Bares, cafés e clubes, a partir do século XIX, não eram apenas um ambiente para a happy hour. Eles foram o cenário onde questões políticas, filosóficas, movimentos artísticos revolucionários se espalharam. O propósito deste site é o mesmo: criar um espaço virtual para expressão livre de ideais, reflexões e sentimentos, com espírito crítico em relação a nossa Cultura.
L'après-midi d'un faune (A tarde de um fauno) é um dos poemas mais famosos de Stéphane Mallarmé, escrito em 1865 e publicado onze anos depois, com ilustrações do pintor impressionista Edouard Manet. O poema conta a história, em clima sensual, de um fauno que toca sua flauta nos bosques e fica excitado com a passagem de ninfas e náiades, mas tenta alcançá-las em vão. Então, cansado e triste, cai em um sono profundo e passa a sonhar com visões que o levam, afinal, a atingir os objetivos que não tinha alcançado dentro da realidade.
A tarde de um fauno
Stéphane Mallarmé
(Écloga 1865-1875)
O fauno:
Estas ninfas quero eu perpetuar.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no duro ar
pesando a sopor.
Foi um sonho o que amei?
Massa de velha noite, essa dúvida,sei,
muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que enganado
tomava
por triunfo,afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.
Quem sabe as mulheres que glosas
são configurações de anseios que possuis?
Repara na ilusão que emana dos azuis
e frios olhos,fonte em pranto, da mais
casta
Suspiros, toda, a outra - alegas que contrasta,
como brisa diurna e tépida que passa?
Mas não! Neste desmaio imóvel, lasso - ameaça
a todo matinal frescor de suave fama
se uma fonte murmura, esta flauta a derrama
no vizinho silvedo, irrigando-o de acordes;
nenhum vento aqui faz, senão os sopros concordes desta avena que o som em chuva árida espalha,
e senão no horizonte, em sua calma sem falha,
o sereno bafor da pura inspiração,
visível, regressando ao céu, por ascensão.
Ó plagas sículas e calmas, da lagoa,
que saqueadas tem minha vaidade, à toa,
e tácita- no amor das flores destes páramos –DIZEI
"que aqui me achava em busca destes cálamos sonoros
quando além, por entre as brandas linhas
de ouro glauco, a fulgir nas fontes e nas vinhas,
eis ondeia uma alvura. animal em repouso;
mas que logo também, ao lento e langoroso
prelúdio linear da avena de cinabre
vôo, de cisnes não, de náiadas se abre."
A hora fulva que arde inerte não revela
a astúcia, de intenções de aliciação tão bela.
Sinto-me despertar sob um fervor de antanho,
onda antiga de luz envolvendo-me em banho,
eu, lírio, um dentre vós segundo a ingenuidade!
Mais que o nada tão doce, essa espontaneidade,
beijo, sussurro suave e soma de perfídia,
meu corpo, sem mais prova, atesta ainda, insídia,
uma oculta mordida augusta, de alto dente;
mas, vede, arcano tal tomou por confidente
o gêmeo junco, par que sob o azul se soa;
que recebendo em si o sôpro, logo entoa
e sonha, em solo longo e leve, que a beleza
em derredor está a mudar-se com presteza
dentro na confusão de si mesma e do canto;
e nas modulações altas de amor,entanto
evanescendo esvai-se apaga-se a teoria
clara, de dorsos e de flancos; ó magia
de uma sonora e vã monótona mesmice!
Frauta maligna, órgão de fugas, sem ledice,
vai, fístula, florir no lago e ali me aguarda.
Eu, cheio de rumor altivo, já me
tarda
falar de deusas; por idólatras pinturas,
de suas sombras irei tomar-lhes as cinturas.
Assim, quando ao racimo extraio-lhe a substância /sorvo
e contra a mágoa apuro a minha vigilância,
e rindo soergo no ar o já vazio cacho
e, na pele de luz assoprando, eu me
acho
-ébrio- capaz de então a tarde toda o olhar.
Outras RECORDAÇÕES, vamos, ninfas, lembrar
“Meus olhos entre o junco... além uma
figura
imortal que se banha e a cálida brancura
luminosa do corpo em onda leve imerge.
Sôbre o áureo esplendor dos cabelos converge
um claror e um fremir de fulva
pedraria!
Corro; mas a meus pés, jungidas na agonia
do langor
deste mal de serem dois em um,
vejo duas dormindo, em abraço
comum.
Como estavam tomei e trouxe a esta eminência
desamada da sombra e dela sem frequência;
aqui se esvai ao sol das rosas o perfume;
mas para o nosso embate a força aqui me assume."
Ó furor virginal, eu te adoro, ó concisa
fúria de corpo nu, fardo nu que desliza
fugindo ao lábio ardente e a refulgir livores
de ampla trepidação da carne em seus pavores!
E isso, da inumana à tímida que vê
já perdida a inocência e dos olhos
revê
uma lágrima louca ou um tanto menos triste.
"Meu crime foi querer, na fôrça que me assiste,
apartar dividir um tufo desgrenhado
de beijos e de amor, dos deuses bem guardado.
Na hora em que esconder eu ia o riso ardente
na feliz maciez de urna, só - e contente
procuro no condor de pluma em que
se agita
o sabor da emoção que vívida palpita
na sua ingênua irmã, pequena, que não cora
eis de meus braços que se esquecem foge fora
tal ingrata cruel, que na impiedade esfria
a estuosa ebriez em que me consumia."
Foi pena. Irei buscar alhures a
esperança
de em meus chavelhos ver, enastrada, uma trança.
Bem sabes, ó paixão, que rubras mui vermelhas
cada cereja abriu seu murmurar de abelhas.
E o nosso sangue vai, enviado em seu ensejo, percorrendo o pendor eterno do desejo.
Na hora em que de ouro e cinza este
bosque
se pinta logo em festa se exalta a folharia extinta.
Ó Etna, é junto a ti! Vênus vem pelos ares.
Leve na lava pousa ingênuos colcanhares
enquanto sonolento as chamas tens em
calma.
Tenho pois a rainha!
Ó dura pena...
A alma
de palavras vazia e o corpo em letargia
sucumbem afinal ao fero meio-dia.
Cumpre dormir assim, no olvido, de mansinho,
deitado nesta areia.
Ó que delicia ao vinho
a boca oferecer e a seu astro eficaz!
Par, adeus: Quero ver como ûa sombra se faz.
Belo Horizonte, 18.08.1959
[Nota do tradutor: "relida em 02.1963 e achada ruim"]
lê, e escreve e relê e reescreve, e come, e fuma, e toma café, e recomeça o trabalho, e recava buracos no cranio, e cavouca aqui, alí, e anda, e pensa, e vai olhar na janela, enquanto há janelas, e imagina, e volta para o texto, e recomeça tudo de novo, e novas páginas escritas, e possui talento para a coisa, e abre caminhos, e pensa na árvore que não plantou, e no livro que não escreveu, e folheia Lautrèamont, e liga o som, e dança, e se olha no espelho, e abre a geladeira, e esquece que falta comprar bebidas e cigarros, e sai, e entra no supermercado, e compra as bebidas mais fortes, e olha as moças na rua, e pega o bonde andando, e se deixa maravilhar com as coisas simples da vida, e sorri, e dá apertos de mão quando encontra camaradas, e conversa sobre assuntos de extrema importância relativa aos descaminhos da humanidade, e convence um amigo da validade do suicídio, e distorce o que foi torcido, e rivaliza contra javalis que entram na sala, e questiona as provas da validade da existência das formigas que carregam nas costas migalhas do pão de Deus, e arruma motivos para se livrar dos ventos das paixões da vida, e luta com as sombras das vagas que nos assaltam e assombram, e assiste filmes expressionistas do início do séc. XX na quinta feira a noite, e discute a possibilidade de um mundo impossível, e tira do escuro o que está oculto, e sepulta os mortos, e procura nexos e novas pastas de músicas no computador, e ouve músicas, e se alheia do mundo, e nota que as máquinas fazem ruídos estranhos quando masturbadas, e espera o telefone tocar, e deixa a semana passar como um bonde em alta velocidade, e recebe convites que ignora, e retorna a si, e se fecha no quarto escuro, e mexe em papéis antigos, e redescobre um álbum de fotografias repleto de significados extra-sensoriais, e deixa por um momento a tristeza ir embora, e abre a porta pra tristeza voltar, e continua firme nos propósitos insólitos, e desanima, e pensa no curso sombrio das coisas, e queima igrejas, e releva o que fácil vem e o que fácil vai, e puxa fios invisíveis de pensamento de dentro do nada, e vem tudo de uma vez o tédio a angústia e o nada, e diz sim quando é para dizer não, e diz não quando é para dizer sim, e saúda o sol, a lua, as estrelas, a chuva, os relâmpagos, os ventos, e gosta de ver o fogo queimar, o amarelo embaixo e azul dançando em cima, e divaga na solidão o acerbo e o mavioso, e percebe a expansão do amor sobre o egoísmo, e deixa de lado o despotismo, e anarquiza, e pratica pequenos delitos, e esquizo, e fode, e sem desespero espera a hora sagrada do gozo, e ama a moça desiludida, e idealiza um mundo melhor, e protesta, e contesta, e revê conceitos, e se auto-critica, e se recoloca no seu lugar, e escreve cartas de injúrias contra o bem e a favor do caos, e recebe respostas cortadas de santos ignorantes, e volta no tempo, e nega com força toda forma expressiva de autoritarismo, e destrói o fascismo, e cria novas aberturas, novas fendas, novas sendas, novos caminhos para a saída de um modo nocivo de compreender a vida, e percebe que há os clássicos entre Homero e os irmãos Campos, e arrasta o rosto no concreto, e desnormaliza o que as normas atrofiam, e chama qualquer um para duelo ao anoitecer, e desafia a fio de espada qualquer deus do Olimpo, e não gosta, por uma questão de princípios, da banda The Exploited!
Santiago do Chile é a terceira cidade que visita buscando poetas. Depois parte ruma ao Uruguai
Partiu em janeiro deste ano e estima que toda a viagem levará cerca de dois anos. O projeto é chamado “Em busca de Poetas” e consiste em fazer uma turnê pela América Latina em busca de poetas inéditos, com os quais finalmente será publicado um livro.
Texto de Marco Fajardo, trad. livre de Thaís de Godoy Morais
O escritor colombiano Eduardo Bechara está atualmente em Santiago, sua parada número 33 de 141 pontos, em sua viagem que o fará viajar da Patagônia até Caracas, em busca de poetas inéditos para publicação de uma antologia latino-americana.
Em uma tarefa titânica, no caso do Chile, Bechara esteve em cidades como Los Angeles ou Ancud para entrevistar autores locais e conhecer as suas criações. Agora está em Santiago (já se comunicou com José Ángel Cuevas e Antonio Rioseco).
Ele saiu em janeiro deste ano e estima-se que todo o trajeto lhe tomará cerca de dois anos. O projeto “Em busca de poetas” pretende coletar dois mil poemas em um percurso de 26 mil quilômetros. Bechara não procura qualquer poeta, mas aqueles para quem “a poesia é parte integrante de suas vidas”.
O autor, que estudou direito e literatura na Universidade dos Andes, na Colômbia, também tem planos de publicar uma antologia de poetas consagrados e um terceiro livro com suas experiências de viagem (pode ser lido em
O projeto surgiu em 2010, quando Bechara estava em Córdoba, Argentina, visitando outro Eduardo Bechara que surpreendentemente também é escritor e inclusive se parece fisicamente, embora eles não sejam parentes.
“Falávamos do pouco reconhecimento dado aos artistas em geral e aos poetas em particular. Nós tínhamos experimentado na pele a forma que, quando nos assumimos como artistas, como escritores, começaram a nos ver com olhos diferentes, desconfiados, porque, quando uma pessoa assume uma vida diferente, fora do cotidiano, e fora do que a sociedade quer impor, as pessoas, que fazem parte desse sistema começam a olhar de forma depreciativa ou pejorativa. Entre outras coisas porque também não te entendem qual é a sua luta, e te olham como um pobre diabo, porque você não tem os meios, não tem dinheiro, sua vida não está destinada a enriquecer”, explica.
Foi, então, que começamos a fantasiar com a ideia de uma viagem pela América do sul “buscando poetas e dando-lhes o reconhecimento que merecem, dizendo-lhas ‘olhe, o que você faz é importante e aqui estou eu entrevistando e falando com você para que saiba disso’ dando-lhes o crédito que merecem”.
“Os poetas são importantes para mim porque são seres capazes de ver mais além do evidente” acrescenta. “Vão ao centro das coisas e desentranham suas verdades. O fato de que ninguém lhes dê reconhecimento, ou pior, até mesmo, os vejam com maus olhos ao invés de apreciá-los, me faz reivindicá-lo.”
Quixotesco
De volta à Colômbia, Bechara montou um projeto e saiu em busca de financiamento entre empresas que podiam trocar por isenção fiscal. E obteve êxito: uma delas, Pavimentos Colômbia, lhe deu apoio para sua “quixotesca” ideia, da qual podia sair “algo muito bonito”, segundo executivos.
Foi assim que Bechara voou a Buenos Aires. Graças a duas publicações ali já possuía uma rede de amigos do meio literário e através do Facebook pode difundir a ideia do projeto. Uma poetisa local, Viviana Abnur, lhe deu alguns contatos patagônicos e então voou a Ushuaia, no extremo sul da Argentina, para começar seu trabalho.
Os métodos de busca vaiam de uma cidade para outra. “Se conheço os poetas mais representativos do local, deixo que eles me levem aos inéditos. Se não conheço nenhum vou à Casa de Cultura ou às bibliotecas. Ali me ajudam a entrar em contato com eles”, comenta Bechara.
Em geral, tem funcionado da seguinte forma: os poetas mais conhecidos o apresentam a outros inéditos. Foi justamente o contato constante e quase imprescindível com os primeiros o que fez com que Bechara decidisse criar um segundo livro, uma antologia dos consagrados. Isso fez com que se decidisse a estender o projeto que era de seis meses a um ano para pelo menos dois anos.
Bechara cruzou o Chile por Osorno em 10 de julho e, depois de visitar Chiloé, começou a subir até chegar a nossa capital (passou por Puerto Montt, Puerto Varas, Valdivia, Pucón, Villarrica, Temuco, Concepción, Los Ángeles, Chillan, Talca, San Fernando e Santa Cruz). Em Santiago ficará umas três semanas para ver ao menos cem poetas. Logo se dirigirá a Viña del Mar e Valparaíso.
Posteriormente, voltará à Argentina para ir à Mendonza e Buenos Aires e depois a Montevidéu. Seguirá para Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e finalmente a costa venezuelana.
A ideia é que, quando termine a viagem e a compilação do material, um jurado internacional, integrado pelos poetas colombianos Eduardo Escober, Elkin Restrepo e os argentinos Fernando Noi, Santiago e Gaciela Cros, selecione os poemas e que em cada país uma editora independente publique a antologia.
Os poetas chilenos
De que falam os poetas, ao menos os que conheceu até agora?
Um dos principais temas são as circunstâncias da ditadura.No Chile, na poesia a ditadura se assume como um desses terremotos que sacode o território chileno, da mesma forma que a sociedade foi fragmentada” diz. “isso é muito repetido entre diferentes poetas”
Outros temas são “o feminino, o feminista, o gay”, assim como “o mapuche” (Bechara falou com diversos poetas mapuches, como Elicura Chihuailaf, Roxana Miranda, Lionel Lienlaf, Javier Milanca, Cristián Antillanca, e espera encontrar com Jaime Huenún) e o lírico (a volta à infância, a melancolia das perdas como na obra de Jorge Teillier) . Neste último tema se destaca Bernando Gonzalez Koppmann, um poeta de Los Angeles, em Talca.
Para Bechara uma das características da poesia chilena é “que vai direto às feridas, sem palavras suaves. Não utiliza eufemismos, a não ser para chamar as coisas por seu nome. Não lhe interessa usar suavizantes, como ocorre em outros lugares da América Latina. Aqui, quanto mais se põe o dedo na ferida melhor”.
English: Photograph of Noam Chomsky (Photo credit: Wikipedia)
Do Correio da Cidadania
Em entrevista exclusiva para o portal britânico Cessar Fogo (Ceasefire), o renomado intelectual Noam Chomsky falou com Frank Barat sobre a situação atual no Oriente Médio, em particular a crise da Síria, as negociações de paz entre Israel e os palestinos e o papel do poder dos EUA na região. “Se os EUA e Israel quisessem ajudar os rebeldes – não o fazem – poderiam fazê-lo sem intervenção militar”.
Leia a entrevista completa:
Qual é a definição das negociações entre Israel e Estados Unidos e porque a Autoridade Palestina (AP) continua a prestar-se a isso?
Do ponto de vista dos EUA, as negociações são, com efeito, um caminho para Israel continuar a sua política de tomar sistematicamente tudo o que quiser na Cisjordânia, mantendo o assédio brutal de Gaza, separando Gaza da Cisjordânia e, claro, ocupando os Montes Golã sírios, tudo com pleno apoio dos EUA. E o marco das negociações, igualmente aos últimos 20 anos de experiência de Oslo, simplesmente proporcionou o encobrimento desta situação.
Em sua opinião, por que a Autoridade Palestina (AP) continua a jogar esse jogo?
Provavelmente, em parte, por desespero. Podemos nos perguntar se é a decisão correta, mas ela não tem muitas alternativas.
Definitivamente, a AP aceita esse marco apenas para sobreviver?
Se ela se nega a negociar, tal como propõem os Estados Unidos, a sua base de apoio seria derrubada. A AP sobrevive essencialmente à base de doações. Israel assegurou que ela não tenha uma economia produtiva. É uma espécie do que em ídiche se chamaria “Sociedade Schnorrer”: pede emprestado e vive do que puder conseguir.
Se a AP tem outra alternativa, não está claro, mas se rejeitar a exigência dos EUA de acudir às negociações em condições totalmente inaceitáveis, a sua base de apoio iria erodir-se. E não tem apoio – externo – suficiente para que a elite palestiniana possa viver de maneira bastante decente – por tabela pródiga – no seu estilo de vida, enquanto a sociedade que a rodeia cai aos pedaços.
Desse modo, seria negativa a queda e desaparição da AP, depois disso tudo?
Depende do que vier a substituí-la. Se fosse permitido a Marwan Barghouti, por exemplo, unir-se à sociedade da forma como fez, por exemplo, Nelson Mandela, poderia ter um efeito dinamizador na organização de uma sociedade palestiniana, que poderia pressionar por exigências mais importantes. Mas lembre-se que eles não têm muitas opções.
De facto, se nos remetemos ao princípio dos Acordos de Oslo, há 20 anos, havia negociações em curso, as negociações de Madrid, nas quais a delegação palestiniana era encabeçada por Haider Abdel-Shafi, uma figura muito respeitada da esquerda nacionalista palestiniana. Abdel-Shafi negava-se a aceitar os termos dos EUA e Israel, que lhes permitiam fundamentalmente a continuidade da expansão dos colonatos. Negou-se, e as negociações estancaram sem chegar a lugar algum.
Enquanto isso, Arafat e os palestinianos do exterior foram paralelamente a Oslo, ganharam o controlo e Haider Abdel-Shafi opôs-se de forma tão contundente que nem sequer se apresentou à dramática cerimónia sem sentido, onde Clinton sorria enquanto Arafat e Rabin apertavam as mãos. Abdel-Shafi não se apresentou porque se deu conta de que era uma traição absoluta. Mas baseava-se em princípios e, portanto, não poderia chegar a nenhuma parte, a menos que conseguisse um importante apoio da União Europeia, dos Estados do Golfo e em última instância dos EUA.
O que acha que realmente está em jogo na Síria neste momento e o que significa para a região em geral?
A Síria está a suicidar-se. É uma história de terror e cada vez está pior. Não há uma saída no horizonte. O que provavelmente acontecerá, se continuar assim, é que a Síria será dividida em três regiões: uma região curda – que já está a formar-se – que poderia separar-se e unir-se de alguma maneira ao semi-autónomo Curdistão iraquiano, talvez com algum tipo de acordo com a Turquia.
O resto do país se dividiria entre uma região dominada pelo regime de Assad – um regime brutal, horrível – e outra secção dominada pelas diversas milícias, que vão desde o extremamente nocivo e violento até ao secular e democrático. Se olharmos o que saiu no New York Times, há uma citação de um funcionário israelita que expressa essencialmente a sua alegria de ver os árabes massacrando-se uns aos outros.
Sim, eu li.
Para os Estados Unidos, assim está bom, não querem outro tipo de saída. Se os EUA e Israel quisessem ajudar os rebeldes – não o fazem – poderiam fazê-lo, inclusive, sem intervenção militar. Por exemplo, com Israel mobilizando forças nos Montes Golã (claro, são as montanhas do Golã da Síria, mas por agora o mundo, mais ou menos, tolera ou aceita a ocupação ilegal de Israel). Se fizessem isso, obrigariam Assad a mover forças até ao sul, o que aliviaria a pressão sobre os rebeldes. Mas não há nenhum indício sequer disso. Mesmo assim, não estão a dar ajuda humanitária à grande quantidade de refugiados que sofrem, não estão a fazer nenhuma das coisas simples que poderiam fazer.
Tudo isso sugere que tanto Israel como os EUA preferem exatamente o que está a acontecer, tal como informava o NYT que mencionámos. Enquanto isso, Israel pode celebrar, a sua condição do que chamam de “cidade na selva”. Houve um interessante artigo do editor do Haaretz, Aluf Benn, que escreveu sobre como os israelitas vão à praia, desfrutam e congratulam-se de serem uma “cidade na selva”, enquanto as bestas selvagens de fora se desgarram entre si. E, claro, Israel, sob essa imagem, não está a fazer nada, exceto defender-se. Eles gostam dessa imagem e os EUA tampouco parecem muito descontentes com ela. O resto é conversa.
Assim, podemos falar de um ataque dos EUA, você acredita que ocorra?
Um bombardeamento?
Sim.
É uma espécie de debate interessante nos Estados Unidos. A ultra-direita, os extremistas da direita, que são uma espécie de espectro internacional, opõem-se, ainda que não seja pelas razões que me agradariam. Opõem-se porque pensam: “por que se dedicar a resolver os problemas dos outros e perder os nossos próprios recursos?” Estão literalmente a perguntar: “quem nos vai defender quando nos atacarem, se nós mesmos estamos dedicados a ajudar outros países, no estrangeiro?” Essa é a ultra-direita. Se nos fixamos na direita “moderada”, gente como, por exemplo, David Brooks, do New York Times, considerado um comentarista intelectual de direita, o seu ponto de vista é de que o esforço dos EUA em retirar as suas forças da região não está a ter um “efeito moderador”. Segundo Brooks, quando as forças norte-americanas estão na região, isso tem um efeito moderador, melhora a situação, como se pode ver no Iraque, por exemplo. Mas se vamos retirar as nossas forças, então já não somos capazes de moderar e melhorar a situação.
Essa é a visão normal da direita intelectual na corrente principal, os democratas liberais e outros. De modo que há um monte de indagações sobre como “devemos exercer a nossa ‘responsabilidade de proteger’”. Bom, basta dar uma olhada nos registos históricos dos EUA sobre a ‘responsabilidade de proteger’. O facto, inclusive, de dizer tais palavras revela algo de, certamente, insólito nos EUA e, de facto, na cultura moral e intelectual do Ocidente.
Isso é, à parte do facto em si, uma grave violação do direito internacional. A última linha de Obama é que ele não estabeleceu uma “linha vermelha”, mas que o mundo a estabeleceu, por meio das suas convenções sobre a guerra química. Bom, na verdade o mundo tem um tratado, que Israel não assinou e que os EUA descuidam totalmente – por exemplo, quando apoiaram o uso, realmente horrível, de armas químicas por Saddam Hussein. Hoje, isso é utilizado para denunciar Saddam Hussein, ignorando o facto de que não só se tolerava, mas, basicamente, havia o apoio do governo de Reagan. E, claro, a convenção não tem mecanismos de aplicação de sanções.
Tampouco existe o que se denomina ‘responsabilidade de proteger’, isso é uma fraude promovida na cultura intelectual do Ocidente. Há um conceito, na verdade dois: um aprovado pela Assembleia Geral da ONU, que se refere à ‘responsabilidade de proteger’, mas que não oferece nenhuma autorização a qualquer tipo de intervenção, exceto nas condições da Carta das Nações Unidas. Outra versão, que se aprovou só por parte do Ocidente, os EUA e os seus aliados, que é unilateral e diz que tal responsabilidade permite a “intervenção militar das organizações regionais na região da sua autoridade, sem a autorização do Conselho de Segurança”.
Pois bem, traduzindo, isso significa que se proporciona a autorização aos EUA e à NATO de utilizarem a violência aonde quiserem, sem autorização do Conselho de Segurança. Isso é o que se chama ‘responsabilidade de proteger’ no discurso ocidental. Se não fosse tão trágico, seria ridículo.
Frank Barat é coordenador do Tribunal Russell sobre a Palestina. O seu livro “Gaza in Crisis: Reflections on Israel’s War Against the Palestinians”, com Noam Chomsky e Ilan Pappe, já está disponível. A edição francesa do livro, publicada em 2013, conta com uma extensa entrevista com Stephane Hessel.
Entrevista originalmente publicada no portal Ceasefire. Tradução para espanhol de Rebelióne para português de Gabriel Brito, do Correio da Cidadania.