À Síria

Palmira, tuas palmeiras há muito não balançam ao vento!

O vento só traz até ti pó, cinzas, farelos

Que sobram das ambições de todos os tempos.

Culpada por demorar-te no meio do caminho.

 

Como tua irmã, anciã entre as localidades;

Lar dos fundadores da Acádia,

Essa coroa de fogo da deusa do amor e da guerra.

 

Alepo, algo mais nefasto que o mais nefasto

Dos terremotos perscruta teus filhos;

Sonda tuas antigas ágoras,

que viraram catedrais

que agora são mesquitas!

Em vão perguntas “por quem definho?”

 

Como tua vizinha Ebla, rocha branca,

Berço de onde partimos, nosso ninho!

Nem 5 milênios tanto dano causou a tua ancestral alegria.

Ser ruína de ruínas é teu destino?

 

Tua terra é a desejada de todas as gentes:

Persas, macedônios, romanos, árabes,

Bizantinos, cruzados, mongóis, mamelucos,

Turcos, franceses, ingleses,

Russos, estadunidenses.

Foi o que os ventos trouxeram a teus pés

E sobre tua cabeça, pobre Síria: louco desatino!

 

Lares divididos, subdivididos,

Todos somos teus descendentes.

Quebra-cabeças de venais interesses!

Joias deste Oriente, quem sentirá tua agonia?

Godoy

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Refugiados

Você, que é tão erudito,

recite-me versos suaves, por piedade,

para recuperar de viver a vontade!

 

Você, você que é tão ajuizado,

Por misericórdia, me dite os santos escritos,

Nos templos ouvidos,

Para alimentar desgraçados proscritos!

 

Você, que é tão são,

por compaixão, reze-me uma oração

para alentar a quem vive ao relento;

a quem se negou a terra de onde tirar o sustento;

a quem nunca recuperou seu pródigo rebento.

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Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Há dois mil anos te mandei meu grito

Sírios de Alepo se despedem da vida pelas redes sociais: população é dizimada pelo governo***. Esse horripilante adeus me fez lembrar do terrível apelo de Castro Alves a Deus para interceder contra os horrores da escravidão no poema Vozes d’África.

*** Mais recentemente obtive a informação de que esses vídeos são falsos, são propagandas de agentes americanos inconformados com a vitória das forças do governo que livrou Alepo de grupos de mercenários financiados pela Arábia Saudita, pelos EUA, e de grupos terroristas como Alcaida. Alguns analistas argumentam que o verdadeiro e legítimo levante de rebeldes contra a ditadura foi “sequestrado” por terroristas e mercenários estrangeiros que aterrorizaram parte população que apoiava Assad e  persegue grupos minoritários de outras religiões como os cristãos.  As evidências dessa propaganda são os seguintes fatos:

-Alepo não tem nem luz nem água nem pode obviamente ter Internet de banda larga, portanto os vídeos não foram gravados e enviados de lá como afirmam as pessoas que os divulgaram.

-Um dos supostos moradores de Alepo fala, sem nenhum sotaque árabe, o inglês americano.

– O mais revoltante é constatar que esses grupos, sejam eles quem forem, destroem Alepo há anos sem que a Comunidade Internacional se importe com isso, mas bastou o governo retomar a cidade para libertá-la,  uma onda dessas falsas notícias passou a nos bombardear pelas redes sociais.Isso não justifica também a imensa violência do regime de Assad. Não importa se quem ataca a Síria são rebeldes,  mercenários, terroristas, nada justifica atacar hospitais ou a rede de abastecimento de água, crimes gravíssimos em qualquer guerra ou revolução. Não podemos nos esquecer de que os americanos apoiam esses monstros.(ATUALIZADO EM 31-12-2016)

Alerta para falsas notícias:

http://www.dn.pt/mundo/interior/adeussirios-publicam-mensagens-de-despedida-nasredes-sociais-5550570.html

Vozes d’África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

Qual Prometeu tu me amarraste um dia

Do deserto na rubra penedia

– Infinito: galé! …

Por abutre – me deste o sol candente,

E a terra de Suez – foi a corrente

Que me ligaste ao pé…

O cavalo estafado do Beduíno

Sob a vergasta tomba ressupino

E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,

Quando o chicote do simoun dardeja

O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas…

Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas

Dos haréns do Sultão.

Ou no dorso dos brancos elefantes

Embala-se coberta de brilhantes

Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia…

Ganges amoroso beija a praia

Coberta de corais …

A brisa de Misora o céu inflama;

E ela dorme nos templos do Deus Brama,

– Pagodes colossais…

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! …

A mulher deslumbrante e caprichosa,

Rainha e cortesã.

Artista – corta o mármor de Carrara;

Poetisa – tange os hinos de Ferrara,

No glorioso afã! …

Sempre a láurea lhe cabe no litígio…

Ora uma c’roa, ora o barrete frígio

Enflora-lhe a cerviz.

Universo após ela – doudo amante

Segue cativo o passo delirante

Da grande meretriz.

Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada

Em meio das areias esgarrada,

Perdida marcho em vão!

Se choro… bebe o pranto a areia ardente;

talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!

Não descubras no chão…

E nem tenho uma sombra de floresta…

Para cobrir-me nem um templo resta

No solo abrasador…

Quando subo às Pirâmides do Egito

Embalde aos quatro céus chorando grito:

“Abriga-me, Senhor!…”

Como o profeta em cinza a fronte envolve,

Velo a cabeça no areal que volve

O siroco feroz…

Quando eu passo no Saara amortalhada…

Ai! dizem: “Lá vai África embuçada

No seu branco albornoz. . . ”

Nem vêem que o deserto é meu sudário,

Que o silêncio campeia solitário

Por sobre o peito meu.

Lá no solo onde o cardo apenas medra

Boceja a Esfinge colossal de pedra

Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas

As cegonhas espiam debruçadas

O horizonte sem fim …

Onde branqueia a caravana errante,

E o camelo monótono, arquejante

Que desce de Efraim

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!

É, pois, teu peito eterno, inexaurível

De vingança e rancor?…

E que é que fiz, Senhor? que torvo crime

Eu cometi jamais que assim me oprime

Teu gládio vingador?!

Foi depois do dilúvio… um viadante,

Negro, sombrio, pálido, arquejante,

Descia do Arará…

E eu disse ao peregrino fulminado:

“Cão! … serás meu esposo bem-amado…

– Serei tua Eloá. . . ”

Desde este dia o vento da desgraça

Por meus cabelos ululando passa

O anátema cruel.

As tribos erram do areal nas vagas,

E o Nômada faminto corta as plagas

No rápido corcel.

Vi a ciência desertar do Egito…

Vi meu povo seguir – Judeu maldito –

Trilho de perdição.

Depois vi minha prole desgraçada

Pelas garras d’Europa – arrebatada –

Amestrado falcão! …

Cristo! embalde morreste sobre um monte

Teu sangue não lavou de minha fronte

A mancha original.

Ainda hoje são, por fado adverso,

Meus filhos – alimária do universo,

Eu – pasto universal…

Hoje em meu sangue a América se nutre

Condor que transformara-se em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais… irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Perdão p’ra os crimes meus!

Há dois mil anos eu soluço um grito…

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

Brasileiras desafiam guerra na Síria para cuidar de civis

Mariana Della Barba

Da BBC Brasil em São Paulo

 

Atualizado em  3 de outubro, 2013 – 06:56 (Brasília) 09:56 GMT
  • Civis na Síria

Civis ajudados por brasileiras sofriam com a falta total de atendimento básico de saúde

As brasileiras Bianca Dias Amaral e Letícia Pokorny percorreram durante horas um trajeto perigoso para entrar ilegalmente em um país de onde 2 milhões de pessoas já fugiram: a Síria.

Com alguns meses de diferença, as duas partiram da Turquia com o mesmo objetivo: chegar a dois hospitais no norte do país para ajudar civis, vítimas da guerra ou de problemas decorrentes dela, como a escassez total de serviços básicos de saúde.

Como os dois hospitais – ambos mantidos pela ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) – ficavam em áreas controladas pelos rebeldes, as duas tiveram que cruzar a fronteira ilegalmente.

“Foi muito assustador. Atravessei um descampado por umas três horas e, o tempo todo, ia ouvindo os bombardeios, sem parar. Quando cheguei em uma rodovia de terra, tive de correr por uns 500 metros, sem olhar para trás”, conta Bianca, uma obstetra de 30 anos que, para o desespero de sua família, foi para Síria em sua primeira missão no MSF.

Já a fisioterapeuta Letícia, de 37 anos, havia acabado de passar alguns meses na Líbia quando foi chamada para ir para Síria, sua 11º missão para a ONG.

Com bagagens diferentes, elas contam à BBC Brasil os desafios que enfrentaram, os medos e também os momentos recompensadores.

Bianca Dias Amaral

 

BBC Brasil – Como você foi chamada para ir à Síria?

Bianca Dias Amaral – Quando o pessoal do MSF me ligou perguntando se eu queria ir para a Síria, fiquei muito surpresa, porque normalmente eles mandariam pessoas mais experientes para um local assim. Então pedi um dia para pensar. Após 12 horas, estava convicta de que não iria. Porque mesmo indo com uma ONG desse porte, há coisas contras as quais você não pode se proteger. Quando liguei para comunicar minha decisão, conversando com a coordenadora, eu aceitei, pois vi que era exatamente isso que eu queria. Embarquei no começo de abril e fiquei até o fim de junho.

BBC Brasil – Como era sua rotina lá?

Bianca – Meu trabalho envolvia justamente a área da saúde básica, algo que ficou totalmente comprometido com a guerra, já que os hospitais foram destruídos e a maioria dos profissionais fugiu. Fazia partos, pré-natal, consultas. O ritmo de trabalho era intenso, porque além do trabalho durante o dia, também corria para o hospital toda vez que uma grávida chegava para ter o bebê. Em 9 semanas, só em 3 noites não fui chamada.

BBC Brasil – Você sentia que estava em um país em guerra?

Bianca – Após um mês e meio, houve um grande ataque. Bombas caíram perto do hospital. As paredes tremiam e o barulho era ensurdecedor. Atendemos dezenas de feridos. Depois, ficamos sabendo que as tropas do governo estavam marchando em nossa direção. E não sabíamos se iam conseguir nos tirar de lá ou não. Esse foi meu pior momento. Uma hora, percebi que estava respirando muito ofegante, mas eu não estava correndo nem nada, estava sentada na minha cama, parada. Estava em pânico.

BBC Brasil – E vocês foram retirados no final? Como foi?

Bianca – Sim. Quando saí, senti um misto de alívio por deixar aquele lugar, algo bem egoísta, com uma sensação frustração, por estar abandonando as pessoas que já haviam sido abandonadas por todo mundo. Mas a situação melhorou e voltamos depois de alguns dias.

BBC Brasil – Como foi trabalhar em um país muçulmano?

Bianca – Eu usava véu e blusa cobrindo os braços, o que às vezes era complicado por causa do calor. Mas nunca sofri nenhum tipo de preconceito por ser mulher. Também me fez aprender um pouco de árabe, principalmente os termos ligados a parto, seja alguma palavra técnica até a saudação que eles fazem quando o bebê nasce. E achei curioso que, em vez do marido, é a sogra que acompanha a gestante na hora do parto.

BBC Brasil – No que essa missão te marcou?

Bianca – Fiquei muito impressionada com o comprometimento dos sírios que, apesar de tudo, decidiram ficar no país e resolveram ajudar, como a minha tradutora, que era estudante de literatura em Aleppo antes de a guerra estourar. Meu jeito de trabalhar não mudou tanto, mas, pessoalmente, sou outra. Mudou tudo. Minhas preocupações, minhas prioridades.

BBC Brasil – Pra onde você vai agora?

Bianca – Vou para o Quênia por 14 meses. E estou torcendo para minha mãe ter esquecido sobre o ataque ao shopping da capital. Mas é uma missão mais tranquila, em que serei a supervisora de saúde da mulher, com serviços como pré-natal, parto, ações relacionadas ao HIV, violência sexual.

Obama, escute o clamor dos povos!

Carta do Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, ao presidente dos EUA, Barack Obama, sobre a intervenção militar na Síria

12/09/2013

Adolfo Pérez Esquivel

A situação na Síria é preocupante e uma vez mais os EUA, instituindo-se o vigia do mundo, pretende invadir a Síria em nome da “Liberdade” e dos “direitos humanos”.

Seu antecessor, George W. Bush, em sua loucura messiânica, soube instrumentalizar o fundamentalismo religioso para levar a cabo as guerras no Afeganistão e Iraque. Quando declarava que conversava com Deus, e Deus lhe dizia que tinha que atacar o Iraque, o fazia porque era vontade de Deus levar a “liberdade” ao mundo.

Você tem falado, por causa dos 50 anos da morte do Reverendo Luther King, também Prêmio Nobel da Paz, da necessidade de completar o “Sonho” da mesa compartilhada, de quem foi a mais significativa expressão de luta pelos direitos civis contra o racismo na primeira democracia escravista do mundo. Luther King foi um homem que deu sua vida pela vida, e por isso é um mártir do nosso tempo. Mataram-no depois da Marcha por Washington porque ameaçava com desobediência civil a cumplicidade com a guerra imperialista contra o povo de Vietnã. Realmente acredita que invadir militarmente a outro povo é contribuir com esse sonho?

Armar rebeldes para depois autorizar a intervenção da OTAN, não é algo novo por parte de seu país e seus aliados. Tampouco é novo que os EUA pretendam invadir países acusando-os de posse de armas de destruição em massa, o que no caso do Iraque não deu certo. Seu país apoiou o regime de Saddam Hussein, que utilizou armas químicas para aniquilar a população curda e contra a Revolução Iraniana, e não fez nada para sancioná-lo porque nesse momento eram aliados. Contudo, agora pretendem invadir a Síria sem sequer saber os resultados das investigações que a ONU está fazendo com autorização do mesmo governo sírio. Certamente que o uso das armas químicas é imoral e condenável, porém seu governo não tem autoridade moral alguma para justificar uma intervenção

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, afirmou que um ataque militar na Síria poderia agravar o conflito.

Meu país, a Argentina, que está presidindo o Conselho de Segurança da ONU, tornou pública sua posição contrária à intervenção militar estrangeira na República da Síria negando-se a ser “cúmplice de novas mortes”.

O Papa Francisco também fez um chamado para globalizar o pedido de paz e decretou uma jornada de jejum e oração contra a guerra para o dia 7 de setembro, à qual aderimos.

Até seu histórico aliado, a Inglaterra, se negou (ao menos no momento) a participar da invasão.

Seu país está transformando a “Primavera Árabe” no inferno da OTAN, provocando guerras no Oriente Médio e desencadeando a rapina das corporações internacionais. A invasão que pretende contra a Síria levará a mais violência e mais mortes, assim como a desestabilização do país e da região. Com qual objetivo? Um lúcido analista, Roberto Fisk, está certo de que o objetivo é o Irã e postergar a concretização do Estado palestino; não é a indignação com as mortes de milhares de jovens sírios o que os motiva a intervir militarmente. E justamente quando o Irã conseguiu um governo moderado, onde se poderia colaborar para conseguir um cenário de negociação pacífica para os conflitos existentes. Essa política será suicida por sua parte e de seu país.

A Síria necessita de uma solução política, não militar. A comunidade internacional deve dar seu apoio às organizações sociais que buscam a paz. O povo sírio, como qualquer outro, tem direito a sua autodeterminação e a definir seu próprio processo democrático, e devemos ajudar naquilo que nos solicitarem.

Obama, seu país não tem autoridade moral nem legitimidade para invadir a Síria nem nenhum outro país. Muito menos depois de ter assassinado 220 mil pessoas no Japão lançando bombas de destruição em massa.

Nenhum congressista do parlamento dos Estados Unidos pode legitimar o que é ilegítimo, nem legalizar o que é ilegal. Em especial levando em conta o que disse há alguns dias o ex-presidente estadunidense James Carter: “os EUA não têm uma democracia que funcione”.

As escutas ilegais que seu governo realizou ao povo estadunidense não parecem ser de todo eficientes, porque segundo uma pesquisa da Reuters, 60% deles se opõem à invasão. Por isso te pergunto, Obama: A quem obedeces?

Seu governo se converteu em um perigo para o equilíbrio internacional e para o próprio povo estadunidense. Os EUA se tornou um país que não pode deixar de exportar a morte para manter sua economia e poderio. Não deixaremos de tentar impedi-lo.

Estive no Iraque depois dos bombardeios que os EUA realizaram na década de 1990, antes da invasão que derrubou Saddam Hussein. Vi um refúgio cheio de crianças e mulheres assassinados por mísseis teleguiados. “Danos colaterais”, os chamam vocês.

Os povos estão dizendo BASTA às guerras. A humanidade reclama a paz e o direito de viver em liberdade. Os povos querem transformar as armas em ferramentas agrícolas, e o caminho para consegui-lo é “DESARMAR AS CONSCIÊNCIAS ARMADAS”.

Obama, nunca ouviste que sempre colhemos os frutos do que semeamos. Qualquer ser humano saberia semear paz e humanidade, principalmente um Prêmio Nobel da Paz. Espero que não acabe convertendo o “sonho de fraternidade” que suspirava Luther King em um pesadelo para os povos e a humanidade.

Receba o cumprimento de Paz e Bem.

Adolfo Pérez Esquivel

04/09/2013