Colher o pomo de adão de seu
Pomar de prazeres impensáveis.
Escale o monte e depois, cansado,
Se enterre na cova que de Vênus nasce!
Podar a planta do meu pé para alçar voo
E atingir o céu estrelado de sua boca.
Bares, cafés e clubes, a partir do século XIX, não eram apenas um ambiente para a happy hour. Eles foram o cenário onde questões políticas, filosóficas, movimentos artísticos revolucionários se espalharam. O propósito deste site é o mesmo: criar um espaço virtual para expressão livre de ideais, reflexões e sentimentos, com espírito crítico em relação a nossa Cultura.
Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas por tornar consciente a escuridão. Jung
Sonho com o diabo se contorcendo,
Ensanguentado dos pés à cabeça,
Como se tivesse saindo de uma placenta.
Ora corcoveia ora se estica,
Tentando ser liberado!
Bem perto de mim.Bem longe de mim.
E alguém me diz:
_Pegue-o e leve-o a boca!
Eu me imagino fazendo isso
E, assim, o diabo se torna
Pequeno como um canapé
Para um único bocado
_Se quer ser grande, deve engoli!
Repetia a voz, não sei de onde.
Mas o nojo me fez regurgitá-lo.

Os guardas, após examinarem bem a sede, disseram que os dois irmãos não haviam brigado e um assassinado o outro, como haviam pensado anteriormente. Notaram que havia três canecas de café sobre a mesa. Os irmãos receberam, portanto, alguma visita de pessoa conhecida. Certamente, essa visita havia assaltado o sítio e levado o outro irmão com ela como refém, até estar bem longe. Assim, Pedro corria sério perigo nas mãos desse malfeitor.
Enquanto davam todas essas explicações, a comunidade foi se reunindo em volta da casa, querendo acudir, consolar e ter notícias. Chamaram um médico para o nono, que foi levado à Santa Casa. Até o filho Isaías, esquecendo as diferenças com a mãe, veio abraçá-la e ampará-la nesse momento. Todos pensaram que só uma tragédia poderia unir uma família desse modo.
Começaram então as buscas para encontrar o outro filho, pelos campos, pomares, toda comunidade se revezava aos gritos chamando Pedrinho, Pedrinho…
A Busca
Quando voltou a si, minha nona viu que já haviam chamado as autoridades locais que vasculhavam a casa. Correu para o campo aberto, onde as vacas pastavam na invernada, e começou a gritar:
-Pedrinho, meu filho, por que matou teu irmão? Volta pra casa!
Ainda o sangue escorria de sua cabeça. Depois de horas gritando, conseguiram convencê-la a voltar para a casa, onde tinham revelações sobre o crime hediondo….
Continua: A busca-parte 2

Parte II
Um dia, como de costume, a nona foi rezar o terço na cidade com toda família. Menos os dois filhos, Pedro e Nicola, porque, com o término da colheita e venda de toda produção, tinham que tomar conta do dinheiro bem escondido num baú trancado a chave, no quarto do nono Ciccillo.
Depois de terminada a reza, toda família voltou cantando para casa, feliz por todas as obrigações cumpridas no fim da temporada. Quando chegaram, porém, deram com a porta aberta. Na mesa da cozinha, café derramado pelo chão. As ferramentas usadas para roçar, que eram guardadas atrás da porta, caídas. No quarto do nono, uma cena horripilante: Nicola caído ensanguentado, tinha o pescoço cortado.
Fora degolado! Naquele instante, tomados de loucura, meus tataravós sucumbiram à tamanha dor: a nona arrancou os próprios cabelos aos chumaços com tamanha força que a pele se desprendeu da cabeça. Meu nono teve um derrame e caiu desfalecido.
Tenho que contar esta história, antes que seja tarde!
Antes que a pessoa que ma relatou não possa mais confirmar se acertei depois de tudo escrito. Como falta-lhe já a luz dos olhos, quero ler essa história para ela confirmar se escrevi direito.
Preciso contar, mesmo que ninguém leia depois; mesmo que ninguém a receba em seus ocupados ouvidos.Tão ocupados, que não podem parar tudo o que estão fazendo e ler uma simples história.
Simples nada! Esta história me arrepiou os cabelos, um frio correu minha espinha, por saber que era real e que aconteceu no seio de minha família. Embora seus protagonistas já estejam todos embaixo da terra e eu não os tenha conhecido, nunca pensei que havia tanto drama, tragédia, sangue e mortes horríveis em uma família a qual eu, por muito tempo, considerei pacata!
Há coisas que os parentes só revelam em último caso e, no meu caso, precisaram me contar esta história para torná-la um exemplo; contaram para que eu superasse a minha tragédia, vendo que existiam tragédias ainda piores e os sofredores envolvidos sobreviveram, portanto eu também seria capaz de sobreviver. Também para me educar e talvez para herdar uma tradição familiar que surgiu desta tragédia não-grega, mas ítalo-brasileira ou ítalo-bragantinha.
Sei lá, só sei que, neste momento, tenho que contar e sairá tudo de qualquer jeito, sem nenhuma preocupação com a forma, porque se eu morrer enquanto estiver escrevendo esta história, os interessados (pelo menos dois, eu tenho certeza) poderão ler o esqueleto dela.
A tia de minha mãe, Tia duas vezes (ela era irmã de minha avó e casou-se com o irmão de meu avô, isto é, duas irmãs da família de Bellis se casaram com dois irmãos da Boccuzzi*) Maria de Bellis Boccuzzi, assim me contou a história de minha tataravó, Maria Caporrino Linardi, ou Maria Leiteira, como era conhecida:
Continuação: Caim e Abel
*Essa é outra história, que parece tirada do Livro das 1001 noites, mas é cheia de coincidências, ou sincronias reais fantásticas: A história das sete irmãs e um irmão e dos sete irmãos e uma irmã (ainda a ser redigida). αΩ

Grande insensatez de minha vida
Ou seria desvario?
Onde vi o mar, havia lama.
Onde vi mel, havia fel;
Onde alimento, lamento;
Onde ternura, só angústia.
Para você enfim
Era “melhor viver comigo que sem mim”!

Assim fala a lenda:
Quando as bandeiras balançavam rumo ao sertão,
Mulheres subiam ao cume
Dos joelhos do gigante adormecido
Para, de lá, despedirem-se de seus amados, brandindo lençóis,
Até que eles sumissem de suas vistas no horizonte.
Esperançosas de avistá-los ao longe,
Ali, elas regressavam sucessivamente,
Para dispor-se a receber cada qual seu sertanista,
Se um dia eles voltassem ao Planalto Paulista.
Até hoje, porém, sobre a barriga e os joelhos do monstro,
Os lençóis surgem, em forma de nuvens que choram,
Porque as esposas e filhas e irmãs vêm ali lamentar
Eternamente a saudade dos que não puderam regressar.
Godoy. Jacareí, 03-01-2013


Camilo Pessanha
Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,
_ Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clarões, cromáticas vesânias,
No limbo onde esperais a luz que vos batize,
As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.
Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da água na clepsidra,
Vagamente sorris, resignados e ateus,
Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.
Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,
Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,
Adormecei. Não suspireis. Não respireis.