Esta noite ainda não acabou

O espectro da moça esmagada

Não me persegue mais.

Agora é você, meu fantasma,

A me obsedar o sono.

“O Remorso de Orestes” de William Adolphe Bouguereau (1825-1905)

 

 

 

É o resquício da ira,

São as Fúrias a corroer meu crânio.

Das paixões todas

Essa é a mais voraz.

Seu fogo custa a se esgotar.

Mas como entender

que em um mesmo peito

possa se abrigar

Esse rancor e um amor verdadeiro?

24-10-2012

Mais uma vez é noite!

Penso novamente naquela noite

da qual nunca mais acordarei

Cada vez mais sinto que não sou eu que escrevo.

A poesia se escreve por si e vira um poema.

Se forma em algum lugar dentro de mim.

Esse lugar, a que eu não tenho acesso,

de dentro, transborda e invade o mundo e me domina.

Tanto que minto!

Lá fora não é noite ainda

mas no meu mundo o sol já declina.

É Noite novamente

Futurismo, Giacomo Balla, Poste e Iluminação, 1909

Na mesma janela,

Agora à luz da lua embaçada,

Ouço os mesmos seres noturnos,

Meus companheiros.

A memória da moça esmagada

Contra o poste aqui enfrente

Vem perturbar minha calma.

As ondas dos gritos aflitos

Ecoam no infinito.

Como se aquele momento

Continuasse existindo.

Disseram-me que o tempo

Não existe para a alma.

Mas, se os tempos são plurais

E se são mesmo um labirinto,

Em algum de seus corredores

Ela realmente passeia pela estrada,

Nesta e noutras noites banais.

Por isso ainda agora eu a sinto?

É noite

De longe vem o som

Das pequenas criaturas

da noite, meus irmãos.

Aos ouvidos chega com muito esforço

O canto sombrio de um pássaro

Que sai de seu repouso.

Solitários um sapo e um grilo conversam,

enquanto dormem seus iguais.

Luzes ao longe parecem piscar,

Mas é só o vento

que balança as árvores

que ora escondem

ora revelam o brilho

de pirilampos urbanos.

Esta noite tão agradável

Evoca outra noite

Mais duradoura!

Como o silêncio e a calma

que antecipam a tempestade.

O mar recua tanto,

que o seu solo se vê

antes de uma onda gigante.

Por um instante,

O silêncio total do quebrar

na areia da praia.

E depois o engolfar de todo o mundo…

Agora também o calar de todas

as vozes longínquas noturnas

Congela o coração,

Porque ele parece

Entender que esse

É o seu destino.

Antes até de seu dono

Ter tempo para pensar

e de fazer uma prece

Por seu estacar repentino.