Cruz e Sousa, Mallarmé e Stefan George

Para Roger Bastide, Cruz e Sousa, Mallarmé e Stefan George formam a tríade suprema do movimento simbolista universal. Bastide, porém, dá visível  preeminência nessa tríade ao poeta dos Últimos Sonetos. Os críticos Ventura Garcia Caldeiron, Juan Más y Pi e Júlio Noé afirmam que Cruz e Sousa é um dos maiores poetas do mundo em qualquer tempo e lugar.

Obras:

Broquéis

É uma procura da expressão definitiva e do definitivo sentimento do mundo, que mais tarde atingiria o poeta.  É a dor de ser negro que se exprime de maneira audaciosa e renovadora forma de expressão. Em cada poema vê-se as arrancadas do poeta que busca ultrapassar as formas parnasianas, através de formas novas, ritmos e símbolos essenciais. Forma e conteúdo são um todo que exprimem ideações, desejos anelos que estavam muito além da dor de ser negro.

Antífona

Faróis

Amina Mea

Litania dos Pobres

Últimos sonetos

Poet Stefan George (1910)
Poet Stefan George (1910) (Photo credit: Wikipedia)

English: French writer Stephane Mallarme

Painting of João da Cruz e Sousa (1861 - 1898)...

Anima mea

Façade du palais Cruz e Sousa, Florianopolis, ...
Façade du palais Cruz e Sousa, Florianopolis, Brésil (Photo credit: Wikipedia)

Cruz e Sousa

Ó minh’alma, ó minh’alma, ó meu Abrigo,
meu sol e minha sombra peregrina,
luz imortal que os mudos ilumina
do velho Sonho, meu fiel Amigo;

Estrada ideal de São Tiago, antigo
templo da minha Fé, casta e divina,
de onde é que vem toda esta mágoa fina
que é, no entanto, consolo e que eu bendigo?

De onde é que vem tanta esperança vaga,
de onde vem tanto anseio que me alaga,
tanta diluída e sempiterna mágoa?

Ah! de onde vem toda essa estranha essência
de tanta misteriosa Transcendência,
que estes olhos me deixam rasos de água?!

Litania dos pobres

Os miseráveis, os rotos
São as flores dos esgotos.
São espectros implacáveis
Os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários
Dos abismos tumultuários.

As sombras das sombras mortas,
Cegos, a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos
E varando o céu de gritos.

Faróis a noite apagados
Por ventos desesperados.

Inúteis, cansados braços
Pedindo amor aos Espaços.

Mãos inquietas, estendidas
Ao vão deserto das vidas.

Figuras que o Santo Ofício
Condena a feroz suplício.

Arcas soltas ao nevoento
Dilúvio do Esquecimento.

Perdidas na correnteza
Das culpas da Natureza.

Ó pobres! Soluços feitos
Dos pecados imperfeitos!
Arrancadas amarguras
Do fundo das sepulturas.

Imagens dos deletérios,
Imponderáveis mistérios.

Bandeiras rotas, sem nome,
Das barricadas da fome.

Bandeiras estraçalhadas
Das sangrentas barricadas.

Fantasmas vãos, sibilinos
Da caverna dos Destinos!
O pobres! o vosso bando
É tremendo, é formidando!
Ele já marcha crescendo,
O vosso bando tremendo…

Ele marcha por colinas,
Por montes e por campinas.

Nos areiais e nas serras
Em hostes como as de guerras.

Cerradas legiões estranhas
A subir, descer montanhas.

Como avalanches terríveis
Enchendo plagas incríveis.

Atravessa já os mares,
Com aspectos singulares.

Perde-se além nas distâncias
A caravana das ânsias.

Perde-se além na poeira,
Das Esferas na cegueira.

Vai enchendo o estranho mundo
Com o seu soluçar profundo.

Como torres formidandas
De torturas miserandas.

E de tal forma no imenso
Mundo ele se torna denso.

E de tal forma se arrasta
Por toda a região mais vasta.

E de tal forma um encanto
Secreto vos veste tanto.

E de tal forma já cresce
O bando, que em vós parece.

Ó Pobres de ocultas chagas
Lá das mais longínquas plagas!
Parece que em vós há sonho
E o vosso bando é risonho.

Que através das rotas vestes
Trazeis delícias celestes.

Que as vossas bocas, de um vinho
Prelibam todo o carinho…

Que os vossos olhos sombrios
Trazem raros amavios.

Que as vossas almas trevosas
Vêm cheias de odor das rosas.

De torpores, d’indolências
E graças e quint’essências.

Que já livres de martírios
Vêm festonadas de lírios.

Vem nimbadas de magia,
De morna melancolia!
Que essas flageladas almas
Reverdecem como palmas.

Balanceadas no letargo
Dos sopros que vem do largo…

Radiantes d’ilusionismos,
Segredos, orientalismos.

Que como em águas de lagos
Bóiam nelas cisnes vagos…

Que essas cabeças errantes
Trazem louros verdejantes.

E a languidez fugitiva
De alguma esperança viva.

Que trazeis magos aspeitos
E o vosso bando é de eleitos.

Que vestes a pompa ardente

 

Painting of João da Cruz e Sousa (1861 - 1898)...
Painting of João da Cruz e Sousa (1861 – 1898), brazilian poet (Photo credit: Wikipedia)

 
Do velho Sonho dolente.

Que por entre os estertores
Sois uns belos sonhadores.

Cruz e Souza

 

Herman Gorter

Avatar de maurokleberRaras Ideias

Herman Gorter (Wormerveer, Países Baixos, 26 de novembro de 1864 — Bruxelas, 15 de setembro de 1927) foi um poeta e comunista conselhista holandês. Foi o membro principal dos Tachtigers, um influente grupo de escritores holandeses que trabalharam conjuntamente em Amesterdam na década de 1880 arredor do jornal literário De Nieuwe Gids (O novo guia). (Wikipedia)

Maio
Uma coisa é triste e causa lamento
Sempre em volta da terra, uma névoa inconstante
E leve envolve o corpo: é a alternância
Entre ser e não ser, e que cada elemento,
Alma e flor,leva até aquele reino,
Branco e silencioso e parecido com a morte.

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Alceu de Metilene – Fragmento 357 LP

Alceu – Fr.357 LP

Reluz em bronze a sala.De elmos brilhantes todo o teto está

apinhado, onde se ondeiam crinas alvas de cavalo, que hão de

ornar a testa dos guerreiros. E dos ganchos penduradas, mil luzidas

caneleiras são o aval contra uma lança poderosa. De linho

novo revestidas,as couraças juncam-se no chão, em meio a

côncavos escudos. Espadas da Calcídia pelos lados, montes de

túnicas e cinturões. Que não se esqueça coisa alguma, que a

peleja se aproxima.


[Tradução: Antônio Medina Rodrigues] 

Alceu – A décima musa

ó

coroada de violetas

sorriso-mel

sagrada

Safo

Tradução: Haroldo de Campos

Alceu de Metilene

Map of Lesbos by Giacomo Franco (1597).
Map of Lesbos by Giacomo Franco (1597). (Photo credit: Wikipedia)

Poeta grego (séculos VII-VI a.C.), nasceu em Lesbos, na cidade de Metilene.

Fragmentos:

Fragmento 42

Fragmento 96

Fragmento 357LP

Poemas de Safo de Lesbos

“Semelhante aos deuses parece-me que há de ser o feliz
mancebo que, sentado a tua frente, ou ao teu  lado,
te contemple e, em silêncio te ouça a argêntea voz
e o riso abafado do amor.Oh, isso-isso-só é  bastante
para ferir-me o perturbado coração, fazendo-o
tremer dentro do peito!
Pois basta que, por um instante, eu te veja
para que, como por magia, minha voz emudeça;
sim, basta isso, para que minha lingua se paralise,
e eu sinta sob a carne impalpável fogo
a incendiar-me as entranhas.
Meus olhos ficam cegos a um fragor de ondas
soa-me aos ouvidos;
o suor desce-me em rios pelo corpo, um tremor
(…)

Safo

SAFO
SAFO (Photo credit: Becante)

Natércia Pontes lança livro no Espaço CULT

Ontem dia 05-02-2013, foi lançado no Espaço Cult livro “Copacabana Dreams” que compila contos da escritora cearense sobre o famoso bairro carioca. Para mais informações sobre esse evento clique no link:

http://revistacult.uol.com.br/home/2013/02/natercia-pontes-lanca-livro-no-espaco-cult/

Conheça títulos considerados indignos de leitura por autoridades

da Livraria da Folha

Ditadores e fanáticos religiosos são os inimigos históricos dos livros. Queimar exemplares em praça pública, tentar bani-los ou condenar um autor à morte não é lá grande novidade. Estranho é quando um Estado democrático passa a coibir a sua comercialização. Parece que Luiz Felipe Pondé tem razão: “politicamente correto é censura fascista”.

Divulgação

No Brasil, mais de 900 mil livros foram comercializados em 80 dias
Trilogia erótica entra para a lista de “proibidões da literatura”

A apreensão de livros eróticos em Macaé (RJ) foi a mais recente de uma série. Lá, a Justiça do Rio de Janeiro do município, com ordem expedida pelo juiz Raphael Baddini de Queiroz Campos, retirou títulos considerados obscenos de duas livrarias.

O episódio, que ocorreu na segunda-feira passada (14), retirou e lacrou 64 exemplares. “Cinquenta Tons de Cinza”, “Algemas de Seda”, “50 Versões de Amor e Prazer” e “A Dama da Internet” estão entre os mais recentes “proibidões da literatura”.

Em breve, andar pelas ruas com um livro de Dalton Trevisan ou de Nelson Rodrigues pode acabar na delegacia.

No final de novembro do ano passado, a deputada distrital Celina Leão (PSD) encaminhou o pedido de suspensão da venda de “O Livro Maldito” à Procuradoria-Geral da República. A edição foi publicada no Brasil em 2011.

Divulgação

Autor promete contar tudo o que você precisa saber se não for uma mané
Autor se fundamenta no nonsense para criar a cartilha do crime

Escrito pelo publicitário norte-americano Christopher Lee Barish, o texto é inspirado em “Grand Theft Auto” (GTA), um game no qual o protagonista se envolve em diversas atividades criminosas. Barish explica como produzir um filme pornô, abrir cofres, fazer ligação direta em carros e assaltar bancos.

Fora do Brasil, a Comissão Coreana de Ética Editorial proibiu a venda e ordenou a destruição dos exemplares de “Os 120 Dias de Sodoma”, escrito por marques de Sade no século 18 e publicado recentemente na Coreia do Sul.

O clássico apresenta linguagem mais obscena e descrições de atos sexuais mais polêmicos que os presentes na trilogia erótica “Cinquenta Tons de Cinza”. Considerado a obra-prima do marquês, o texto foi dado como perdido e publicado apenas no início do século 20. O romance inspirou “Salò” (1975), filme de Pier Paolo Pasolini (1922-1975).

Ler poesia é mais útil para o cérebro que livros de autoajuda, dizem cientistas

John Donne, one of the most famous Metaphysica...

John Donne, one of the most famous Metaphysical Poets. (Photo credit: Wikipedia)

Elizabeth Barrett Browning - Project Gutenberg...Elizabeth Barrett Browning – Project Gutenberg eText 16786 (Photo credit: Wikipedia)

PUBLICADO NA FOLHA DE SÃO PAULO

Ler autores clássicos, como Shakespeare, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula a mente e a poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, segundo um estudo da Universidade de Liverpool publicado nesta terça-feira (15).

Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos e depois essas mesmas passagens traduzidas para a “linguagem coloquial”.

Reprodução
O poeta Thomas Stearns Eliot
O poeta Thomas Stearns Eliot

Os resultados da pesquisa, antecipados pelo jornal britânico “Daily Telegraph”, mostram que a atividade do cérebro “dispara” quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não reage quando esse mesmo conteúdo se expressa com fórmulas de uso cotidiano.

Esses estímulos se mantêm durante um tempo, potencializando a atenção do indivíduo, segundo o estudo, que utilizou textos de autores ingleses como Henry Vaughan, John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin.

Os especialistas descobriram que a poesia “é mais útil que os livros de autoajuda”, já que afeta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, e ajuda a refletir sobre eles e entendê-los desde outra perspectiva.

“A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos de nossas lembranças”, explica o professor David, encarregado de apresentar o estudo.

Após o descobrimento, os especialistas buscam agora compreender como afetaram a atividade cerebral as contínuas revisões de alguns clássicos da literatura para adaptá-los à linguagem atual, caso das obras de Charles Dickens.

18 HAICAI – A POESIA CLÁSSICA DO HYAKUNIN-ISSHU

Jogo de cartas inspirado no Hyakunin-Isshu
Jogo de cartas inspirado no Hyakunin-Isshu

Por Regina Bostulim

O Hyakunin-Isshu é uma antologia de cem wakas[1], escritos entre os séculos VII e XIII, período em que Fujiwara no Teika (1162-1241) juntou a coleção. Os poemas são cem tankas, compostos por 31 sílabas (5-7-5-7-7)[2].

Hyakunin significa cem pessoas e isshu significa poemas (sendo shu a contagem do número de poemas). O Hyakunin-Isshu é a antologia dos poemas dos cem maiores poetas do período Heian. Os poemas estão em ordem do ano 670 até 1235, ano de sua compilação.

O nobre Fujiwara no Teika, que compilou as poesias sob as ordens do imperador, viveu durante a transição do período Heian, que foi aristocrático, ao período Kamakura, de característica guerreira, dominado pelo shogunato. Mais tarde seu filho Fujiwara no Tameie efetuou uma revisão do livro. A marca deixada por Fujiwara no Teika na obra é o tanka 97, de sua autoria.

Cerca de metade das poesias têm como tema o amor, pois foram originalmente escritas como cartas de amor. Outros temas presentes são a natureza e as estações do ano. O Hyakunin Isshu (Cem poemas de 100 poetas) é tão importante para a literatura japonesa, que influenciou obras como os Contos de Gengi e os Contos de Ise. Os versos também inspiraram um jogo de cartas (karuta), que consistia em juntar os versos de cada poema.

Os poemas foram escritos por cortesãos ou por pessoas da família imperial. Nos velhos tempos, somente nobres, altos dignatários, e o clero escreviam versos. Era suposto que os pobres desconhecessem tudo sobre arte.

Porém os poemas eram amados pelo povo, que os conhecia de cor. Uma vez um rei que passava por um campo, recebeu um ramo de flores de uma camponesa que lhe disse algumas palavras. Mais tarde, o rei se deu conta de que as palavras ditas pela camponesa eram versos do Hyakunin Isshu. E a admirou pela sua perspicácia, não esperava que alguém tão simples pudesse saber de literatura.

POEMAS

Para saber mais:

PORTER, William N. A Hundred Verses from Old Japan. (The Hyakunin-isshiu).  London: Clarendon Press, 1909. Kindle edition published by Evinity Publishing Inc, 2009.

Regina Bostulim é pesquisadora do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos de Coimbra.

[1] O waka (literalmente poema japonês), é um tipo de poesia da literatura japonesa clássica. Escrito em japonês, contrasta com a poesia conhecida como kanshi, escrita em chinês, que foi popular no período Heian.

[2] Os hai-kais, de 17 sílabas, começaram a ter proeminência no século XVII.

Leia mais no site do jornal:

Memai | Jornal de Letras e Artes Japonesas

A Estante Deslocada-II

Rafael F. Carvalho

             Minha casa não tem mais nenhum móvel, livros, estantes fora do lugar, mesa, cadeiras, quadros. Tudo é livre como meus sentimentos e o meu olhar. Não quero ter mais nada para ver, para descansar, para apoiar o meu corpo. Minha cama é apenas um velho cobertor sem travesseiros. Despojei tudo porque a simplicidade das coisas está distante e assim o teto, o chão e as paredes conversam comigo. O ar circula. Eu o sigo pela casa. Sozinha de objetos a casa só se importa com o objeto vivente e atuante. Sou o único móvel de decoração que não enfeita. Quer vir e dormir comigo? Pode vir e se acostume com o lugar. Se não posso ter uma vida simples, que a casa seja assim. Ora, não tenho vocação para asceta ou uma vida religiosa. Eles optaram por viver assim e eu escolhi viver sem nada não para alcançar a iluminação. Quero que o lugar em que vivo seja dedicado à simplicidade. Quando receber amigos, eles ficarão surpresos. Quando meu amor vier, ela dormirá sem conforto. Vejo as coisas do piso frio, de baixo para cima. Minha casa é a iluminada, eu sou um mero hóspede.

estante de livros