Destaque

Não te rendas

Mario Benedetti

Dw3gOAmW0AE8bJq
Grafite representando protesto dos coletes amarelos, releitura do quadro “A liberdade guiando o povo”, Delacroix

 

 

Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos,
largar o lastro,
retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
continuar a viagem,
perseguir os teus sonhos,
destravar os tempos,
arrumar os escombros,
e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento:
ainda há fogo na tua alma
ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,
porque o quiseste e eu te amo,
porque existe o vinho e o amor,
porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
tirar os ferrolhos,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto,
baixar a guarda e estender as mãos,
abrir as asas
e tentar de novo
celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:
mesmo que o frio queime,
mesmo que o medo morda,
mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo na tua alma,
ainda existe vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo início,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, por eu te amo.

 

Destaque

A Montanha Mágica

O teu repouso, pedra, enquanto passo,

Faz o sonhar mais lento ao deus que dança.

Temo o fim do que avança pelo espaço,

Mas o teu sono lasso o tempo amansa.

 

Tudo o que vive neste mundo cansa:

Já nem meço a extensão do meu cansaço.

O amor inclina os seres à esperança

E a quem vive da espera o tempo é escasso.

 

Jacó serviu sete anos, e mais sete,

Labão, pai de Raquel. E mais servira…

Comigo a conta se repete.

 

Imoto, sofro ao Tempo que me fira,

Sem que te arremedar me desinquiete.

Espero, e fiz-me pedra que delira.

29-06-2012

Ascher-Cliff-Restaurant-Suíça

Destaque

Profissão professor

Desabafo de uma professora sobre as mudanças das regras na aposentadoria do magistério

Eu amo dar aulas, mas dar de 30 a 60 aulas semanais, como muitos de nós precisam fazer para se sustentar por 40 anos é desumano. Nossa profissão exige demais.

Alguns professores se esforçam muito para ensinar mais de 600 crianças e adolescentes semanalmente, alguns em mais de 3 escolas. Sem contar o trabalho nas horas vagas: preparo de aulas, correção de provas e trabalhos. O estresse se agrava porque sacrificamos nossas horas de lazer ao longo de todo ano letivo.

Continuamos sim, por amor à profissão. Afinal foi o que escolhemos, mas conforme os anos passam nossa paciência e energia vão se esgotando e doenças profissionais começam a aparecer. Minha mãe, por exemplo, adquiriu pelo menos quatro. Ela se aposentou, pela compulsória aos 70, sem saúde para desfrutar da aposentadoria.

Além dessas dificuldades, convivemos diariamente com o tráfico de drogas e a violência de e em todas as direções. Perdemos muitos alunos para o mundo que não lhes deu uma chance. Alguns também se matam quando as mordidas deste mundo lhes arrancam alguns pedaços imprescindíveis e faltam-lhes as forças para continuar.

O que muitos professores pensam é: o que eu não consegui fazer por eles? O sentimento de impotência é diário.

Muitos professores continuam na profissão pela gratificação de ver que alguns alunos conseguem alcançar os sonhos dele. Apesar disso, as dificuldades não resolvidas pesam ao longo de muito tempo, por isso muitos professores contam com a aposentadoria especial e precisam dela.

As mudanças que o governo pretende fazer nas regras para aposentar tiram nossas esperanças de conseguir suportar tais dificuldades numa fase da vida em que precisaríamos, no mínimo, reduzir muito nossa carga horária.

Portanto precisamos agora repensar se vale mesmo a pena continuar nessa carreira tão nobre, quanto desvalorizada e desrespeitada no Brasil. Neste momento, apesar das conquistas nos resultados do Idesp em nossa escola, que bateu sua meta em 120%, meu desejo é mudar de profissão.

GODOY

A paixão de ler

Big Brother Brasil, um programa imbecil

Por Antonio Barreto

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação. Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Da muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder: Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal.
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal.

 

Antônio Carlos de Oliveira Barreto, nascido nas caatingas do sertão baiano, em Santa Bárbara, na Bahia, é Professor, poeta e cordelista. Amante da cultura popular, dos livros, da natureza, da poesia e das pessoas que nasceram para evoluir espiritualmente. Graduado em Letras Vernáculas e pós graduado em Psicopedagogia e Literatura Brasileira.
Seu terceiro livro de poemas, Flores de Umburana, foi lançado em dezembro de 2006 pelo Selo Letras da Bahia. Antônio Barreto Teve vários trabalhos foram publicados em jornais, revistas e antologias, além de ter escrito centenas de folhetos de cordel abordando temas ligados à Educação, problemas sociais, futebol, humor e pesquisa, entre vários títulos ainda inéditos. Ele também compõem músicas na temática regional, como toadas, xotes e baiões.

Nossos pais

Belchior

Não quero lhe falar meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa
Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram
E o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada
Com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu ‘tô por fora
Ou então que eu ‘tô inventando
Mas é você que ama o passado
E que não vê
É você que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a ideia
De uma nova consciência e juventude
‘Tá em casa
Guardado por Deus
Contando vil metal
Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos como os nossos pais.

Compositores: Antonio Belchior
Resultado de imagem para belchior

Destaque

O apocalipse nosso de cada dia

Todos os dias é o fim do mundo de alguém:
Amores são perdidos
Impérios novos e antigos se esfacelam
Hospitais, médicos, doentes são bombardeados
Cidades arrasadas
Mulheres estupradas
Refugiados afogados
Escravos torturados
Crianças mutiladas
Atletas incinerados

Todos os dias um mundo se acaba:
Florestas são arrasadas
Doces rios doces enterrados vivos
Sob as lamas de várias Samarcos
Genocídios de todos os tipos
Contra todos os diferentes
Contra todas as minorias
Contra todos os vulneráveis, rejeitados, dissidentes,
Com todos os tipos de armas,
Empalados, estripados, degolados, eletrocutados, fuzilados,
Dizimados…

Há infinitos apocalipses diariamente.
Seu mundo acabou algumas vezes?
Até gigantes estrelas se apagam
Corpos celestes se precipitam na vastidão do nada
Do qual nem a luz escapa

Porém os astros não têm sangue, músculos,
Terminais nervosos, medula, mente.
Nada sentem, criam, aprendem
Pelo, sobre e com seu implacável fim.

Leve um instante, leve um milhão de anos,
As constelações nada sentirão diante do abismo.
Por isso, perdoe-me o poeta:
Somos algo mais que filhos do carbono e do amoníaco.
Perdoe-me o astrônomo:
“Somos feitos da mesma matéria das estrelas” e muito, muito além…

Godoy – 2017

CaronteAlmasEstigeLytovchenkoOlexandr
Caronte e as Almas no Estige de Lytovchenko Olexandr
Destaque

Manir e Cyro

São Paulo, 9 de fevereiro de 2006.

Manir de Godoy
Recebi entre lágrimas a notícia do seu falecimento e entre lágrimas me ocorreu apenas dizer:
_ Era muito grande a expectativa do Manir, por essa viagem que ele está agora iniciando.
Sofreu muito esperando. E finalmente quando consultado por médicos, concordou em dormir. Para ele seria apenas dormir.
Para dividir comigo um fato que o consolava, ele me contou a história da barbearia do Chico Xavier.
Alguém que admirava o homem que tinha intimidade com a eternidade, descobriu onde estava o barbeiro que o servia e quando ele estaria lá. A cabeleira do Chico Xavier era uma peruca e havia um barbeiro que não cortava os cabelos que ele não tinha, mas tratava sua calva que tinha um problema dermatológico. Naquela data e hora essa pessoa que queria vê-lo adentrou a barbearia e sentado como se fosse usar os serviços dos profissionais da barba e do cabelo, ficou esperando. Em alguns minutos Chico Xavier chegou gozando dos olhares daqueles para quem ele era uma figura sagrada, e cumprimentando a todos como se os abençoasse. Sua figura era também algo bizarra, por sua peruca e seus lábios continuamente úmidos. Sentou-se na cadeira de seu barbeiro que retirou sua peruca e começou a aplicar-lhe um óleo perfumado, como se fosse mirra aplicada a um homem santo.
Criando coragem, quem esperava levantou-se e quase curvado pela reverência exagerada, pediu licença para aproximar-se dizendo:
_ Sr. Chico o senhor me dá licença de roubar-lhe um minuto? Queria apenas fazer uma pergunta.
Iniciando o diálogo que consistiria de apenas uma pergunta e uma curta resposta, disse:
_ O sr. acha mesmo que há uma vida após a morte?
Chico Xavier virando para ele a cabeça que era tratada, olhou nos olhos o seu interrogador e sorrindo disse:
_ Não meu filho, não existe outra vida após a morte: é a mesma.
Talvez a resposta sucinta, respondendo a tantos mistérios, exaustivamente examinados por Manir, o tenha comovido e movido muito. Ele me contou essa histórinha comovido como se Newton tivesse reinventado uma teoria da luz.
Menino da Rua Virgílio do Nascimento no Brás, morava com sua mãe em uma casa muito pequena nos fundos de outra casa. E havia lá um violino e uma admiração muito grande pelo concerto de Beethoven para aquele instrumento. Juntamo-nos, os amigos, como peregrinos do bairro, da noite, da devoção pelas artes e pela cultura. Sobretudo pelo Teatro.O bairro do Pari tem ainda hoje uma grande igreja, no largo que chamávamos de larguinho. Esta igreja da ordem franciscana com uma arquitetura românica, possuidora de um órgão com grandes pulmões, coroava nosso desejo de um templo para a amizade e para nossas sagradas devoções humanísticas.
Manir supria a doçura, o respeito por nós que tínhamos mais do que ele apenas uma formação mais burguesa e informada. Mas competia conosco com sua finíssima sensibilidade. E era firme quando nos censurava um ponto de vista frouxo, desatento, rude.
Era um operário gráfico e como todo gráfico, aos pés do linotipo, era informado e politizado. Admirador da esquerda que então ainda era heróica. Inocentes e ingênuos, sem as facilidades tecnológicas atuais – nem mesmo um gravadorzinho de pilha – nos satisfazíamos assobiando o Concerto para a Noite de Natal, de Corelli. Só parávamos de assobiar quando alguém
introduzia com os lábios um Albinoni. Sob a lua e a igreja. Contei ao Manir, há alguns anos atrás, que fiquei muito impressionado com o disco voador que havíamos visto na várzea de Vila Guilherme. Manir sorriu e me informou que eu não tinha visto o disco voador. Eu insistí que estava lá com ele e o Rudy. E ele me disse que eu estava enganado porque eu só sabia do fato porque eles me haviam descrito a experiência.
Tal era o partilhar de nossas emoções e a divisão que fazíamos entre nós dos acontecimentos maravilhosos. A experiência de um de nós era patrimônio de todos.
E há o capítulo da Discoteca Municipal. Cabines para dois nas quais nos trancávamos para ouvir música. Manir e os duos sonatas para violino e piano de Beethoven. “A Primavera” era uma peça essencial para Manir. Eu repetia infinitamente a audição só para mim de “Dido e Enéias” de Purcell. A discoteca era um refrigério, era para a nossa fantasia, fazer arte. Maynardi ocupava a cabine sózinho para ouvir o Carnaval opus 9 de Schumann e saia comovido sem cumprimentar ninguém, em linha reta e rápida para a porta. Schumann ia com ele. Um dia convidei Violeta Abramo, violinista amadora para ouvirmos o meu Purcell. E ela me perguntou se isso não seria perder tempo e se não seria melhor ouvirmos logo Bach? Éramos os anjos do último andar do Teatro Municipal. Tão alto que se a orquestra tocasse dentro do palco não a veríamos por inteiro. Então apenas ouvíamos, ou descíamos varando portas fechadas, invadindo os andares inferiores. Vimos naquele teatro passar a cultura do século: os pianistas Rubinstein, Kempf, Badura-Skoda, Paderewsky, Brailowsky, e muitos mais; os balés de Monte Carlo, o Sadlers-Well, Jean Babille e Natalie Filipard, Serge Lifar no Espectro da Rosa, o teatro de Paul Claudel e Kafka com Jean Louis Barrault e Madeleine Renault, os balés americanos, os balés étnicos da Polonia, da Rússia, da Romênia. E, naturalmente Vitório Gassman com Seis Personagens à procura de um Autor de Pirandello, La Vedova Scaltra de Goldoni e Orestes de Alfieri. E assistimos o repertório operístico do mundo todo – alemão, francês e italiano.
Assistimos a chegada de Gianni Ratto – que nos deixou dois dias antes de Manir nos deixar – na revista Carrosello Napolitano e Maurice Vanneau no espetáculo Barrabás.
E não pagávamos por isso tudo. Servíamos – em tese – como comparsas nas temporadas líricas – graças a um agente do teatro que se chamava Aielo. Manir e eu vestidos de guardas medievais, entramos para arrancar de cena o Vitório Gassman em Orestes de Alfieri e éramos comparsas da Madame Buterfly, sendo eu o cozinheiro chinês.
Lá em cima na galeria haviam os jovens judeus que devoravam conosco o banquete da cultura. Um dia eles desapareceram quase totalmente. Haviam se decidido por um kibutz de Israel e partiram para uma viagem cujo final desconhecemos.
Na volta do Teatro Municipal, tínhamos que andar da Praça Ramos de Azevedo
até o Brás. E falávamos, criticávamos, idealizávamos, sintetizávamos, nos ilustrávamos e começávamos a nos separar no Largo da Concórdia e eu descia muitas vezes com Manir até a rua Bresser que era nossa geografia, acompanhados por Maurício Tragtenberg que corajosamente continuava a marchar até o Belém. No dia seguinte, tudo de novo, numa liturgia do conhecimento anárquico e sem método: pois não haveria faculdade que contivesse nossa capacidade para aprender. Conhecimento foi para nós a sede diária.
Manir estava impedido durante o dia porque trabalhava na Saraiva da Rua Sampson com os tipos gráficos de chumbo. Mas lia, lia muito. E sonhava música para violino. Logo mais, à noite, seria no larguinho.
Rudy morreu, Hélio foi preso durante a revolução e ensinou filosofia, Maneco fazia televisão e eu tomei um navio para a Grécia.
Nestes últimos meses estive por telefone com Manir que não queria revelar a visão do flagelo que tomara seu corpo. Me pediu que não fosse vê-lo. Apenas falávamos sobre valores aos quais dávamos crédito e seu ritornelo era a espera do imprevisível, do inominável, do destino, de uma vida que afinal seria apenas a mesma.
Deixou em nós uma memória do amor fraterno e viril. E há um segredo sobre o Manir. Ele gozou da maravilhosa dádiva que o carregou por toda a vida: ele foi o filho muito amado de sua mãe. Este milagre é gozado por alguns e serve a eles de estrutura existencial e confiança no bem e no belo.
Sua ausência já se apressou em levar consigo um pedaço dos seus amigos.
Todos nós vimos com clareza o disco voador, mesmo que poucos estivessem lá.
Dividimos tão inteiramente tudo e agora um pedaço se apaga.
Ficamos aqui nesta inexplicável e transitória peregrinação imaginando se essa viagem do Manir coincide com a definição de Chico Xavier: é a mesma.

Cyro del Nero

Pássaro azul

Charles Bukovski

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?”

ONE

Poética de Botequim

wallpaper-casal-de-joaninhas-da-margarida-807 Para ninguém mais neste mundo tal imagem tem sentido e sentimento igual!

Homenagem à minha irmã Alcyone em seu aniversário.

One, one, meu Deus! Quanto amor!

Nem sei ter palavras para abarcar.

Só me resta com teu título brincar

E assim recordar tua tão séria infância.

All- começa com A de amigos que tinham

Tanta preguiça de, a palavra

justa inteira, pronunciar!

Mesmo assim: por todos os olhares,

Que atrais em todos os teus dias, és All!

Cy – só esse pedaço é igual

Ao da amada de Macunaíma;

Cy – que também virou a estrela mais

brilhante, como o todo do teu nome.

One – no final és uma, única, una,

Embora em outro idioma;

assim quis teu progenitor,

Que chamada fosses, nos dias

em que com o dom da vida nos uniu !

Ver o post original