Bares, cafés e clubes, a partir do século XIX, não eram apenas um ambiente para a happy hour. Eles foram o cenário onde questões políticas, filosóficas, movimentos artísticos revolucionários se espalharam. O propósito deste site é o mesmo: criar um espaço virtual para expressão livre de ideais, reflexões e sentimentos, com espírito crítico em relação a nossa Cultura.
“A poesia pertence a todas as épocas: é a forma natural de expressão dos homens.”
Octavio Paz
Caminhando sob um sol de cozinhar o cérebro entrei no banco. Fui fazer o pagamento de uma conta atrasada. Sair de casa de coturno, calça preta e camisa manga comprida preta, nesse calor, é pedir para passar mal. Dentro do banco, eu todo suado, suor brotando por todos os poros da cabeça, escorregando na testa, nos braços e a sensação nada agradável de estar derretendo, a camisa grudada nas costas. Peguei uma ficha e fui sentar no banco a espera de atendimento. Longe, vi um estudante de filosofia com quem pensei poder passar, pelo menos ali dentro, alguns minutos tendo uma boa conversa. E tive. Ele me falou sobre o livro que estava lendo. Um conjunto de ensaios sobre filosofia do séc. XVIII, filosofia ilustrada, como se diz, filosofia burguesa – pequeno racionalismo, ainda assim, coisa de gigantes. Continuamos conversando e então ele me disse que aqueles eram um conjunto de ensaios, modelo de escrita excepcional, com os quais os professores gostariam que nos defrontássemos para, via imitação de imitação, tentar fazer algo igual ou que atingisse o mesmo teor filosófico, a mesma agudeza de espírito com o mesmo poder de análise, o que por falta de genialidade, porque não me julgo um gênio, e escrever como ele, só depois que eu vir a este mundo 3 vezes e tiver a certeza de que já possuo acumulada a cultura de todos os séculos. Uma pequena confusão de uma senhora bem-vestida, loira, cheia de bijuterias douradas e uma bolsa de couro preta brilhante, parecia uma dessas burguesas sinistras querendo atendimento imediato, se instala na nossa frente como se ela fosse mais importante que nós e todo mundo. Mas não demos muita atenção para isso. Retomamos a conversa após o bate-boca acalmar. Falamos sobre os protestos do dia da independência do Brasil, 7 de setembro, os presos políticos que se encontram atrás das grades até hoje. Falamos sobre o espetáculo que foi imaginar uma filósofa dar uma oficina em uma academia militar e sentar a lenha nos anarquistas. Eu olhava no painel e os números mudando: 73, 74, 75, 76, 77,…, meu número era 84. No caixa uma pessoa passava de 5 a 15 minutos, isso nos dava o ensejo para continuar esse diálogo que de tão prazeroso parecia não ter fim. Mudamos de assunto. Começamos a conversar sobre poesia. Sobre os saraus que ocorrem na cidade. Eu disse que conhecia, mas que não frequentava sarau na cidade, por saber que ali tem de tudo, menos poetas e poesia. E então o meu amigo filósofo ficou assim meio estarrecido com minha crítica. Perguntei se conhecia os livros de poesia do velho filósofo que ele tinha nas mãos (A LETRA DESCALÇA e O VÔO CIRCUNFLEXO – POEMAS). Ele disse que não. Eu disse a ele que quando R. R. T. F. tinha dezoito anos de idade escreveu 2 livros de poesia, mas poesia mesmo, a começar pelo uso rigoroso da linguagem o que esqueceu logo que começou a se aventurar na reflexão séria da filosofia. E disse que quando Sérgio Vaz estiver com 98 anos de idade, terá a maturidade que Rubens Rodrigues Torres Filho tinha aos 18. E disse isso porque tenho consciência de que em se tratando de literatura, não valem boas intenções. Minha vez na fila chegou. Fui pagar a conta. Me despedi do amigo com um aceno e me dirigi para fora dali. Árvores, calçadas, ponto de ônibus, cigarro aceso na boca e livros na mão: ar livre…
Este texto, além de engraçado e criativo, pode ser usado em sala de aula como exemplo de hipotextualidade: o pastiche do estilo de cada autor demonstra uma das infinitas formas de transcendência textual…
POR QUE O SAPO NÃO LAVA O PÉ?
Explicações de vários estudiosos…
Olavo de Carvalho: O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Ele mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa o sistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é que infesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexa conspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanos da educação e da higiene!
Karl Marx: A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio, encontra-se profundamente alterada no panorama capitalista. O sapo, obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva alienada o tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria domina os campos, e o sapo não tem acesso à própria lagoa, que em tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.
Friedrich Engels: isso mesmo.
Michael Foucault: Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o sapo lavar o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em relação à higiene do pé – bem como de outras áreas do corpo. Somente com a preocupação burguesa em relação às disciplinas –domesticação do corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria possível – é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto, temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade disciplinar.
Max Weber: A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o sapo não lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o sapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente coerente com seu sistema valorativo – a vida na lagoa.
Friedrich Nietzsche: Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela dissimulação – herança de povos mediterrâneos,certamente – uma incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu instinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida pelo europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a mais nítida –e difícil – fronteira entre o Sapo e aquele que está por vir, o Além-do-Sapo: a lavagem do pé.
John Locke: Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o sapo não quer lavar o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé. E ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo, o sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta reconhecida injustiça e opressão.
English: Immanuel Kant Deutsch: Immanuel Kant (Photo credit: Wikipedia)
Immanuel Kant: O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada faz além de agir segundo sua lei moral universal apriorística, que prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa querer que se torne uma ação universal.
Nota de Freud: Kant jamais lavou seus pés.
Sigmund Freud: Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber alguns dos traços desse problema. De fato, em meus numerosos estudos posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição. A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte de todo conteúdo moral do girino.
Carl Jung: O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o sapo não lava o pé.
Soren Kierkegaard: O sapo lavando o pé ou não, o que importa é a existência. George Hegel: podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética. Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da ignorância absoluta do sapo – em relação à higiene – para uma preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas, cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim da História e o ápice do progresso.
Auguste Comte: O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universais e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento verdadeiro a respeito.
Much of Arthur Schopenhauer’s writing is focused on the notion of will and its relation to freedom. (Photo credit: Wikipedia)
Arthur Schopenhauer: O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que
uma representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu princípio de razão, parte componente do principio individuationis, a que a sabedoria vedanta chamou “véu de Maya”. A Vontade, que o velho e grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no futuro: “O mundo como vontade e representação”.
Aristóteles. O [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse, estaria fazendo arte . Como [a arte] é digna somente do homem, é forçoso reconhecer que o sapo lava segundo sua natureza de sapo, passando da potência ao ato. O sapo que não lava o pé é o ser que não consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.
Platão:
Górgias: Por Zeus, Sócrates, os sapos não lavam os seus pés porque não gostam da água!
Sócrates: Pensemos um pouco, ó Górgias. Tu assumiste, quando há pouco dialogava com Filebo, que o sapo é um ser vivo, correto?
Górgias: Sou forçado a admitir que sim.
Sócrates: Pois bem, e se o sapo é um ser vivo, deve forçosamente fazer parte de uma categoria determinada de seres vivos, posto que estes dividem-se em categorias segundo seu modo de vida e sua forma corporal; os cavalos são diferentes das hidras e estas dos falcões, e assim por diante, correto?
Górgias: Sim, tu estás novamente correto.
Sócrates: A característica dos sapos é a de ser habitante da água e da terra, pois é isso que os antigos queriam dizer quando afirmaram que este animal era anfíbio, como, aliás, Homero e Hesíodo já nos atestam. Tu pensas que seria possível um sapo viver somente no deserto, tendo ele necessidade de duas vidas por natureza,ó Górgias?
Górgias: Jamais ouvi qualquer notícia a respeito.
Sócrates: Pois isto se dá porque os sapos vivem nas lagoas, nos lagos e nas poças, vistos que são animais, pertencem e uma categoria, e esta categoria é dada segundo a característica dos sapos serem anfíbios.
Górgias: É verdade.
Sócrates: precisando da lagoa, ó Górgias meu caro, tu achas que seria o sapo insano o suficiente para não gostar de água?
Górgias: não, não, não, mil vezes não, ó Sócrates!
Sócrates: Então somos forçados a concluir que o sapo não lava o pé por outro motivo, que não a repulsa à água
Górgias: de acordo
Diógenes, o Cínico: Dane-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.
Parmênides de Eléia: Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o movimento não existe?
Heráclito de Éfeso: Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanência das coisas.
Epicuro: O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a circunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja da dor.
Estoicos: O sapo deve lavar seu pé de acordo com as estações do ano. No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão, lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.
Descartes: nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento e extensão. O sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar seus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa de corda.
Nicolau Maquiavel: A lavagem do pé deve ser exigida sem rigor excessivo, o que poderia causar ódio ao Príncipe, mas com força tal que traga a este o respeito e o temor dos súditos. Luís da França, ao imperar na Itália, atraído pela ambição dos venezianos, mal agiu ao exigir que os sapos da Lombardia tivessem os pés cortados e os lagos tomados caso não aquiescessem à sua vontade. Como se vê, pagou integralmente o preço de tal crueldade, pois os sapos esquecem mais facilmente um pai assassinado que um pé cortado e uma lagoa confiscada.
Jacques Rousseau: Os sapos nascem livres, mas em toda parte coaxam agrilhoados; são presos, é certo, pela própria ganância dos seus semelhantes, que impedem uns aos outros de lavarem os pés à beira da lagoa. Somente com a alienação de cada qual de seu ramo ou touceira de capim, e mesmo de sua própria pessoa, poder-se-á firmar um contrato justo, no qual a liberdade do estado de natureza é substituída pela liberdade civil.
Max Horkheimer e Theoror Adorno: A cultura popular diferencia-se da cultura de massas, filha bastarda da indústria cultural. Para a primeira, a lavagem do pé é algo ritual e sazonal, inerente ao grupamento societário; para a segunda, a ação impetuosa da razão instrumental, em sua irracionalidade galopante, transforma em mercadoria e modismo a lavagem do pé, exterminando antigas tradições e obrigando os sapos a um procedimento diário de higienização.
Antonio Gramsci: O sapo, e além dele, todos os sapos, só poderão lavar seus pés a partir do momento em que, devido à ação dos intelectuais orgânicos, uma consciência coletiva principiar a se desenvolver gradativamente na classe batráquia. Consciência de sua importância e função social no modo de produção da vida. Com a guerra de posições – representada pela progressiva formação, através do aparato ideológico da sociedade civil, de consensos favoráveis – serão criadas possibilidades para uma nova hegemonia, dessa vez sob a direção das classes anteriormente subordinadas.
Norberto Bobbio: existem três tipos de teoria sobre o sapo não lavar o pé. O primeiro tipo aceita a não-lavagem do pé como natural, nada existindo a reprovar nesse ato. O segundo tipo acredita que ela seja moral ou axiologicamente errada. A terceira espécie limita-se a descrever o fenômeno, procurando uma certa neutralidade.
Liberal de Orkut (esse indivíduo cada vez mais anônimo): o sapo não lava o pé por ser um indivíduo liberto da opressão estatal. Mas qualquer coisa é só arrumar um emprego público e utilizar o lavado do Leviatã!
SOBRE SEU AUTOR:
O autor deste texto é Carlos Frederico Pereira da Silva Gama e foi publicado pela primeira vez no site Usina de Letras.
La vuelta al día en ochenta mundos
Editorial RM – 2010 Rústica – 214 págs. 132 ilustraciones
La solicitud de Arnaldo Orfila a Julio Cortázar de algún texto para publicar en su nueva editorial – Siglo XXI – dio origen a: La vuelta al día en ochenta mundos y Último Round, dos libros que conforman un proyecto compartido con el artista Julio Silva.Julio Cortázar recogió una serie de textos dispersos, algunos ya publicados en revistas difíciles de encontrar o simplemente desaparecidas, tales como: El Corno Emplumado, Eco Contemporáneo, La Revista de la Casa de las Américas,…., y con la ayuda de Julio Silva compuso una especie de collage, suerte de diálogo entre textos e imágenes que conforman dos libros inclasificables y absolutamente imprescindibles en la bibliografía cortazariana y en la literatura latinoamericana del s.XX.La vuelta al día en ochenta mundos se publicó en 1967 y dos años más tarde, en 1969, Último Round. Buena parte de los textos que componen los dos libros, son básicos para comprender la obra de Cortázar, su relación con la música y especialmente con el jazz: Louis enormísimo cronopio, La vuelta al piano de Thelonius Monk, Clifford; con el boxeo: El noble arte, Descripción de un combate; con el humor: De la seriedad en los velorios, Las buenas inversiones, Patio de tarde; con la literatura: Del cuento breve y sus alrededores; con la política: Acerca de la situación del intelectual latinoamericano; con sus –y nuestros- cronopios: Viaje al un país de cronopios; y con el conjunto de su obra: Casilla del camaleón.El diseño de los libros realizado por Julio Silva, convierte los textos en collages y la lectura en uno de los juegos que tanto gustaban a Cortázar.
La vuelta al día en ochenta mundos se asemeja a un viejo almanaque con dibujos procedentes de libros antiguos y fotografías entrelazadas con los textos.
Último Round tiene un formato único, con dos pisos que permiten al lector jugar con los textos y las imágenes de forma múltiple.
Los dos libros sorprenden por su modernidad y por encima de todo están rodeados por la mezcla de humor, libertad y rigor que marca el conjunto de la obra de Julio Cortázar.Las ediciones originales de La vuelta al día en ochenta mundosy Último Round con el diseño de Julio Silva, actualmente son inhallables y son joya preciada de bibliófilos y coleccionistas de libros. Después de más de treinta años sin reimprimirse, RM pone a disposición de los lectores La vuelta al día en ochenta mundos y Último Round en el formato original concebido por Julio Cortázar y Julio Silva.Otras ediciones:
México, Siglo XXI Editores, 1967. Ensayo, poesía y cuentos.
Madrid, Siglo XXI Editores, 1970 (edición de bolsillo, 2 volúmenes).
Madrid, Debate, 1991.Traducciones:
Inglés: Around the day in eighty worlds. Traducción de Thomas Christensen, 1986. San Francisco, North Point Press.
Polaco: W osiemdziesiat swiatow dokola dnia. Traducción de Zofia Chadzynska, 1976. Varsovia, Czyltenik.
Holandés: Reis om de dag in tachtig werelden. Traducción de Barber van de Pol. Ámsterdam, Meulenhoff.
Alemán: Reise um den Tag in 80 Welten. Traducción de Rudolf Wittkopf, 1980. Franfurt, Suhrkamp.
Francés: Le tour du jour en quatre-vingts mondes. Traducción de Laure Guille-Bataillon, 1980. París, Gallimard.
Cento e trinta e um anos após sua morte, o escritor russo Fiódor Dostoiévski, um dos maiores nomes da história da literatura mundial, foi processado por incitar o desrespeito a um tribunal. As informações são de reportagem da agência de notícias estatal russa Ria Novasti publicada na quinta-feira (1º).
O processo começou após um morador da longínqua região de Kamchatka, no nordeste da Rússia, usar a palavra “idiota” para se referir a um oponente durante um julgamento, em 2011.
Processado criminalmente por desrespeito ao tribunal, o homem alegou em sua defesa que a “perniciosa influência” da leitura de “O Idiota”, uma das obras-primas de Dostoiévski, publicada em 1869, o havia levado a ofender o adversário, e que o escritor deveria ser investigado por incitá-lo a desrespeitar o tribunal.
Após nove meses de supostas investigações sobre a alegação do homem, o processo foi finalmente arquivado no início deste ano pelo fato de o escritor estar morto desde 1881.
Autoridades judiciais russas são obrigadas a processar todos os requerimentos feitos ao Judiciário, independentemente de parecerem absurdos, segundo uma porta-voz.
O crime de desrespeito a tribunal prevê pena de até seis meses de detenção ou multa de 200 mil rublos (cerca de R$ 14 mil) na Rússia.
Inocentado neste processo, Dostoiévski passou grande parte da vida tendo problemas com a Justiça. Em 1849, o escritor foi condenado à morte junto com outras 19 pessoas por distribuir panfletos contra o governo, mas a sentença foi cancelada na última hora.
Caso tivesse morrido na ocasião, ele não teria escrito seus principais romances, como “Crime e Castigo”, “Irmãos Karamazov” e o livro que teria incitado o desrespeito a tribunal praticado pelo morador de Kamchatka.
Há quem já aposte que nem dessa vez ele vai aparecer em público, para manter a mística da reclusão que vem sendo cultivada há mais de meio século. O mais misterioso dos escritores brasileiros, Dalton Trevisan, de 86 anos, foi anunciado hoje, em Lisboa, como vencedor da maior honraria da língua portuguesa, o Prêmio Camões. O júri, formado por dois nomes do Brasil, dois de Portugal e dois africanos (de Moçambique e de Angola), foi unânime na escolha para esta 24ª edição do prêmio.
Contrariando aquele aforismo atribuído a Nelson Rodrigues, a qualidade da literatura de Dalton Trevisan há um bom tempo tornou-se unanimidade. Um dos jurados brasileiros, o escritor Silviano Santiago destacou na justificativa para o Prêmio Camões que a obra de Trevisan apresenta “uma contribuição extraordinária para a arte do conto, em particular para o enriquecimento de uma tradição que vem de Machado de Assis, no Brasil, de Edgar Allan Poe, nos EUA, e de Borges, na Argentina”.
Nascido em Curitiba, em 14 de junho de 1925, Dalton Trevisan estreou na carreira literária aos 20 anos, com “Sonata ao Luar” (1945), coletânea de contos ousada e de qualidade incomum atestada há décadas pelos críticos mais exigentes. O recluso e misterioso Trevisan também é o que se pode chamar de prolífico: publicou mais de 40 livros, a grande maioria de contos, e continua em plena atividade. Seu último livro de inéditos saiu em 2011, com o título “O Anão e a Ninfeta”.
Além de conquistar a distinção máxima do Prêmio Camões, Dalton Trevisan é daqueles escritores que colecionam premiações importantes, entre elas prêmios Jabuti (com “Novelas nada Exemplares”, de 1959, “Cemitério de Elefantes”, de 1964, e “Desgracida”, de 2010), o Prêmio Ministério da Cultura de 1996, pelo conjunto da obra, e o 1° Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, em 2003, com o livro “Pico na Veia”. As premiações, contrariando uma prática cada vez mais comum, não provêm de lobby nem de estratégias massivas de marketing. Muito pelo contrário: trata-se de um escritor avesso a entrevistas e a qualquer forma de autopromoção.
A mística da reclusão é o que tem prevalecido. Tanto que, no comunicado oficial do Prêmio Camões, enviado hoje à imprensa, a organização divulgou que não havia conseguido contato com Dalton Trevisan nem para avisá-lo da homenagem e dos 100 mil euros (cerca de R$ 268 mil) a que ele tem direito pela distinção. Não é uma novidade, já que o escritor tem por regra nunca comparecer às cerimônias: para receber os prêmios, sempre enviou representantes.
Quando Ismália enlouqueceu
Pôs-se na torre a sonhar
Viu uma lua no céu
Viu outra lua no mar
No sonho em que se perdeu
Banhou-se toda em luar
Queria subir ao céu
Queria descer ao mar
E num desvario seu
Na torre pôs-se a cantar
Estava perto do céu
Estava longe do mar
E como um anjo pendeu
As asas para voar
Queria a lua do céu
Queria a lua do mar
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par
Sua alma subiu ao
Seu corpo desceu ao mar.
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
INTIMATE VERSES
translated by Nelson Ascher
No one attended, as you ‘ve seen, your last
Chimera’s awe-inspiring funeral.
Ingratitude — that panther — has been all
Your company, but it has been steadfast!
Get used to mud: soon it will hold you fast!
Man living among wild beasts on this foul
And sordid earth cannot resist the call
To turn himself as well into a beast.
Here, take a match. Now light your cigarette!
A kiss is but the eve of being spat,
A stroking hand, my friend, may stone you too.
If your great wound still saddens anyone,
Cast at that vile hand stroking you a stone,
Spit straight into the mouth that kisses you!
quem contra tua beleza faria desafio ou mais uma criatura seria vaidosa
de ser um diamante inquebrável
um som de mar ao cair da tarde?
quem contra teu silêncio agrediria
uma só asa de vento que se escreva
ou uma inflexão de gesto incalculada
quem contra mim e tua figura se oporia?
quem além da tua alma debelada
seria tão contra ti como um punhal
que em qualquer regaço inofensivo
em teu lasso desespero é cruel espada?
quem, porém, a ti seria tão cegamente
heroi que lhe sussurrasse ítacas enfim
e os ciclopes do teu caminho detivesse
com o próprio corpo? quem além de mim?