Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Há dois mil anos te mandei meu grito

Sírios de Alepo se despedem da vida pelas redes sociais: população é dizimada pelo governo***. Esse horripilante adeus me fez lembrar do terrível apelo de Castro Alves a Deus para interceder contra os horrores da escravidão no poema Vozes d’África.

*** Mais recentemente obtive a informação de que esses vídeos são falsos, são propagandas de agentes americanos inconformados com a vitória das forças do governo que livrou Alepo de grupos de mercenários financiados pela Arábia Saudita, pelos EUA, e de grupos terroristas como Alcaida. Alguns analistas argumentam que o verdadeiro e legítimo levante de rebeldes contra a ditadura foi “sequestrado” por terroristas e mercenários estrangeiros que aterrorizaram parte população que apoiava Assad e  persegue grupos minoritários de outras religiões como os cristãos.  As evidências dessa propaganda são os seguintes fatos:

-Alepo não tem nem luz nem água nem pode obviamente ter Internet de banda larga, portanto os vídeos não foram gravados e enviados de lá como afirmam as pessoas que os divulgaram.

-Um dos supostos moradores de Alepo fala, sem nenhum sotaque árabe, o inglês americano.

– O mais revoltante é constatar que esses grupos, sejam eles quem forem, destroem Alepo há anos sem que a Comunidade Internacional se importe com isso, mas bastou o governo retomar a cidade para libertá-la,  uma onda dessas falsas notícias passou a nos bombardear pelas redes sociais.Isso não justifica também a imensa violência do regime de Assad. Não importa se quem ataca a Síria são rebeldes,  mercenários, terroristas, nada justifica atacar hospitais ou a rede de abastecimento de água, crimes gravíssimos em qualquer guerra ou revolução. Não podemos nos esquecer de que os americanos apoiam esses monstros.(ATUALIZADO EM 31-12-2016)

Alerta para falsas notícias:

http://www.dn.pt/mundo/interior/adeussirios-publicam-mensagens-de-despedida-nasredes-sociais-5550570.html

Vozes d’África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

Qual Prometeu tu me amarraste um dia

Do deserto na rubra penedia

– Infinito: galé! …

Por abutre – me deste o sol candente,

E a terra de Suez – foi a corrente

Que me ligaste ao pé…

O cavalo estafado do Beduíno

Sob a vergasta tomba ressupino

E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,

Quando o chicote do simoun dardeja

O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas…

Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas

Dos haréns do Sultão.

Ou no dorso dos brancos elefantes

Embala-se coberta de brilhantes

Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia…

Ganges amoroso beija a praia

Coberta de corais …

A brisa de Misora o céu inflama;

E ela dorme nos templos do Deus Brama,

– Pagodes colossais…

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! …

A mulher deslumbrante e caprichosa,

Rainha e cortesã.

Artista – corta o mármor de Carrara;

Poetisa – tange os hinos de Ferrara,

No glorioso afã! …

Sempre a láurea lhe cabe no litígio…

Ora uma c’roa, ora o barrete frígio

Enflora-lhe a cerviz.

Universo após ela – doudo amante

Segue cativo o passo delirante

Da grande meretriz.

Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada

Em meio das areias esgarrada,

Perdida marcho em vão!

Se choro… bebe o pranto a areia ardente;

talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!

Não descubras no chão…

E nem tenho uma sombra de floresta…

Para cobrir-me nem um templo resta

No solo abrasador…

Quando subo às Pirâmides do Egito

Embalde aos quatro céus chorando grito:

“Abriga-me, Senhor!…”

Como o profeta em cinza a fronte envolve,

Velo a cabeça no areal que volve

O siroco feroz…

Quando eu passo no Saara amortalhada…

Ai! dizem: “Lá vai África embuçada

No seu branco albornoz. . . ”

Nem vêem que o deserto é meu sudário,

Que o silêncio campeia solitário

Por sobre o peito meu.

Lá no solo onde o cardo apenas medra

Boceja a Esfinge colossal de pedra

Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas

As cegonhas espiam debruçadas

O horizonte sem fim …

Onde branqueia a caravana errante,

E o camelo monótono, arquejante

Que desce de Efraim

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!

É, pois, teu peito eterno, inexaurível

De vingança e rancor?…

E que é que fiz, Senhor? que torvo crime

Eu cometi jamais que assim me oprime

Teu gládio vingador?!

Foi depois do dilúvio… um viadante,

Negro, sombrio, pálido, arquejante,

Descia do Arará…

E eu disse ao peregrino fulminado:

“Cão! … serás meu esposo bem-amado…

– Serei tua Eloá. . . ”

Desde este dia o vento da desgraça

Por meus cabelos ululando passa

O anátema cruel.

As tribos erram do areal nas vagas,

E o Nômada faminto corta as plagas

No rápido corcel.

Vi a ciência desertar do Egito…

Vi meu povo seguir – Judeu maldito –

Trilho de perdição.

Depois vi minha prole desgraçada

Pelas garras d’Europa – arrebatada –

Amestrado falcão! …

Cristo! embalde morreste sobre um monte

Teu sangue não lavou de minha fronte

A mancha original.

Ainda hoje são, por fado adverso,

Meus filhos – alimária do universo,

Eu – pasto universal…

Hoje em meu sangue a América se nutre

Condor que transformara-se em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais… irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Perdão p’ra os crimes meus!

Há dois mil anos eu soluço um grito…

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

~ por Thaís de Godoy em 14 dez 2016.

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