“Indescrição”

Não sou um cão

cansado de viver,
Não sou a garça,
Não sou a Graça,
Não sou o quer que eu seja
Nem o que quer que seja.
Nem Beatriz nem Tereza
Nem anjo nem capeta
Nem estável ou volúvel
Ou frágil e forte

Ou uma dama de negro,

que anuncia sua morte.
Nem uma das almas
impassíveis  do inferno,
Que não foram más
tampouco boas.
Não sou resoluta ou indecisa
Nem perdulária ou sovina.
Não sou gênio nem lâmpada
Nem despeitada ou símia.
Não sou fresca nem delicada
Nem esforçada, sensível ou sensitiva.
Nem vidente ou visionária.
Não sou doida; falsa, menos ainda.
Nem ninfeta ou senil
Nem menina nem mulher de verdade
Nem pagã nem ateia nem carola.
Meus genes não são maus!
Perfeitos não são também!
Querem-me até
cachorra e homicida?
Deixem-me em paz!
Por que me afligem?
Nada mudará, se me imolarem!
Se fui ao menos
uma dessas coisas,
nada mais sei.
Perdi-me de mim mesma,
Num turbilhão de espelhos deformados;
Numa sobrecarga de tintas e borrões.
Deixem-me viver!
Vivo como aprendiz de ser
primordial e brutalmente alguém….

Poesia

Até quando tudo será um pedaço de outra coisa?
Até quando velaremos fragmentos?
Cacos, puzzles inacabados e reticências?
Histórias sem meio nem final.
Tudo será sempre só o início
De algo que poderia ter sido?
Uma promessa?
Uma esperança?
O Nada
Ou pior que o nada:
Sugestões de coisas diversas
do que são na verdade.
O improviso de um amador
que se esqueceu como é viver
Quando sentiu que vivia.

Requerer

 

Como pedir a uma gota de chuva que se suspenda no ar?

Como pedir, em pleno voo, às asas dos pássaros que parem de bater?

Como pedir ao vento que pare de soprar?

Ou a um rio que pare de correr;

 

Como solicitar a um tigre faminto que não devore sua presa?

Ou requerer a um raio que interrompa seu curso,

Para não chamuscar uma árvore indefesa?

Ou pedir ao sol que pare de brilhar?

Como? Como? Como?

Só as rochas podem pedir uma coisa assim…

Se algo se consegue controlar prudentemente,

É porque seu querer não é tão ardente…

Rastro

O vazio deixou um rastro, deixou um rastro

em minhas veias.

Caminhou por elas como em ruas após

a chuva, quando o mundo ainda

está abrigado e

fica no ar o cheiro do pó

que virou

barro.

Revolução de Jasmim, in memoriam de Mohamed Bouazizi

ثورة الياسمين

A púrpura tirou-lhe o pão e a humilde banca de frutas.

Sem meios para o sustento, Azizi vende dor

“a todos aqueles que sonham com a liberdade”.

Imagens oníricas viraram concreto pelo concreto

Ou virarão algum dia?

 

Ele imaginou o saldo de seu gesto?

Se soubesse, novamente se imolaria?

 

Nas Revoluções com nomes de flores o sinistro e o sublime se misturam.

Quão apavorante é a arrastada miséria humana,que um arrepiante gesto
de horror instantâneo aliviaria?

 

Ascende o novo modo velho de ser e de pensar.

O que se perderá, o que se ganhará?

As belezas naturais e feminis,

encobertas aos filhos mestiços de antigos fenícios,

são visitadas pelos curiosos;

reveladas aos peregrinos pagãos.

 

A esse lirismo brutal e pronto me debruço,

Esperando, desse jasmineiro, o fruto.

 10-09-2012

Amoras nos muros

A meu primo Marcelo Balberde Boccuzzi

Como é difícil colher amoras!

— É muito perigoso!

Há pontas de cacos

de vidro nos muros

os quais só alguns podem pular.

Só eles podem subir

na árvore e alcançar

seus frutos maduros.

O sangue do crime

nas mãos rubras de amoras!

Ah! Quem dera ser maior e mais forte!

Os galhos do outro lado

do muro cortante alcançar!

Mas, ainda assim, precisaria enfrentar

as aranhas nas folhas escondidas,

os escorpiões, as cobras,

peçonhas esperando

mãozinhas inocentes e limpas.

Quem pode com elas?

Só eles… eles podem!

O vento bondoso derruba

as mais maduras, pesadas,

dos altos galhos que pendem do lado

de cá da muralha intransponível.

Mas seu gosto amassado, passado

O tempo estragou!

No ladrilho vermelho,

seu sumo jaz esparramado.

As tenras e frescas,

só eles podem comer.

Dia escuro, nuvens cinza-carregadas,

Cascatas de suco rolam as escadas.

_ Com ácido, limpa-se tudo!

Asas, asas, dêem-me asas para alcançá-las.

Ah! quebrar os cacos, derrubar

o muro a machadadas,

e elas, todas aqui, assim!

15 de setembro de 1998

Perdão, padre, porque pequei!

_Perdão, padre, porque pequei!

Tive um sentimento vergonhoso,

não consigo contar.

_O que foi, minha filha?

Deus é misericordioso.

_Tive innnvejjaa.

_O quê? Inveja?

_Sim, inveja.

_De quem?

_Da cantineira de minha escola.

_Mas por quê?

_Porque ela sabe virar

panquecas no ar…

_Só isso?

_Não, também tive inveja

Das moças que dormem…

_Como?

_Sim padre, das moças que dormem.

_Só isso?

_Não, tive também dos pássaros que voam,

Dos peixes que podem ir

a lugares onde não posso estar.

Tenho inveja de tanta coisa…

Das roupas de meu amado,

Do ar que ele respira.

Nem a luz escapa.

E dos mortos todos

que talvez já saibam

de coisas que eu não sei

e talvez estejam reunidos em algum altar

aonde eu não sei quando vou chegar,

Ou talvez já não sintam mais

O mundo todo fora do lugar…

Jacareí, 24 de junho de 2012

O Nada

Thaís de Godoy
Nada se extingue.
Tudo o que há
É um reflexo
Do que já houve.
O que já houve
São ecos ressoando
No presente...


Se aqui ninguém
Seu tinir ouve,
É porque nada,
Na dor de um ser ausente,
Se distingue.


19 de junho de 2007