Parte IV – O nem-sei-que-diga

Hoje, Bragança é conhecida por seus dotes gastronômicos. Sempre ouvia as tias de minha mãe enaltecendo a manteiga produzida lá como a melhor do Estado ou, quiçá, do Brasil. E a linguiça bragantina, então: nada se compara ao seu aroma. Nas estradas que dão acesso a essa modesta localidade, os moradores vendem com orgulho a melhor de todas as linguiças já produzidas em qualquer lugar.

No tempo de meus antepassados, porém, a cidade ficou famosa por outro motivo: o assassinato frio de meu tio-bisavô, Nicola. Toda colônia italiana ajudou a procurar o outro irmão Pedro, que estava desaparecido.

Passados dois dias, após várias buscas, encontraram-no caído numa vala. Fora degolado da mesma forma que o irmão. Meu nono, que ainda estava se recuperando, quando soube, veio a ter outro derrame. Por sorte, estava sob intensos cuidados médicos e foi socorrido rapidamente.

A nona chorava ininterruptamente. Ninguém conseguia consolá-la: nem padres nem bispo nem Cristo, embora não saísse da igreja.

O tempo foi passando e, notícias do crime solucionado, ninguém esperava mais. Era um mistério, ninguém conseguia imaginar quem teria coração tão frio para fazer algo assim.

Alguns especulavam se não seria o próprio coisa-ruim que viera à terra cometer tamanha maldade de fazer sofrer uma pobre senhora tão respeitada, tão religiosa, apenas para provar-lhe a fé. Ou talvez para fazê-la se revoltar contra o Deus que ela, até então, seguira submissamente. Enfim, fossem quais fossem os desígnios do Altíssimo, o fato de uma senhora tão boa sofrer assim não parecia justo aos moradores de Bragança.

E ainda por cima, a justiça tardava. Tudo indicava que os crimes passariam impunes, visto que as autoridades não colheram nenhum indício de quem os cometera.

Continuação: Escarrando no próprio prato

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Continuação-Parte III – A busca

Os guardas, após examinarem bem a sede, disseram que os dois irmãos não haviam brigado e um assassinado o outro, como haviam pensado anteriormente. Notaram que havia três canecas de café sobre a mesa. Os irmãos receberam, portanto, alguma visita de pessoa conhecida. Certamente, essa visita havia assaltado o sítio e levado o outro irmão com ela como refém, até estar bem longe. Assim, Pedro corria sério perigo nas mãos desse malfeitor.

Enquanto davam todas essas explicações, a comunidade foi se reunindo em volta da casa, querendo acudir, consolar e ter notícias. Chamaram um médico para o nono, que foi levado à Santa Casa. Até o filho Isaías, esquecendo as diferenças com a mãe, veio abraçá-la e ampará-la nesse momento. Todos pensaram que só uma tragédia poderia unir uma família desse modo.

Começaram então as buscas para encontrar o outro filho, pelos campos, pomares, toda comunidade se revezava aos gritos chamando Pedrinho, Pedrinho…

Continuação

Parte III

A Busca

Quando voltou a si, minha nona viu que já haviam chamado as autoridades locais que vasculhavam a casa. Correu para o campo aberto, onde as vacas pastavam na invernada, e começou a gritar:

-Pedrinho, meu filho, por que matou teu irmão? Volta pra casa!

Ainda o sangue escorria de sua cabeça. Depois de horas gritando, conseguiram convencê-la a voltar para a casa, onde tinham revelações sobre o crime hediondo….

Continua: A busca-parte 2

Lumiere
Lumiere

Desespero

Parte II

Um dia, como de costume, a nona foi rezar o terço na cidade com toda família. Menos os dois filhos, Pedro e Nicola, porque,  com o término da colheita e venda de toda produção, tinham que tomar conta do dinheiro bem escondido num baú trancado a chave, no quarto do nono Ciccillo.

Depois de terminada a reza, toda família voltou cantando para casa, feliz por todas as obrigações cumpridas no fim da temporada. Quando chegaram, porém, deram com a porta aberta. Na mesa da cozinha, café derramado pelo chão. As ferramentas usadas para roçar, que eram guardadas atrás da porta, caídas. No quarto do nono, uma cena horripilante: Nicola caído ensanguentado, tinha o pescoço cortado.

Fora degolado! Naquele instante, tomados de loucura, meus tataravós sucumbiram à tamanha dor: a nona arrancou os próprios cabelos aos chumaços com tamanha força que a pele se desprendeu da cabeça. Meu nono teve um derrame e caiu desfalecido.

Continuação

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Gore Vidal

English: Gore Vidal at the Union Square Barnes...
English: Gore Vidal at the Union Square Barnes & Noble to be interviewed by Leonard Lopate to discuss his life and his photographic memoir, Gore Vidal: Snapshots in History’s Glare. (Photo credit: Wikipedia)

Mais uma coleção de “desaforismos”, desta vez do corrosivo Gore Vidal, que nunca escondeu seu pior lado de ninguém. Revelou até que sentia inveja do sucesso de amigos:

1) Cada vez que um amigo faz sucesso, eu morro um pouco.

2)  Um escritor deve sempre dizer a verdade, a não ser que seja jornalista.

3)   Metade dos americanos nunca votou para presidente, e metade jamais leu um jornal. Esperamos que seja a mesma metade.

4)  Quando alguém me pergunta se posso guardar um segredo, respondo: “Por que eu deveria, se você não pôde?”

5)   Estilo é você saber quem é, e dizer o que quiser, sem dar a mínima importância para o resto.

6)   Toda pessoa pronta para disputar a presidência dos Estados Unidos deveria, automaticamente, ser impedida de concorrer.

7)   John Kennedy foi um dos homens mais charmosos que conheci. E também um dos piores presidentes.

8)    Nunca tenha filhos, apenas netos.

9)  Andy Warhol é o único gênio que conheci com 60 de QI.

10)  Uma boa ação jamais deixa de ser punida.

11)  Democracia é o direito de escolher entre o Analgésico A e o Analgésico B. Mas ambos são aspirinas.

12)  Temos que parar de nos gabar que somos a maior democracia do mundo. Sequer somos democracia. Somos uma república militarizada.

13)  Hoje as pessoas públicas não conseguem escrever seus discursos e nem suas memórias. Não sei se conseguem sequer ler.

Parte I- Caim e Abel

Parte I

D. Maria Leiteira era uma famosa benzedeira da região de Bragança Paulista, imigrante de Salerno na Itália. Era uma devota católica e costumava rezar o terço quando as parturientes estavam para dar a luz. Segundo dizem, quando ela terminava o terço, a criança escorregava para o mundo cá fora, gritando com força e vontade.

Porém, em uma das vezes isso não aconteceu, a criança não saiu como o previsto de dentro da mãe, pois estava o bebê estava sentado. A parturiente era muito amiga e comadre de minha tataravó. Era uma ex-escrava,  mas continuara trabalhando na colheita de frutas junto com a italianada, ao contrário dos parentes dela que foram para a capital.

Antes de falecer devido a complicações, pediu à comadre que cuidasse de seu rebento, Isaías. Assim o fez D. Maria; criou-o junto dos filhos naturais e, como todos na roça familiar, o guri tinha que trabalhar na colheita, principalmente, e no trato dos animais. Quando ficou mais velho, porém, Isaías sentiu-se diferente e tornou-se rebelde. Não queria mais obedecer ao pai, se engraçava com as irmãs já mocinhas. Acharam melhor, então, que ele arranjasse trabalho remunerado no sítio de um amigo e por lá ficasse até criar juízo.

 

Continuação: Desespero

Wilbur e Orville Wright

Preâmbulos

 

Tenho que contar esta história, antes que seja tarde!

Antes que a pessoa que ma relatou não possa mais confirmar se acertei depois de tudo escrito. Como falta-lhe já a luz dos olhos, quero ler essa história para ela confirmar se escrevi direito.

Preciso contar, mesmo que ninguém leia depois; mesmo que ninguém a receba em seus ocupados ouvidos.Tão ocupados, que não podem parar tudo o que estão fazendo e ler uma simples história.

Simples nada! Esta história me arrepiou os cabelos, um frio correu minha espinha, por saber que era real e que aconteceu no seio de minha família. Embora seus protagonistas já estejam todos embaixo da terra e eu não os tenha conhecido, nunca pensei que havia tanto drama, tragédia, sangue e mortes horríveis em uma família a qual eu, por muito tempo, considerei pacata!

Há coisas que os parentes só revelam em último caso e, no meu caso, precisaram me contar esta história para torná-la um exemplo; contaram para que eu superasse a minha tragédia, vendo que existiam tragédias ainda piores e os sofredores envolvidos sobreviveram, portanto eu também seria capaz de sobreviver. Também para me educar e talvez para herdar uma tradição familiar que surgiu desta tragédia não-grega, mas ítalo-brasileira ou ítalo-bragantinha.

Sei lá, só sei que, neste  momento, tenho que contar e sairá tudo de qualquer jeito, sem nenhuma preocupação com a forma, porque se eu morrer enquanto estiver escrevendo esta história, os interessados (pelo menos dois, eu tenho certeza) poderão ler o esqueleto dela.

A tia de minha mãe, Tia duas vezes (ela era irmã de minha avó e casou-se com o irmão de meu avô, isto é, duas irmãs da família de Bellis se casaram com dois irmãos da Boccuzzi*) Maria de Bellis Boccuzzi, assim me contou a história de minha tataravó, Maria Caporrino Linardi, ou Maria Leiteira, como era conhecida:

Continuação: Caim e Abel

*Essa é outra história, que parece tirada do Livro das 1001 noites, mas é cheia de coincidências, ou sincronias reais fantásticas: A história das sete irmãs e um irmão e dos sete irmãos e uma irmã (ainda a ser redigida). αΩ

Maria leiteira

 

Vício

Sísifo, de Ticiano, 1549

Sim, sempre tenho um vício.

Subscrevo, confesso, admito!

Sim sou viciada, porém não naquilo

Que imagina o meritíssimo

E sim em ver luzes que não existem.

Viciada em contar histórias para cada coisa

Que quero que viva eternamente em forma de letra:

Cada pequena folha que da árvore cai sem fazer alarde

Cada cão sarnento que em minha rua late

Cada cabeça que rola no solo e jaz fétida,

Secando ao sol e esfriando ao relento.

É vício porque é inútil

Como trabalho de Sísifo.

Se me proponho a fazê-lo, porém,

Saia de meu caminho!

 

04-01-2013

Restos II

Grande insensatez de minha vida

Ou seria desvario?

Onde vi o mar, havia lama.

Onde vi mel, havia fel;

Onde alimento, lamento;

Onde ternura, só angústia.

Para você enfim

Era “melhor viver comigo que sem mim”!

 

Celestial ride, Salvado Dali, 1957
Celestial ride, Salvado Dali, 1957

Pico do Jaraguá

Assim fala a lenda:

Quando as bandeiras balançavam rumo ao sertão,

Mulheres subiam ao cume

Dos joelhos do gigante adormecido

Para, de lá, despedirem-se de seus amados, brandindo lençóis,

Até que eles sumissem de suas vistas no horizonte.

 

Esperançosas de avistá-los ao longe,

Ali, elas regressavam sucessivamente,

Para dispor-se a receber cada qual seu sertanista,

Se um dia eles voltassem ao Planalto Paulista.

 

Até hoje,  porém, sobre a barriga e os joelhos do monstro,

Os lençóis surgem, em forma de nuvens que choram,

Porque as esposas e filhas e irmãs vêm ali lamentar

Eternamente a saudade dos que não puderam regressar.

Godoy. Jacareí, 03-01-2013

 

 

"Jaraguá" gravura de Evandro Carlos Jardim
“Jaraguá” gravura de Evandro Carlos Jardim

Sombra

Cada vulto que surge

Chama você ao meu pensamento,

Aparição assustada e assustadora!

Eu canto o canto de criança que chora baixinho

Para não acordar os irmãos.

Escondo o rosto com as mãos pequeninas,

Querendo que a sombra atrás do móvel

Logo passe, não toque, não fale.

Engula o nó da garganta, se for capaz!

Nenhum passe vai tirar essa sombra de meu calcanhar!

16-06-2012

a sombra que me persegue

A conferência dos pássaros*

“Eu conheci um coveiro muito velho e lhe perguntei:

_Você que passou a vida a cavar sepulturas, o que você viu de maravilhoso?

_O que eu vi de maravilhoso _ ele respondeu_ é que durante 70 anos eu cavei sepulturas e nunca enterrei os meus sonhos.”

*A conferência dos pássaros (Mantiq ut-tair) foi escrita pelo poeta persa do século XII, Farid ud-Din Attar, um dos maiores sufis de todos os tempos.Conquanto pouco se saiba, com certeza, a respeito da sua vida, parece que nasceu em 1120, perto de Nishapur, no noroeste da Pérsia. Durante quase quarenta anos viajou por muitos países, estudando em mosteiros e colecionando os escritos de sufis devotos,juntamente com lendas e histórias. Diz-se que possuía um conhecimento mais profundo das idéias sufistas do que qualquer outra pessoa do seu tempo. A tradução para o inglês de C. S. Nott baseia-se na conhecida edição francesa, em prosa, de Garcin de Tassy, aversão que melhor transmite “o sabor, o espírito e os ensinamentos do poema de Attar”.