,

no panteão da glória, e louros e brasões,

vejo o amor dos meus e este como efeito

para sublimar-me amorosas ilusões.

 

Mas ainda espero o bem terreno,

sua face feminina sei que não demora.

A mim, não cabe mais do que sereno,

 

como um cravo a esperar após a aurora,

encontrar a sua rosa em meio aos fenos,

como o porvir de braços abertos espera o Agora!

 

 

 

Soneto VIII, in Livros dos Sonetos, vol I.

Danilo Borges

28 de setembro de 2013 às 19:23

Entreguei-me à febre da imaginação,

para não ver morrer meus vivos ideais.

Imaginei na mente e forjei no coração

que felicidade é sonhar e vitória ser capaz.

 

Lúcidos projetos lancei à luz da minha mente,

para realizar meus sonhos, transpiro até sangue.

Desejo a plenitude do futuro e, no entre-as-gentes,

Minha fé é o horizonte que minh’alma expande.

 

Minha vida flana como uma asa aberta,

voando longe à procura do cotentamento,

sendo o amor esta lança que meu peito espeta,

 

levarei ao meu túmulo tão enorme atrevimento.

Gravarei em minha lápide: À Lembrança:

Foi poeta, amou. Morreu do mesmo sentimento.

 

 

São Paulo, Consolação, idos de.

Schaudenfrewde

Com uma gilete na jugular,

O encanto acabou.

A euforia acabou.

Acabou-se a alegria.

Acabou-se a folia.

E tudo que poderia e deveria ter sido

_ por força de lei,

por decreto, por magia legítima,

formando uma absoluta rima,

criando simetria no que antes

era uma metade distorcida

_ agora se suicida!

Poesia II

em sonhos, o tempo fica suspenso só para nós

em sonhos, ouço toda tua biografia

cada suspiro de saudade de dor de alegria

ouço o cair de cada gota de pranto ou de suor

cada riso

cada perda que te fez sofrer

todos os momentos dos quais

não fiz parte e dos quais fiz também…

todos esses passos sobre a terra

eu gravaria na pedra muito bem,

para que as espumas do mar selvagem

jamais os apagassem,

(o sentido profundo de cada passo

só seria entendido por nós

numa língua única)

eu os transformaria em poesia

se o tempo para isto não levasse o mesmo tempo de viver,

Poesia I

Até quando tudo será um pedaço de outra coisa?
Até quando velaremos fragmentos?
Cacos, puzzles inacabados e reticências?
Histórias sem meio nem final.

Tudo será sempre só o início
De algo que poderia ter sido?
Uma promessa?
Uma esperança?

O Nada

Ou pior que o nada:
Sugestões de coisas diversas
do que são na verdade.

O improviso de um amador
que se esqueceu como é viver
Quando sentiu que vivia.

A vida e a Literatura

Pedido de desculpas de uma professora

Em minha experiência, ao ministrar aulas de Literatura, uma questão que costumava surgir entre meus responsáveis alunos, preocupados com o sustento de suas famílias e com a concorrência cada vez maior no mercado de trabalho, era a seguinte:

  • Em que a Literatura vai me auxiliar no momento em que eu passar pelo processo seletivo de vagas em uma empresa?

Dependendo do autor que estudávamos naquele momento, minha resposta variava.

Se Realismo, respondia que aqueles autores denunciavam as mazelas da sociedade à fim de que a crítica levasse a uma reflexão e a uma sociedade mais justa. Se Parnasianismo, apenas o deleite, o prazer do jogo com as palavras. E em todos os casos, pessoas mais instruídas, com melhor vocabulário, adquirido através da leitura, têm mais oportunidades; além de suprir as exigências do vestibular e a continuidade dos estudos no nível superior.

A conclusão: ora funcionários mais divertidos, inteligentes, críticos e com nível superior serão melhores e vencerão a concorrência.

Hoje, refletindo melhor, sinto que talvez tenha induzido meus alunos ao erro: surpreendentemente, nem sempre o mais estudado e inteligente consegue as melhores vagas!

Os mais críticos, às vezes, são vistos como chatos e difíceis de manipular, pois não conseguem atender às demandas da sociedade liberal. Muitos colegas entendem que quem tem um vocabulário melhor quer chamar a atenção, fala difícil por insegurança e, como dizem vulgarmente por aí, querem “puxar seus tapetes” dos quais não podem prescindir.

Quem tem melhor vocabulário é interpretado como esquisito e incompreensível, até pelos chefes que se sentem ameaçados pelo suposto brilhantismo de um subalterno o qual não conseguem compreender.

Quanto mais se estuda, mais se aumenta o abismo que separa o indivíduo que obteve milagrosamente uma boa formação, (às vezes por mérito próprio, às vezes graças a escolas de qualidade indiscutível) do que não teve as mesmas oportunidades. Os menos escolarizados se sentem diminuídos, pois não sabem que nem todos os que “falam difícil” querem se exibir, nem todos os que “falam difícil” são arrogantes, nem todos os que “falam difícil” estão minimamente interessados em seus tapetes que já são curtos demais para uma só pessoa.

Só restaram os seguintes argumentos:

O conhecimento da Literatura faz parte do repertório da cultura geral de um indivíduo escolarizado. As Literaturas de língua portuguesa são tema dos vestibulares não apenas pela verificação mecânica de fatos da história da Literatura, mas porque a linguagem literária tem um modo particular de se referir às coisas do mundo.

No vestibular, tenta-se verificar o grau de alfabetização do indivíduo. Qual o nível da capacidade interpretativa do estudante, que deve abranger todos os gêneros textuais da cultura contemporânea, que é cumulativa, e seu sentido conotativo.

Até propagandas, tirinhas humorísticas e ícones da cultura pop fazem referências tão amplas, através da intertextualidade, que seu significado, para ser alcançado minimamente, depende de uma leitura alicerçada no conhecimento não só da Literatura, mas da Arte em geral.

Quem não o possui pode viver sim, pode arranjar bons empregos, mas viverá na superfície do mundo, lerá só sua referencialidade. Será eternamente manipulado pela propaganda dos mais habilidosos no uso da linguagem que a utilizam muitas vezes de má fé, como instrumento de manipulação política.

Hoje tudo é marketing e o jogo das aparências é cada vez mais enganoso e caleidoscópico. Quem não domina a linguagem e seus recursos, inclusive os literários, será um fantoche, um títere que apenas repetirá o que lhe mandarem, copiando e colando maquinalmente o mundo tal como ele é agora, sem nenhuma possibilidade de reflexão e transformação.

O outro argumento é que ler pode ser sim divertido: as descobertas realizadas através da investigação, da pesquisa trazem um prazer inigualável, indispensável a qualquer profissional que queira realizar seu trabalho apaixonadamente.

O caráter lúdico no tratamento da linguagem surge na poesia, por exemplo. O brincar com as palavras, traz para o trabalho interpretativo um prazer desconhecido da maioria das pessoas, tão ciosas em renová-lo constantemente apenas através de seus corpos, mas esquecidas do prazer intelectual que pode nos acompanhar a vida inteira sem se enfraquecer e perder a vitalidade.

As crianças sabem muito bem disso. Os trava-línguas, as parlendas, as cantigas de roda são manifestações da cultura popular das nações que estão morrendo. Brincar é coisa muito séria, ao contrário do que alguns professores pensam, não é perda de tempo. Brincar auxilia as crianças a lidar com a dor do crescimento e, portanto, em sua saúde mental.

Crianças não fazem distinção entre o prazer corporal, o da brincadeira, e até o do estudo: tudo pode ser divertido.

Nossos problemas começam no dia em que alguém nos diz: “isso é o seu dever”; “é sua obrigação”. Uma aluna minha me disse um dia que adorava lavar a louça, pois se imaginava brincando de “fui ao restaurante e não tinha dinheiro para pagar a conta”, mas um dia lhe disseram que aquilo era obrigação das mulheres e todo o prazer desapareceu num passe de mágica.

É obvio que não podemos viver como as crianças, mas encontrar o prazer nos textos passa por recordar como é ser criança, passa pelo prazer da descoberta de uma nova palavra. Lembro-me quando meu irmão descobriu a palavra “óbvio”, ele não cansava de repeti-la, até que se tornou banal para todos lá em casa.

Esse processo, de tornar o novo banal, desgasta as palavras e as transforma em “velhas palavras” que, para alguns, são “as melhores palavras”. São palavras companheiras e velhas amigas.

O novo passa a ser ruim pelo medo que sentimos de nos acharem ignorantes. Maior do que o prazer em já conhecer uma palavra, vaidosamente apresentar seu sentido ao aluno admirado com a sabedoria do mestre, é mostrar ao aluno como é muito mais prazeroso pesquisar e achar uma novidade.

Tudo é leitura, tudo é descoberta e interpretação e em cada uma delas pode se encontrar um deleite particular, mas apenas se o domínio dessa habilidade for satisfatório.

Cito aqui duas frases, uma pop e outra mais erudita das quais gosto muito e que refletem o que penso sobre a Literatura e o “prazer do texto”

“A gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte…”*

e

“Nem só de pão vive o homem…”*

*Não coloco os autores na esperança de levá-los a descobertas!

Caminhando sob um sol

“A poesia pertence a todas as épocas: é a forma natural de expressão dos homens.”

Octavio Paz


Caminhando sob um sol de cozinhar o cérebro entrei no banco. Fui fazer o pagamento de uma conta atrasada. Sair de casa de coturno, calça preta e camisa manga comprida preta, nesse calor, é pedir para passar mal. Dentro do banco, eu todo suado, suor brotando por todos os poros da cabeça, escorregando na testa, nos braços e a sensação nada agradável de estar derretendo, a camisa grudada nas costas. Peguei uma ficha e fui sentar no banco a espera de atendimento. Longe, vi um estudante de filosofia com quem pensei poder passar, pelo menos ali dentro, alguns minutos tendo uma boa conversa. E tive. Ele me falou sobre o livro que estava lendo. Um conjunto de ensaios sobre filosofia do séc. XVIII, filosofia ilustrada, como se diz, filosofia burguesa – pequeno racionalismo, ainda assim, coisa de gigantes. Continuamos conversando e então ele me disse que aqueles eram um conjunto de ensaios, modelo de escrita excepcional, com os quais os professores gostariam que nos defrontássemos para, via imitação de imitação, tentar fazer algo igual ou que atingisse o mesmo teor filosófico, a mesma agudeza de espírito com o mesmo poder de análise, o que por falta de genialidade, porque não me julgo um gênio, e escrever como ele, só depois que eu vir a este mundo 3 vezes e tiver a certeza de que já possuo acumulada a cultura de todos os séculos. Uma pequena confusão de uma senhora bem-vestida, loira, cheia de bijuterias douradas e uma bolsa de couro preta brilhante, parecia uma dessas burguesas sinistras querendo atendimento imediato, se instala na nossa frente como se ela fosse mais importante que nós e todo mundo. Mas não demos muita atenção para isso. Retomamos a conversa após o bate-boca acalmar. Falamos sobre os protestos do dia da independência do Brasil, 7 de setembro, os presos políticos que se encontram atrás das grades até hoje. Falamos sobre o espetáculo que foi imaginar uma filósofa dar uma oficina em uma academia militar e sentar a lenha nos anarquistas. Eu olhava no painel e os números mudando: 73, 74, 75, 76, 77,…, meu número era 84. No caixa uma pessoa passava de 5 a 15 minutos, isso nos dava o ensejo para continuar esse diálogo que de tão prazeroso parecia não ter fim. Mudamos de assunto. Começamos a conversar sobre poesia. Sobre os saraus que ocorrem na cidade. Eu disse que conhecia, mas que não frequentava sarau na cidade, por saber que ali tem de tudo, menos poetas e poesia. E então o meu amigo filósofo ficou assim meio estarrecido com minha crítica. Perguntei se conhecia os livros de poesia do velho filósofo que ele tinha nas mãos (A LETRA DESCALÇA e O VÔO CIRCUNFLEXO – POEMAS). Ele disse que não. Eu disse a ele que quando R. R. T. F. tinha dezoito anos de idade escreveu 2 livros de poesia, mas poesia mesmo, a começar pelo uso rigoroso da linguagem o que esqueceu logo que começou a se aventurar na reflexão séria da filosofia. E disse que quando Sérgio Vaz estiver com 98 anos de idade, terá a maturidade que Rubens Rodrigues Torres Filho tinha aos 18. E disse isso porque tenho consciência de que em se tratando de literatura, não valem boas intenções. Minha vez na fila chegou. Fui pagar a conta. Me despedi do amigo com um aceno e me dirigi para fora dali. Árvores, calçadas, ponto de ônibus, cigarro aceso na boca e livros na mão: ar livre…

A. L.

Porque o sapo não lava o pé, segundo vários intelectuais

Este texto, além de engraçado e criativo, pode ser usado em sala de aula como exemplo de hipotextualidade: o pastiche do estilo de cada autor demonstra uma das infinitas formas de transcendência textual…

POR QUE O SAPO NÃO LAVA O PÉ?

Explicações de vários estudiosos…

Olavo de Carvalho: O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Ele mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa o sistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é que infesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexa conspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanos da educação e da higiene!

Karl Marx: A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio, encontra-se profundamente alterada no panorama capitalista. O sapo, obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva alienada o tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria domina os campos, e o sapo não tem acesso à própria lagoa, que em tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.

Friedrich Engels: isso mesmo.

Michael Foucault: Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o sapo lavar o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em relação à higiene do pé – bem como de outras áreas do corpo. Somente com a preocupação burguesa em relação às disciplinas –domesticação do corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria possível – é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto, temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade disciplinar.

Max Weber: A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o sapo não lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o sapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente coerente com seu sistema valorativo – a vida na lagoa.

Friedrich Nietzsche: Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela dissimulação – herança de povos mediterrâneos,certamente – uma incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu instinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida pelo europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a mais nítida –e difícil – fronteira entre o Sapo e aquele que está por vir, o Além-do-Sapo: a lavagem do pé.

John Locke: Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o sapo não quer lavar o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé. E ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo, o sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta reconhecida injustiça e opressão.

English: Immanuel Kant Deutsch: Immanuel Kant
English: Immanuel Kant Deutsch: Immanuel Kant (Photo credit: Wikipedia)

Immanuel Kant: O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada faz além de agir segundo sua lei moral universal apriorística, que prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa querer que se torne uma ação universal.

Nota de Freud: Kant jamais lavou seus pés.

Sigmund Freud, founder of psychoanalysis, smok...

Sigmund Freud: Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber alguns dos traços desse problema. De fato, em meus numerosos estudos posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição. A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte de todo conteúdo moral do girino.

Carl Jung: O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o sapo não lava o pé.

Soren Kierkegaard: O sapo lavando o pé ou não, o que importa é a existência. George Hegel: podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética. Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da ignorância absoluta do sapo – em relação à higiene – para uma preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas, cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim da História e o ápice do progresso.

Auguste Comte: O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universais e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento verdadeiro a respeito.

Much of Arthur Schopenhauer's writing is focus...
Much of Arthur Schopenhauer’s writing is focused on the notion of will and its relation to freedom. (Photo credit: Wikipedia)

Arthur Schopenhauer: O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que
uma representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu princípio de razão, parte componente do principio individuationis, a que a sabedoria vedanta chamou “véu de Maya”. A Vontade, que o velho e grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no futuro: “O mundo como vontade e representação”.

Aristóteles. O [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse, estaria fazendo arte . Como [a arte] é digna somente do homem, é forçoso reconhecer que o sapo lava segundo sua natureza de sapo, passando da potência ao ato. O sapo que não lava o pé é o ser que não consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.

Platão:

Górgias: Por Zeus, Sócrates, os sapos não lavam os seus pés porque não gostam da água!

Sócrates: Pensemos um pouco, ó Górgias. Tu assumiste, quando há pouco dialogava com Filebo, que o sapo é um ser vivo, correto?

Górgias: Sou forçado a admitir que sim.

Sócrates: Pois bem, e se o sapo é um ser vivo, deve forçosamente fazer parte de uma categoria determinada de seres vivos, posto que estes dividem-se em categorias segundo seu modo de vida e sua forma corporal; os cavalos são diferentes das hidras e estas dos falcões, e assim por diante, correto?

Górgias: Sim, tu estás novamente correto.

Sócrates: A característica dos sapos é a de ser habitante da água e da terra, pois é isso que os antigos queriam dizer quando afirmaram que este animal era anfíbio, como, aliás, Homero e Hesíodo já nos atestam. Tu pensas que seria possível um sapo viver somente no deserto, tendo ele necessidade de duas vidas por natureza,ó Górgias?

Górgias: Jamais ouvi qualquer notícia a respeito.

Sócrates: Pois isto se dá porque os sapos vivem nas lagoas, nos lagos e nas poças, vistos que são animais, pertencem e uma categoria, e esta categoria é dada segundo a característica dos sapos serem anfíbios.

Górgias: É verdade.

Sócrates: precisando da lagoa, ó Górgias meu caro, tu achas que seria o sapo insano o suficiente para não gostar de água?

Górgias: não, não, não, mil vezes não, ó Sócrates!

Sócrates: Então somos forçados a concluir que o sapo não lava o pé por outro motivo, que não a repulsa à água

Górgias: de acordo

Diógenes, o Cínico: Dane-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.

Parmênides de Eléia: Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o movimento não existe?

Heráclito de Éfeso: Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanência das coisas.

Epicuro: O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a circunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja da dor.

Estoicos: O sapo deve lavar seu pé de acordo com as estações do ano. No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão, lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.

Descartes: nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento e extensão. O sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar seus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa de corda.

Nicolau Maquiavel: A lavagem do pé deve ser exigida sem rigor excessivo, o que poderia causar ódio ao Príncipe, mas com força tal que traga a este o respeito e o temor dos súditos. Luís da França, ao imperar na Itália, atraído pela ambição dos venezianos, mal agiu ao exigir que os sapos da Lombardia tivessem os pés cortados e os lagos tomados caso não aquiescessem à sua vontade. Como se vê, pagou integralmente o preço de tal crueldade, pois os sapos esquecem mais facilmente um pai assassinado que um pé cortado e uma lagoa confiscada.

Jacques Rousseau: Os sapos nascem livres, mas em toda parte coaxam agrilhoados; são presos, é certo, pela própria ganância dos seus semelhantes, que impedem uns aos outros de lavarem os pés à beira da lagoa. Somente com a alienação de cada qual de seu ramo ou touceira de capim, e mesmo de sua própria pessoa, poder-se-á firmar um contrato justo, no qual a liberdade do estado de natureza é substituída pela liberdade civil.

Max Horkheimer e Theoror Adorno: A cultura popular diferencia-se da cultura de massas, filha bastarda da indústria cultural. Para a primeira, a lavagem do pé é algo ritual e sazonal, inerente ao grupamento societário; para a segunda, a ação impetuosa da razão instrumental, em sua irracionalidade galopante, transforma em mercadoria e modismo a lavagem do pé, exterminando antigas tradições e obrigando os sapos a um procedimento diário de higienização.

Antonio Gramsci: O sapo, e além dele, todos os sapos, só poderão lavar seus pés a partir do momento em que, devido à ação dos intelectuais orgânicos, uma consciência coletiva principiar a se desenvolver gradativamente na classe batráquia. Consciência de sua importância e função social no modo de produção da vida. Com a guerra de posições – representada pela progressiva formação, através do aparato ideológico da sociedade civil, de consensos favoráveis – serão criadas possibilidades para uma nova hegemonia, dessa vez sob a direção das classes anteriormente subordinadas.

Norberto Bobbio: existem três tipos de teoria sobre o sapo não lavar o pé. O primeiro tipo aceita a não-lavagem do pé como natural, nada existindo a reprovar nesse ato. O segundo tipo acredita que ela seja moral ou axiologicamente errada. A terceira espécie limita-se a descrever o fenômeno, procurando uma certa neutralidade.

Liberal de Orkut (esse indivíduo cada vez mais anônimo): o sapo não lava o pé por ser um indivíduo liberto da opressão estatal. Mas qualquer coisa é só arrumar um emprego público e utilizar o lavado do Leviatã!

SOBRE SEU AUTOR:

O autor deste texto é Carlos Frederico Pereira da Silva Gama e foi publicado pela primeira vez no site Usina de Letras.

Julio Cortazar

 

Julio Cortázar
Julio Cortázar (Photo credit: Wikipedia)

La vuelta al día en ochenta mundos
Editorial RM – 2010 Rústica – 214 págs. 132 ilustraciones

La solicitud de Arnaldo Orfila a Julio Cortázar de algún texto para publicar en su nueva editorial – Siglo XXI – dio origen a: La vuelta al día en ochenta mundos y Último Round, dos libros que conforman un proyecto compartido con el artista Julio Silva.Julio Cortázar recogió una serie de textos dispersos, algunos ya publicados en revistas difíciles de encontrar o simplemente desaparecidas, tales como: El Corno Emplumado, Eco Contemporáneo, La Revista de la Casa de las Américas,…., y con la ayuda de Julio Silva compuso una especie de collage, suerte de diálogo entre textos e imágenes que conforman dos libros inclasificables y absolutamente imprescindibles en la bibliografía cortazariana y en la literatura latinoamericana del s.XX.La vuelta al día en ochenta mundos se publicó en 1967 y dos años más tarde, en 1969, Último Round. Buena parte de los textos que componen los dos libros, son básicos para comprender la obra de Cortázar, su relación con la música y especialmente con el jazz: Louis enormísimo cronopio, La vuelta al piano de Thelonius Monk, Clifford; con el boxeo: El noble arte, Descripción de un combate; con el humor: De la seriedad en los velorios, Las buenas inversiones, Patio de tarde; con la literatura: Del cuento breve y sus alrededores; con la política: Acerca de la situación del intelectual latinoamericano; con sus –y nuestros- cronopios: Viaje al un país de cronopios; y con el conjunto de su obra: Casilla del camaleón.El diseño de los libros realizado por Julio Silva, convierte los textos en collages y la lectura en uno de los juegos que tanto gustaban a Cortázar.

La vuelta al día en ochenta mundos se asemeja a un viejo almanaque con dibujos procedentes de libros antiguos y fotografías entrelazadas con los textos.

Último Round tiene un formato único, con dos pisos que permiten al lector jugar con los textos y las imágenes de forma múltiple.

Los dos libros sorprenden por su modernidad y por encima de todo están rodeados por la mezcla de humor, libertad y rigor que marca el conjunto de la obra de Julio Cortázar.Las ediciones originales de La vuelta al día en ochenta mundosy Último Round con el diseño de Julio Silva, actualmente son inhallables y son joya preciada de bibliófilos y coleccionistas de libros. Después de más de treinta años sin reimprimirse, RM pone a disposición de los lectores La vuelta al día en ochenta mundos y Último Round en el formato original concebido por Julio Cortázar y Julio Silva.Otras ediciones:

México, Siglo XXI Editores, 1967. Ensayo, poesía y cuentos.

Madrid, Siglo XXI Editores, 1970 (edición de bolsillo, 2 volúmenes).

Madrid, Debate, 1991.Traducciones:

Inglés: Around the day in eighty worlds. Traducción de Thomas Christensen, 1986. San Francisco, North Point Press.

Polaco: W osiemdziesiat swiatow dokola dnia. Traducción de Zofia Chadzynska, 1976. Varsovia, Czyltenik.

Holandés: Reis om de dag in tachtig werelden. Traducción de Barber van de Pol. Ámsterdam, Meulenhoff.

Alemán: Reise um den Tag in 80 Welten. Traducción de Rudolf Wittkopf, 1980. Franfurt, Suhrkamp.

Francés: Le tour du jour en quatre-vingts mondes. Traducción de Laure Guille-Bataillon, 1980. París, Gallimard.

 

 

Aforismos

“Os deuses precisam existir para que nós tenhamos contra quem nos rebelar impunemente!”

“As artimanhas de dominação dos homens são vistas por eles como direitos adquiridos.”

“Nossa identidade reside entre os sins e os nãos que somos capazes de dar”

Thaís de Godoy Morais

SONETO XI

Danilo Sérgio Borges

No sol a pino é que finjo a madrugada

como disse o poeta e o cancioneiro

na ilusão do limite pressinto a estrada

e sou todo liberdade, sou prisioneiro.

 

Essa condição de ser contrário é destarte

e tem um não sei quê de verdade; inteiro

vou me reconhecendo em qualquer parte,

em que não possa mirar-me pelo espelho.

 

E de tanto ser o oposto desta outra face

que ora se-me-veste tanto e tão me serve

assumo este outro rosto que me restou.

 

E quem sabe num instante, o desenlace

deste mistério secreto em mim reserve,

à carne viva do inconsciente, O QUE SOU!

 

São Paulo, 2013.

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