“Nossa identidade reside entre os sim e o não que somos capazes de dar”
Categoria: Literatura
E…
lê, e escreve e relê e reescreve, e come, e fuma, e toma café, e recomeça o trabalho, e recava buracos no cranio, e cavouca aqui, alí, e anda, e pensa, e vai olhar na janela, enquanto há janelas, e imagina, e volta para o texto, e recomeça tudo de novo, e novas páginas escritas, e possui talento para a coisa, e abre caminhos, e pensa na árvore que não plantou, e no livro que não escreveu, e folheia Lautrèamont, e liga o som, e dança, e se olha no espelho, e abre a geladeira, e esquece que falta comprar bebidas e cigarros, e sai, e entra no supermercado, e compra as bebidas mais fortes, e olha as moças na rua, e pega o bonde andando, e se deixa maravilhar com as coisas simples da vida, e sorri, e dá apertos de mão quando encontra camaradas, e conversa sobre assuntos de extrema importância relativa aos descaminhos da humanidade, e convence um amigo da validade do suicídio, e distorce o que foi torcido, e rivaliza contra javalis que entram na sala, e questiona as provas da validade da existência das formigas que carregam nas costas migalhas do pão de Deus, e arruma motivos para se livrar dos ventos das paixões da vida, e luta com as sombras das vagas que nos assaltam e assombram, e assiste filmes expressionistas do início do séc. XX na quinta feira a noite, e discute a possibilidade de um mundo impossível, e tira do escuro o que está oculto, e sepulta os mortos, e procura nexos e novas pastas de músicas no computador, e ouve músicas, e se alheia do mundo, e nota que as máquinas fazem ruídos estranhos quando masturbadas, e espera o telefone tocar, e deixa a semana passar como um bonde em alta velocidade, e recebe convites que ignora, e retorna a si, e se fecha no quarto escuro, e mexe em papéis antigos, e redescobre um álbum de fotografias repleto de significados extra-sensoriais, e deixa por um momento a tristeza ir embora, e abre a porta pra tristeza voltar, e continua firme nos propósitos insólitos, e desanima, e pensa no curso sombrio das coisas, e queima igrejas, e releva o que fácil vem e o que fácil vai, e puxa fios invisíveis de pensamento de dentro do nada, e vem tudo de uma vez o tédio a angústia e o nada, e diz sim quando é para dizer não, e diz não quando é para dizer sim, e saúda o sol, a lua, as estrelas, a chuva, os relâmpagos, os ventos, e gosta de ver o fogo queimar, o amarelo embaixo e azul dançando em cima, e divaga na solidão o acerbo e o mavioso, e percebe a expansão do amor sobre o egoísmo, e deixa de lado o despotismo, e anarquiza, e pratica pequenos delitos, e esquizo, e fode, e sem desespero espera a hora sagrada do gozo, e ama a moça desiludida, e idealiza um mundo melhor, e protesta, e contesta, e revê conceitos, e se auto-critica, e se recoloca no seu lugar, e escreve cartas de injúrias contra o bem e a favor do caos, e recebe respostas cortadas de santos ignorantes, e volta no tempo, e nega com força toda forma expressiva de autoritarismo, e destrói o fascismo, e cria novas aberturas, novas fendas, novas sendas, novos caminhos para a saída de um modo nocivo de compreender a vida, e percebe que há os clássicos entre Homero e os irmãos Campos, e arrasta o rosto no concreto, e desnormaliza o que as normas atrofiam, e chama qualquer um para duelo ao anoitecer, e desafia a fio de espada qualquer deus do Olimpo, e não gosta, por uma questão de princípios, da banda The Exploited!
A. L.

Samba do Querer.
Eu quero um samba pra desencantar,
essa magia que me faz sentir.
Uma rosa no peito sempre a brotar
como uma rima que toco a escandir.
Eu quero um partido alto para alcançar
o lençol da noite que vai nos cobrir,
e colher estrelas pra te presentear,
prender em pingentes te fazer sorrir.
Eu quero um charme pra poder sambar
e sua sapatilha azul bailando a colorir,
fazendo do chão céu, o pó da terra amar
e fazer dançar o povo desse meu país.
Escritor colombiano percorre o continente em busca de poetas inéditos
Santiago do Chile é a terceira cidade que visita buscando poetas. Depois parte ruma ao Uruguai
Partiu em janeiro deste ano e estima que toda a viagem levará cerca de dois anos. O projeto é chamado “Em busca de Poetas” e consiste em fazer uma turnê pela América Latina em busca de poetas inéditos, com os quais finalmente será publicado um livro.
Texto de Marco Fajardo, trad. livre de Thaís de Godoy Morais
O escritor colombiano Eduardo Bechara está atualmente em Santiago, sua parada número 33 de 141 pontos, em sua viagem que o fará viajar da Patagônia até Caracas, em busca de poetas inéditos para publicação de uma antologia latino-americana.
Em uma tarefa titânica, no caso do Chile, Bechara esteve em cidades como Los Angeles ou Ancud para entrevistar autores locais e conhecer as suas criações. Agora está em Santiago (já se comunicou com José Ángel Cuevas e Antonio Rioseco).
Ele saiu em janeiro deste ano e estima-se que todo o trajeto lhe tomará cerca de dois anos. O projeto “Em busca de poetas” pretende coletar dois mil poemas em um percurso de 26 mil quilômetros. Bechara não procura qualquer poeta, mas aqueles para quem “a poesia é parte integrante de suas vidas”.
O autor, que estudou direito e literatura na Universidade dos Andes, na Colômbia, também tem planos de publicar uma antologia de poetas consagrados e um terceiro livro com suas experiências de viagem (pode ser lido em
http://eduardobecharanavratilova.blogspot.com).
Projeto
O projeto surgiu em 2010, quando Bechara estava em Córdoba, Argentina, visitando outro Eduardo Bechara que surpreendentemente também é escritor e inclusive se parece fisicamente, embora eles não sejam parentes.
“Falávamos do pouco reconhecimento dado aos artistas em geral e aos poetas em particular. Nós tínhamos experimentado na pele a forma que, quando nos assumimos como artistas, como escritores, começaram a nos ver com olhos diferentes, desconfiados, porque, quando uma pessoa assume uma vida diferente, fora do cotidiano, e fora do que a sociedade quer impor, as pessoas, que fazem parte desse sistema começam a olhar de forma depreciativa ou pejorativa. Entre outras coisas porque também não te entendem qual é a sua luta, e te olham como um pobre diabo, porque você não tem os meios, não tem dinheiro, sua vida não está destinada a enriquecer”, explica.
Foi, então, que começamos a fantasiar com a ideia de uma viagem pela América do sul “buscando poetas e dando-lhes o reconhecimento que merecem, dizendo-lhas ‘olhe, o que você faz é importante e aqui estou eu entrevistando e falando com você para que saiba disso’ dando-lhes o crédito que merecem”.
“Os poetas são importantes para mim porque são seres capazes de ver mais além do evidente” acrescenta. “Vão ao centro das coisas e desentranham suas verdades. O fato de que ninguém lhes dê reconhecimento, ou pior, até mesmo, os vejam com maus olhos ao invés de apreciá-los, me faz reivindicá-lo.”
Quixotesco
De volta à Colômbia, Bechara montou um projeto e saiu em busca de financiamento entre empresas que podiam trocar por isenção fiscal. E obteve êxito: uma delas, Pavimentos Colômbia, lhe deu apoio para sua “quixotesca” ideia, da qual podia sair “algo muito bonito”, segundo executivos.
Foi assim que Bechara voou a Buenos Aires. Graças a duas publicações ali já possuía uma rede de amigos do meio literário e através do Facebook pode difundir a ideia do projeto. Uma poetisa local, Viviana Abnur, lhe deu alguns contatos patagônicos e então voou a Ushuaia, no extremo sul da Argentina, para começar seu trabalho.
Os métodos de busca vaiam de uma cidade para outra. “Se conheço os poetas mais representativos do local, deixo que eles me levem aos inéditos. Se não conheço nenhum vou à Casa de Cultura ou às bibliotecas. Ali me ajudam a entrar em contato com eles”, comenta Bechara.
Em geral, tem funcionado da seguinte forma: os poetas mais conhecidos o apresentam a outros inéditos. Foi justamente o contato constante e quase imprescindível com os primeiros o que fez com que Bechara decidisse criar um segundo livro, uma antologia dos consagrados. Isso fez com que se decidisse a estender o projeto que era de seis meses a um ano para pelo menos dois anos.
Bechara cruzou o Chile por Osorno em 10 de julho e, depois de visitar Chiloé, começou a subir até chegar a nossa capital (passou por Puerto Montt, Puerto Varas, Valdivia, Pucón, Villarrica, Temuco, Concepción, Los Ángeles, Chillan, Talca, San Fernando e Santa Cruz). Em Santiago ficará umas três semanas para ver ao menos cem poetas. Logo se dirigirá a Viña del Mar e Valparaíso.
Posteriormente, voltará à Argentina para ir à Mendonza e Buenos Aires e depois a Montevidéu. Seguirá para Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e finalmente a costa venezuelana.
A ideia é que, quando termine a viagem e a compilação do material, um jurado internacional, integrado pelos poetas colombianos Eduardo Escober, Elkin Restrepo e os argentinos Fernando Noi, Santiago e Gaciela Cros, selecione os poemas e que em cada país uma editora independente publique a antologia.
Os poetas chilenos
De que falam os poetas, ao menos os que conheceu até agora?
Um dos principais temas são as circunstâncias da ditadura.No Chile, na poesia a ditadura se assume como um desses terremotos que sacode o território chileno, da mesma forma que a sociedade foi fragmentada” diz. “isso é muito repetido entre diferentes poetas”
Outros temas são “o feminino, o feminista, o gay”, assim como “o mapuche” (Bechara falou com diversos poetas mapuches, como Elicura Chihuailaf, Roxana Miranda, Lionel Lienlaf, Javier Milanca, Cristián Antillanca, e espera encontrar com Jaime Huenún) e o lírico (a volta à infância, a melancolia das perdas como na obra de Jorge Teillier) . Neste último tema se destaca Bernando Gonzalez Koppmann, um poeta de Los Angeles, em Talca.
Para Bechara uma das características da poesia chilena é “que vai direto às feridas, sem palavras suaves. Não utiliza eufemismos, a não ser para chamar as coisas por seu nome. Não lhe interessa usar suavizantes, como ocorre em outros lugares da América Latina. Aqui, quanto mais se põe o dedo na ferida melhor”.

Asas
Pelo meu telhado passou um corvo e a noite
que veria o parto de milhares de celestes brilhantes
Se enublou com suas asas trevosas.

Um dia
Num dia, venci este teu jogo atroz.
Se eu te amei um dia, foi porque, quando falavas com a boca cheia de alegria,
Iluminavas todos os meus dias.
Foi porque, quando me beijavas e falavas de poesia,
Tua boca te afogava em lascívia.
Foi porque atrás de fragilidades vi tua força.
Foi porque de trás da máscara escapou um pouco da tua essência magnífica.
E vi nobreza, e vi falta de malícia, e vi a lua cheia escondida e passei a persegui-la.
Por uma brecha, vi um lago plácido atrás de tanta correria.
Vi teu ser todo completo, pelo vão da cortina deste palco da agonia.
Porque por uma fresta vislumbrei o futuro.
Vislumbrei o Grande Homem que você seria um dia.
Se te amei um dia foi porque você me ofereceu
Matéria bruta para a minha poesia.

“Enquanto a Síria se suicida, Israel e EUA desfrutam do espetáculo”

Do Correio da Cidadania
Soneto VI, in Livro dos Sonetos, vol I.
Estando eu deitado em meu pobre leito
pertubou-me o devaneio, imaginações.
Ordenou-me e eu alto em seu conceito
obedeci às minhas belas obrigações.
Sem saber se pois terei o nome aceito,
no panteão da glória, e louros e brasões,
vejo o amor dos meus e este como efeito
para sublimar-me amorosas ilusões.
Mas ainda espero o bem terreno,
sua face feminina sei que não demora.
A mim, não cabe mais do que sereno,
como um cravo a esperar após a aurora,
encontrar a sua rosa em meio aos fenos,
como o porvir de braços abertos espera o Agora!

Soneto VIII, in Livros dos Sonetos, vol I.
Danilo Borges
Entreguei-me à febre da imaginação,
para não ver morrer meus vivos ideais.
Imaginei na mente e forjei no coração
que felicidade é sonhar e vitória ser capaz.
Lúcidos projetos lancei à luz da minha mente,
para realizar meus sonhos, transpiro até sangue.
Desejo a plenitude do futuro e, no entre-as-gentes,
Minha fé é o horizonte que minh’alma expande.
Minha vida flana como uma asa aberta,
voando longe à procura do cotentamento,
sendo o amor esta lança que meu peito espeta,
levarei ao meu túmulo tão enorme atrevimento.
Gravarei em minha lápide: À Lembrança:
Foi poeta, amou. Morreu do mesmo sentimento.
São Paulo, Consolação, idos de.

Schaudenfrewde
Com uma gilete na jugular,
O encanto acabou.
A euforia acabou.
Acabou-se a alegria.
Acabou-se a folia.
E tudo que poderia e deveria ter sido
_ por força de lei,
por decreto, por magia legítima,
formando uma absoluta rima,
criando simetria no que antes
era uma metade distorcida
_ agora se suicida!
Poesia II
em sonhos, o tempo fica suspenso só para nós
em sonhos, ouço toda tua biografia
cada suspiro de saudade de dor de alegria
ouço o cair de cada gota de pranto ou de suor
cada riso
cada perda que te fez sofrer
todos os momentos dos quais
não fiz parte e dos quais fiz também…
todos esses passos sobre a terra
eu gravaria na pedra muito bem,
para que as espumas do mar selvagem
jamais os apagassem,
(o sentido profundo de cada passo
só seria entendido por nós
numa língua única)
eu os transformaria em poesia
se o tempo para isto não levasse o mesmo tempo de viver,
Poesia I
Até quando tudo será um pedaço de outra coisa? Até quando velaremos fragmentos? Cacos, puzzles inacabados e reticências? Histórias sem meio nem final. Tudo será sempre só o início De algo que poderia ter sido? Uma promessa? Uma esperança? O Nada Ou pior que o nada: Sugestões de coisas diversas do que são na verdade. O improviso de um amador que se esqueceu como é viver Quando sentiu que vivia.
A vida e a Literatura
Pedido de desculpas de uma professora
Em minha experiência, ao ministrar aulas de Literatura, uma questão que costumava surgir entre meus responsáveis alunos, preocupados com o sustento de suas famílias e com a concorrência cada vez maior no mercado de trabalho, era a seguinte:
- Em que a Literatura vai me auxiliar no momento em que eu passar pelo processo seletivo de vagas em uma empresa?
Dependendo do autor que estudávamos naquele momento, minha resposta variava.
Se Realismo, respondia que aqueles autores denunciavam as mazelas da sociedade à fim de que a crítica levasse a uma reflexão e a uma sociedade mais justa. Se Parnasianismo, apenas o deleite, o prazer do jogo com as palavras. E em todos os casos, pessoas mais instruídas, com melhor vocabulário, adquirido através da leitura, têm mais oportunidades; além de suprir as exigências do vestibular e a continuidade dos estudos no nível superior.
A conclusão: ora funcionários mais divertidos, inteligentes, críticos e com nível superior serão melhores e vencerão a concorrência.
Hoje, refletindo melhor, sinto que talvez tenha induzido meus alunos ao erro: surpreendentemente, nem sempre o mais estudado e inteligente consegue as melhores vagas!
Os mais críticos, às vezes, são vistos como chatos e difíceis de manipular, pois não conseguem atender às demandas da sociedade liberal. Muitos colegas entendem que quem tem um vocabulário melhor quer chamar a atenção, fala difícil por insegurança e, como dizem vulgarmente por aí, querem “puxar seus tapetes” dos quais não podem prescindir.
Quem tem melhor vocabulário é interpretado como esquisito e incompreensível, até pelos chefes que se sentem ameaçados pelo suposto brilhantismo de um subalterno o qual não conseguem compreender.
Quanto mais se estuda, mais se aumenta o abismo que separa o indivíduo que obteve milagrosamente uma boa formação, (às vezes por mérito próprio, às vezes graças a escolas de qualidade indiscutível) do que não teve as mesmas oportunidades. Os menos escolarizados se sentem diminuídos, pois não sabem que nem todos os que “falam difícil” querem se exibir, nem todos os que “falam difícil” são arrogantes, nem todos os que “falam difícil” estão minimamente interessados em seus tapetes que já são curtos demais para uma só pessoa.
Só restaram os seguintes argumentos:
O conhecimento da Literatura faz parte do repertório da cultura geral de um indivíduo escolarizado. As Literaturas de língua portuguesa são tema dos vestibulares não apenas pela verificação mecânica de fatos da história da Literatura, mas porque a linguagem literária tem um modo particular de se referir às coisas do mundo.
No vestibular, tenta-se verificar o grau de alfabetização do indivíduo. Qual o nível da capacidade interpretativa do estudante, que deve abranger todos os gêneros textuais da cultura contemporânea, que é cumulativa, e seu sentido conotativo.
Até propagandas, tirinhas humorísticas e ícones da cultura pop fazem referências tão amplas, através da intertextualidade, que seu significado, para ser alcançado minimamente, depende de uma leitura alicerçada no conhecimento não só da Literatura, mas da Arte em geral.
Quem não o possui pode viver sim, pode arranjar bons empregos, mas viverá na superfície do mundo, lerá só sua referencialidade. Será eternamente manipulado pela propaganda dos mais habilidosos no uso da linguagem que a utilizam muitas vezes de má fé, como instrumento de manipulação política.
Hoje tudo é marketing e o jogo das aparências é cada vez mais enganoso e caleidoscópico. Quem não domina a linguagem e seus recursos, inclusive os literários, será um fantoche, um títere que apenas repetirá o que lhe mandarem, copiando e colando maquinalmente o mundo tal como ele é agora, sem nenhuma possibilidade de reflexão e transformação.
O outro argumento é que ler pode ser sim divertido: as descobertas realizadas através da investigação, da pesquisa trazem um prazer inigualável, indispensável a qualquer profissional que queira realizar seu trabalho apaixonadamente.
O caráter lúdico no tratamento da linguagem surge na poesia, por exemplo. O brincar com as palavras, traz para o trabalho interpretativo um prazer desconhecido da maioria das pessoas, tão ciosas em renová-lo constantemente apenas através de seus corpos, mas esquecidas do prazer intelectual que pode nos acompanhar a vida inteira sem se enfraquecer e perder a vitalidade.
As crianças sabem muito bem disso. Os trava-línguas, as parlendas, as cantigas de roda são manifestações da cultura popular das nações que estão morrendo. Brincar é coisa muito séria, ao contrário do que alguns professores pensam, não é perda de tempo. Brincar auxilia as crianças a lidar com a dor do crescimento e, portanto, em sua saúde mental.
Crianças não fazem distinção entre o prazer corporal, o da brincadeira, e até o do estudo: tudo pode ser divertido.
Nossos problemas começam no dia em que alguém nos diz: “isso é o seu dever”; “é sua obrigação”. Uma aluna minha me disse um dia que adorava lavar a louça, pois se imaginava brincando de “fui ao restaurante e não tinha dinheiro para pagar a conta”, mas um dia lhe disseram que aquilo era obrigação das mulheres e todo o prazer desapareceu num passe de mágica.
É obvio que não podemos viver como as crianças, mas encontrar o prazer nos textos passa por recordar como é ser criança, passa pelo prazer da descoberta de uma nova palavra. Lembro-me quando meu irmão descobriu a palavra “óbvio”, ele não cansava de repeti-la, até que se tornou banal para todos lá em casa.
Esse processo, de tornar o novo banal, desgasta as palavras e as transforma em “velhas palavras” que, para alguns, são “as melhores palavras”. São palavras companheiras e velhas amigas.
O novo passa a ser ruim pelo medo que sentimos de nos acharem ignorantes. Maior do que o prazer em já conhecer uma palavra, vaidosamente apresentar seu sentido ao aluno admirado com a sabedoria do mestre, é mostrar ao aluno como é muito mais prazeroso pesquisar e achar uma novidade.
Tudo é leitura, tudo é descoberta e interpretação e em cada uma delas pode se encontrar um deleite particular, mas apenas se o domínio dessa habilidade for satisfatório.
Cito aqui duas frases, uma pop e outra mais erudita das quais gosto muito e que refletem o que penso sobre a Literatura e o “prazer do texto”
“A gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte…”*
e
“Nem só de pão vive o homem…”*
*Não coloco os autores na esperança de levá-los a descobertas!
