Cantiga sua partindo-se, Cancioneiro Geral

Joam Roiz de Castel-Branco

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
      
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes,
tão fora d’ esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Cantiga de amigo

Arte e amanhã
Sem querer, o nosso abrigo
Transformou-se em artimanha
Para eu estar contigo
Ou você estar comigo,
Ainda outro amanhã.

Sem querer, estas palavras
Se combinam. Tanto faz
qual verdade lhe apraz
Definir tudo é maçante.

Só amigos sabem ouvir e aplicar a própria vida

Sem querer, meu amigo
Deixo que pense

Deixo que fale
Deixo que sinta

que você é o mais forte

e, por mim, carregue minha bagagem

Sem querer, o tempo todo,
Nem podia imaginar:
Que seu anseio era antigo,
Meu eterno e bom amigo!

Maria, Marias

Paisagem Imaginante. Pintura feita em 1941 por Guignard, é uma das emblemáticas composições do artista em que nuvens se fundem a montanhas e igrejas, numa versão de ‘mundo flutuante’ em que estabelece um diálogo artístico com o Oriente

Maria, Maria sem dons nem magias

Só uma pobre qualquer

Que carece de alegrias,

Mas hoje vou cantá-la

nos meus versos mais pobres ainda

Para fazer-lhe jus, esse poema

Não destoa a forma do seu tema.

Maria, Marias, quantas poesias

Já escreveram em tua homenagem?

Incontáveis, eu já sabia!

Mas essa Maria não é aquela

A quem todos dizem amém.

É uma que conheci em uma

Longínqua paisagem.

Onde as Marias e as poesias

Nascem, vivem, morrem

Sem que o restante do mundo

Se dê conta de que na terra

Elas estiveram de passagem.

“Paisagem imaginante” de Alberto da Veiga Guignard

O operário que sonhava em ser poeta – parte I – In memoriam de Manir de Godoy

 

VIOLINISTA AZUL, de Marc Chagall

Era uma vez um menino meio nômade,

Que vivia entre o interior e a cidade grande.

O pai morrera de gangrena.

A mãe costureira sustentava com esforço seis filhos: Eupídio, Cássio, Dirce, Tó, Manir e Iracema.

Vendedor de doces no cinema, engraxate,

Chegou a operário de fábrica de chocolate.

Nada fantástica era a vida desse guri,

Que vivia em um cortiço no Pari.

Mas tudo mudou no dia em que encontrou

As letrinhas de metal jogadas na calçada,

Que formaram o primeiro poema do menino sentado no meio fio.

As letrinhas graciosas eram seu único brinquedo nas horas vagas.

Um dia, o dono das letras o viu

E chamou para trabalhar.

Ali, sua formação interrompida continuaria.

O menino-operário da tipografia,

Montava admirado textos de poetas, de romancistas e de aspirantes a artistas;

Panfletos dos primeiros socialistas.

Aprendia tudo de todos que viviam a sua volta.

Com muito esforço, lia de Lobato e Verne ao Príncipe Valente e Flash Gordon,

Assim foi se alfabetizando.

 

No cortiço, sua mãe temerária

Não levava desaforo pra casa!

Com ela aprendeu a ser valente.

 

Engajado na causa operária,

Começou a ler obras mais sisudas

Do que as que lera numa escola em Bragança Paulista.

Era taxado de comunista!

Admirava o “cavaleiro da esperança”…

Por isso, aos 16, fugiu de casa e fundou o PC em São João da Boa Vista.

Lá, via filmes do Mazzaropi,

Dormia em carros alheios,

Tocava violino na praça…

 

Thaís de Godoy, 12-04-2012.

Duelo dos Deuses

Eros fere até as Erínias!

Atena merece ser mais amada que Afrodite!

contudo regras para o querer, não há quem dite!

Nem todo o ciúme de Juno bastou para conter, de Zeus, o anseio.

Nem a forja, o fogo e o ferro de Hefesto

Bastaram para frear Afrodite,

Porque o martelo do marido fez a flecha que feriu a deusa,

Vítima do próprio amor!

Há um único preceito: é que o Amor não pode o amor recusar.

Assim, puderam os deuses todos a perdoar.

Como reles mortais, a viver na dor, pretendem privar-se

de um pouco desse clamor?

12-11-2012 

Sonâmbulos

 

 

 

 

 

 

 

Você não sente

Que o que arranha

A lousa fria e dela arranca faísca

Não é nenhuma artimanha?

 

Você não sente

Que à noite sonâmbulos executam

Uma peregrinação errante?

Que na ausência da mente,

Só seus corpos exatos acertam

o caminho que aspiram, enfim?

 

Você não pressente

Que numa noite qualquer,

Esquecida do mundo e de mim

Por esse mesmo caminho

serei friamente conduzida,

Até chegar a um país

Que me aliene mais ainda,

Já que lá esta ossada não mente?

Vladimir Nabokov e Lolita

Vladimir Nabokov e Lolita: “Em português, na tradução de Jorio Dauster (Companhia das Letras e depois Folha de São Paulo), está: “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo.Li.Ta.””  trecho do texto de Paula Fernandes
.

Janelas

Todas as janelas

Limitam nosso olhar

Não importa de que ângulo

Miremos apenas parcelas

Do mundo elas

Podem captar.

Mesmo assim,

não desistimos do intento

de eternizar cada momento,

Seja na moldura de meus versos,

Seja na de sua grande angular.

06-11-2012

Fábula

 

 

 

 

 

As sobras, que o fazendeiro

Atirava à vara esfomeada,

Eram tão comedidas,

Que um dia os leitõezinhos fugiram.

Embrenharam-se na mata atrás

Dos aromas de fartas especiarias:

Trufas, cogumelos e ervas finas.

Porém, tudo estava desolado.

Nada restara sobre

a terra devastada.

Só havia o frio

e o uivo carniceiro

de matilhas famintas…

Quando tentaram voltar

ao seu antigo dono,

Já era tarde, viraram

alimento de lobo.

 

17-07-2012

Às avessas

 

 

 

 

 

 

Queria ser como os discípulos de Sócrates

que eram incentivados a nutrir um amor

platônico por seu amado mestre,

para com ele aprender melhor.

Queria ver o que seus olhos viram.

Queria tocar o que suas mãos tocaram.

Queria ouvir as confissões

E as cantigas ciganas

Que seus ouvidos ouviram.

Sentir dentro de mim o que você sentiu.

Ler nas cartas o destino dos homens.

 

Eu te  quero pelos sons,

Pelos sabores,

Pelos odores

Que você já experimentou,

E conheceu plenamente!

O meu querer é intelectual

É bem-querer para conhecer.

Jacareí, 21 de junho de 2012.

 

Augusto dos Anjos

VERSOS ÍNTIMOS

Vês?!  Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo.  Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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A obsessão do sangue

Acordou, vendo sangue… — Horrível! O osso
Frontal em fogo… Ia talvez morrer,
Disse. olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! certamente não podia ser!

Levantou-se. E eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!

No inferno da visão alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu vísceras vermelhas pelo chão …

E amou, com um berro bárbaro de gozo,
o monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhidão!

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Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos …

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!