Brinde A Baco.

Bares, cafés e clubes, a partir do século XIX, não eram apenas um ambiente para a happy hour. Eles foram o cenário onde questões políticas, filosóficas, movimentos artísticos revolucionários se espalharam. O propósito deste site é o mesmo: criar um espaço virtual para expressão livre de ideais, reflexões e sentimentos, com espírito crítico em relação a nossa Cultura.

Sim, sempre tenho um vício.
Subscrevo, confesso, admito!
Sim sou viciada, porém não naquilo
Que imagina o meritíssimo
E sim em ver luzes que não existem.
Viciada em contar histórias para cada coisa
Que quero que viva eternamente em forma de letra:
Cada pequena folha que da árvore cai sem fazer alarde
Cada cão sarnento que em minha rua late
Cada cabeça que rola no solo e jaz fétida,
Secando ao sol e esfriando ao relento.
É vício porque é inútil
Como trabalho de Sísifo.
Se me proponho a fazê-lo, porém,
Saia de meu caminho!
04-01-2013
Grande insensatez de minha vida
Ou seria desvario?
Onde vi o mar, havia lama.
Onde vi mel, havia fel;
Onde alimento, lamento;
Onde ternura, só angústia.
Para você enfim
Era “melhor viver comigo que sem mim”!

Assim fala a lenda:
Quando as bandeiras balançavam rumo ao sertão,
Mulheres subiam ao cume
Dos joelhos do gigante adormecido
Para, de lá, despedirem-se de seus amados, brandindo lençóis,
Até que eles sumissem de suas vistas no horizonte.
Esperançosas de avistá-los ao longe,
Ali, elas regressavam sucessivamente,
Para dispor-se a receber cada qual seu sertanista,
Se um dia eles voltassem ao Planalto Paulista.
Até hoje, porém, sobre a barriga e os joelhos do monstro,
Os lençóis surgem, em forma de nuvens que choram,
Porque as esposas e filhas e irmãs vêm ali lamentar
Eternamente a saudade dos que não puderam regressar.
Godoy. Jacareí, 03-01-2013



Camilo Pessanha
Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,
_ Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clarões, cromáticas vesânias,
No limbo onde esperais a luz que vos batize,
As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.
Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da água na clepsidra,
Vagamente sorris, resignados e ateus,
Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.
Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,
Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,
Adormecei. Não suspireis. Não respireis.
Rumi
O ladrão de corações
Deu-me um único beijo e partiu.
O que seria de mim
Se me tivesse dado sete ?
Todo lábio que o meu amado beija
Guarda sempre a sua marca:
Rachaduras abertas na ânsia de sugar
A doçura de seus lábios.
Guarda ainda outra marca:
O desejo louco da água da vida
Que a cada instante força o amor
A remover mil fogueiras.
E outra marca mais: o corpo,
Assim como o coração, desembestado,
Corre de encontro ao beijo
Para tornar-se leve e delicado
Como os lábios do meu amado.
Ah, que suavidade inebriante vem
Desse amor que desconhece limites !
Fiquei tão feliz por, após tantos anos, te reencontrar.
Surgiste como que por geração espontânea
Em meu humilde lar;
A ostentar tuas coloridas
E pintalgadas e aladas partes
Produzidas com delicada arte.
Se daí do teu céu _ se ele há _ puder me anistiar,
Talvez, eu mesma consiga me perdoar por assassinar-te.
Sem intenção, vejo que tu partes,
Senhora dos insetos, Joanhinha-ladybug!
Que essa notícia não se divulgue,
Para que tuas irmãs eu não assuste!
30-12-2012



* Fonte: Prof. Dr. Sílvio Medeiros e o link para o site http://www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros.

Num insondável labirinto auricular, perdi minha língua E em minha hélice deitaram-se doces palavras A turbilhonar, mesmo quando as proferia sem pretensão. Fui mortalmente ferida pelas oscilações de seu arco do cupido. Escalar meu monte para em seguida se atolar Em minhas covinhas de Vênus foi mais nefasto Que me ferir o calcanhar de Aquiles. De seu singelo céu da boca brotam, Como de grutas escoiceadas, as águas da vida, Aonde todas as ninfas vêm se banhar, Nas horas quentes do dia. Não me transformou em pedra por estarem Abertas minhas meninas-dos-olhos E, finalmente, atravessou triunfante o arco de minhas sobrancelhas.


As palavras são nada.
Em si, carecem de sentidos, se não as escoltar os gestos.
Assim o silêncio é louvável a alguns algures.
Imprudência fiar-se no verbo, já que quem mente mergulha a todos em fantasia?
Sonha que a todos ludibria? Para si, ciladas cria?
Mas não ilude plenamente: há uma gota de verdade em cada mentira.
Há um dizer exato em cada calada!
Mas a palavra não poderá ser sempre friamente refreada,
Pois que liberta quem a profere de sentimentos inconfessáveis.
As palavras libertam os tímidos de si mesmos, desconfiados de revelar seu ser ao universo.
Libertam um povo da opressão.
Libertam seres de sua invisibilidade.
Libertam ao revelar a descoberta e afirmação de si, a si mesmo e à humanidade.
No Norte, quantos tons de branco conhecem os esquimós?
Para cada branco, uma palavra.
Para nós, só há um branco e mais nada…
Para cada coisa que há e sabemos que há, há uma palavra.
A tudo que nasce, damos um nome.
Mas para quem nunca viu tantos brancos, se ouvir seus nomes diferentes, nem precisa se mudar para lá.
A enxergá-los, em algum momento, passará.
Assim os nomes nascem das coisas, mas o saber também nasce das palavras.
O que pensamos que é sabido de todos, mas nunca foi divulgado verbalmente, pode também deixar de haver e ser olvidado na próxima temporada.
Se o amor verdadeiro está implícito em amostras de sentimentos, também provas perdem seu sentido no automatismo dos gestos habituais.
Então, a elegância contemporânea, que, com demonstrações de afeto, se acanha, acaba por enregelar a todos de todo.
Você não pode mais me ouvir,
Então falo para mim mesma,
Para saber que sinto o que sinto,
Para lembrar e me aquecer
E me libertar do não-dizer:
“Não enxergamos os brancos dos esquimós nem temos nomes para eles…
Nunca pensei que talvez você não enxergasse em quantas cores era amado.
Hoje não cansaria de dizer de todas as formas possíveis,
Com quantas palavras existem: Persy, eu amo você!”
28-07-2012
