Belo belo

Manuel Bandeira

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

Petrópolis, fevereiro de 1947

Poema de Sete Faces

Quando nasci um anjo torto
desses que vive na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
Não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
Pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

 

Perdão padre porque pequei!

 

Noite Profunda

À noite, a escuridão guarda todas as coisas e o nada ao mesmo tempo.
Como quando fechamos os olhos e vemos o vazio,
ou manchas ou tudo o que podemos imaginar.
Gosto de imaginar o que há além das montanhas
E mais além e mais além e mais além
Do que posso avistar da janela do meu quarto
Ou da janela de um ônibus em movimento.
Só uma nuvem se ilumina.
Afundada no meio do mato uma casinha brilha.
Bem que poderia haver uma cidade inteira escondida atrás do morro
Para que esse casebre  não fique assim tão solitário
No escuro sem porteiras, sem cercas, sem limites.
Todos pensam nisso quando são crianças
Mas depois deixam de imaginar o que poderia haver lá,
Depois daquela montanha,
Que deve ser muito mais formidável do que o que há aqui.
Assim, sem ninguém notar,
O negrume da noite esconde o infinito no horizonte.

Jacareí, 16 de dezembro de 2013.

4944casinha

20g et une convulsion

Alfredo Leão

20g et une convulsion
la vie est toujours mieux que la mort?
(a vida é melhor que a morte?)
blanc est mieux que le noir?
(o branco é melhor que o preto?)
la journée est mieux que la nuit?
(o dia é melhor que a noite?)
le soleil est mieux que la lune?
(o sol é melhor que a lua?)
la clarté est meilleure que la folie?
(a lucidez é melhor que a loucura?)
et l’amour est meilleur que la haine?
(o amor é melhor que o ódio?)
réveil est mieux que d’être endormi?
(estar acordado é melhor que dormindo?)
être sage est mieux que d’être ignorant?
(o sábio é melhor do que o ignorante?)
changement est mieux que de rester la même?
(mudar é melhor permanecer o mesmo?)
dans le fond, c’est toutes les variantes?
(no fundo, é tudo variação?)
être bon est mieux que d’être mal?
(ser bom é melhor que ser mal?)
être belle est préférable d’être laid?
(ser bonito é melhor que ser feio?)
alors, être riche est mieux que d’être pauvre?
(então, ser rico é melhor que ser pobre?)
et Dieu est meilleur que le diable?
(e Deus é melhor que o diabo?)
et votre vie est meilleure que la mienne?
(e sua vida, é melhor que a minha?)
vivre ensemble n’est-il pas préférable de vivre seul?
(viver acompanhado não é melhor que ser solitário?)

 
Vous devez avoir quelqu’un pour le reste de votre vie?
(é preciso ter alguém para o resto da vida?)

 
donner le jeu, il est préférable d’essayer de gagner?

(entregar o jogo é melhor que tentar ganhar?)

 
la tricherie est mieux que d’essayer d’être fidèle?
(trair é melhor que tentar ser fiel?)

 
Je vous dévore avec du sable et du feu!
(eu te devoro com areia e fogo!)

 

Je suis attaché entre un réseau de trois étoiles.
(Estou numa rede atada entre três estrelas.)

São Paulo, 13 de dezembro de 2013

O Rubaiyat

Omar Khayyam

5

Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.
Apanha um grande copo cheio de vinho,
senta-te ao luar, e pensa:
Talvez amanhã a lua me procure em vão.

13

Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos.

18

Não me lembro do dia em que nasci;
não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos beber deste copo
e esquecer a nossa incurável ignorância.

43

Há tanto tempo giram os astros no espaço;
há tanto tempo se revezam os dias e as noites.
Anda de leve na terra, talvez aonde vais pisar
ainda estejam os olhos meigos de um adolescente.

47

Se em teu coração cultivaste a rosa do amor,
quer tenhas procurado ouvir a voz de Deus,
ou esgotado a taça do prazer,
a tua vida não foi em vão.

99

Quando eu não mais viver, não haverá mais rosas,
nem lábios vermelhos, nem vinhos perfumados;
não haverá auroras, nem amores, nem penas:
o Universo terá acabado, pois ele é o meu pensamento.

versão em português de Afredo Braga

A vida

                                                                     "A vida é luta renhida" G. Dias
Mimado menino
acostumado a fazer manha;
Menino promíscuo
acostumado a fazer birra,
Toma tento e até que cresça
não me apareça!
Que a vida não para,
não volta, não espera
E se acaba tão depressa...

Menino mimado
desacostumado ao não,
Não volte ao seu ninho!
Seus conjuros nas encruzilhadas,
suas preces, promessas
nem sempre serão atendidas!

Nos nossos caminhos,
são fartos os espinhos;
sobejam carcaças dormindo ao relento
reanimadas por abutres famintos,
por isso carecemos de alento!

Menino mimado, não esqueça:
a vida não é uma festa
mas por isso é muito mais bela...

T.G. Morais

Penas

Pela minha janela passou uma garça

E o dia que seria abortado por chorosa chuva

Se encheu do leite de suas alvas penas.

 

Thaís G.M.

df5ded85ffbdd8003c241ae10b83d72b

Síria

Palmira, tuas palmeiras há muito não balançam ao vento!
O vento só traz até ti muito pó, cinzas, farelos
Que sobram das ambições de todos os tempos.
Culpada por demorar-te no meio do caminho.

Como tua irmã, anciã entre as localidades;
Lar dos fundadores da Acádia,
Essa coroa de fogo da deusa do amor e da guerra.
Alepo, algo mais nefasto que o mais nefasto
Dos terremotos perscruta teus filhos!
Sonda tuas antigas ágoras,
que viraram catedrais
que agora são mesquitas!
Em vão perguntas “por quem definho?”

Como tua vizinha Ebla, rocha branca,
Berço de onde partimos, nosso ninho!
Nem 5 milênios tanto dano causou à tua ancestral alegria.
Ser ruína de ruínas é teu destino?

Tua terra é a desejada de todas as gentes:
Persas, macedônios, romanos, árabes,
Bizantinos, cruzados, mongóis, mamelucos,
Turcos, franceses, ingleses,
Russos, estadunidenses!
Foi o que os ventos trouxeram a teus pés: triste agonia.
E sobre tua cabeça, pobre Síria: louco desatino!

Lares divididos, subdivididos,
Todos somos teus descendentes.
Quebra-cabeças de venais interesses!
Joias deste oriente, quem sentirá teu martírio?

 

440242

A sombra

Ontem, o frio cortava minhas faces distraídas,

ao passar por um longo corredor sombrio.

Um frio que me lembrava toda a imensa crueldade do mundo.

 

 

Num lance, porém, um calor atravessou meu corpo.

Uma sombra quente, diferente dos fantasmas

que , como todos sabem, trazem ainda mais frio.

A sombra escapou do seu dono por alguns minutos

E se instalou em meu peito

E me acompanhou através do corredor.

 

 

Tão concreto foi, que olhei em volta procurando o dono da sombra

Como se ele me observasse escondido em algum canto.

Mas nada, longe ele estava.

Talvez em alguma encruzilhada

conjurando coisas que ignoramos.

 

 

Senti sua presença mais intensa e o corredor se iluminou

Eu me aqueci e vi você nos rostos de outros que passavam encolhidos.

Vi então a sombra inteira, em pé, mãos nos bolsos da jaqueta preta.

Vi seu cabelo desalinhado, cheiro de banho recém tomado,

Ouvi o som de sua voz chiante dizendo meu nome,

sorrindo para mim como se dissesse “Acorda!”

E eu acordei dessa alucinação compensatória

do vazio de sua ausência.

Depois pensei “é isso que o amor é”.

 

No princípio era o verbo!

O mal assola a terra.

Viver torna-se um suplício;

O gosto de sangue, um vício.

Espera-se a ajuda do céu ou de irmãos para sempre.

Não se vê nada de novo no fronte, exceto no verbo.

Honra, dignidade e nobreza sempre foram

só palavras que nunca existiram.

Há no ar promessas de um porvir menos perverso,

No qual o holocausto tenha regras.

Projéteis são mais nobres que veneno!

Enquanto algo escapa entre dentes;

Há algo bem diverso nas mentes.

Assim, a sanha nunca arrefece

em frente ao altar de sacrifício.

Cabeças Trocadas

 No templo da deusa Kali, o odor doce e quente

De pus, sêmen, sangue não causou mais horror

Em Sita, o sulco, do que a imagem

De teus longilíneos ossos a estalarem

Como gravetos secos no inverno em mim!

As cabeças dos dois amigos rolando

Uma ao lado da outra, para saciar a onipresente,

Não têm par com  a imagem dos anelos

De teus cabelos molhados pelo  líquido espesso.

O fervor brutal que animou a espada no templo,

No entanto, é o mesmo que te elevou e levou!

Do teu talhe entalhado em pele resta

Agora o interrompido crânio  quase intacto.

Antes um David, agora um grotesco riso descarnado!

A que Deus sombrio foste imolado?

Em que pensavas?

Contra quem tenho blasfemado?

Nenhum, Nada, Ninguém!

O adiado ódio deste ato não tem para onde correr nem se manifesta,

Assim o sagrado alimento, as águas, os campos se infectam com tuas cinzas.

images

Poemas de Safo de Lesbos

“Semelhante aos deuses parece-me que há de ser o feliz
mancebo que, sentado a tua frente, ou ao teu  lado,
te contemple e, em silêncio te ouça a argêntea voz
e o riso abafado do amor.Oh, isso-isso-só é  bastante
para ferir-me o perturbado coração, fazendo-o
tremer dentro do peito!
Pois basta que, por um instante, eu te veja
para que, como por magia, minha voz emudeça;
sim, basta isso, para que minha lingua se paralise,
e eu sinta sob a carne impalpável fogo
a incendiar-me as entranhas.
Meus olhos ficam cegos a um fragor de ondas
soa-me aos ouvidos;
o suor desce-me em rios pelo corpo, um tremor
(…)

Safo

SAFO
SAFO (Photo credit: Becante)

Ler poesia é mais útil para o cérebro que livros de autoajuda, dizem cientistas

John Donne, one of the most famous Metaphysica...

John Donne, one of the most famous Metaphysical Poets. (Photo credit: Wikipedia)

Elizabeth Barrett Browning - Project Gutenberg...Elizabeth Barrett Browning – Project Gutenberg eText 16786 (Photo credit: Wikipedia)

PUBLICADO NA FOLHA DE SÃO PAULO

Ler autores clássicos, como Shakespeare, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula a mente e a poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, segundo um estudo da Universidade de Liverpool publicado nesta terça-feira (15).

Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos e depois essas mesmas passagens traduzidas para a “linguagem coloquial”.

Reprodução
O poeta Thomas Stearns Eliot
O poeta Thomas Stearns Eliot

Os resultados da pesquisa, antecipados pelo jornal britânico “Daily Telegraph”, mostram que a atividade do cérebro “dispara” quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não reage quando esse mesmo conteúdo se expressa com fórmulas de uso cotidiano.

Esses estímulos se mantêm durante um tempo, potencializando a atenção do indivíduo, segundo o estudo, que utilizou textos de autores ingleses como Henry Vaughan, John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin.

Os especialistas descobriram que a poesia “é mais útil que os livros de autoajuda”, já que afeta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, e ajuda a refletir sobre eles e entendê-los desde outra perspectiva.

“A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos de nossas lembranças”, explica o professor David, encarregado de apresentar o estudo.

Após o descobrimento, os especialistas buscam agora compreender como afetaram a atividade cerebral as contínuas revisões de alguns clássicos da literatura para adaptá-los à linguagem atual, caso das obras de Charles Dickens.