

Categoria: Literatura
As Mil Mãos Bodhisattva
Dançarinas chinesas deficientes auditivas apresentam o espetáculo “Mil mãos de Bodhisattva” que no budismo é a pessoa capaz de alcançar o nirvana e salvar aqueles que sofrem.
Poesia em Movimento para maravilhar todos nós.
Belo belo
Manuel Bandeira
Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.
Petrópolis, fevereiro de 1947
Poema de Sete Faces
Quando nasci um anjo torto
desses que vive na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
Não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
Pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Eu …
Florbela Espanca
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…
Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
Contardo Calligaris: ‘Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante’
Psicanalista defende que deveríamos nos preocupar em tornar interessante nossa vida de todo dia. Isso implica ter curiosidade, aventurar-se, arriscar mais, lamentar menos e não se proteger das inevitáveis tristezas.
Dagmar Serpa
Mais do que buscar permanentemente felicidade máxima, um arrebatamento mágico, deveríamos nos preocupar em tornar interessante nossa vida de todo dia.
É o que defende o doutor em psicologia clínica e psicanalista Contardo Calligaris. Uma rápida olhada em sua biografia mostra que ele não só prega como pratica. Italiano de Milão, depois de mais de duas décadas em conexão direta com o Brasil, já morou também na Inglaterra, Suíça, França e nos Estados Unidos e fez muitas viagens.
Aos 65 anos, atingiu a marca de oito casamentos – desde 2011, está com a atriz Mônica Torres – e teve um filho francês. Além de atender no seu consultório, nos Jardins, em São Paulo, já escreveu mais de dez livros, incluindo dois romances.
Criou até uma série para TV, Psi, no canal a cabo HBO. Diz que, semanalmente, abre mão de “parecer inteligente aos olhos dos pares” e publica toda quinta-feira uma coluna no jornal Folha de S.Paulo. Mais de 100 delas estão no livro Todos os Reis Estão Nus (Três Estrelas). Filmes, fatos, casos de amigos, tudo vira pretexto para traduzir um pouco das teorias da psicanálise, filosofar e provocar reflexão. “Não sou de dourar a pílula”, avisa. Não estranhe, portanto, se sentir um impulso diferente ao terminar de ler esta entrevista.
O que é felicidade hoje?
Não gosto muito da palavra felicidade, para dizer a verdade. Acho que é, inclusive, uma ilusão mercadológica. O que a gente pode estudar são as condições do bem-estar. A sensação de competência no exercício do trabalho, já se sabe, é a maior fonte de bem-estar, mais que a remuneração. Nós temos um ideal de felicidade um pouco ridículo.
Um exemplo é a fala do churrasco. Você pega um táxi domingo ao meio-dia para ir ao escritório e o taxista diz: “Ah, estamos aqui trabalhando, mas legal seria estar num churrasco tomando cerveja”. Talvez você ou o taxista sofram de úlcera, e não haveria prazer em tomar cerveja. Nem em comer picanha.
Mesmo que não vissem problema, pode ser que detestassem as pessoas lá e não se divertissem. Em geral, somos péssimos em matéria de prazer. Por exemplo, estamos sempre lamentando que nossos filhos seriam uma geração hedonista, dedicada a prazeres imediatos, quando, de fato, vivemos numa civilização muito pouco hedonista. Por isso, nos queixamos de excessos e nos permitimos prazeres medíocres ou muito discretos.
Mas continuamos acreditando que ser feliz é ter esses prazeres que não nos permitimos. E agora?
Ligamos felicidade à satisfação de desejos, o que é totalmente antinômico com o próprio funcionamento da nossa cultura, fundada na insatisfação. Nenhum objeto pode nos satisfazer plenamente.
O fato de que você pode desejar muito um homem, uma mulher, um carro, um relógio, uma joia ou uma viagem não tem relevância. No dia em que você tiver aquele homem, aquela mulher, aquele carro, aquele relógio, aquela joia ou aquela viagem, se dará conta de que está na hora de desejar outra coisa. Esse mecanismo sustenta ao mesmo tempo um sistema econômico, o capitalismo moderno, e o nosso desejo, que não se esgota nunca. Então, costumo dizer que não quero ser feliz.. Quero é ter uma vida interessante.
Mas isso inclui os pequenos prazeres?
Inclui pequenos prazeres, mas também grandes dores. Ter uma vida interessante significa viver plenamente. Isso pressupõe poder se desesperar quando se fica sem alguma coisa que é muito importante para você. É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do fracasso. Eu acho um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que é ruim.
O que adianta garantir uma vida longa se não for para vivê-la de verdade? É isso que temos de nos perguntar?
Quem descreveu isso bem foi (o escritor italiano) Dino Buzatti, no romance O Deserto dos Tártaros. Conta a história de um militar que passa a vida inteira em um posto avançado diante do deserto na expectativa de defender o país contra a invasão dos tártaros, que nunca chegam. Mas tem um lado simpático na ideologia do preparo. É que está subentendida a ideia de que um dia a pessoa viverá uma grande aventura. Mas o que acontece, em geral, é que a preparação é a única coisa a que a gente se autoriza.
Então, pelo menos há um desejo de viver uma aventura?
Mas os sonhos estão pequenos. A noção de felicidade hoje é um emprego seguro, um futuro tranquilo, saúde e, como diz a música dos aniversários, muitos anos de vida. Acho estranho quando vejo alguém de 18 anos que, ao fazer a escolha profissional, leva em conta o mercado de trabalho, as oportunidades, o dinheiro… Isso nem passaria pela cabeça de um jovem dos anos 1960.
A julgar pela quantidade de fotos colocadas nas redes sociais de pessoas sorridentes, elas têm aproveitado a vida e se sentem felizes. Ou, como você aborda em uma crônica, hoje mais importante do que ser é parecer feliz?
O perfil é a sua apresentação para o mundo, o que implica um certo trabalho de falsificação da sua imagem e até autoimagem. Nas redes sociais, a felicidade dá status. Mas esse fenômeno é anterior ao Facebook. Se você olhar as fotografias de família do final do século 19, início do 20, todo mundo colocava a melhor roupa e posava seríssimo. Ninguém estava lá para mostrar que era feliz. Ao contrário, era um momento solene. É a partir da câmera fotográfica portátil que aparecem as fotos das férias felizes, com todo mundo sempre sorridente.
E a gente olha para elas e pensa: “Eu era feliz e não sabia”.
Não gosto dessa frase porque contém uma cota de lamentação. E acho que a gente nunca deveria lamentar nada, em particular as próprias decisões. Acredito que, no fundo, a gente quase sempre toma a única decisão que poderia tomar naquelas circunstâncias. Então, não vale a pena lamentar o passado. Mas é verdade que existe isso.
As escolhas ao longo da vida geram insegurança e medo. Em relação a isso, você diz que há dois tipos de pessoas: os “maximizadores”, que querem ter certeza antes de que aquela é a opção certa, e a turma do “suficientemente bom”. O segundo grupo sofre menos?
Tem uma coisa interessante no “maximizador”: é como se ele acreditasse que existe o objeto mais adequado de todos, aquele que é perfeito. Mas é claro que não existe.
A busca da perfeição não gera frustração, pois sempre haverá algo que a gente perdeu?
Freud dizia que o único objeto verdadeiramente insubstituível para a gente é o perdido. E não é que foi perdido porque caiu do bolso. Ele fala daquilo que nunca tivemos. Então, faz sentido que nossa relação com o desejo seja esta: imaginamos existir algo que nunca tivemos, mas que teria nos satisfeito totalmente. Só não sabemos o que é.
Como nos livrar desse sentimento?
Temos de tornar cada uma de nossas escolhas interessante. Isso só é possível quando temos simpatia pela vida e pelos outros – o que parece básico, mas não é no mundo de hoje. Não por acaso, o grande espantalho do nosso século é a depressão. A falta de interesse pelo mundo e pelos outros é o que pode nos acontecer de pior.
Complica ainda mais o fato de, como você já abordou, enfrentarmos um dilema eterno: desejamos a estabilidade e também a aventura. Então, entramos em uma relação ou um emprego, mas sofremos porque nos sentimos presos e achamos que estamos deixando de viver grandes aventuras. Isso tem solução?
Não sei se tem solução. A gente vive mesmo eternamente nesse conflito. Agora, como cada um o administra é outra história. Pode-se optar por uma espécie de inércia constante, que será sempre acompanhada da sensação de que você está realmente desperdiçando seu tempo e sua vida, porque toda a aventura está acontecendo lá fora e, a cada instante, você está perdendo os cavalos encilhados que passam e não passarão nunca mais. Viver dessa maneira não é uma das opções. Mas você pode também, em vez disso, permitir se perder.
Permitir se perder no sentido de transformar a vida em uma eterna aventura?
Mas também nesse caso você terá coisas a lamentar. Eu, pessoalmente, fui mais por esse caminho. Mas o preço foi muito alto. Por exemplo, eu não estive presente na morte de nenhum dos meus entes próximos, porque morava em outro país e sempre chegava atrasado, no avião do dia seguinte. Hoje, por sorte, meu filho – que é grande, tem 30 anos – vive perto de mim. Por acaso, ele decidiu vir para o Brasil. Mas não o vi crescer realmente.
Para ser feliz, enfim, o segredo é não buscar a felicidade?
Isso eu acho uma excelente ideia. A felicidade, em si, é realmente uma preocupação desnecessária. Se meu filho dissesse “quero ser feliz”, eu me preocuparia seriamente.
Preferia que dissesse o quê?
Só gostaria que ele me dissesse: “Estou a fim de…” A partir disso, qualquer coisa é válida. O que angustia é ver falta de desejo nas pessoas, em particular nos jovens. Agora, se ele está a fim de algo, mesmo que isso pareça muito distante do campo do possível dentro da vida que leva, eu acho ótimo. Já houve, afinal, crianças gagas que se tornaram grandes oradores – ou rei da Inglaterra, Jorge VI.
Contardo Calligaris: ‘Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante’ | MdeMulher.
Otimismo ou pessimismo?
“O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.”Ariano Suassuna

Com ajuda da literatura, morador de rua de BH vence o crack
Agora poeta, Roberto Nascimento se sustenta com a venda de seus dois livros e já planeja lançar outro
postado em 19/12/2015
“De morador de rua a poeta.” É com essa frase que Roberto Nascimento, um valadarense de 51 anos, resume o enredo da própria vida. O vício em crack o fez perder a família, os amigos de infância, o emprego, a autoestima e o sorriso. A vontade de vencer o vício e o contato diário com a literatura lhe devolveram a alegria. “Fui um sem-teto até fevereiro passado. Agora, ganho a vida negociando meus livros”, conta, orgulhoso, o autor de O poeta ambulante I e O poeta ambulante II – cada um custa R$ 5.
A chamada população em situação de rua cresceu 57% em Belo Horizonte em 10 anos, somando 1.827 homens e mulheres em 2013, ano-base do último censo sobre o assunto. Problemas familiares (52% das respostas) são o principal motivo entre os que levaram essas pessoas a deixarem seus lares. O segundo é a dependência do álcool ou drogas ilícitas (43,9%).
Roberto deixou Governador Valadares, na companhia da mãe e de três irmãos, quando criança. A família morou em bairros da Região Leste de BH, onde o rapaz estudou até a sexta série, se casou e teve três filhos. Já adulto, conheceu o crack. Logo se tornou um dependente químico. E seu casamento, de 20 anos, não resistiu aos problemas causados pela dependência da droga.
“Para bancar o consumo do crack, vendi até os aparelhos de celular dos meus filhos. A esposa me largou. Foi com as crianças – tenho duas meninas e um rapaz – para Salinas (Norte do estado). Já eu fui para a rua”, recorda. A droga também não lhe poupou o emprego de pedreiro. Foram dias e noites difíceis. “Fiquei debaixo de marquise por quase dois anos e meio.
Em 27 de fevereiro de 2013, numa abordagem policial, um sargento me disse que duas ou três pessoas, em cada 100 viciados, conseguem largar o crack. Daí eu pensei: ‘Sou um desses dois ou três’. O policial me levou para o programa SOS Drogas”. Amparado por especialistas, Roberto foi encaminhado ao Centro Mineiro de Toxicomania (CMT). E começou a frequentar a unidade do Bairro Cruzeiro do centro de referência em saúde mental (Cersam), cujo objetivo é ajudar o paciente a reconstruir a vida.
Viagens Foi lá que o valadarense começou a ter contato com a poesia. Das viagens da droga, ele passou a viajar nos textos de Gonçalves Dias (1823-1864) e Castro Alves (1847-1871). “Também nos de Vinícius de Moraes (1913-1980). Estudei apenas até a sexta série, mas sempre gostei muito de ler”, conta o rapaz, que começou a criar e a declamar versos. Os profissionais do Cersam o estimularam a publicar a primeira obra, concluída em 2014. A segunda foi lançada há poucos meses.
Uma das poesias tem a Lagoa da Pampulha, cartão-postal da capital, como pano de fundo. Batizado de O pato rodou, o texto sugere um final infeliz: “Eu fiquei imaginando/ O mistério da natureza/ Aquele pato nadando/ Quanta calma e sutileza/ Me lembrei do jacaré/ Me bateu uma tristeza”. Ele recorreu à fauna para outra poesia: “Tico-tico no fubá/ Sabiá na laranjeira/ Tartaruga tracajá/ Maritaca bagunceira/ A preguiça lá está/ Dormindo a tarde inteira”.
O texto foi batizado de Bichos do Mato, nome que faz Roberto se lembrar da época em que morava na rua: “Certa vez, fiquei 16 dias sem tomar banho. Parecia um bicho. Eu não aguentava o meu próprio cheiro. Usei a mesma cueca. Quando tomei banho, no terminal rodoviário de Belo Horizonte, fiquei assustado com a cor da água”.
Roberto agora trabalha em um novo projeto. Estimulado pela atriz, cantora, contadora de história e professora de literatura Jhê Delacroix, ele planeja publicar uma coletânea de cordel no próximo ano. “Percebi que ele tem tino para o cordel. Os cordelistas estão cada vez mais raros nos grandes centros urbanos”, conta a professora.
Jhê adianta que o trabalho terá como tema a visão de um homem sobre o universo feminino, levando-se em conta os movimentos sociais. “É a visão dele, como homem, sobre o universo feminino, assim como o que as mulheres querem hoje em dia”, reforçou a professora.
Parabéns aos não aprovados – Literatortura
Era janeiro de 2010 e lá estava eu dando um feroz F5 na página do listão de uma Universidade Federal para descobrir que… não tinha passado.
Revirei a lista de aprovação mais vezes do que uma pessoa sã faria. Passei o resto da tarde atualizando a página dos resultados como se, em um passe de mágica, meu nome fosse brotar entre todas aquelas pessoas aprovadas.
No final do dia, abri o Facebook para acompanhar a comemoração dos meus amigos. Comemoração que eu não faria parte. Faixa que eu não teria na frente da minha casa. Tinta que não iam passar no meu rosto. Telefonemas dos parentes que eu não iria receber.
“A prova acontece todo ano”, me disseram. Mas eu continuava sentindo que estava atrasada. Cada foto postada de um trote, cada reclamação sobre a comida do Restaurante Universitário, cada amiga apaixonada por algum veterano me faziam sentir uma lesma. Uma atrasada. Sentia que eu estava em débito com o mundo.
O que ninguém me disse naquela época – e que eu fui aprender ao longo do ano em que não passei – foi que não passar na Federal pode ser uma coisa muito boa.
“Boa? eu aqui vendo até a vó do meu amigo criando Facebook para parabenizar ele!”
Acredite: pode ser uma coisa boa. Ao longo do ano que não passei, do ano que me senti em um limbo, sem me identificar como aluna do colégio ou bixo da Universidade, eu aprendi horrores. Não aprendi apenas geografia e química, mas também a ser tolerante com os meus próprios erros. Além de aprender matemática, aprendi a estabelecer prioridades na minha vida. Aprendi história, mas também aprendi que aquela baladinha de sexta feira iria acontecer todos os anos. Aprendi que sou minha maior concorrente. Aprendi que, independente do sonho dos meus pais, quem iria exercer a profissão escolhida seria eu. Aprendi a organizar meu tempo. Aprendi a dormir direito, a comer direito e, finalmente, aprendi a estudar.
No ano que não passei no vestibular, aprendi tanto sobre ser eu que mudei minha opção de curso.
Em 2011, abri o listão e estava lá. Eu era bixo da tão sonhada Universidade Federal. Agradeço até hoje o ano em que eu não passei.
Presidiário que se formou no cárcere e passou no Enem diz que leitura liberta | Livros só mudam pessoas
Dos cerca de 45 mil internos no estado, só 3.351 estudam
Wilson Aquino, no Jornal O Dia
Rio – Mahatma Gandhi pregava que “a prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão”. A liberdade, para o líder indiano, está na consciência. As centenas de milhares de pessoas encarceradas no sistema penitenciário brasileiro parecem longe de compreender a força deste ensinamento. Apenas cerca de 10% usam seu tempo para ‘escapar’ dos horrores do cárcere através da educação. No Rio, a situação é ainda pior.
Dos cerca de 45 mil internos no estado, só 3.351 estudam. Vinte e dois deles são presos de regime aberto e semi aberto que fazem faculdade. A socióloga Edna Del Pomo de Araújo, professora do Departamento de Sociologia da UFF, destaca na publicação ‘Prisão e Socialização: a penitenciária Lemos Brito’, que “é preciso libertar os indivíduos por meio do trabalho e da educação”. “Os homens que hoje estão presos serão livres amanhã e, caso não tenham cumprido a pena em busca da recuperação, provavelmente voltarão a delinquir”, alerta.
Jefferson Cunha Pereira, 37 anos, que completa oito anos na prisão em abril, decidiu trilhar caminho oposto. “Ler é uma fuga. Quando a gente está lendo, se desliga do ambiente onde está: o cárcere. A mente navega para fora daqui”, afirma Pereira.
Ex-policial militar, ele foi condenado a 20 anos de cadeia por homicídio. Aproveitou o tempo ocioso na cela para estudar, e o resultado foi animador. Foi um dos primeiros classificados do Rio, no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), concorrendo com outros estudantes da rede pública. Ganhou uma vaga para cursar Administração de Empresas na Universidade Federal Fluminense (UFF) e Direito na Faculdade Anhanguera, em Niterói, pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Cabe agora à Vara de Execuções Penais decidir se ele cursará ou não.
O secretário de Administração Penitenciária do Rio (Seap), coronel PM Erir Ribeiro Costa Filho, também concorda que esse é o caminho. “É a parte da ressocialização e de humanização do sistema penitenciário que todos nós temos que buscar para devolver à sociedade um novo cidadão”, acredita.
Adquirir conhecimento e ter a possibilidade de se transformar não é a única vantagem para o preso que estuda. A Lei de Execuções Penais assegura o direito à remição (abatimento da pena) na proporção de um dia a cada 12 horas de frequência escolar. A lição de Gandhi é ainda mais útil quando combinada com a do filósofo Montesquieu: “Liberdade é o direito de fazer tudo aquilo que as leis permitem.” Estudar para reduzir a pena, por exemplo.
O ex-policial militar Jeferson, preso em Bangu, depende de autorização da Vara de Execuções Penais para poder cursar Administração na UFF.

Salas de aula viraram celas
A Lei de Execuções Penais diz que é dever do Estado fornecer ao preso assistência educacional, com o objetivo de prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em sociedade. Pela lei, o Ensino Fundamental é obrigatório nas prisões.
Porém, entre as letras da lei e a realidade brasileira há um profundo abismo. Apenas cerca de 10% dos 607 mil presos estudam. Não é para menos: metade das unidades prisionais do País nem tem sala de aula.
“Um dos eixos da reintegração é a Educação”, reforça a coordenadora-geral de Reintegração Social e Ensino do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), Mara Fregapani Barreto. Mas, o déficit de vagas nos presídios do Brasil é tanto que “teve sala de aula que virou cela, porque tem muita gente presa”, lamenta Mara.
Aprovado no Enem foi condenado pela juíza Patrícia Acioli
Jefferson Cunha Pereira, o preso aprovado no Enem, cumpre pena na Penitenciária Lemos de Brito, de segurança máxima do Complexo de Gericinó. Antes da prisão, era soldado da Polícia Militar, onde ingressou em 2005. Ironicamente, trabalhava no Tribunal de Justiça, à disposição do plantão judiciário.
Ele foi condenado em junho de 2009 por homicídio, cometido em São Gonçalo. Foi sentenciado a 20 anos pela juíza Patrícia Acioli, magistrada assassinada, há cinco anos, por PMs corruptos, em Niterói, quando voltava para casa sem escolta.

Pereira se diz inocente e reclama da sentença. “Não matei. Testemunhas foram coagidas e ameaçadas. Na hora do crime, eu estava em casa com minha companheira, do outro lado da cidade”, garante.
Quando chegou à Lemos de Brito, em 2012, Pereira passou a dedicar-se aos estudos. “Para fugir da ociosidade, adquirir conhecimento e relembrar o que já havia aprendido e esquecido”. Ele cursou o Ensino Médio na Escola Estadual Mário Quintana, que funciona na penitenciária. “Três horas na sala de aula, de segunda a sexta. Depois, voltava para a cela e estudava por conta própria”, conta Pereira, que também tomou gosto pela leitura. “Leio um pouco de tudo, desde livro didático a romances. O ultimo que li foi ‘Os Borgias’, de Mario Puzo ( italiano consagrado por suas obras sobre a máfia)”.
A Educação é o caminho para transformar o detento e o fracassado sistema penal, já que 70% dos presos voltam a cometer novos delitos quando retornam à sociedade livre.
Os livros curam
O número caiu em minha cabeça e quase me machuca: o mundo produz um novo livro —um título novo, milhares de exemplares de um título novo— a cada 15 segundos. São mais de dois milhões de títulos por anos; uma tiragem média de 2.000 exemplares vira 4 bilhões de volumes que inundam o planeta todos os anos, árvores caindo em profusão, uma chuva de livros pior que o pior dos dilúvios, um tsunami de livros. Era, com certeza, mais do que o suficiente para me convencer a não escrever nunca mais —e, entretanto.
Todos caem na armadilha-livro: o livro é uma marca de prestígio. Mesmo sendo tantos, mesmo sendo tão díspares, a categoria livro conserva sua reputação: pensamos livro e pensamos em um objeto respeitável, portador dos saberes que o mundo necessita. As categorias são dissimuladas: pensamos livro e damos a todos o prestígio que alguns poucos merecem. Caímos fácil na tentação de achar que o primeiro Dom Quixote e o último MasterChef têm algo em comum —porque os dois sujam de tinta um bloco de papel unidos pela lombada. E seus fabricantes, não faltavam mais nada, aproveitam a confusão: pedem condições especiais, melhoras impositivas, privilégios que o prestígio do objeto livro supostamente justifica. Reivindicam a importância cultural das elucubrações de Mariló Montero e Paulo Coelho, defendem o peso social do Horticultor Autossuficiente e o Manual Prático para Falar com os Mortos.
Mas existem livros que mudam sua vida. Ou, pelo menos, é isso que dizem os “biblioterapeutas” da School of Life, uma instituição dirigida em Londres pelo filósofo best-seller Alain de Botton. “A vida é muito curta para ler livros ruins”, diz sua apresentação, “o problema é que, com milhares de livros publicados, é difícil saber por onde começar”. Eles querem guiá-lo e, para começar, explicam as vantagens dos livros. Para mim, que nunca soube por que lia ou escrevia, foi uma revelação atrás da outra —ou quase:
—que ler parece uma perda de tempo, mas na realidade é uma economia enorme, porque apresenta conjuntos de fatos e emoções que você levaria anos, séculos para viver;
—que ler é entrar em um simulador de vida que o leva a testar sem perigo todo tipo de situações e decidir o que lhe convém mais;
—que ler produz a magia de mostrar como os demais veem as coisas e então mostra as consequências de suas ações e isso o faz, dizem, ser uma pessoa melhor;
—que ler o faz sentir menos sozinho porque mostra que outros pensaram as coisas estranhas que você pensa, que souberam colocar em palavras que lhe descrevem ainda melhor do que você mesmo poderia;
—que ler o prepara para isso que a crueldade do mundo moderno chama “fracassar”, mostrando a falsidade, a banalidade disso que o mundo chama “sucesso”.
Para isso, dizem, não podemos tratar a leitura como um entretenimento, um passatempo de férias, mas como um instrumento para viver e morrer com mais sentido e sabedoria. Ou seja: uma terapia. A biblioterapia, sua criação, consiste em conversar com o “paciente”, escutar seus problemas, seus gostos, suas experiências de leitura e recomendar-lhe três ou quatro livros que podem ajudá-lo melhor. Cada consulta não custa mais do que 110 euros (383 reais) —uns cinco ou seis livros. Mas ainda não existem estudos sobre sua eficácia; por enquanto sabemos que a biblioterapia já chegou à França —e ameaça cruzar os Pirineus.

Umberto Eco e o manual do mau jornalismo — CartaCapital
Por Kelly Velazquez
O famoso escritor e ensaísta italiano Umberto Eco apresentou nesta semana na Itália seu novo romance, Número zero, uma espécie de manual do mau jornalismo ambientado na redação de um jornal imaginário.
O novo livro do influente intelectual italiano, autor do famoso romance O nome da rosa e de importantes tratados de semiótica, é uma história de ficção ambientada em 1992, um ano particular para a Itália contemporânea, marcado pelos escândalos de corrupção e pela investigação “Mani Pulite” (Mãos limpas), que arrasou com boa parte da classe política da época.
O livro se concentra, sobretudo, nos mistérios não resolvidos que sacudiram nestes anos a Itália, entre eles o protagonizado pela loja maçônica Propaganda 2 do temido Licio Gelli, que queria dar um “golpe branco”. “É o primeiro romance de Eco que fala de uma época tão recente”, reconhece Elisabetta Sgarbi, diretora da editora Bompiani.
Eco descreve a redação imaginária de um jornal, criado naquele ano, para desinformar, difamar adversários, chantagear, manipular, elaborar dossiês e documentação secreta. “Para mim é um manual da comunicação de nossos dias”, sustenta Roberto Saviano, renomado jornalista antimáfia da Itália, que vive sob escolta pelas ameaças de morte que recebe das organizações criminosas.
Em uma conversa entre Eco e Saviano, publicada pela revista L’Espresso, o semiólogo afirma que não quis escrever um “tratado de jornalismo”, mas contar uma história sobre os limites da informação, sobre como funciona uma máquina de denegrir, e não tanto sobre o trabalho de informar. “Escolhi o pior caso. Quis dar uma imagem grotesca do mundo, ainda que o mecanismo da máquina para sujar, de lançar insinuações, já fosse usado durante a Inquisição”, comentou Eco.
Saviano, que considera que as redes sociais multiplicaram esta forma de denegrir gerando verdadeiros monstros, acredita que o magnata das comunicações e ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi marcou o início dessa era, entre boatos e informações, vida e vícios tanto privados quanto públicos. “Escolhi 1992 porque considero que este ano marca o momento de um declínio na história da sociedade italiana”, disse Eco em uma entrevista ao Corriere della Sera.
No livro, o semiólogo se diverte citando frases famosas ou lugares comuns do jornalismo, como “no olho do furacão”, “um duro revés” ou “com a água no pescoço”. “Não é necessário estrangular a avó para perder a credibilidade. É suficiente contar que o juiz usa meias na cor laranja. Por que será?”, contou Eco citando um caso verdadeiro durante uma longa entrevista à RAI.
Graças aos delírios de um redator paranoico, Eco conta fatos concretos, mas reconstruídos a partir de teorias bizarras ou que se entrelaçam estranhamente com outras e que terminam por criar uma nova notícia.
É o caso da loja maçônica P2, do suposto assassinato do papa Luciani (João Paulo I), dos cúmplices das brigadas vermelhas que trabalhavam para os serviços secretos, dos tentáculos da CIA, dos atentados e até de um falso cadáver de Benito Mussolini com o qual conseguiram salvá-lo e enviá-lo à Argentina. Todas são histórias que o leitor não conseguirá determinar se são fatos inventados ou a descrição da realidade, segundo o escritor.
Trata-se do sétimo romance de Eco, que publicou, entre outros, O Cemitério de Praga e O Pêndulo de Foucault.
via Umberto Eco e o manual do mau jornalismo — CartaCapital.
