Requerer

Como pedir a uma gota de chuva que se suspenda no ar?

Como pedir, em pleno voo, às asas dos pássaros que parem de bater?

Como pedir ao vento que pare de soprar?

A um rio que pare de correr;

 

Como solicitar a um tigre faminto que não devore sua presa?

Ou requerer a um raio que interrompa seu curso,

Para não chamuscar uma árvore indefesa?

Ou pedir ao sol que pare de brilhar?

Como? Como? Como?

Só as rochas podem pedir algo assim…

Se um impulso se consegue reprimir prudentemente,

É porque não é tão ardente seu querer.

 

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Sombra

Cada vulto que surge

Chama você ao meu pensamento,

Aparição assustada e assustadora!

Eu canto o canto de criança que chora baixinho

Para não acordar os irmãos.

Escondo o rosto com as mãos pequeninas,

Querendo que a sombra atrás do móvel

Logo passe, não toque, não fale.

Engula o nó da garganta, se for capaz!

Nenhum passe vai tirar essa sombra de meu calcanhar!

16-06-2012

a sombra que me persegue

Olhos

Nada substituirá teus internos olhos!

Não sabemos viver na certa estação.

Corpo no inverno, espírito no verão.

Impossível, ou incerto voltar num tempo

que não é eterno e o passo perfazer até um gélido leito.

Sem vãos remorsos de dar-se quase sempre na hora errada.

Os seus olhos não me olhavam,

E os meus viam quase nada.

Só sobras doam-se daquilo a que nós temos direito.

Nessa doce vida restam só os escolhos!

Sonâmbulos

 

 

 

 

 

 

 

Você não sente

Que o que arranha

A lousa fria e dela arranca faísca

Não é nenhuma artimanha?

 

Você não sente

Que à noite sonâmbulos executam

Uma peregrinação errante?

Que na ausência da mente,

Só seus corpos exatos acertam

o caminho que aspiram, enfim?

 

Você não pressente

Que numa noite qualquer,

Esquecida do mundo e de mim

Por esse mesmo caminho

serei friamente conduzida,

Até chegar a um país

Que me aliene mais ainda,

Já que lá esta ossada não mente?

Duplo Carimbo

Quando insisto que preciso

Ser as roupas que te envolvem,

Ninguém entende o motivo.

À tua pele estaria colada,

Te revestindo, te protegendo

Do frio, do sol, da chuva,

De olhares que alhures

Pudessem perturbar teu pudor

E enciumar esta distante

Imaginação que te perscruta.

Ao me perfumar, teus doces bálsamos,

Curariam a ânsia que me domina.

O espectro de tua presença

Se impregnaria em meus

Tecidos me acompanhando.

Tuas formas se desenhariam em mim,

Grudadas ao entrelaçamento de meus fios,

Guardando a memória residual de tua estada.

Também meus botões, fechos,

Costuras marcariam tua pele.

Assim, viveríamos numa troca

eterna: ora te sigo

Ora  me segues,

Como duplo carimbo.

Requerer

 

Como pedir a uma gota de chuva que se suspenda no ar?

Como pedir, em pleno voo, às asas dos pássaros que parem de bater?

Como pedir ao vento que pare de soprar?

Ou a um rio que pare de correr;

 

Como solicitar a um tigre faminto que não devore sua presa?

Ou requerer a um raio que interrompa seu curso,

Para não chamuscar uma árvore indefesa?

Ou pedir ao sol que pare de brilhar?

Como? Como? Como?

Só as rochas podem pedir uma coisa assim…

Se algo se consegue controlar prudentemente,

É porque seu querer não é tão ardente…

Perdão, padre, porque pequei!

_Perdão, padre, porque pequei!

Tive um sentimento vergonhoso,

não consigo contar.

_O que foi, minha filha?

Deus é misericordioso.

_Tive innnvejjaa.

_O quê? Inveja?

_Sim, inveja.

_De quem?

_Da cantineira de minha escola.

_Mas por quê?

_Porque ela sabe virar

panquecas no ar…

_Só isso?

_Não, também tive inveja

Das moças que dormem…

_Como?

_Sim padre, das moças que dormem.

_Só isso?

_Não, tive também dos pássaros que voam,

Dos peixes que podem ir

a lugares onde não posso estar.

Tenho inveja de tanta coisa…

Das roupas de meu amado,

Do ar que ele respira.

Nem a luz escapa.

E dos mortos todos

que talvez já saibam

de coisas que eu não sei

e talvez estejam reunidos em algum altar

aonde eu não sei quando vou chegar,

Ou talvez já não sintam mais

O mundo todo fora do lugar…

Jacareí, 24 de junho de 2012