A vida e a Literatura

Pedido de desculpas de uma professora

Em minha experiência, ao ministrar aulas de Literatura, uma questão que costumava surgir entre meus responsáveis alunos, preocupados com o sustento de suas famílias e com a concorrência cada vez maior no mercado de trabalho, era a seguinte:

  • Em que a Literatura vai me auxiliar no momento em que eu passar pelo processo seletivo de vagas em uma empresa?

Dependendo do autor que estudávamos naquele momento, minha resposta variava.

Se Realismo, respondia que aqueles autores denunciavam as mazelas da sociedade à fim de que a crítica levasse a uma reflexão e a uma sociedade mais justa. Se Parnasianismo, apenas o deleite, o prazer do jogo com as palavras. E em todos os casos, pessoas mais instruídas, com melhor vocabulário, adquirido através da leitura, têm mais oportunidades; além de suprir as exigências do vestibular e a continuidade dos estudos no nível superior.

A conclusão: ora funcionários mais divertidos, inteligentes, críticos e com nível superior serão melhores e vencerão a concorrência.

Hoje, refletindo melhor, sinto que talvez tenha induzido meus alunos ao erro: surpreendentemente, nem sempre o mais estudado e inteligente consegue as melhores vagas!

Os mais críticos, às vezes, são vistos como chatos e difíceis de manipular, pois não conseguem atender às demandas da sociedade liberal. Muitos colegas entendem que quem tem um vocabulário melhor quer chamar a atenção, fala difícil por insegurança e, como dizem vulgarmente por aí, querem “puxar seus tapetes” dos quais não podem prescindir.

Quem tem melhor vocabulário é interpretado como esquisito e incompreensível, até pelos chefes que se sentem ameaçados pelo suposto brilhantismo de um subalterno o qual não conseguem compreender.

Quanto mais se estuda, mais se aumenta o abismo que separa o indivíduo que obteve milagrosamente uma boa formação, (às vezes por mérito próprio, às vezes graças a escolas de qualidade indiscutível) do que não teve as mesmas oportunidades. Os menos escolarizados se sentem diminuídos, pois não sabem que nem todos os que “falam difícil” querem se exibir, nem todos os que “falam difícil” são arrogantes, nem todos os que “falam difícil” estão minimamente interessados em seus tapetes que já são curtos demais para uma só pessoa.

Só restaram os seguintes argumentos:

O conhecimento da Literatura faz parte do repertório da cultura geral de um indivíduo escolarizado. As Literaturas de língua portuguesa são tema dos vestibulares não apenas pela verificação mecânica de fatos da história da Literatura, mas porque a linguagem literária tem um modo particular de se referir às coisas do mundo.

No vestibular, tenta-se verificar o grau de alfabetização do indivíduo. Qual o nível da capacidade interpretativa do estudante, que deve abranger todos os gêneros textuais da cultura contemporânea, que é cumulativa, e seu sentido conotativo.

Até propagandas, tirinhas humorísticas e ícones da cultura pop fazem referências tão amplas, através da intertextualidade, que seu significado, para ser alcançado minimamente, depende de uma leitura alicerçada no conhecimento não só da Literatura, mas da Arte em geral.

Quem não o possui pode viver sim, pode arranjar bons empregos, mas viverá na superfície do mundo, lerá só sua referencialidade. Será eternamente manipulado pela propaganda dos mais habilidosos no uso da linguagem que a utilizam muitas vezes de má fé, como instrumento de manipulação política.

Hoje tudo é marketing e o jogo das aparências é cada vez mais enganoso e caleidoscópico. Quem não domina a linguagem e seus recursos, inclusive os literários, será um fantoche, um títere que apenas repetirá o que lhe mandarem, copiando e colando maquinalmente o mundo tal como ele é agora, sem nenhuma possibilidade de reflexão e transformação.

O outro argumento é que ler pode ser sim divertido: as descobertas realizadas através da investigação, da pesquisa trazem um prazer inigualável, indispensável a qualquer profissional que queira realizar seu trabalho apaixonadamente.

O caráter lúdico no tratamento da linguagem surge na poesia, por exemplo. O brincar com as palavras, traz para o trabalho interpretativo um prazer desconhecido da maioria das pessoas, tão ciosas em renová-lo constantemente apenas através de seus corpos, mas esquecidas do prazer intelectual que pode nos acompanhar a vida inteira sem se enfraquecer e perder a vitalidade.

As crianças sabem muito bem disso. Os trava-línguas, as parlendas, as cantigas de roda são manifestações da cultura popular das nações que estão morrendo. Brincar é coisa muito séria, ao contrário do que alguns professores pensam, não é perda de tempo. Brincar auxilia as crianças a lidar com a dor do crescimento e, portanto, em sua saúde mental.

Crianças não fazem distinção entre o prazer corporal, o da brincadeira, e até o do estudo: tudo pode ser divertido.

Nossos problemas começam no dia em que alguém nos diz: “isso é o seu dever”; “é sua obrigação”. Uma aluna minha me disse um dia que adorava lavar a louça, pois se imaginava brincando de “fui ao restaurante e não tinha dinheiro para pagar a conta”, mas um dia lhe disseram que aquilo era obrigação das mulheres e todo o prazer desapareceu num passe de mágica.

É obvio que não podemos viver como as crianças, mas encontrar o prazer nos textos passa por recordar como é ser criança, passa pelo prazer da descoberta de uma nova palavra. Lembro-me quando meu irmão descobriu a palavra “óbvio”, ele não cansava de repeti-la, até que se tornou banal para todos lá em casa.

Esse processo, de tornar o novo banal, desgasta as palavras e as transforma em “velhas palavras” que, para alguns, são “as melhores palavras”. São palavras companheiras e velhas amigas.

O novo passa a ser ruim pelo medo que sentimos de nos acharem ignorantes. Maior do que o prazer em já conhecer uma palavra, vaidosamente apresentar seu sentido ao aluno admirado com a sabedoria do mestre, é mostrar ao aluno como é muito mais prazeroso pesquisar e achar uma novidade.

Tudo é leitura, tudo é descoberta e interpretação e em cada uma delas pode se encontrar um deleite particular, mas apenas se o domínio dessa habilidade for satisfatório.

Cito aqui duas frases, uma pop e outra mais erudita das quais gosto muito e que refletem o que penso sobre a Literatura e o “prazer do texto”

“A gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte…”*

e

“Nem só de pão vive o homem…”*

*Não coloco os autores na esperança de levá-los a descobertas!

Será que Obama sabe que ele está lutando do lado da al-Qaeda?

“Todos por um e um por todos” deve ser o grito de guerra que o Ocidente dará para a guerra contra o regime sírio de Assad

Robert Fisk

Se Barack Obama decidir atacar o regime sírio, terá conseguido – pela primeira vez na história – pôr os EUA como aliados da al-Qaeda.

Que aliança! Não eram os Três Mosqueteiros que gritavam “um por todos, todos por um” cada vez que saíam procurando briga? Os estadistas ocidentais deveriam repetir o mote, se – ou quando – saírem para atacar Bashar al-Assad.

Os homens que destruíram tantos milhares no 11 de setembro, estarão a lutar ombro a ombro com a mesma nação cujos inocentes eles mataram há quase exatamente 12 anos. Que grande feito para o currículo de Obama, Cameron, Hollande e o resto dessas miniaturas de senhores da guerra!

Claro que nada disso se tornará material de propaganda para o Pentágono nem para a Casa Branca – nem, imagino, para a al-Qaeda! – embora todos esses só pensem em destruir Bashar. A Frente Nusra, também, um dos ramos da al-Qaeda. Mas a coisa levanta algumas possibilidades interessantes.

Talvez os norte-americanos devam pedir ajuda aos serviços de informações da al-Qaeda. Afinal, os rapazes da al-Qaeda são os únicos que têm “botas no terreno” por lá. E se há coisa que os norte-americanos não querem é pôr o próprio pé ali. E, quem sabe, a al-Qaeda poderá sugerir alguns alvos ao país que costuma dizer que os apoiantes da al-Qaeda, mais do que os sírios, são os bandidos mais procurados do mundo.

Haverá algumas ironias, claro. Enquanto os norte-americanos dronam a al-Qaeda até o osso no Iémen e no Paquistão – dronada, claro, com vários civis, como sempre – os mesmos norte-americanos, com a ajuda dos senhores Cameron, Hollande e outros políticos-generalecos, estarão a ajudá-los na Síria, matando inimigos da al-Qaeda. Porque você pode apostar o seu último dólar que o único alvo que os americanos não atacarão será a al-Qaeda ou a Frente al-Nusra.

E nosso Primeiro-Ministro aplaudirá o que quer que os norte-americanos façam… o que fará dele, também, mais um aliado da al-Qaeda… porque com certeza já esqueceu os ataques da al-Qaeda em Londres. É possível – porque os governantes modernos já não têm memória institucional – que Cameron tenha esquecido completamente o quanto são similares os sentimentos que ele próprio e Obama manifestam e os manifestados por Bush e Blair há uma década: as mesmas certezas, enunciadas com a mesma autoconfiança, mas sem qualquer prova que lhes dê credibilidade.

No Iraque, fomos à guerra movidos por mentiras distribuídas por bandidos e mentirosos conhecidos. Dessa vez, é guerra movida a YouTube. Não significa que as imagens terríveis de civis intoxicados e mortos por gás sejam falsas. Significa que todas as provas que provem coisa diferente do que se disse daquelas imagens terão de ser suprimidas.

Por exemplo, ninguém jamais se interessará pelas repetidas notícias que se lêem em Beirute, de que três membros do Hezbollah – que lutavam ao lado do Exército Sírio em Damasco – foram ao que parece atingidos pelo mesmo gás, no mesmo dia, ao que parece, em túneis. Agora, estão em tratamento num hospital em Beirute. Quer dizer então que, se o governo sírio usou gás… como é possível que tenha atingido homens do Hezbollah? O gás escapou-lhes pela culatra?

E já que estamos falando de memória institucional, levante a mão qualquer dos nossos estadistas, se souber dizer o que aconteceu da última vez que os norte-americanos cruzaram armas com o exército sírio. Aposto que nenhum deles sabe. Bem… Aconteceu no Líbano, quando a Força Aérea dos EUA resolveu bombardear mísseis sírios no Vale do Bekaa, dia 4/12/1983. Lembro perfeitamente, porque eu estava aqui no Líbano. Um bombardeiro A-6 de combate dos EUA foi atingido por um míssil Strela, sírio – fabricado na Rússia, naturalmente – e espatifou-se no vale do Bekaa. O piloto, Mark Lange, morreu; o co-piloto, Robert Goodman, foi preso e metido numa cadeia em Damasco. Jesse Jackson teve de ir à Síria, para levá-lo para casa, depois de quase um mês, voando numa nuvem de clichês sobre “pôr fim ao ciclo de violência”. Outro avião dos EUA – dessa vez um A-7 – também foi derrubado por fogo sírio, mas o piloto conseguiu ejetar-se no Mediterrâneo, de onde foi “pescado” por pescadores libaneses. O avião foi destruído.

Sim, sim, dizem-nos que será um ataque rápido contra a Síria, um ou dois dias, ir e vir. É o que Obama deseja supor. Mas… E o Irão? E o Hezbollah? Para mim – se Obama insistir e for – desta vez será ir e fugir correndo.


Artigo publicado no Independent a 27/8/2013. Tradução de Vila Vudu para a redecastorphoto