Além de minhas forças

Doce brisa trouxe até mim um pássaro canoro

Que coloriu meus dias amenos;

Que em minhas manhãs colocou um sorriso;

Que aspergiu vigor em meus membros

E aspirou de mim o cansaço.

 

Silêncio, quero escutar sua serenata

Para embalar o meu sono sereno;

Elevar sobre mim meu espírito;

Fazê-lo pousar no meu braço.

 

Quero seu entusiasmo.

Quero seu sopro de vida divino,

Sua leveza, sua graça, seu brilho.

Sem querer, sob suas asas eu moro!

 

 

22 de fevereiro de 2013

E…

lê, e escreve e relê e reescreve, e come, e fuma, e toma café, e recomeça o trabalho, e recava buracos no cranio, e cavouca aqui, alí, e anda, e pensa, e vai olhar na janela, enquanto há janelas, e imagina, e volta para o texto, e recomeça tudo de novo, e novas páginas escritas, e possui talento para a coisa, e abre caminhos, e pensa na árvore que não plantou, e no livro que não escreveu, e folheia Lautrèamont, e liga o som, e dança, e se olha no espelho, e abre a geladeira, e esquece que falta comprar bebidas e cigarros, e sai, e entra no supermercado, e compra as bebidas mais fortes, e olha as moças na rua, e pega o bonde andando, e se deixa maravilhar com as coisas simples da vida, e sorri, e dá apertos de mão quando encontra camaradas, e conversa sobre assuntos de extrema importância relativa aos descaminhos da humanidade, e convence um amigo da validade do suicídio, e distorce o que foi torcido, e rivaliza contra javalis que entram na sala, e questiona as provas da validade da existência das formigas que carregam nas costas migalhas do pão de Deus, e arruma motivos para se livrar dos ventos das paixões da vida, e luta com as sombras das vagas que nos assaltam e assombram, e assiste filmes expressionistas do início do séc. XX na quinta feira a noite, e discute a possibilidade de um mundo impossível, e tira do escuro o que está oculto, e sepulta os mortos, e procura nexos e novas pastas de músicas no computador, e ouve músicas, e se alheia do mundo, e nota que as máquinas fazem ruídos estranhos quando masturbadas, e espera o telefone tocar, e deixa a semana passar como um bonde em alta velocidade, e recebe convites que ignora, e retorna a si, e se fecha no quarto escuro, e mexe em papéis antigos, e redescobre um álbum de fotografias repleto de significados extra-sensoriais, e deixa por um momento a tristeza ir embora, e abre a porta pra tristeza voltar, e continua firme nos propósitos insólitos, e desanima, e pensa no curso sombrio das coisas, e queima igrejas, e releva o que fácil vem e o que fácil vai, e puxa fios invisíveis de pensamento de dentro do nada, e vem tudo de uma vez o tédio a angústia e o nada, e diz sim quando é para dizer não, e diz não quando é para dizer sim, e saúda o sol, a lua, as estrelas, a chuva, os relâmpagos, os ventos, e gosta de ver o fogo queimar, o amarelo embaixo e azul dançando em cima, e divaga na solidão o acerbo e o mavioso, e percebe a expansão do amor sobre o egoísmo, e deixa de lado o despotismo, e anarquiza, e pratica pequenos delitos, e esquizo, e fode, e sem desespero espera a hora sagrada do gozo, e ama a moça desiludida, e idealiza um mundo melhor, e protesta, e contesta, e revê conceitos, e se auto-critica, e se recoloca no seu lugar, e escreve cartas de injúrias contra o bem e a favor do caos, e recebe respostas cortadas de santos ignorantes, e volta no tempo, e nega com força toda forma expressiva de autoritarismo, e destrói o fascismo, e cria novas aberturas, novas fendas, novas sendas, novos caminhos para a saída de um modo nocivo de compreender a vida, e percebe que há os clássicos entre Homero e os irmãos Campos, e arrasta o rosto no concreto, e desnormaliza o que as normas atrofiam, e chama qualquer um para duelo ao anoitecer, e desafia a fio de espada qualquer deus do Olimpo, e não gosta, por uma questão de princípios, da banda The Exploited!

A. L.

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Samba do Querer.

22 de outubro de 2013 às 00:23
Danilo Borges

Eu quero um samba pra desencantar,

essa magia que me faz sentir.

Uma rosa no peito sempre a brotar

como uma rima que toco a escandir.

 

Eu quero um partido alto para alcançar

o lençol da noite que vai nos cobrir,

e colher estrelas pra te presentear,

prender em pingentes te fazer sorrir.

 

Eu quero um charme pra poder sambar

e sua sapatilha azul bailando a colorir,

fazendo do chão céu, o pó da terra amar

e fazer dançar o povo desse meu país.

Destaque

A vida

“A vida é luta renhida”G. Dias

Mimado menino acostumado a fazer manha;

Menino promíscuo acostumado a fazer birra,

Toma tento e até que cresça não me apareça!

Que a vida não pára, não volta, não espera

E se acaba tão depressa…

Menino mimado e desacostumado ao não,

Não pode voltar ao seu ninho,

Porque seus conjuros nas encruzilhadas,

suas preces, promessas

nem sempre serão alcançadas!

Nos nossos caminhos, são fartos os espinhos;

sobejam carcaças dormindo ao relento

reanimadas por abutres famintos.

Menino mimado, não esqueça: a vida não é uma festa!

 

 

Thaís GM

Papa discretamente recebe o líder da Teologia da Libertação

Ao receberem a informação sobre o encontro entre o Papa e Gutierrez, vários teólogos brasileiros e europeus perguntaram também de modo informal quem teria mudado, se teria sido Francisco ou os teólogos da libertação

Por Dermi Azevedo, na Carta Maior

Gustavo Gutierrez, integrante da Ordem Dominicana (Foto: Carta Maior)

O papa Francisco recebeu discretamente no Vaticano, há cerca de um mês, a visita do principal líder da Teologia da Libertação, o religioso peruano Gustavo Gutierrez. Integrante da Ordem Dominicana, o padre Gustavo tornou-se, nos anos 70, o primeiro teólogo a sistematizar essa corrente no interior da Igreja Católica Romana. A sua visita ao Papa aconteceu de modo informal, fora da agenda oficial do pontífice. Contudo o significado político dessa reunião é evidente e representa o apoio explícito dos teólogos da libertação à opção pelos pobres, já oficializada por Francisco como a diretriz fundamental de sua gestão como chefe da Igreja.

O apoio ao atual Papa vem sendo articulado desde antes da eleição vaticana. Quando o nome do cardeal Bergoglio foi anunciado, bispos. teólogos e outras personalidades ligadas à Teologia da Libertação deram publicamente declarações em que afirmavam a sua expectativa de uma administração que pudesse tirar o Catolicismo de sua pior crise desde o século 19.

Quem mudou?

Ao receberem a informação sobre o encontro entre o Papa e Gutierrez, vários teólogos brasileiros e europeus perguntaram também de modo informal quem teria mudado, se teria sido Francisco ou os teólogos da libertação. Na verdade, ambos mudaram. O Papa assumiu o discurso anticapitalista da Teologia da Libertação e confirmou a opção pelos pobres. Os teólogos reafirmaram de modo mais amenizado o recurso a categorias dialéticas para a leitura crítica da realidade.

Teologia da Libertação é a versão latino-americana de correntes progressistas na Igreja

Pela primeira vez, na história da Igreja Católica na América Latina, a doutrina foi sistematizada fora dos padrões e do controle do centro de poder romano. Isto aconteceu com o movimento teológico-político que se tornou conhecido como a Teologia da Libertação (TL), resultante de pesquisas, debates e de outras atividades de caráter ecumênico. A primeira formulação da TL foi feita pelo teólogo peruano Gustavo Gutierrez, em julho de 1968. Três anos depois foi publicado seu texto Teologia de La Liberación, que se tornou um sucesso editorial.

Um trabalho semelhante ao de Gutierrez também foi feito, nos primórdios da TL, por vários teólogos e filósofos católicos e evangélicos, entre os quais Rubem Alves, Hugo Assmann, Carlos Mesters, Leonardo e Clodovis Boff (Brasil), Jon Sobrino e Ignacio Ellacuria (El Salvador), Segundo Galilea, Juan Luis Segundo e Julio de Santa Ana (Uruguai), Ronaldo Muñoz (Chile), Pablo Richard (Chile e Costa Rica), José Miguel Bonino e Juan Carlos Scannone (Argentina), Enrique Dussel (Argentina e México). Entre os brasileiros, destacaram-se também, no campo evangélico, os nomes de Jether Pereira Ramalho, Zwinglio Dias, Hugo Assmann e Anivaldo Padilha.

É consenso entre esses teólogos que falar da Teologia da Libertação “é buscar uma resposta para a pergunta: que relação existe entre a salvação e o processo histórico de libertação do ser humano”. Essa obra tornou-se um paradigma para toda uma reflexão que muda o método teológico (não só a partir das ideias, mas a partir da realidade).

O sistema dominante na América Latina logo percebeu a dimensão sócio-política transformadora da TL. A sua expansão foi, por exemplo, um dos temas da Missão Rockfeller, que Nixon enviou à América Latina nos anos 60. As ditaduras militares latino-americanas também assumiram esta pauta em nome da contenção do “comunismo internacional”. Entretanto, como resultados concretos da TL surgiram e cresceram as Comunidades Eclesiais de Base e as pastorais sociais. Também, em grande parte, movimentos sociais como o dos Sem Terra são herdeiros dessa nova visão teológica.

Na Igreja, a reação contra a TL articulou-se já a partir de 1982 e ganhou força com a eleição de João Paulo II, em 1978. A influência da TL fez-se sentir em 1979 na vitória da Revolução Sandinista contra a ditadura de Somoza, na Nicarágua, que teve uma participação destacada de padres e leigos. Um dos principais seguidores da TL, o arcebispo salvadorenho d. Oscar Romero, foi assassinado em 24 de março de 1980, enquanto celebrava a missa.

Paralelamente, no Vaticano, a Congregação para Doutrina da Fé reagiu à TL, particularmente a partir de denúncias feitas por bispos latino-americanos voltadas, sobretudo, para os teólogos Gustavo Gutierrez e Leonardo Boff. O Vaticano tentou, sem sucesso, que os bispos peruanos condenassem Gutierrez. Boff, no entanto, foi silenciado e a Congregação publicou, em 6 de agosto de 1984, uma Instrução sobre alguns aspectos da teologia da libertação, que, apesar das críticas, afirma, em seu primeiro parágrafo; “A poderosa e quase irresistível aspiração dos povos a uma libertação constitui um dos principais sinais dos tempos que a Igreja deve discernir e interpretar à luz do Evangelho”.

Porém, o aspecto essencial da TL é seu enfoque político transformador, ao conceber o Cristianismo, não como uma ideologia legitimadora do status quo, mas como um suporte para a libertação concreta dos seres humanos, diante de todas as opressões a que é submetido. Recolhendo alguns eixos do pensamento marxista, a TL faz, igualmente, uma leitura dialética da realidade, sempre tendo a Bíblia como referência fundamental.

A descoberta do marxismo pelos cristãos progressistas e pela TL não foi um processo puramente intelectual ou universitário. O seu ponto de partida foi um fato social: a realidade da pobreza na América Latina e a tentativa de, ao identificar as causas dessa situação, tentar superá-la. Alguns dos teólogos da Libertação (influenciados por Althusser) referem-se ao marxismo simplesmente como uma (ou a) ciência social, utilizada, de modo estritamente instrumental, para conhecer melhor a realidade latino-americana.

Outros destacam, igualmente, os valores do marxismo, suas opções ético-políticas e seu anúncio de uma utopia. Esses teólogos são atraídos mais pelo neo-marxismo do que pelo marxismo ortodoxo e tradicional. Entre os autores marxistas, Emst Bloch é o mais citado nas obras da TL, registrando-se também referências a Althusser, Marcuse, Lukács, Gramsci, Henri Lefèbvre, Garaudy, Schaff, Kolakowski, Lombardo-Radice, Luporini, Sanches Vasquez, Fanon, Lucien Goldmann e Ernest Mandel. No marxismo latino-americano, as principais referências para a TL são o peruano José Carlos Mariátegui – com sua interpretação original do marxismo – a revolução cubana e a teoria da dependência, de Fernando Henrique Cardoso, André Gunder Franck, Theotônio dos Santos e Anibal Quijano.

Opção pelos pobres

No binômio opressor/oprimido, Gutierrez e os outros teólogos da libertação, priorizam os pobres como sujeito central de sua própria libertação. A preocupação pelos pobres remonta às origens do Cristianismo, mas os teólogos da libertação não os consideram como objeto de filantropia, mas como sujeito de sua própria emancipação.

Convergem, assim, para a ideia histórica marxista de que a emancipação dos trabalhadores será uma obra dos próprios trabalhadores. Por outra parte, esses teólogos manifestam um anticapitalismo mais radical e categórico que dos próprios partidos comunistas latino-americanos, ainda crentes no perfil progressista da burguesia industrial e no papel histórico do desenvolvimento industrial capitalista.

 

Escritor colombiano percorre o continente em busca de poetas inéditos

Santiago do Chile é a terceira cidade que visita buscando poetas. Depois parte ruma ao Uruguai

Partiu em janeiro deste ano e estima que toda a viagem levará cerca de dois anos. O projeto é chamado “Em busca de Poetas” e consiste em fazer uma turnê pela América Latina em busca de poetas inéditos, com os quais finalmente  será publicado um livro.

Texto de Marco Fajardo, trad. livre de Thaís de Godoy Morais

O escritor colombiano Eduardo Bechara está atualmente em Santiago, sua parada número 33 de 141 pontos, em sua viagem que o fará viajar da Patagônia até Caracas, em busca de poetas inéditos para publicação de uma antologia latino-americana.

Em uma tarefa titânica, no caso do Chile, Bechara esteve em cidades como Los Angeles ou Ancud para entrevistar autores locais e conhecer as suas criações. Agora está em Santiago (já se comunicou com José Ángel Cuevas e Antonio Rioseco).

Ele saiu em janeiro deste ano e estima-se que todo o trajeto lhe tomará cerca de dois anos. O projeto “Em busca de poetas” pretende coletar dois mil poemas em um percurso de 26 mil quilômetros. Bechara não procura qualquer poeta, mas aqueles para quem “a poesia é parte integrante de suas vidas”.

O autor, que estudou direito e literatura na Universidade dos Andes, na Colômbia, também tem planos de publicar uma antologia de poetas consagrados e um terceiro livro com suas experiências de viagem (pode ser lido em

http://eduardobecharanavratilova.blogspot.com).

Projeto

O projeto surgiu em 2010, quando Bechara estava em Córdoba, Argentina, visitando outro Eduardo Bechara que surpreendentemente também é escritor e inclusive se parece fisicamente, embora eles não sejam parentes.

“Falávamos do pouco reconhecimento dado aos artistas em geral e aos poetas em particular. Nós tínhamos experimentado na pele a forma que, quando nos assumimos como artistas, como escritores, começaram a nos ver com olhos diferentes, desconfiados, porque, quando uma pessoa assume uma vida diferente, fora do cotidiano, e fora do que a sociedade quer impor, as pessoas, que fazem parte desse sistema começam a olhar de forma depreciativa ou pejorativa. Entre outras coisas porque também não te entendem qual é a sua luta, e te olham como um pobre diabo, porque você não tem os meios, não tem dinheiro, sua vida não está destinada a enriquecer”, explica.

Foi, então, que começamos a fantasiar com a ideia de uma viagem pela América do sul “buscando poetas e dando-lhes o reconhecimento que merecem, dizendo-lhas ‘olhe, o que você faz é importante e aqui estou eu entrevistando e falando com você para que saiba disso’ dando-lhes o crédito que merecem”.

“Os poetas são importantes para mim porque são seres capazes de ver mais além do evidente” acrescenta. “Vão ao centro das coisas e desentranham suas verdades. O fato de que ninguém lhes dê reconhecimento, ou pior, até mesmo, os vejam com maus olhos ao invés de apreciá-los, me faz reivindicá-lo.”

Quixotesco

 De volta à Colômbia, Bechara montou um projeto e saiu em busca de financiamento entre empresas que podiam trocar por isenção fiscal. E obteve êxito: uma delas, Pavimentos Colômbia, lhe deu apoio para sua “quixotesca” ideia, da qual podia sair “algo muito bonito”, segundo executivos.

Foi assim que Bechara voou a Buenos Aires. Graças a duas publicações ali já possuía uma rede de amigos do meio literário e através do Facebook pode difundir a ideia do projeto. Uma poetisa local, Viviana Abnur, lhe deu alguns contatos patagônicos e então voou a Ushuaia, no extremo sul da Argentina, para começar seu trabalho.

Os métodos de busca vaiam de uma cidade para outra. “Se conheço os poetas mais representativos do local, deixo que eles me levem aos inéditos. Se não conheço nenhum vou à Casa de Cultura ou às bibliotecas. Ali me ajudam a entrar em contato com eles”, comenta Bechara.

Em geral, tem funcionado  da seguinte forma: os poetas mais conhecidos o apresentam a outros inéditos. Foi justamente o contato constante e quase imprescindível com os primeiros o que fez com que Bechara decidisse criar um segundo livro, uma antologia dos consagrados. Isso fez com que se decidisse a estender o projeto que era de seis meses a um ano para pelo menos dois anos.

Bechara cruzou o Chile por Osorno em 10 de julho e, depois de visitar Chiloé, começou a subir até chegar a nossa capital (passou por Puerto Montt, Puerto Varas, Valdivia, Pucón, Villarrica, Temuco, Concepción, Los Ángeles, Chillan, Talca, San Fernando e Santa Cruz). Em Santiago ficará umas três semanas para ver ao menos cem poetas. Logo se dirigirá a Viña del Mar e Valparaíso.

Posteriormente, voltará à Argentina para ir à Mendonza e Buenos Aires e depois a Montevidéu. Seguirá para Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e finalmente a costa venezuelana.

A ideia é que, quando termine a viagem e a compilação do material, um jurado internacional, integrado pelos poetas colombianos Eduardo Escober, Elkin Restrepo e os argentinos Fernando Noi, Santiago e Gaciela Cros, selecione os poemas e que em cada país uma editora independente publique a antologia.

Os poetas chilenos

De que falam os poetas, ao menos os que conheceu até agora?

Um dos principais temas são as circunstâncias da ditadura.No Chile, na poesia a ditadura se assume como um desses terremotos que sacode o território chileno, da mesma forma que a sociedade foi fragmentada” diz. “isso é muito repetido entre diferentes poetas”

Outros temas são “o feminino, o feminista, o gay”, assim como “o mapuche” (Bechara falou com diversos poetas mapuches, como Elicura Chihuailaf, Roxana Miranda, Lionel Lienlaf, Javier Milanca, Cristián Antillanca, e espera encontrar com Jaime Huenún) e o lírico (a volta à infância, a melancolia das perdas como na obra de Jorge Teillier) . Neste último tema se destaca Bernando Gonzalez Koppmann, um poeta de Los Angeles, em Talca.

Para Bechara uma das características da poesia chilena é “que vai direto às feridas, sem palavras suaves. Não utiliza eufemismos, a não ser para chamar as coisas por seu nome. Não lhe interessa usar suavizantes, como ocorre em outros lugares da América Latina. Aqui, quanto mais se põe o dedo na ferida melhor”.

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Brasileiras desafiam guerra na Síria para cuidar de civis

Mariana Della Barba

Da BBC Brasil em São Paulo

 

Atualizado em  3 de outubro, 2013 – 06:56 (Brasília) 09:56 GMT
  • Civis na Síria

Civis ajudados por brasileiras sofriam com a falta total de atendimento básico de saúde

As brasileiras Bianca Dias Amaral e Letícia Pokorny percorreram durante horas um trajeto perigoso para entrar ilegalmente em um país de onde 2 milhões de pessoas já fugiram: a Síria.

Com alguns meses de diferença, as duas partiram da Turquia com o mesmo objetivo: chegar a dois hospitais no norte do país para ajudar civis, vítimas da guerra ou de problemas decorrentes dela, como a escassez total de serviços básicos de saúde.

Como os dois hospitais – ambos mantidos pela ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) – ficavam em áreas controladas pelos rebeldes, as duas tiveram que cruzar a fronteira ilegalmente.

“Foi muito assustador. Atravessei um descampado por umas três horas e, o tempo todo, ia ouvindo os bombardeios, sem parar. Quando cheguei em uma rodovia de terra, tive de correr por uns 500 metros, sem olhar para trás”, conta Bianca, uma obstetra de 30 anos que, para o desespero de sua família, foi para Síria em sua primeira missão no MSF.

Já a fisioterapeuta Letícia, de 37 anos, havia acabado de passar alguns meses na Líbia quando foi chamada para ir para Síria, sua 11º missão para a ONG.

Com bagagens diferentes, elas contam à BBC Brasil os desafios que enfrentaram, os medos e também os momentos recompensadores.

Bianca Dias Amaral

 

BBC Brasil – Como você foi chamada para ir à Síria?

Bianca Dias Amaral – Quando o pessoal do MSF me ligou perguntando se eu queria ir para a Síria, fiquei muito surpresa, porque normalmente eles mandariam pessoas mais experientes para um local assim. Então pedi um dia para pensar. Após 12 horas, estava convicta de que não iria. Porque mesmo indo com uma ONG desse porte, há coisas contras as quais você não pode se proteger. Quando liguei para comunicar minha decisão, conversando com a coordenadora, eu aceitei, pois vi que era exatamente isso que eu queria. Embarquei no começo de abril e fiquei até o fim de junho.

BBC Brasil – Como era sua rotina lá?

Bianca – Meu trabalho envolvia justamente a área da saúde básica, algo que ficou totalmente comprometido com a guerra, já que os hospitais foram destruídos e a maioria dos profissionais fugiu. Fazia partos, pré-natal, consultas. O ritmo de trabalho era intenso, porque além do trabalho durante o dia, também corria para o hospital toda vez que uma grávida chegava para ter o bebê. Em 9 semanas, só em 3 noites não fui chamada.

BBC Brasil – Você sentia que estava em um país em guerra?

Bianca – Após um mês e meio, houve um grande ataque. Bombas caíram perto do hospital. As paredes tremiam e o barulho era ensurdecedor. Atendemos dezenas de feridos. Depois, ficamos sabendo que as tropas do governo estavam marchando em nossa direção. E não sabíamos se iam conseguir nos tirar de lá ou não. Esse foi meu pior momento. Uma hora, percebi que estava respirando muito ofegante, mas eu não estava correndo nem nada, estava sentada na minha cama, parada. Estava em pânico.

BBC Brasil – E vocês foram retirados no final? Como foi?

Bianca – Sim. Quando saí, senti um misto de alívio por deixar aquele lugar, algo bem egoísta, com uma sensação frustração, por estar abandonando as pessoas que já haviam sido abandonadas por todo mundo. Mas a situação melhorou e voltamos depois de alguns dias.

BBC Brasil – Como foi trabalhar em um país muçulmano?

Bianca – Eu usava véu e blusa cobrindo os braços, o que às vezes era complicado por causa do calor. Mas nunca sofri nenhum tipo de preconceito por ser mulher. Também me fez aprender um pouco de árabe, principalmente os termos ligados a parto, seja alguma palavra técnica até a saudação que eles fazem quando o bebê nasce. E achei curioso que, em vez do marido, é a sogra que acompanha a gestante na hora do parto.

BBC Brasil – No que essa missão te marcou?

Bianca – Fiquei muito impressionada com o comprometimento dos sírios que, apesar de tudo, decidiram ficar no país e resolveram ajudar, como a minha tradutora, que era estudante de literatura em Aleppo antes de a guerra estourar. Meu jeito de trabalhar não mudou tanto, mas, pessoalmente, sou outra. Mudou tudo. Minhas preocupações, minhas prioridades.

BBC Brasil – Pra onde você vai agora?

Bianca – Vou para o Quênia por 14 meses. E estou torcendo para minha mãe ter esquecido sobre o ataque ao shopping da capital. Mas é uma missão mais tranquila, em que serei a supervisora de saúde da mulher, com serviços como pré-natal, parto, ações relacionadas ao HIV, violência sexual.

Destaque

Um dia

Num dia, venci este teu jogo atroz.

Se eu te amei um dia, foi porque, quando falavas com a boca cheia de alegria,

Iluminavas todos os meus dias.

Foi porque, quando me beijavas e falavas de poesia,

Tua boca te afogava em lascívia.

Foi porque atrás de fragilidades vi tua força.

Foi porque de trás da máscara escapou um pouco da tua essência magnífica.

E vi nobreza, e vi falta de malícia, e vi a lua cheia escondida e passei a persegui-la.

Por uma brecha, vi um lago plácido atrás de tanta correria.

Vi teu ser todo completo, pelo vão da cortina deste palco da agonia.

Porque por uma fresta vislumbrei o futuro.

Vislumbrei o Grande Homem que você seria um dia.

Se te amei um dia foi porque você me ofereceu

Matéria bruta para a minha poesia.

A paixão de ler