“Literatura não é Teoria, é Paixão”

Ligações-perigosas-stephen-frears-2-final

Tzvetan Todorov

O filósofo Tzvetan Todorov afirma que o excesso de “ismos” afasta os jovens da leitura, e diz que a principal função de um professor é ensinar o aluno a amar os livros
por Anna Carolina Mello e André Nigri

Nascido em 1939 em Sófia, na Bulgária, e naturalizado francês, o filósofo e linguista Tzvetan Todorov é um dos mais importantes pensadores do século 20. Traduzida para mais de 25 idiomas, sua obra inspira críticos literários, historiadores e estudiosos do fenômeno cultural do mundo todo. Em seu mais recente livro publicado no Brasil, A Literatura em Perigo, Todorov faz um mea culpa raro entre intelectuais. Ele diz que estudos literários como os seus, cheios de “ismos”, afastaram os jovens da leitura de obras originais – dando lugar ao culto estéril da teoria. De Paris, ele falou a BRAVO! por telefone:

BRAVO!: Gostaria que o sr. falasse sobre o seu primeiro contato com a literatura quando criança, e como ela se transformou em uma paixão.

Tzvetan Todorov: Eu cresci na Bulgária durante a Segunda Guerra, quando quase ninguém vivia em Sófia, sob constante bombardeio. A maior parte da população vivia fora da capital, em apartamentos divididos por várias famílias. Dentro da coletividade em que habitávamos, havia um especialista em literatura. Foi ele que me ensinou a ler, antes que eu atingisse a idade escolar. Ele me incentivou a praticar a leitura nos livros infantis, e logo comecei a gostar dos contos populares. Apreciava especialmente as histórias dos irmãos Grimm e As Mil e Uma Noites. Essas obras faziam minha alegria. Eu já tinha um sentimento do enriquecimento pessoal que o contato com a ficção podia proporcionar.

Por que o contato com a ficção é tão importante?

Os livros acumulam a sabedoria que os povos de toda a Terra adquiriram ao longo dos séculos. É improvável que a minha vida individual, em tão poucos anos, possa ter tanta riqueza quanto a soma de vidas representada pelos livros. Não se trata de substituir a experiência pela literatura, mas multiplicar uma pela outra. Não lemos para nos tornar especialistas em teoria literária, mas para aprender mais sobre a existência humana. Quando lemos, nos tornamos antes de qualquer coisa especialistas em vida. Adquirimos uma riqueza que não está apenas no acesso às idéias, mas também no conhecimento do ser humano em toda a sua diversidade.

E como fazer para que as crianças e os jovens tenham acesso a esse conhecimento tão importante?

A escola e a família têm um papel importante. As crianças não têm idéia da riqueza que podem encontrar em um livro, simplesmente porque eles ainda não conhecem os livros. Deveríamos então ser iniciados por professores e pais nessa parte tão essencial de nossa existência, que é o contato com a grande literatura. Infelizmente, não é bem assim que as coisas acontecem.

Por quê?

Quando nós professores não sabemos muito bem como fazer para despertar o interesse dos alunos pela literatura, recorremos a um método mecânico, que consiste em resumir o que foi elaborado por críticos e teóricos. É mais fácil fazer isso do que exigir a leitura dos livros, que possibilitaria uma compreensão própria das obras. Eu deploro essa atitude de ensinar teoria em vez de ir diretamente aos romances, por que penso que para amar a literatura – e acredito que a escola deveria ensinar os alunos a amar a literatura – o professor deve mostrar aos alunos a que ponto os livros podem ser esclarecedores para eles próprios, ajudando-os a compreender o mundo em que vivem.

Ao comentar esse assunto no livro, o sr. fala em “abuso de autoridade”. Poderia explicar melhor?

É um abuso de autoridade na medida em que é o professor quem decide mostrar aos alunos o que é importante, com base em um programa definido previamente pelo Ministério da Educação. E isso é sempre uma decisão arbitrária. Não temos o direito de reduzir a riqueza da literatura. O bom crítico – e também o bom professor – deveria recorrer a toda sorte de ferramentas para desvendar o sentido da obra literária, de maneira ampla. Esses instrumentos são conhecimentos históricos, conhecimentos linguísticos, análise formal, análise do contexto social, teoria psicológica. São todos bem-vindos, desde que obedeçam à condição essencial de estar submetidos à pesquisa do sentido, fugindo da análise gratuita.

Como conciliar esse desejo de liberdade num sistema em que o professor tem que atribuir notas, como ocorre no Brasil e na França?

Acredito que o essencial é escolher obras literárias que sejam, por sua complexidade e temas, acessíveis à faixa etária a que se destinam. Cabe ao professor mostrar o que esses livros têm de enriquecedor para os alunos, levando em consideração a realidade deles. O importante é não ter medo de estabelecer pontos em comum entre o presente dos alunos e do sentido dos livros.

O escritor italiano Umberto Eco fala que o livro, ao lado da cadeira, é o objeto de design mais perfeito criado pela humanidade. Num momento em que se questiona isso, o senhor vê futuro para o livro?

É verdade que hoje lemos muito diante da tela, mas não acho que o livro vá desaparecer. Ele estabelece uma relação de possessão e de interiorização que nós não podemos estabelecer com algo tão imaterial quanto o texto na tela do computador. Claro que eu mesmo, quando busco uma referência, o faço facilmente diante da tela. Mas se eu desejo me embrenhar em um livro, se eu quiser me render a seu interior, é preciso que seja com o objeto “livro”. A isso ele se presta maravilhosamente.

O LIVROA Literatura em Perigo, de Tzvetan Todorov. Difel, 96 págs., R$ 25.

 

A voz dos Botequins

VERLAINE

A voz dos botequins, a lama das sarjetas,
os plátanos largando no ar as folhas pretas,
o ônibus, furacão de ferragens e lodo,
que entre as rodas se empina e desengonça todo,
lentamente, o olhar verde e vermelho rodando,
Operários que vão para o grêmio fumando
cachimbo sob o olhar de agentes de polícia,
paredes e beirais transpirando imundícia,
a enxurrada entupindo o esgoto, o asfalto liso,
eis meu caminho _ mas no fim há um paraíso.

(A voz dos botequins e outros poemas, trad. Guilherme de Almeida)

Noite Profunda

À noite, a escuridão guarda todas as coisas e o nada ao mesmo tempo.
Como quando fechamos os olhos e vemos o vazio,
ou manchas ou tudo o que podemos imaginar.
Gosto de imaginar o que há além das montanhas
E mais além e mais além e mais além
Do que posso avistar da janela do meu quarto
Ou da janela de um ônibus em movimento.
Só uma nuvem se ilumina.
Afundada no meio do mato uma casinha brilha.
Bem que poderia haver uma cidade inteira escondida atrás do morro
Para que esse casebre  não fique assim tão solitário
No escuro sem porteiras, sem cercas, sem limites.
Todos pensam nisso quando são crianças
Mas depois deixam de imaginar o que poderia haver lá,
Depois daquela montanha,
Que deve ser muito mais formidável do que o que há aqui.
Assim, sem ninguém notar,
O negrume da noite esconde o infinito no horizonte.

Jacareí, 16 de dezembro de 2013.

4944casinha

W. Stephen Cooper: The Play of Light

Avatar de J WaltersCanadian Art Junkie

W. Stephen Cooper’s photography is focused on the subtle play of light moving across the wilderness, showcasing the architecture of the land.  Passage to Great Hall (above) is from a series on Hidden Passages, from the slot canyons of Arizona, captured in traditional fine-grain black and white.

Saguaro Spirit reflects Cooper’s fascination with The Southwest. He also has extensively chronicled the architecture, art and environment of ancient people of The Canyonlands in many locations.

Doors, Aztec Ruin

Wilderness photography and ‘Ghosts & Relics’ form a significant portion of his portfolio.

Cadillac Ranch

Escape Route

Cooper hand prints his photographs, which are then selenium toned for permanence, and archivally matted. His work has appeared extensively in newspapers, magazines and other publications.

W. Stephen Cooper’s website, here.

I examine the textures and patterns which exist in nature, sometimes revealed in the low light of deep canyons, the coarse grain of ancient…

Ver o post original 13 mais palavras

Invictus (Invencível)

Avatar de acropolepoeticaAcrópole Poética

  William Ernest Henley
.
Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado-a-lado
Eu agradeço aos deuses que existem
Por minha alma indomável
.
Nas garras cruéis da circunstância
Eu não tremo ou me desespero
Sob os duros golpes do destino
Minha cabeça sangra, mas não se curva
.
Além deste lugar de raiva e pranto
Paira somente o horror da sombra
E, ainda assim, a ameaça do tempo
Vai me encontrar e há de achar-me, destemido
.
Não importa quão estreito é o portão,
Não importa o tamanho do castigo.
Eu sou o dono do meu destino.
Eu sou o capitão da minha alma.
.
William Ernest Henley
.

Invictus é um poema vitoriano do poeta, crítico e editor inglês William Ernest Henley (1849-1903). Ele foi escrito em 1875 e publicado pela primeira vez em 1888.
Nelson Mandela citou-o como fonte de inspiração durante seu…

Ver o post original 111 mais palavras

A tarde de um fauno

L'après-midi d'un faune (A tarde de um fauno) é um dos poemas mais famosos de Stéphane Mallarmé, escrito em 1865 e publicado onze anos depois, com ilustrações do pintor impressionista Edouard Manet. O poema conta a história, em clima sensual, de um fauno que toca sua flauta nos bosques e fica excitado com a passagem de ninfas e náiades, mas tenta alcançá-las em vão. Então, cansado e triste, cai em um sono profundo e passa a sonhar com visões que o levam, afinal, a atingir os objetivos que não tinha alcançado dentro da realidade.

A tarde de um fauno

Stéphane Mallarmé
(Écloga 1865-1875)

O fauno:

Estas ninfas quero eu perpetuar.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no duro ar
pesando a sopor.
Foi um sonho o que amei?
Massa de velha noite, essa dúvida,sei,
muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que enganado
tomava
por triunfo,afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.

Quem sabe as mulheres que glosas
são configurações de anseios que possuis?
Repara na ilusão que emana dos azuis
e frios olhos,fonte em pranto, da mais
casta
Suspiros, toda, a outra - alegas que contrasta,
como brisa diurna e tépida que passa?
Mas não! Neste desmaio imóvel, lasso - ameaça
a todo matinal frescor de suave fama
se uma fonte murmura, esta flauta a derrama
no vizinho silvedo, irrigando-o de acordes;
nenhum vento aqui faz, senão os sopros concordes desta avena que o som em chuva árida espalha,
e senão no horizonte, em sua calma sem falha,
o sereno bafor da pura inspiração,
visível, regressando ao céu, por ascensão.
Ó plagas sículas e calmas, da lagoa,
que saqueadas tem minha vaidade, à toa,
e tácita- no amor das flores destes páramos­ –DIZEI
"que aqui me achava em busca destes cálamos sonoros
quando além, por entre as brandas linhas
de ouro glauco, a fulgir nas fontes e nas vinhas,
eis ondeia uma alvura. animal em repouso;
mas que logo também, ao lento e langoroso
prelúdio linear da avena de cinabre
vôo, de cisnes não, de náiadas se abre."

A hora fulva que arde inerte não revela
a astúcia, de intenções de aliciação tão bela.
Sinto-me despertar sob um fervor de antanho,
onda antiga de luz envolvendo-me em banho,
eu, lírio, um dentre vós segundo a ingenuidade!

Mais que o nada tão doce, essa espontaneidade,
beijo, sussurro suave e soma de perfídia,
meu corpo, sem mais prova, atesta ainda, insídia,
uma oculta mordida augusta, de alto dente;
mas, vede, arcano tal tomou por confidente
o gêmeo junco, par que sob o azul se soa;
que recebendo em si o sôpro, logo entoa
e sonha, em solo longo e leve, que a beleza
em derredor está a mudar-se com presteza
dentro na confusão de si mesma e do canto;
e nas modulações altas de amor,entanto
evanescendo esvai-se apaga-se a teoria
clara, de dorsos e de flancos; ó magia
de uma sonora e vã monótona mesmice!

Frauta maligna, órgão de fugas, sem ledice,
vai, fístula, florir no lago e ali me aguarda.
Eu, cheio de rumor altivo, já me
tarda
falar de deusas; por idólatras pinturas,
de suas sombras irei tomar-lhes as cinturas.
Assim, quando ao racimo extraio-lhe a substância /sorvo
e contra a mágoa apuro a minha vigilância,
e rindo soergo no ar o já vazio cacho
e, na pele de luz assoprando, eu me
acho
-ébrio- capaz de então a tarde toda o olhar.

Outras RECORDAÇÕES, vamos, ninfas, lembrar
“Meus olhos entre o junco... além uma
figura
imortal que se banha e a cálida brancura
luminosa do corpo em onda leve imerge.
Sôbre o áureo esplendor dos cabelos converge
um claror e um fremir de fulva
pedraria!
Corro; mas a meus pés, jungidas na agonia
do langor
deste mal de serem dois em um,
vejo duas dormindo, em abraço
comum.
Como estavam tomei e trouxe a esta eminência
desamada da sombra e dela sem frequência;
aqui se esvai ao sol das rosas o perfume;
mas para o nosso embate a força aqui me assume."

Ó furor virginal, eu te adoro, ó concisa
fúria de corpo nu, fardo nu que desliza
fugindo ao lábio ardente e a refulgir livores
de ampla trepidação da carne em seus pavores!
E isso, da inumana à tímida que vê
já perdida a inocência e dos olhos
revê
uma lágrima louca ou um tanto menos triste.
"Meu crime foi querer, na fôrça que me assiste,
apartar dividir um tufo desgrenhado
de beijos e de amor, dos deuses bem guardado.
Na hora em que esconder eu ia o riso ardente
na feliz maciez de urna, só - e contente
procuro no condor de pluma em que
se agita
o sabor da emoção que vívida palpita
na sua ingênua irmã, pequena, que não cora
eis de meus braços que se esquecem foge fora
tal ingrata cruel, que na impiedade esfria
a estuosa ebriez em que me consumia."

Foi pena. Irei buscar alhures a
esperança
de em meus chavelhos ver, enastrada, uma trança.
Bem sabes, ó paixão, que rubras mui vermelhas
cada cereja abriu seu murmurar de abelhas.
E o nosso sangue vai, enviado em seu ensejo, percorrendo o pendor eterno do desejo.
Na hora em que de ouro e cinza este
bosque
se pinta logo em festa se exalta a folharia extinta.
Ó Etna, é junto a ti! Vênus vem pelos ares.
Leve na lava pousa ingênuos colcanhares
enquanto sonolento as chamas tens em
calma.
Tenho pois a rainha!
Ó dura pena...
A alma
de palavras vazia e o corpo em letargia
sucumbem afinal ao fero meio-dia.
Cumpre dormir assim, no olvido, de mansinho,
deitado nesta areia.
Ó que delicia ao vinho
a boca oferecer e a seu astro eficaz!
Par, adeus: Quero ver como ûa sombra se faz.

Belo Horizonte, 18.08.1959

[Nota do tradutor: "relida em 02.1963 e achada ruim"]
           

Fauno

Além de minhas forças

Doce brisa trouxe até mim um pássaro canoro

Que coloriu meus dias amenos;

Que em minhas manhãs colocou um sorriso;

Que aspergiu vigor em meus membros

E aspirou de mim o cansaço.

 

Silêncio, quero escutar sua serenata

Para embalar o meu sono sereno;

Elevar sobre mim meu espírito;

Fazê-lo pousar no meu braço.

 

Quero seu entusiasmo.

Quero seu sopro de vida divino,

Sua leveza, sua graça, seu brilho.

Sem querer, sob suas asas eu moro!

 

 

22 de fevereiro de 2013

E…

lê, e escreve e relê e reescreve, e come, e fuma, e toma café, e recomeça o trabalho, e recava buracos no cranio, e cavouca aqui, alí, e anda, e pensa, e vai olhar na janela, enquanto há janelas, e imagina, e volta para o texto, e recomeça tudo de novo, e novas páginas escritas, e possui talento para a coisa, e abre caminhos, e pensa na árvore que não plantou, e no livro que não escreveu, e folheia Lautrèamont, e liga o som, e dança, e se olha no espelho, e abre a geladeira, e esquece que falta comprar bebidas e cigarros, e sai, e entra no supermercado, e compra as bebidas mais fortes, e olha as moças na rua, e pega o bonde andando, e se deixa maravilhar com as coisas simples da vida, e sorri, e dá apertos de mão quando encontra camaradas, e conversa sobre assuntos de extrema importância relativa aos descaminhos da humanidade, e convence um amigo da validade do suicídio, e distorce o que foi torcido, e rivaliza contra javalis que entram na sala, e questiona as provas da validade da existência das formigas que carregam nas costas migalhas do pão de Deus, e arruma motivos para se livrar dos ventos das paixões da vida, e luta com as sombras das vagas que nos assaltam e assombram, e assiste filmes expressionistas do início do séc. XX na quinta feira a noite, e discute a possibilidade de um mundo impossível, e tira do escuro o que está oculto, e sepulta os mortos, e procura nexos e novas pastas de músicas no computador, e ouve músicas, e se alheia do mundo, e nota que as máquinas fazem ruídos estranhos quando masturbadas, e espera o telefone tocar, e deixa a semana passar como um bonde em alta velocidade, e recebe convites que ignora, e retorna a si, e se fecha no quarto escuro, e mexe em papéis antigos, e redescobre um álbum de fotografias repleto de significados extra-sensoriais, e deixa por um momento a tristeza ir embora, e abre a porta pra tristeza voltar, e continua firme nos propósitos insólitos, e desanima, e pensa no curso sombrio das coisas, e queima igrejas, e releva o que fácil vem e o que fácil vai, e puxa fios invisíveis de pensamento de dentro do nada, e vem tudo de uma vez o tédio a angústia e o nada, e diz sim quando é para dizer não, e diz não quando é para dizer sim, e saúda o sol, a lua, as estrelas, a chuva, os relâmpagos, os ventos, e gosta de ver o fogo queimar, o amarelo embaixo e azul dançando em cima, e divaga na solidão o acerbo e o mavioso, e percebe a expansão do amor sobre o egoísmo, e deixa de lado o despotismo, e anarquiza, e pratica pequenos delitos, e esquizo, e fode, e sem desespero espera a hora sagrada do gozo, e ama a moça desiludida, e idealiza um mundo melhor, e protesta, e contesta, e revê conceitos, e se auto-critica, e se recoloca no seu lugar, e escreve cartas de injúrias contra o bem e a favor do caos, e recebe respostas cortadas de santos ignorantes, e volta no tempo, e nega com força toda forma expressiva de autoritarismo, e destrói o fascismo, e cria novas aberturas, novas fendas, novas sendas, novos caminhos para a saída de um modo nocivo de compreender a vida, e percebe que há os clássicos entre Homero e os irmãos Campos, e arrasta o rosto no concreto, e desnormaliza o que as normas atrofiam, e chama qualquer um para duelo ao anoitecer, e desafia a fio de espada qualquer deus do Olimpo, e não gosta, por uma questão de princípios, da banda The Exploited!

A. L.

1384385_10201648586930401_379853148_n

Samba do Querer.

22 de outubro de 2013 às 00:23
Danilo Borges

Eu quero um samba pra desencantar,

essa magia que me faz sentir.

Uma rosa no peito sempre a brotar

como uma rima que toco a escandir.

 

Eu quero um partido alto para alcançar

o lençol da noite que vai nos cobrir,

e colher estrelas pra te presentear,

prender em pingentes te fazer sorrir.

 

Eu quero um charme pra poder sambar

e sua sapatilha azul bailando a colorir,

fazendo do chão céu, o pó da terra amar

e fazer dançar o povo desse meu país.

Escritor colombiano percorre o continente em busca de poetas inéditos

Santiago do Chile é a terceira cidade que visita buscando poetas. Depois parte ruma ao Uruguai

Partiu em janeiro deste ano e estima que toda a viagem levará cerca de dois anos. O projeto é chamado “Em busca de Poetas” e consiste em fazer uma turnê pela América Latina em busca de poetas inéditos, com os quais finalmente  será publicado um livro.

Texto de Marco Fajardo, trad. livre de Thaís de Godoy Morais

O escritor colombiano Eduardo Bechara está atualmente em Santiago, sua parada número 33 de 141 pontos, em sua viagem que o fará viajar da Patagônia até Caracas, em busca de poetas inéditos para publicação de uma antologia latino-americana.

Em uma tarefa titânica, no caso do Chile, Bechara esteve em cidades como Los Angeles ou Ancud para entrevistar autores locais e conhecer as suas criações. Agora está em Santiago (já se comunicou com José Ángel Cuevas e Antonio Rioseco).

Ele saiu em janeiro deste ano e estima-se que todo o trajeto lhe tomará cerca de dois anos. O projeto “Em busca de poetas” pretende coletar dois mil poemas em um percurso de 26 mil quilômetros. Bechara não procura qualquer poeta, mas aqueles para quem “a poesia é parte integrante de suas vidas”.

O autor, que estudou direito e literatura na Universidade dos Andes, na Colômbia, também tem planos de publicar uma antologia de poetas consagrados e um terceiro livro com suas experiências de viagem (pode ser lido em

http://eduardobecharanavratilova.blogspot.com).

Projeto

O projeto surgiu em 2010, quando Bechara estava em Córdoba, Argentina, visitando outro Eduardo Bechara que surpreendentemente também é escritor e inclusive se parece fisicamente, embora eles não sejam parentes.

“Falávamos do pouco reconhecimento dado aos artistas em geral e aos poetas em particular. Nós tínhamos experimentado na pele a forma que, quando nos assumimos como artistas, como escritores, começaram a nos ver com olhos diferentes, desconfiados, porque, quando uma pessoa assume uma vida diferente, fora do cotidiano, e fora do que a sociedade quer impor, as pessoas, que fazem parte desse sistema começam a olhar de forma depreciativa ou pejorativa. Entre outras coisas porque também não te entendem qual é a sua luta, e te olham como um pobre diabo, porque você não tem os meios, não tem dinheiro, sua vida não está destinada a enriquecer”, explica.

Foi, então, que começamos a fantasiar com a ideia de uma viagem pela América do sul “buscando poetas e dando-lhes o reconhecimento que merecem, dizendo-lhas ‘olhe, o que você faz é importante e aqui estou eu entrevistando e falando com você para que saiba disso’ dando-lhes o crédito que merecem”.

“Os poetas são importantes para mim porque são seres capazes de ver mais além do evidente” acrescenta. “Vão ao centro das coisas e desentranham suas verdades. O fato de que ninguém lhes dê reconhecimento, ou pior, até mesmo, os vejam com maus olhos ao invés de apreciá-los, me faz reivindicá-lo.”

Quixotesco

 De volta à Colômbia, Bechara montou um projeto e saiu em busca de financiamento entre empresas que podiam trocar por isenção fiscal. E obteve êxito: uma delas, Pavimentos Colômbia, lhe deu apoio para sua “quixotesca” ideia, da qual podia sair “algo muito bonito”, segundo executivos.

Foi assim que Bechara voou a Buenos Aires. Graças a duas publicações ali já possuía uma rede de amigos do meio literário e através do Facebook pode difundir a ideia do projeto. Uma poetisa local, Viviana Abnur, lhe deu alguns contatos patagônicos e então voou a Ushuaia, no extremo sul da Argentina, para começar seu trabalho.

Os métodos de busca vaiam de uma cidade para outra. “Se conheço os poetas mais representativos do local, deixo que eles me levem aos inéditos. Se não conheço nenhum vou à Casa de Cultura ou às bibliotecas. Ali me ajudam a entrar em contato com eles”, comenta Bechara.

Em geral, tem funcionado  da seguinte forma: os poetas mais conhecidos o apresentam a outros inéditos. Foi justamente o contato constante e quase imprescindível com os primeiros o que fez com que Bechara decidisse criar um segundo livro, uma antologia dos consagrados. Isso fez com que se decidisse a estender o projeto que era de seis meses a um ano para pelo menos dois anos.

Bechara cruzou o Chile por Osorno em 10 de julho e, depois de visitar Chiloé, começou a subir até chegar a nossa capital (passou por Puerto Montt, Puerto Varas, Valdivia, Pucón, Villarrica, Temuco, Concepción, Los Ángeles, Chillan, Talca, San Fernando e Santa Cruz). Em Santiago ficará umas três semanas para ver ao menos cem poetas. Logo se dirigirá a Viña del Mar e Valparaíso.

Posteriormente, voltará à Argentina para ir à Mendonza e Buenos Aires e depois a Montevidéu. Seguirá para Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e finalmente a costa venezuelana.

A ideia é que, quando termine a viagem e a compilação do material, um jurado internacional, integrado pelos poetas colombianos Eduardo Escober, Elkin Restrepo e os argentinos Fernando Noi, Santiago e Gaciela Cros, selecione os poemas e que em cada país uma editora independente publique a antologia.

Os poetas chilenos

De que falam os poetas, ao menos os que conheceu até agora?

Um dos principais temas são as circunstâncias da ditadura.No Chile, na poesia a ditadura se assume como um desses terremotos que sacode o território chileno, da mesma forma que a sociedade foi fragmentada” diz. “isso é muito repetido entre diferentes poetas”

Outros temas são “o feminino, o feminista, o gay”, assim como “o mapuche” (Bechara falou com diversos poetas mapuches, como Elicura Chihuailaf, Roxana Miranda, Lionel Lienlaf, Javier Milanca, Cristián Antillanca, e espera encontrar com Jaime Huenún) e o lírico (a volta à infância, a melancolia das perdas como na obra de Jorge Teillier) . Neste último tema se destaca Bernando Gonzalez Koppmann, um poeta de Los Angeles, em Talca.

Para Bechara uma das características da poesia chilena é “que vai direto às feridas, sem palavras suaves. Não utiliza eufemismos, a não ser para chamar as coisas por seu nome. Não lhe interessa usar suavizantes, como ocorre em outros lugares da América Latina. Aqui, quanto mais se põe o dedo na ferida melhor”.

santiago_chile