SONETO DO AMOR TOTAL

Vinicius de Moraes, Rio de Janeiro, 1951

Amo-te tanto, meu amor… não cante

O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

430fea38ce63429be95988949adbccb8
Eros e Psiquê

Ulisses

Ulisses

Fernando Pessoa

O mito é um nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É o mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade.
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada morre.

john_william_waterhouse_-_ulysses_and_the_sirens_1891

Asa de beija-flor

Silvio Rodrigues

 

Hoje eu me proponho fundar um partido de sonhos,

oficinas onde consertar asas de beija-flores

Admitem-se loucos, enfermos, gordos sem amor,

tolhidos, anões, vampiros e dias sem sol.

 

Hoje eu vou patrocinar a candura desenganada,

essa massa crítica de Deus que não é pós e nem moderna.

Admite-se proscritos, raivosos, povos sem lar,

desaparecidos devedores do banco mundial.

 

Por uma rua

descascada

por uma mão

bem apertada.

 

Hoje eu vou fazer uma assembléia de flores murchas,

de restos de festa infantil, de pinhatas usadas,

de almas penadas -do reino do natural-

que otorgam licença à qualquer artefato de amar.

 

Pelo levante,

pelo poente,

pelo desejo,

pela semente.

por tanta noite,

pelo sol diário,

em companhia

e em solitário.

 

Asa de beija-flor,

leve e pura.

Asa de beija-flor

para a cura.

c1676ceb0147cf56775f9973004b5343

O Velho do Restelo – Camões

Eis a arenga do Velho do Restelo contra as viagens marítimas e a ambição desmedida e corrupção dos portugueses no livro Os Lusíadas de Luis Vaz de Camões, poeta português:

 

94

Mas um velho, de aspecto venerando,

Que ficava nas praias, entre a gente,

Postos em nós os olhos, meneando

Três vezes a cabeça, descontente,

A voz pesada um pouco alevantando,

Que nós no mar ouvimos claramente,

C’um saber só de experiências feito,

Tais palavras tirou do experto peito:

95

— “Ó glória de mandar! Ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

Ó fraudulento gosto, que se atiça

C’uma aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça

Fazes no peito vão que muito te ama!

Que mortes, que perigos, que tormentas,

Que crueldades neles experimentas!

96

— “Dura inquietação d’alma e da vida,

Fonte de desamparos e adultérios,

Sagaz consumidora conhecida

De fazendas, de reinos e de impérios:

Chamam-te ilustre, chamam-te subida,

Sendo digna de infames vitupérios;

Chamam-te Fama e Glória soberana,

Nomes com quem se o povo néscio engana!

97

— “A que novos desastres determinas

De levar estes reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas

Debaixo dalgum nome preminente?

Que promessas de reinos, e de minas

D’ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? que histórias?

Que triunfos, que palmas, que vitórias?

 

Partida das naus na praia do Restelo em Portugal e discurso da personagem da epopeia "Os Lusíadas" do poeta Camões
Partida das naus para as Índias da praia do Restelo em Portugal e discurso da personagem da epopeia “Os Lusíadas” do poeta Camões

As Mil Mãos Bodhisattva

Dançarinas chinesas deficientes auditivas apresentam o espetáculo “Mil mãos de Bodhisattva” que no budismo é a pessoa capaz de alcançar o nirvana e salvar aqueles que sofrem.

Poesia em Movimento para maravilhar todos nós.

 

Belo belo

Manuel Bandeira

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

Petrópolis, fevereiro de 1947

Poema de Sete Faces

Quando nasci um anjo torto
desses que vive na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
Não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
Pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

 

Perdão padre porque pequei!

 

Eu …

Florbela Espanca

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Contardo Calligaris: ‘Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante’

Psicanalista defende que deveríamos nos preocupar em tornar interessante nossa vida de todo dia. Isso implica ter curiosidade, aventurar-se, arriscar mais, lamentar menos e não se proteger das inevitáveis tristezas.
Dagmar Serpa
Mais do que buscar permanentemente felicidade máxima, um arrebatamento mágico, deveríamos nos preocupar em tornar interessante nossa vida de todo dia.
É o que defende o doutor em psicologia clínica e psicanalista Contardo Calligaris. Uma rápida olhada em sua biografia mostra que ele não só prega como pratica. Italiano de Milão, depois de mais de duas décadas em conexão direta com o Brasil, já morou também na Inglaterra, Suíça, França e nos Estados Unidos e fez muitas viagens.

Aos 65 anos, atingiu a marca de oito casamentos – desde 2011, está com a atriz Mônica Torres – e teve um filho francês. Além de atender no seu consultório, nos Jardins, em São Paulo, já escreveu mais de dez livros, incluindo dois romances.

Criou até uma série para TV, Psi, no canal a cabo HBO. Diz que, semanalmente, abre mão de “parecer inteligente aos olhos dos pares” e publica toda quinta-feira uma coluna no jornal Folha de S.Paulo. Mais de 100 delas estão no livro Todos os Reis Estão Nus (Três Estrelas). Filmes, fatos, casos de amigos, tudo vira pretexto para traduzir um pouco das teorias da psicanálise, filosofar e provocar reflexão. “Não sou de dourar a pílula”, avisa. Não estranhe, portanto, se sentir um impulso diferente ao terminar de ler esta entrevista.

O que é felicidade hoje?

Não gosto muito da palavra felicidade, para dizer a verdade. Acho que é, inclusive, uma ilusão mercadológica. O que a gente pode estudar são as condições do bem-estar. A sensação de competência no exercício do trabalho, já se sabe, é a maior fonte de bem-estar, mais que a remuneração. Nós temos um ideal de felicidade um pouco ridículo.

Um exemplo é a fala do churrasco. Você pega um táxi domingo ao meio-dia para ir ao escritório e o taxista diz: “Ah, estamos aqui trabalhando, mas legal seria estar num churrasco tomando cerveja”. Talvez você ou o taxista sofram de úlcera, e não haveria prazer em tomar cerveja. Nem em comer picanha.

Mesmo que não vissem problema, pode ser que detestassem as pessoas lá e não se divertissem. Em geral, somos péssimos em matéria de prazer. Por exemplo, estamos sempre lamentando que nossos filhos seriam uma geração hedonista, dedicada a prazeres imediatos, quando, de fato, vivemos numa civilização muito pouco hedonista. Por isso, nos queixamos de excessos e nos permitimos prazeres medíocres ou muito discretos.

Mas continuamos acreditando que ser feliz é ter esses prazeres que não nos permitimos. E agora?

Ligamos felicidade à satisfação de desejos, o que é totalmente antinômico com o próprio funcionamento da nossa cultura, fundada na insatisfação. Nenhum objeto pode nos satisfazer plenamente.

O fato de que você pode desejar muito um homem, uma mulher, um carro, um relógio, uma joia ou uma viagem não tem relevância. No dia em que você tiver aquele homem, aquela mulher, aquele carro, aquele relógio, aquela joia ou aquela viagem, se dará conta de que está na hora de desejar outra coisa. Esse mecanismo sustenta ao mesmo tempo um sistema econômico, o capitalismo moderno, e o nosso desejo, que não se esgota nunca. Então, costumo dizer que não quero ser feliz.. Quero é ter uma vida interessante.

Mas isso inclui os pequenos prazeres?

Inclui pequenos prazeres, mas também grandes dores. Ter uma vida interessante significa viver plenamente. Isso pressupõe poder se desesperar quando se fica sem alguma coisa que é muito importante para você. É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do fracasso. Eu acho um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que é ruim.

O que adianta garantir uma vida longa se não for para vivê-la de verdade? É isso que temos de nos perguntar?

Quem descreveu isso bem foi (o escritor italiano) Dino Buzatti, no romance O Deserto dos Tártaros. Conta a história de um militar que passa a vida inteira em um posto avançado diante do deserto na expectativa de defender o país contra a invasão dos tártaros, que nunca chegam. Mas tem um lado simpático na ideologia do preparo. É que está subentendida a ideia de que um dia a pessoa viverá uma grande aventura. Mas o que acontece, em geral, é que a preparação é a única coisa a que a gente se autoriza.

Então, pelo menos há um desejo de viver uma aventura?

Mas os sonhos estão pequenos. A noção de felicidade hoje é um emprego seguro, um futuro tranquilo, saúde e, como diz a música dos aniversários, muitos anos de vida. Acho estranho quando vejo alguém de 18 anos que, ao fazer a escolha profissional, leva em conta o mercado de trabalho, as oportunidades, o dinheiro… Isso nem passaria pela cabeça de um jovem dos anos 1960.

A julgar pela quantidade de fotos colocadas nas redes sociais de pessoas sorridentes, elas têm aproveitado a vida e se sentem felizes. Ou, como você aborda em uma crônica, hoje mais importante do que ser é parecer feliz?

O perfil é a sua apresentação para o mundo, o que implica um certo trabalho de falsificação da sua imagem e até autoimagem. Nas redes sociais, a felicidade dá status. Mas esse fenômeno é anterior ao Facebook. Se você olhar as fotografias de família do final do século 19, início do 20, todo mundo colocava a melhor roupa e posava seríssimo. Ninguém estava lá para mostrar que era feliz. Ao contrário, era um momento solene. É a partir da câmera fotográfica portátil que aparecem as fotos das férias felizes, com todo mundo sempre sorridente.

E a gente olha para elas e pensa: “Eu era feliz e não sabia”.

Não gosto dessa frase porque contém uma cota de lamentação. E acho que a gente nunca deveria lamentar nada, em particular as próprias decisões. Acredito que, no fundo, a gente quase sempre toma a única decisão que poderia tomar naquelas circunstâncias. Então, não vale a pena lamentar o passado. Mas é verdade que existe isso.

As escolhas ao longo da vida geram insegurança e medo. Em relação a isso, você diz que há dois tipos de pessoas: os “maximizadores”, que querem ter certeza antes de que aquela é a opção certa, e a turma do “suficientemente bom”. O segundo grupo sofre menos?

Tem uma coisa interessante no “maximizador”: é como se ele acreditasse que existe o objeto mais adequado de todos, aquele que é perfeito. Mas é claro que não existe.

A busca da perfeição não gera frustração, pois sempre haverá algo que a gente perdeu?

Freud dizia que o único objeto verdadeiramente insubstituível para a gente é o perdido. E não é que foi perdido porque caiu do bolso. Ele fala daquilo que nunca tivemos. Então, faz sentido que nossa relação com o desejo seja esta: imaginamos existir algo que nunca tivemos, mas que teria nos satisfeito totalmente. Só não sabemos o que é.

Como nos livrar desse sentimento?

Temos de tornar cada uma de nossas escolhas interessante. Isso só é possível quando temos simpatia pela vida e pelos outros – o que parece básico, mas não é no mundo de hoje. Não por acaso, o grande espantalho do nosso século é a depressão. A falta de interesse pelo mundo e pelos outros é o que pode nos acontecer de pior.

Complica ainda mais o fato de, como você já abordou, enfrentarmos um dilema eterno: desejamos a estabilidade e também a aventura. Então, entramos em uma relação ou um emprego, mas sofremos porque nos sentimos presos e achamos que estamos deixando de viver grandes aventuras. Isso tem solução?

Não sei se tem solução. A gente vive mesmo eternamente nesse conflito. Agora, como cada um o administra é outra história. Pode-se optar por uma espécie de inércia constante, que será sempre acompanhada da sensação de que você está realmente desperdiçando seu tempo e sua vida, porque toda a aventura está acontecendo lá fora e, a cada instante, você está perdendo os cavalos encilhados que passam e não passarão nunca mais. Viver dessa maneira não é uma das opções. Mas você pode também, em vez disso, permitir se perder.

Permitir se perder no sentido de transformar a vida em uma eterna aventura?

Mas também nesse caso você terá coisas a lamentar. Eu, pessoalmente, fui mais por esse caminho. Mas o preço foi muito alto. Por exemplo, eu não estive presente na morte de nenhum dos meus entes próximos, porque morava em outro país e sempre chegava atrasado, no avião do dia seguinte. Hoje, por sorte, meu filho – que é grande, tem 30 anos – vive perto de mim. Por acaso, ele decidiu vir para o Brasil. Mas não o vi crescer realmente.

Para ser feliz, enfim, o segredo é não buscar a felicidade?

Isso eu acho uma excelente ideia. A felicidade, em si, é realmente uma preocupação desnecessária. Se meu filho dissesse “quero ser feliz”, eu me preocuparia seriamente.

Preferia que dissesse o quê?

Só gostaria que ele me dissesse: “Estou a fim de…” A partir disso, qualquer coisa é válida. O que angustia é ver falta de desejo nas pessoas, em particular nos jovens. Agora, se ele está a fim de algo, mesmo que isso pareça muito distante do campo do possível dentro da vida que leva, eu acho ótimo. Já houve, afinal, crianças gagas que se tornaram grandes oradores – ou rei da Inglaterra, Jorge VI.

Contardo Calligaris: ‘Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante’ | MdeMulher.

Otimismo ou pessimismo?

“O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.”Ariano Suassuna

Oproblemaéaágua

Com ajuda da literatura, morador de rua de BH vence o crack

Ago­ra po­e­ta, Roberto Nascimento se sus­ten­ta com a ven­da de seus dois li­vros e já pla­ne­ja lan­çar ou­tro

postado em 19/12/2015
 

 

“De mo­ra­dor de rua a poe­ta.” É com es­sa fra­se que Ro­ber­to Nas­ci­men­to, um va­la­da­ren­se de 51 anos, re­su­me o en­re­do da pró­pria vi­da. O ví­cio em cra­ck o fez per­der a fa­mí­lia, os ami­gos de in­fân­cia, o em­pre­go, a au­toes­ti­ma e o sor­ri­so. A von­ta­de de ven­cer o ví­cio e o con­ta­to diá­rio com a li­te­ra­tu­ra lhe de­vol­ve­ram a ale­gria. “Fui um sem-te­to até fe­ve­rei­ro pas­sa­do. Ago­ra, gan­ho a vi­da ne­go­cian­do meus li­vros”, con­ta, or­gu­lho­so, o au­tor de O poe­ta am­bu­lan­te I e O poe­ta am­bu­lan­te II – ca­da um cus­ta R$ 5.

A cha­ma­da po­pu­la­ção em si­tua­ção de rua cres­ceu 57% em Be­lo Ho­ri­zon­te em 10 anos, so­man­do 1.827 ho­mens e mu­lhe­res em 2013, ano-ba­se do úl­ti­mo cen­so so­bre o as­sun­to. Pro­ble­mas fa­mi­lia­res (52% das res­pos­tas) são o prin­ci­pal mo­ti­vo en­tre os que le­va­ram es­sas pes­soas a dei­xa­rem seus la­res. O se­gun­do é a de­pen­dên­cia do ál­cool ou dro­gas ilí­ci­tas (43,9%).

Ro­ber­to dei­xou Go­ver­na­dor Va­la­da­res, na com­pa­nhia da mãe e de três ir­mãos, quan­do crian­ça. A fa­mí­lia mo­rou em bair­ros da Re­gião Les­te de BH, on­de o ra­paz es­tu­dou até a sex­ta sé­rie, se ca­sou e te­ve três fi­lhos. Já adul­to, co­nhe­ceu o cra­ck. Lo­go se tor­nou um dependente químico. E seu ca­sa­men­to, de 20 anos, não re­sis­tiu aos pro­ble­mas cau­sa­dos pe­la de­pen­dên­cia da dro­ga.

“Pa­ra ban­car o con­su­mo do cra­ck, ven­di até os apa­re­lhos de ce­lu­lar dos meus fi­lhos. A es­po­sa me lar­gou. Foi com as crian­ças – te­nho duas me­ni­nas e um ra­paz – pa­ra Sa­li­nas (Nor­te do es­ta­do). Já eu fui pa­ra a rua”, re­cor­da. A dro­ga tam­bém não lhe pou­pou o em­pre­go de pe­drei­ro. Fo­ram dias e noi­tes di­fí­ceis. “Fi­quei de­bai­xo de mar­qui­se por qua­se dois anos e meio.

Em 27 de fe­ve­rei­ro de 2013, nu­ma abor­da­gem po­li­cial, um sar­gen­to me dis­se que duas ou três pes­soas, em ca­da 100 vi­cia­dos, con­se­guem lar­gar o cra­ck. Daí eu pen­sei: ‘Sou um des­ses dois ou três’. O po­li­cial me le­vou pa­ra o pro­gra­ma SOS Dro­gas”. Am­pa­ra­do por es­pe­cia­lis­tas, Ro­ber­to foi en­ca­mi­nha­do ao Cen­tro Mi­nei­ro de To­xi­co­ma­nia (CMT). E co­me­çou a fre­quen­tar a uni­da­de do Bair­ro Cru­zei­ro do cen­tro de re­fe­rên­cia em saú­de men­tal (Cer­sam), cu­jo ob­je­ti­vo é aju­dar o pa­cien­te a re­cons­truir a vi­da.

Via­gens Foi lá que o va­la­da­ren­se co­me­çou a ter con­ta­to com a poe­sia. Das via­gens da dro­ga, ele pas­sou a via­jar nos tex­tos de Gon­çal­ves Dias (1823-1864) e Cas­tro Al­ves (1847-1871). “Tam­bém nos de Vi­ní­cius de Mo­raes (1913-1980). Es­tu­dei ape­nas até a sex­ta sé­rie, mas sem­pre gos­tei mui­to de ler”, con­ta o ra­paz, que co­me­çou a criar e a de­cla­mar ver­sos. Os pro­fis­sio­nais do Cer­sam o es­ti­mu­la­ram a pu­bli­car a pri­mei­ra obra, con­cluí­da em 2014. A se­gun­da foi lan­ça­da há pou­cos me­ses.

Uma das poe­sias tem a La­goa da Pam­pu­lha, car­tão-pos­tal da ca­pi­tal, co­mo pa­no de fun­do. Ba­ti­za­do de O pa­to ro­dou, o tex­to su­ge­re um fi­nal in­fe­liz: “Eu fi­quei ima­gi­nan­do/ O mis­té­rio da na­tu­re­za/ Aque­le pa­to na­dan­do/ Quan­ta calma e su­ti­le­za/ Me lem­brei do ja­ca­ré/ Me ba­teu uma tris­te­za”. Ele re­cor­reu à fau­na pa­ra ou­tra poe­sia: “Ti­co-ti­co no fu­bá/ Sa­biá na la­ran­jei­ra/ Tar­ta­ru­ga tra­ca­já/ Ma­ri­ta­ca ba­gun­cei­ra/ A pre­gui­ça lá es­tá/ Dor­min­do a tar­de in­tei­ra”.

O tex­to foi ba­ti­za­do de Bi­chos do Ma­to, no­me que faz Ro­ber­to se lem­brar da épo­ca em que mo­ra­va na rua: “Cer­ta vez, fi­quei 16 dias sem to­mar ba­nho. Pa­re­cia um bi­cho. Eu não aguen­ta­va o meu pró­prio chei­ro. Usei a mes­ma cue­ca. Quan­do to­mei ba­nho, no ter­mi­nal ro­do­viá­rio de Be­lo Ho­ri­zon­te, fi­quei as­sus­ta­do com a cor da água”.

Ro­ber­to ago­ra tra­ba­lha em um no­vo pro­je­to. Es­ti­mu­la­do pe­la atriz, can­to­ra, con­ta­do­ra de his­tó­ria e pro­fes­so­ra de li­te­ra­tu­ra Jhê De­la­croix, ele pla­ne­ja pu­bli­car uma co­le­tâ­nea de cor­del no pró­xi­mo ano. “Per­ce­bi que ele tem ti­no pa­ra o cor­del. Os cor­de­lis­tas es­tão ca­da vez mais ra­ros nos gran­des cen­tros ur­ba­nos”, con­ta a pro­fes­so­ra.

Jhê adian­ta que o tra­ba­lho te­rá co­mo te­ma a vi­são de um ho­mem so­bre o uni­ver­so fe­mi­ni­no, le­van­do-se em con­ta os mo­vi­men­tos so­ciais. “É a vi­são de­le, co­mo ho­mem, so­bre o uni­ver­so fe­mi­ni­no, as­sim co­mo o que as mu­lhe­res que­rem ho­je em dia”, re­for­çou a pro­fes­so­ra.