Espionagem dos EUA inquieta até a direita europeia

 

Maior grupo político do Parlamento Europeu pode pedir revogação do acordo de troca de dados entre os Estados Unidos e a UE por considerar que a sua aplicação põe em risco a privacidade dos cidadãos europeus

Por Bloco Internacional Europeu Revista Forum

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Edição 127 de Fórum traz espionagem como tema

O Partido Popular Europeu (PPE, direita), o maior grupo político do Parlamento Europeu, inclina-se para a revogação do acordo de troca de dados entre os Estados Unidos e a União Europeia conhecido como “Safe Harbor” (“Portos Seguros”) por considerar que a sua aplicação põe em risco a privacidade dos cidadãos europeus.

A tendência foi revelada ao site do semanário britânico Observer pelo eurodeputado alemão Manfred Weber, da ala bávara (CSU) do partido de Angela Merkel, vice-presidente do PPE. “O nosso grupo pretende revogar o acordo na forma em que se encontra e negociar novas regras”, disse Weber sublinhando a existência de dúvidas de que as empresas norte-americanas de tecnologia da informação respeitam o acordo. Essas dúvidas, acrescentou, não apareceram só agora com as revelações de espionagem norte-americana feita através da Agência Nacional de Segurança (NSA). Além disso, as violações praticadas significam que “não é respeitada a privacidade dos cidadãos”, sublinhou Weber.

Confiança nos EUA por parte do Parlamento Europeu  ficou abalada com revelações sobre espionagem (PPCOE/Wikipedia)

O chamado acordo “Safe Harbor” foi assinado há mais de uma década entre o Departamento norte-americano do Comércio e a Comissão Europeia. Cerca de três mil empresas norte-americanas assinaram o acordo, mediante o qual cada entidade deve limitar-se a prometer que respeita um conjunto de princípios relacionados com a privacidade. As auditorias anuais sobre o cumprimento dessas obrigações não são obrigatórias, além de existir a possibilidade de serem executadas por auditores externos ou pelas próprias entidades.

Manfred Weber lembrou que para os críticos este acordo está cheio “de buracos” e raramente o Departamento norte-americano do Comércio revela preocupação com o modo como é aplicado. A Comissão de Liberdades Civis do Parlamento Europeu revelou há poucos dias que uma em cada sete empresas norte-americanas signatárias deste acordo mentem sobre a sua aplicação”.

Também a comissária europeia da Justiça, Viviane Reding, manifestou inquietação sobre a maneira como o acordo é aplicado durante uma recente conferência proferida em Washington. A comissária afirmou que a “auto-regulação” existente “não é suficiente para restaurar a confiança perdida” das entidades entidades europeias no modo como se comportam as suas parceiras norte-americanas.

“O sistema atual tem sido criticado pela indústria europeia e questionado pelos cidadãos europeus dizendo que é pouco mais do que um véu de legitimidade para as empresas norte-americanas que o utilizam”, disse Viviane Reding acrescentando que o seu departamento pretende rever a situação até final do ano.

 

Além de minhas forças

Doce brisa trouxe até mim um pássaro canoro

Que coloriu meus dias amenos;

Que em minhas manhãs colocou um sorriso;

Que aspergiu vigor em meus membros

E aspirou de mim o cansaço.

 

Silêncio, quero escutar sua serenata

Para embalar o meu sono sereno;

Elevar sobre mim meu espírito;

Fazê-lo pousar no meu braço.

 

Quero seu entusiasmo.

Quero seu sopro de vida divino,

Sua leveza, sua graça, seu brilho.

Sem querer, sob suas asas eu moro!

 

 

22 de fevereiro de 2013

E…

lê, e escreve e relê e reescreve, e come, e fuma, e toma café, e recomeça o trabalho, e recava buracos no cranio, e cavouca aqui, alí, e anda, e pensa, e vai olhar na janela, enquanto há janelas, e imagina, e volta para o texto, e recomeça tudo de novo, e novas páginas escritas, e possui talento para a coisa, e abre caminhos, e pensa na árvore que não plantou, e no livro que não escreveu, e folheia Lautrèamont, e liga o som, e dança, e se olha no espelho, e abre a geladeira, e esquece que falta comprar bebidas e cigarros, e sai, e entra no supermercado, e compra as bebidas mais fortes, e olha as moças na rua, e pega o bonde andando, e se deixa maravilhar com as coisas simples da vida, e sorri, e dá apertos de mão quando encontra camaradas, e conversa sobre assuntos de extrema importância relativa aos descaminhos da humanidade, e convence um amigo da validade do suicídio, e distorce o que foi torcido, e rivaliza contra javalis que entram na sala, e questiona as provas da validade da existência das formigas que carregam nas costas migalhas do pão de Deus, e arruma motivos para se livrar dos ventos das paixões da vida, e luta com as sombras das vagas que nos assaltam e assombram, e assiste filmes expressionistas do início do séc. XX na quinta feira a noite, e discute a possibilidade de um mundo impossível, e tira do escuro o que está oculto, e sepulta os mortos, e procura nexos e novas pastas de músicas no computador, e ouve músicas, e se alheia do mundo, e nota que as máquinas fazem ruídos estranhos quando masturbadas, e espera o telefone tocar, e deixa a semana passar como um bonde em alta velocidade, e recebe convites que ignora, e retorna a si, e se fecha no quarto escuro, e mexe em papéis antigos, e redescobre um álbum de fotografias repleto de significados extra-sensoriais, e deixa por um momento a tristeza ir embora, e abre a porta pra tristeza voltar, e continua firme nos propósitos insólitos, e desanima, e pensa no curso sombrio das coisas, e queima igrejas, e releva o que fácil vem e o que fácil vai, e puxa fios invisíveis de pensamento de dentro do nada, e vem tudo de uma vez o tédio a angústia e o nada, e diz sim quando é para dizer não, e diz não quando é para dizer sim, e saúda o sol, a lua, as estrelas, a chuva, os relâmpagos, os ventos, e gosta de ver o fogo queimar, o amarelo embaixo e azul dançando em cima, e divaga na solidão o acerbo e o mavioso, e percebe a expansão do amor sobre o egoísmo, e deixa de lado o despotismo, e anarquiza, e pratica pequenos delitos, e esquizo, e fode, e sem desespero espera a hora sagrada do gozo, e ama a moça desiludida, e idealiza um mundo melhor, e protesta, e contesta, e revê conceitos, e se auto-critica, e se recoloca no seu lugar, e escreve cartas de injúrias contra o bem e a favor do caos, e recebe respostas cortadas de santos ignorantes, e volta no tempo, e nega com força toda forma expressiva de autoritarismo, e destrói o fascismo, e cria novas aberturas, novas fendas, novas sendas, novos caminhos para a saída de um modo nocivo de compreender a vida, e percebe que há os clássicos entre Homero e os irmãos Campos, e arrasta o rosto no concreto, e desnormaliza o que as normas atrofiam, e chama qualquer um para duelo ao anoitecer, e desafia a fio de espada qualquer deus do Olimpo, e não gosta, por uma questão de princípios, da banda The Exploited!

A. L.

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Samba do Querer.

22 de outubro de 2013 às 00:23
Danilo Borges

Eu quero um samba pra desencantar,

essa magia que me faz sentir.

Uma rosa no peito sempre a brotar

como uma rima que toco a escandir.

 

Eu quero um partido alto para alcançar

o lençol da noite que vai nos cobrir,

e colher estrelas pra te presentear,

prender em pingentes te fazer sorrir.

 

Eu quero um charme pra poder sambar

e sua sapatilha azul bailando a colorir,

fazendo do chão céu, o pó da terra amar

e fazer dançar o povo desse meu país.

A vida

“A vida é luta renhida”G. Dias

Mimado menino acostumado a fazer manha;

Menino promíscuo acostumado a fazer birra,

Toma tento e até que cresça não me apareça!

Que a vida não pára, não volta, não espera

E se acaba tão depressa…

Menino mimado e desacostumado ao não,

Não pode voltar ao seu ninho,

Porque seus conjuros nas encruzilhadas,

suas preces, promessas

nem sempre serão alcançadas!

Nos nossos caminhos, são fartos os espinhos;

sobejam carcaças dormindo ao relento

reanimadas por abutres famintos.

Menino mimado, não esqueça: a vida não é uma festa!

 

 

Thaís GM

Papa discretamente recebe o líder da Teologia da Libertação

Ao receberem a informação sobre o encontro entre o Papa e Gutierrez, vários teólogos brasileiros e europeus perguntaram também de modo informal quem teria mudado, se teria sido Francisco ou os teólogos da libertação

Por Dermi Azevedo, na Carta Maior

Gustavo Gutierrez, integrante da Ordem Dominicana (Foto: Carta Maior)

O papa Francisco recebeu discretamente no Vaticano, há cerca de um mês, a visita do principal líder da Teologia da Libertação, o religioso peruano Gustavo Gutierrez. Integrante da Ordem Dominicana, o padre Gustavo tornou-se, nos anos 70, o primeiro teólogo a sistematizar essa corrente no interior da Igreja Católica Romana. A sua visita ao Papa aconteceu de modo informal, fora da agenda oficial do pontífice. Contudo o significado político dessa reunião é evidente e representa o apoio explícito dos teólogos da libertação à opção pelos pobres, já oficializada por Francisco como a diretriz fundamental de sua gestão como chefe da Igreja.

O apoio ao atual Papa vem sendo articulado desde antes da eleição vaticana. Quando o nome do cardeal Bergoglio foi anunciado, bispos. teólogos e outras personalidades ligadas à Teologia da Libertação deram publicamente declarações em que afirmavam a sua expectativa de uma administração que pudesse tirar o Catolicismo de sua pior crise desde o século 19.

Quem mudou?

Ao receberem a informação sobre o encontro entre o Papa e Gutierrez, vários teólogos brasileiros e europeus perguntaram também de modo informal quem teria mudado, se teria sido Francisco ou os teólogos da libertação. Na verdade, ambos mudaram. O Papa assumiu o discurso anticapitalista da Teologia da Libertação e confirmou a opção pelos pobres. Os teólogos reafirmaram de modo mais amenizado o recurso a categorias dialéticas para a leitura crítica da realidade.

Teologia da Libertação é a versão latino-americana de correntes progressistas na Igreja

Pela primeira vez, na história da Igreja Católica na América Latina, a doutrina foi sistematizada fora dos padrões e do controle do centro de poder romano. Isto aconteceu com o movimento teológico-político que se tornou conhecido como a Teologia da Libertação (TL), resultante de pesquisas, debates e de outras atividades de caráter ecumênico. A primeira formulação da TL foi feita pelo teólogo peruano Gustavo Gutierrez, em julho de 1968. Três anos depois foi publicado seu texto Teologia de La Liberación, que se tornou um sucesso editorial.

Um trabalho semelhante ao de Gutierrez também foi feito, nos primórdios da TL, por vários teólogos e filósofos católicos e evangélicos, entre os quais Rubem Alves, Hugo Assmann, Carlos Mesters, Leonardo e Clodovis Boff (Brasil), Jon Sobrino e Ignacio Ellacuria (El Salvador), Segundo Galilea, Juan Luis Segundo e Julio de Santa Ana (Uruguai), Ronaldo Muñoz (Chile), Pablo Richard (Chile e Costa Rica), José Miguel Bonino e Juan Carlos Scannone (Argentina), Enrique Dussel (Argentina e México). Entre os brasileiros, destacaram-se também, no campo evangélico, os nomes de Jether Pereira Ramalho, Zwinglio Dias, Hugo Assmann e Anivaldo Padilha.

É consenso entre esses teólogos que falar da Teologia da Libertação “é buscar uma resposta para a pergunta: que relação existe entre a salvação e o processo histórico de libertação do ser humano”. Essa obra tornou-se um paradigma para toda uma reflexão que muda o método teológico (não só a partir das ideias, mas a partir da realidade).

O sistema dominante na América Latina logo percebeu a dimensão sócio-política transformadora da TL. A sua expansão foi, por exemplo, um dos temas da Missão Rockfeller, que Nixon enviou à América Latina nos anos 60. As ditaduras militares latino-americanas também assumiram esta pauta em nome da contenção do “comunismo internacional”. Entretanto, como resultados concretos da TL surgiram e cresceram as Comunidades Eclesiais de Base e as pastorais sociais. Também, em grande parte, movimentos sociais como o dos Sem Terra são herdeiros dessa nova visão teológica.

Na Igreja, a reação contra a TL articulou-se já a partir de 1982 e ganhou força com a eleição de João Paulo II, em 1978. A influência da TL fez-se sentir em 1979 na vitória da Revolução Sandinista contra a ditadura de Somoza, na Nicarágua, que teve uma participação destacada de padres e leigos. Um dos principais seguidores da TL, o arcebispo salvadorenho d. Oscar Romero, foi assassinado em 24 de março de 1980, enquanto celebrava a missa.

Paralelamente, no Vaticano, a Congregação para Doutrina da Fé reagiu à TL, particularmente a partir de denúncias feitas por bispos latino-americanos voltadas, sobretudo, para os teólogos Gustavo Gutierrez e Leonardo Boff. O Vaticano tentou, sem sucesso, que os bispos peruanos condenassem Gutierrez. Boff, no entanto, foi silenciado e a Congregação publicou, em 6 de agosto de 1984, uma Instrução sobre alguns aspectos da teologia da libertação, que, apesar das críticas, afirma, em seu primeiro parágrafo; “A poderosa e quase irresistível aspiração dos povos a uma libertação constitui um dos principais sinais dos tempos que a Igreja deve discernir e interpretar à luz do Evangelho”.

Porém, o aspecto essencial da TL é seu enfoque político transformador, ao conceber o Cristianismo, não como uma ideologia legitimadora do status quo, mas como um suporte para a libertação concreta dos seres humanos, diante de todas as opressões a que é submetido. Recolhendo alguns eixos do pensamento marxista, a TL faz, igualmente, uma leitura dialética da realidade, sempre tendo a Bíblia como referência fundamental.

A descoberta do marxismo pelos cristãos progressistas e pela TL não foi um processo puramente intelectual ou universitário. O seu ponto de partida foi um fato social: a realidade da pobreza na América Latina e a tentativa de, ao identificar as causas dessa situação, tentar superá-la. Alguns dos teólogos da Libertação (influenciados por Althusser) referem-se ao marxismo simplesmente como uma (ou a) ciência social, utilizada, de modo estritamente instrumental, para conhecer melhor a realidade latino-americana.

Outros destacam, igualmente, os valores do marxismo, suas opções ético-políticas e seu anúncio de uma utopia. Esses teólogos são atraídos mais pelo neo-marxismo do que pelo marxismo ortodoxo e tradicional. Entre os autores marxistas, Emst Bloch é o mais citado nas obras da TL, registrando-se também referências a Althusser, Marcuse, Lukács, Gramsci, Henri Lefèbvre, Garaudy, Schaff, Kolakowski, Lombardo-Radice, Luporini, Sanches Vasquez, Fanon, Lucien Goldmann e Ernest Mandel. No marxismo latino-americano, as principais referências para a TL são o peruano José Carlos Mariátegui – com sua interpretação original do marxismo – a revolução cubana e a teoria da dependência, de Fernando Henrique Cardoso, André Gunder Franck, Theotônio dos Santos e Anibal Quijano.

Opção pelos pobres

No binômio opressor/oprimido, Gutierrez e os outros teólogos da libertação, priorizam os pobres como sujeito central de sua própria libertação. A preocupação pelos pobres remonta às origens do Cristianismo, mas os teólogos da libertação não os consideram como objeto de filantropia, mas como sujeito de sua própria emancipação.

Convergem, assim, para a ideia histórica marxista de que a emancipação dos trabalhadores será uma obra dos próprios trabalhadores. Por outra parte, esses teólogos manifestam um anticapitalismo mais radical e categórico que dos próprios partidos comunistas latino-americanos, ainda crentes no perfil progressista da burguesia industrial e no papel histórico do desenvolvimento industrial capitalista.

 

Entenda como a crise dos EUA afetará nossa vida

Noam Chomsky e o labirinto político dos Estados Unidos

Em entrevista, intelectual discorre sobre crise política, Síria e América Latina
da Opera Mundi
 Noam Chomsky é, aos 84 anos, um dos maiores intelectuais no mundo. Seu trabalho e suas realizações são bem conhecidos – ele é linguista norte-americano, professor emérito no Massachussets Institute of Technology (MIT) há mais de 60 anos, analista e ativista político constante, crítico original do capitalismo e da ordem mundial que tem como centro os Estados Unidos

Nesse entrevista, Chomsky debate a paralisação do governo norte-americano, por disputas incessantes no sistema político e, em especial, chantagem das forças de direita mais primitivas. Também aborda os sinais de perda de influência de Washington na Síria e da emegência, na América do Sul, de um conjunto de governos que afasta-se dos EUA, pela primeira vez em dois séculos.

Harrison Samphir: Gostaria de começar com a paralisação recente do governo dos EUA. Por que ela é diferente dessa vez, se já aconteceu no passado?

Noam Chomsky: Paul Krugman fez há dias, no New York Times, um ótimo comentário a respeito. Lembra que o partido republicano é minoritário entre a opinião pública. Controla a Câmara [House of Representatives, que junto do Senado representa o Legislativo nos EUA]. Está levando o governo à paralisação e talvez ao calote de suas dívidas. Conseguiu a maioria por conta de inúmeras artimanhas. Obteve uma minoria de votos, mas a maioria das cadeiras. Está se utilizando disso para impor uma agenda extremamente nociva para a sociedade. Foca particularmente a questão do sistema de saúde público.

Wikicommons

Intelectual discorre sobre crise política, Síria e América Latina

Os EUA são o único, entre os países ricos e desenvolvidos, que não possue um sistema nacional de saúde pública. O sistema norte-americano é escandaloso. Gasta o dobro de recursos de países comparáveis, para obter um dos piores resultados. E a razão para isso é ser altamente privatizado e não-regulado, tornando-se extremamente ineficiente e caro. Aquilo que alguns chamam de “Obamacare” é uma tentativa de mudar esse sistema de forma suave – não tão radicalmente como seria desejável – para torná-lo um pouco melhor e mais acessível.

O Partido Republicano escolheu o sistema de saúde como alavanca para conquistar alguma força política. Quer destruir o Obamacare. Essa posição não é unânime entre os republicanos, é de uma ala do partido – chamada de “conservadora”, de fato, profundamente reacionária. Norman Orstein, um dos principais comentaristas conservadores, descreve o movimento, corretamente, como uma “insurgência radical”.

Reprodução / OutrasPalavras.net

EUA passam por grave crise política

Então, há uma insurgência radical, que implica grande parte da base republicana, disposta a tudo – destruir o país, ou qualquer coisa, com o intuito de acabar com a Lei de Assistência Acessível (o Obamacare). É a única coisa a que foram capazes de se agarrar. Se falharem nisso, terão de dizer a sua base que mentiram para ela, ao longo dos últimos cinco anos. Por isso, estão dispostos a ir até onde for necessário. É um fato incomum – penso que único – na história dos sistemas parlamentaristas modernos. É muito perigoso para o país e para o mundo.

Como a paralisação poderia terminar?

Noam Chomsky: Bem, a paralisação por si só é ruim – mas não devastadora. O perigo real surgirá nas próximas semanas. Há, nos Estados Unidos, uma legislação rotineira – aprovada todo ano – que permite ao governo tomar dinheiro emprestado. Do contrário, ele não funciona. Se o Congresso não autorizar a continuação da tomada de empréstimos, talvez o governo peça moratória. Isso nunca aconteceu e um calote do governo norte-americano não seria muito prejudicial apenas aos EUA. Ele provavelmente afundaria o país, de novo, numa profunda recessão – mas talvez também quebre o sistema financeiro internacional. É possível que encontrem maneiras para contornar a situação, mas o sistema financeiro mundial depende muito da credibilidade do Departamento do Tesouro dos EUA. A credibilidade dos títulos de dívida emitidos pelos EUA é vista como “tão boa quanto ouro”: esses papéis são a base das finanças internacionais. Se o governo não conseguir honrá-los, eles não possuirão mais valor, e o efeito no sistema financeiro internacional poderá ser muito severo. Mas para destruir uma lei de saúde limitada, a extrema direita republicana, os reacionários, estão dispostos a fazer isso.

No momento, os EUA estão divididos sobre como o tema será resolvido. O ponto principal a observar é a divisão no Partido Republicano. O establishment republicano, junto com Wall Street, os banqueiros, os executivos de corporações não querem isso – de maneira nenhuma. É parte da base que deseja, e tem sido muito difícil controlá-la. Há uma razão para terem um grande grupo de delirantes em sua base. Nos últimos 30 ou 40 anos, ambos os partidos que comandam a política institucional dos EUA inclinaram-se para a direita. Os democratas de hoje são, basicamente, aquilo que se costumava chamar, há tempos, de republicanos moderados. E os republicanos foram tanto para a direita que simplesmente não conseguem votos, na forma tradicional.

Tornaram-se um partido dedicado aos muito ricos e ao setor corporativo – e você simplesmente não consegue votos dessa maneira. Por isso, têm sido compelidos a mobilizar eleitores que sempre estiveram presentes no sistema político, mas eram marginais. Por exemplo, os extremistas religiosos. Os EUA são um dos expoentes no que se refere ao extremismo religioso no mundo. Mais ou menos metade da população acredita que o mundo foi criado há alguns milhares de anos; dois terços da população está aguardando a segunda vinda de Cristo. A direita também teve de recorrer aos nativistas. A cultura das armas, que está fora de controle, é incentivada pelos republicanos. Tenta-se convencer as pessoas de que devem se armar, para nos proteger. Nos proteger de quem? Das Nações Unidas? Do governo? Dos alienígenas?

Uma enorme parcela da sociedade é extremamente irracional e agora foi mobilizada politicamente pelo establishment republicano. Os líderes presumem que podem controlar este setor, mas a tarefa está se mostrando difícil. Foi possível perceber isso nas primárias republicanas para a presidência, em 2012. O candidato do establishment era Romney, um advogado e investidor em Wall Street – mas a base não o queria. Toda vez que a base surgia com um possível candidato, o establishment fazia de tudo para destruí-lo, recorrendo, por exemplo, a ataques maciços de propaganda. Foram muitos, um mais louco que o outro. O establishment republicano não os quer, tem medo deles, conseguiu nomear seu candidato. Mas agora está perdendo controle sobre a base.

Sinto dizer que isso tem algumas analogias históricas. É mais ou menos parecido com o que aconteceu na Alemanha, nos últimos anos da República de Weimar. Os industriais alemães queriam usar os nazistas, que eram um grupo relativamente pequeno, como um animal de combate contra o movimento trabalhista e a esquerda. Acharam que podiam controlá-los, mas descobriram que estavam errados. Não estou dizendo que o fenômeno vai se repetir aqui, é um cenário bem diferente, mas algo similar está ocorrendo. O establishment republicano, o bastião corporativo e financeiro dos ricos, está chegando em um ponto em que não consegue mais controlar a base que mobilizou.

 

Na política externa, as notícias sobre a Síria sumiram da mídia convencional, desde a aprovação do acordo para confiscar as armas químicas do arsenal de Assad. Você pode comentar esse silêncio?

Noam Chomsky: Nos EUA, há pouco interesse sobre o que acontece fora das fronteiras. A sociedade é bem insular. A maioria das pessoas sabe bem pouco sobre o que acontece no mundo e não liga tanto para isso. Está preocupada com seus próprios problemas, não têm o conhecimento ou o compreensão sobre o mundo ou sobre História. Quando algo, no exterior, não é constantemente martelado pela mídia, esta maioria simplesmente não sabe nada a respeito.

A Síria vive uma situação muito ruim, atrocidades realmente terríveis, mas há lugares muito piores no mundo. As maiores atrocidades das últimas décadas têm ocorrido no Congo – na região oriental –, onde mais ou menos 5 milhões de pessoas foram mortas. Nós – os EUA – estamos envolvidos, indiretamente. O principal mineral em seu celular é o coltan, que vem daquela região. Corporações internacionais estão lá, explorando os ricos recursos naturais Muitas delas bancam milícias, que estão lutando umas contra as outras pelo controle dos recursos, ou de parte deles. O governo de Ruanda, que é um cliente dos EUA, está intervindo maciçamente, assim como Uganda. É praticamente uma guerra mundial na África. Bem, quantas pessoas sabem disso? Mal chega à mídia e as pessoas simplesmente não sabem nada a respeito.

Na Síria, o presidente Obama fez um discurso sobre o que chamou de sua “linha vermelha”: não se pode usar armas químicas; pode-se fazer de tudo, exceto utilizar armas químicas. Surgiram relatórios credíveis, afirmando que a Síria utilizou essas armas. Se é verdade, ainda está em aberto, mas muito provavelmente é. Nesse ponto, o que estava em jogo é o que se chama de credibilidade. A liderança política e os comentaristas de política externa indicavam, corretamente, que a credibilidade norte-americana estava em jogo. Algo precisava ser feito para mostrar que nossas ordens não podem ser violadas. Planejou-se um bombardeio, que provavelmente tornaria a situação ainda pior, mas manteria a credibilidade dos EUA.

O que é “credibilidade”? É uma noção bem familiar – basicamente, a noção principal para organizações como a Máfia. Suponha que o Poderoso Chefão decida que você terá que pagá-lo, para ter proteção. Ele tem de “bancar” essa afirmação. Não importa se precisa ou não do dinheiro. Se algum pequeno lojista, em algum lugar, decidir que não irá pagá-lo, o Poderoso Chefão não deixa a ousadia impune. Manda seus capangas espancá-lo sem piedade, ainda que o dinheiro não signifique nada para ele. É preciso estabelecer credibilidade: do contrário, o cumprimento de suas ordens tenderá a erodir. As relações exteriores funcionam quase da mesma maneira. Os EUA representam o Poderoso Chefão, quando dão essas ordens. Os outros que cumpram, ou sofram as consequências. Era isso que o bombardeio na Síria demonstraria.

Obama estava chegando a um ponto do qual, possivelmente, não seria capaz de escapar. Não havia quase apoio internacional nenhum – sequer da Inglaterra, algo incrível. A Casa Branca estava perdendo apoio internamente e foi compelida a colocar o tema em votação no Congresso. Parecia que seria derrotada, num terrível golpe para a presidência de Obama e sua autoridade. Para a sorte do presidente, os russos apareceram e o resgataram com a proposta de confiscar as armas químicas, que ele prontamente aceitou. Foi uma saída para a humilhação de encarar uma provável derrota.

Faço comentário adicional. Você perceberá que este é um ótimo momento para impor a Convenção sobre Proibição de Armas Químicas no Oriente Médio. A verdadeira convenção, não a versão que Obama apresentou em seu discurso, e que os comentaristas repetiram. Ele disse o básico, mas poderia ter feito melhor, assim como os comentaristas. A Convenção sobre Proibição de Armas Químicas exige que sejam banidas a produção, estocagem e uso delas – não apenas o uso. Por que omitir produção e estocagem? Razão: Israel produz e estoca armas químicas. Consequentemente, os EUA irão evitar que tal convenção seja imposta no Oriente Médio. É um assunto importante: na realidade, as armas químicas da Síria foram desenvolvidas para se contrapor às armas nucleares de Israel, o que também não foi mencionado.

Você afirmou recentemente que o poder norte-americano no mundo está em declínio. Para citar sua frase em Velhas e Novas Ordens Mundiais, de 1994, isso limitará a capacidade dos EUA para “suprimir o desenvolvimento independente” de nações estrangeiras? A Doutrina Monroe está completamente extinta?

Noam Chomsky: Bem, isso não é uma previsão, isso já aconteceu. E aconteceu nas Américas, muito dramaticamente. O que a Doutrina Monroe dizia, de fato, é que os EUA deviam dominar o continente. No último século isso de fato foi verdade, mas está declinando – o que é muito significativo. A América do Sul praticamente se libertou, na última década. Isso é um evento de relevância histórica. A América do Sul simplesmente não segue mais as ordens dos EUA. Não restou uma única base militar norte-americana no continente. A América do Sul caminha por si só, nas relações exteriores. Ocorreu uma conferência regional, cerca de dois anos atrás, na Colômbia. Não se chegou a um consenso, nenhuma declaração oficial foi feita. Mas nos assuntos cruciais, Canadá e EUA isolaram-se totalmente. Os demais países americanos votaram num sentido e os dois foram contra – por isso, não houve consenso. Os dois temas eram admitir Cuba no sistema americano e caminhar na direção da descriminalização das drogas. Todos os países eram a favor; EUA e Canadá, não.

O mesmo se dá em outros tópicos. Lembre-se de que, algumas semanas atrás, vários países na Europa, incluindo França e Itália, negaram permissão para sobrevoo do avião presidencial do boliviano Evo Morales. Os países sul-americanos condenaram veementemente isso. A Organização dos Estados Americanos, que costumava ser controlada pelos EUA, redigiu uma condenação ácida, mas com um rodapé: os EUA e o Canadá recusaram-se a subscrever. Estão agora cada vez mais isolados e, mais cedo ou mais tarde, penso que os dois serão, simplesmente, excluídos do continente. É uma brusca mudança em relação ao que ocorria há pouco tempo.

A América Latina é o atual centro da reforma capitalista. Esse movimento poderá ganhar força no Ocidente?

Você está certo. A América Latina foi quem seguiu com maior obediência as políticas neoliberais instituídas pelos EUA, seus aliados e as instituições financeiras internacionais. Quase todos os países que se orientaram por aquelas regras, incluindo nações ocidentais, sofreram – mas a América Latina padeceu particularmente. Seus países viveram décadas perdidas, marcadas por inúmeras dificuldades.

Parte do levante da América Latina, particularmente nos últimos dez a quinze anos, é uma reação a isso. Reverteram muitas daquelas medidas e se moveram para outra direção. Em outra época, os EUA teriam deposto os governos ou, de uma maneira ou de outra, interrompido seu movimento. Agora, não podem fazer isso.

Recentemente, os EUA testemunharam o surgimento de seus primeiros refugiados climáticos – os esquimós Yup’ ik – na costa sul na ponta do Alaska. Isso coloca em mórbida perspectiva o impacto humano no meio ambiente. Qual é sua posição acerca dos impostos sobre emissões carbono e quão popular pode ser tal medida nos EUA ou em outro país?

Acho que é basicamente uma boa ideia. Medidas muito urgentes têm de ser tomadas, para frear a contínua destruição do meio ambiente. Um imposto sobre carbono é uma maneira de fazer isso. Se isso se tornasse uma proposta séria nos EUA, haveria uma imensa propaganda contrária, desencadeada pelas corporações – as empresas de energia e muitas outras –, para tentar aterrorizar a população. Diriam que, em caso de criação do tributo, todo tipo de coisa terrível aconteceria. Por exemplo, “você não será mais capaz de aquecer sua casa”… Se isso terá sucesso ou não, dependerá da capacidade de organização dos movimentos populares.

(*) Texto originalmente publicado no portal Outras Palavras