Quarto de despejo e a norma culta

Thaís de Godoy

Abaixo há um trecho do diário de Carolina Maria de Jesus, moradora da favela do Canindé, em São Paulo, catadora de lixo e mãe de três filhos. Suas palavras foram transcritas letra por letra, desconsiderando o fato de que ela escreve fora da norma culta e no ano de 1955, antes da Reforma Ortográfica.

Observe como era difícil para ela enfrentar  os julgamentos que recebia devido à linguagem usada em seu diário: para os vizinhos, ela era culta, simplesmente por saber escrever e usar palavras desconhecidas; para os eruditos, uma semi-analfabeta, por não usar a norma padrão.

Alguns criticam seus leitores porque creditam o sucesso de vendas nacional e internacional de sua obra (talvez o maior best-seller da literatura nacional) a uma espécie de curiosidade mórbida sobre a realidade “exótica” da vida cotidiana em uma favela, como a atenção que um circo de horrores inimagináveis despertaria na classe média alfabetizada. A fim de preservar melhor esse efeito, o texto original deveria ser mantido.

Também para servir de objeto de estudos linguísticos, melhor seria manter sua ortografia e estrutura estropiada mesmo. Os fenômenos da língua inculta e não tão bela seriam, então, dissecados e classificados para deleite dos tarados pela taxonomia.

Outros ainda defendiam que deveria ser mantido o texto original por uma espécie de condescendência culpada de elite por não fornecer os recursos das quais uma mulher, chefe de família, precisa dispor para escrever melhor, tais como uma vida digna e escolas de qualidade. Vamos dar voz aos descamisados, vamos deixar que falem do seu jeito, que se expressem como sempre, vamos publicá-los assim mesmo. Pelo mesmo motivo e outros mais, alguns defendiam que o texto original deveria ser corrigido, seguindo os padrões da norma culta, completando sua obra inadequada e imperfeita. Vamos domesticá-la, talvez tenham dito os mais mordazes e conservadores do idioma.

Então, professores de gramática (como eu) sentiriam cócegas de canetar tudo imediatamente com círculos e acentos de cor vermelha numa compulsão obsessiva. Os historiados criticariam a falsidade, o anacronismo ao se tentar corrigir um documento importante, e a amputação da possibilidade de corrigir nossos erros sem a preservação da memória.

Tive uma conversa interessante com a Profª Maria Vilani Gomes (mãe do rapper Criolo) na qual ela defendeu as correções de acordo com a norma culta para maior divulgação e aceitação (nas escolas principalmente) de textos de jovens escritores que não tiveram acesso a um ensino de qualidade ou estão em processo de alfabetização. Outro argumento também é de que a manutenção do texto inculto poderia desestimular o jovem escritor em seu aprimoramento na aquisição de uma escrita mais elaborada, afinal os socialmente desprivilegiados, os jovens, todos nós temos sim a capacidade e o direito inalienável de nos apropriar desse patrimônio cultural que é a língua portuguesa culta.

São excelentes argumentos, contudo a questão relevante para os estetas é muito diferente das questões exclusivamente sociais classistas, linguísticas, didáticas ou mercadológicas. Para os estetas, a verdadeira e relevante questão, eliminada pelos outros saberes, é a qualidade literária intrínseca do Diário de uma favelada. Ela existe? Claro que sim. A qualidade literária, as reflexões e emoções estéticas que ela desperta no leitor dependem ou não da forma como Carolina Maria de Jesus se expressa? É possível separar forma, conteúdo, expressividade, subjetividade, afetividade, gramaticalidade, sociedade etc.? O efeito da leitura sobre nós não depende justamente das “escolhas” daqueles vocábulos errados feitas pela autora? Tentar separar esses elementos não seria decepar elementos essenciais da obra?

“Tábua de tiro ao alvo”, por exemplo, jamais terá o mesmo efeito emocional no nosso inconsciente coletivo, a mesma expressividade que “tauba de tiro ao alvaro”. O que há aqui, não é mera condescendência classista pelos pobres, romantização da pobreza pitoresca, ou culto do bizarro, mas sim uma identificação com a cultura popular, e um sentimento de irmandade entre os brasileiros de qualquer classe, (excetuando para os esnobes, afetados e eurocêntricos, é claro): a mistura de esculacho, comicidade e afetividade, uma tristeza alegre por sermos capazes de criar usando toda a nossa precariedade.

Deleitem-se com estas preciosidades:

20 de julho de 1955

Carolina Maria de Jesus

Deixei o leito as 4 horas para escrever. Abri a porta e contemplei o céu estrelado. Quando o astro-rei começou despontar eu fui buscar água. Tive sorte! As mulheres não estavam na torneira. Enchi minha lata e zarpei. (…) Fui no Arnaldo buscar o leite e o pão. Quando retornava encontrei o senhor Ismael com uma faca de 30 centimetros mais ou menos. Disse-me que estava a espera do Binidito e do Miguel para matá-los, que êles lhe expancaram quando êle estava embriagado.
Lhe aconselhei a não brigar, que o crime não trás vantagens a ninguem, apenas deturpa a vida. Senti o cheiro do alcool, disisti. Sei que os ébrios não atende. O senhor Ismael quando não está alcoolizado demonstra sua sapiencia. Já foi telegrafista. E do Circulo Exoterico. Tem conhecimentos bíblicos, gosta de dar conselhos. Mas não tem valor. Deixou o alcool lhe dominar, embora seus conselho seja util para os que gostam de levar vida decente.

Preparei a refeição matinal. Cada filho prefere uma coisa. A Vera, mingau de farinha de trigo torrada. O João José, café puro. O José Carlos, leite branco. E eu, mingau de aveia.
Já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir, procuro lhe dar uma refeição condigna.

Terminaram a refeição. Lavei os utensílios. Depois fui lavar roupas. Eu não tenho homem em casa. É só eu e meus filhos. Mas eu não pretendo relaxar. O meu sonho era andar bem limpinha, usar roupas de alto preço, residir numa casa confortável, mas não é possivel. Eu não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja. Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir em favela.

… Durante o dia, os jovens de 15 e 18 anos sentam na grama e falam de roubo. E já tentaram assaltar o empório do senhor Raymundo Guello. E um ficou carimbado com uma bala. O assalto teve inicio as 4 horas. Quando o dia clareou as crianças catava dinheiro na rua e no capinzal. Teve criança que catou vinte cruzeiros em moeda. E sorria exibindo o dinheiro. Mas o juiz foi severo. Castigou impiedosamente.

Fui no rio lavar as roupas e encontrei D. Mariana. Uma mulher agradavel e decente. Tem 9 filhos e um lar modelo. Ela e o espôso tratam-se com iducação. Visam apenas viver em paz. E criar filhos. Ela tambem ia lavar roupas. Ela disse-me que o Binidito da D. Geralda todos os dias ia prêso. Que a Radio Patrulha cançou de vir buscá-lo. Arranjou serviço para êle na cadêia. Achei graça. Dei risada!… Estendi as roupas rapidamente e fui catar papel. Que suplicio catar papel atualmente! Tenho que levar a minha filha Vera Eunice. Ela está com dois anos, e não gosta de ficar em casa. Eu ponho o saco na cabeça e levo-a nos braços. Suporto o pêso do saco na cabeça e suporto o pêso da Vera Eunice nos braços. Tem hora que revolto-me. Depois domino-me. Ela não tem culpa de estar no mundo.

Refleti: preciso ser tolerante com os meus filhos. Êles não tem ninguem no mundo a não ser eu. Como é pungente a condição de mulher sozinha sem um homem no lar.

Aqui, todas impricam comigo. Dizem que falo muito bem. Que sei atrair os homens. (…) Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo.

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