Carson MacCullers

Carson-kisses-MarilynEm 2017 foi o centenário do nascimento de Carson MacCullers, para homenageá-la Editoras de Portugal, Espanha e Estados Unidos reeditaram das suas obras, e o Centro Carson McCullers para Escritores e Músicos, da Universidade John Cabot, realizou em julho daquele ano, em Roma, a conferência internacional “Carson McCullers in the world”, entre outras iniciativas.

McCullers foi admirada por Tennessee Williams, Graham Greene, Charles Bukowsky, e o escritor José Rodrigues Miguéis, que a revelou ao público português e traduziu “Coração, solitário caçador”, definiu-a como “o caso mais impressionante da literatura norte-americana” dos anos de 1940-50.

Flaubert e Dostoievski são apontados como influências, mas McCullers encontrou o seu próprio lugar no estilo “Gótico Sulista”, em que também se inscrevem William Faulkner, Eudora Welty, Katherine Anne Porter ou Flannery O’Connor.

O fato é sublinhado pela editora Relógio d’Água, que prepara a edição da obra da escritora, recordando que McCullers ficou conhecida pelos seus romances – “Coração, solitário caçador”, “Reflexos nuns olhos de ouro” e “Relógio sem ponteiros” -, embora tenha sido uma notável contista, na tradição do Sul da literatura norte-americana.

Nascida a 19 de fevereiro de 1917, em Columbus, na Georgia, Lula Carson Smith morreu aos 50 anos, em Nova Iorque.

Em 1940, publicou o primeiro romance, “Coração, solitário caçador”, ‘obra-revelação’ distinguida pelo público e pela crítica, que destacou a sua “surpreendente maturidade”. Adaptada ao teatro e ao cinema (Robert Ellis Miller, 1968), foi eleito um dos cem melhores romances do século XX e encontra-se entre os 20 melhores da Modern Library da Random House.

A história se passada no sul dos Estados Unidos, durante a Grande Depressão, num cenário de pobreza e isolamento, centrada num mudo, John Singer, a quem figuras desenquadradas da sociedade confiam segredos, mas que apenas quer a atenção mas não a recebr.

O sucesso da obra seria reforçado no ano seguinte, 1941, com “Reflexos nuns olhos de ouro”, que dedica à escritora, jornalista e fotógrafa suíça Annemarie Schwarzenbach, por quem se apaixonou – um rosto que, como escreveu, iria assombrá-la o resto da vida.

A história, que também foi adaptada ao cinema (John Huston, 1957), fala das relações entre dois oficiais do exército e respectivas mulheres, explorando a tensão latente entre as “máscaras sociais” e o mundo das paixões e obsessões secretas. O tema da homossexualidade reprimida gerou escândalo, mas a obra tornou-se num livro cultuado e depressa ascendeu à categoria de ‘obra-prima’.

O dramaturgo Tennessee Williams, autor do prefácio da edição original, encontra aqui “mestria absoluta da composição e uma precisão lapidar”. Para o autor de “Noite da iguana”, esta é “uma das obras mais puras e mais eficazes que foram concebidas”, ao nível “da Guernica, de Picasso”, ou das caricaturas de Charles Addams.

Williams respondia assim à crítica que estranhava a galeria de figuras “grotescas”, “mórbidas”, “pervertidas” ou “fantásticas” das obras de McCullers, todas elas, porém, plenas de sensibilidade e delicadeza.

“A sua arte é toda de delicadeza, ternura e tons profundamente femininos”, escreveu José Rodrigues Miguéis.

“A Balada do Café Triste”, “uma das obras-primas em prosa da língua inglesa”, para Tennessee Williams, data de 1951 e descreve uma pequena povoação, apenas animada por um único café, propriedade de uma mulher forte, independente e máscula, que se apaixona por um anão corcunda, mas que vê a felicidade abalada pela saída do ex-marido da prisão.

A sexualidade e a identificação de gêneros voltam a ser abordadas em “Frankie e o casamento”, primeira obra da escritora adaptada ao cinema (Fred Zinnemann, 1950), em que uma menina de 12 anos sonha com um mundo em que as pessoas pudessem livremente mudar de sexo.

Apesar do sucesso e do reconhecimento, McCullers teve uma vida limitada pela dor, pela doença e por crises de alcoolismo.

Esteve casada durante quatro anos (1937-1941) com o ex-soldado Reeves McCullers, o homem de quem herdou o nome, que disse ser o mais belo que já conhecera, e foi atormentada ao longo da vida por paixões não correspondidas por outras mulheres.

Morreu de hemorragia cerebral, a 29 de setembro de 1967.

“Todos os seus livros de terrível solidão, todos os seus livros sobre a crueldade do amor sem amor, foi tudo o que restou dela”, escreveu Charles Bukowsky.

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