o sangue, que jorra das veias de seu povo, é esquecido, é ignorado até quando fingiremos que tudo é normal? até quando viraremos as costas àqueles que sofrem de um grande mal? “assim caminha a humanidade”, uns dizem. outros permanecem calados, enquanto seus filhos se esquivam da morte sem saber se seus passos serão lembrados todos eles serão só números quantificados? alguns ainda virarão dissertação ou teses de doutorado, mas sem nome, sem lar nem água nem chão, todos seus filhos serão prisioneiros em seu próprio torrão? e todos nós sem a vergonha de deixar que isso aconteça a um irmão? 12-07-2012
Autor: Godoy
Sonho de menina
tão pequenina
de menina têm de morrer um dia?
Erijam-se templos em sua homenagem!
Revolução de Jasmim, in memoriam de Mohamed Bouazizi
ثورة الياسمين
A púrpura tirou-lhe o pão e a humilde banca de frutas.
Sem meios para o sustento, Azizi vende dor
“a todos aqueles que sonham com a liberdade”.
Imagens oníricas viraram concreto pelo concreto
Ou virarão algum dia?
Ele imaginou o saldo de seu gesto?
Se soubesse, novamente se imolaria?
Nas Revoluções com nomes de flores o sinistro e o sublime se misturam.
Quão apavorante é a arrastada miséria humana,que um arrepiante gesto
de horror instantâneo aliviaria?
Ascende o novo modo velho de ser e de pensar.
O que se perderá, o que se ganhará?
As belezas naturais e feminis,
encobertas aos filhos mestiços de antigos fenícios,
são visitadas pelos curiosos;
reveladas aos peregrinos pagãos.
A esse lirismo brutal e pronto me debruço,
Esperando, desse jasmineiro, o fruto.
10-09-2012
Vive dentro de mim
Amoras nos muros
A meu primo Marcelo Balberde Boccuzzi
Como é difícil colher amoras!
— É muito perigoso!
Há pontas de cacos
de vidro nos muros
os quais só alguns podem pular.
Só eles podem subir
na árvore e alcançar
seus frutos maduros.
O sangue do crime
nas mãos rubras de amoras!
Ah! Quem dera ser maior e mais forte!
Os galhos do outro lado
do muro cortante alcançar!
Mas, ainda assim, precisaria enfrentar
as aranhas nas folhas escondidas,
os escorpiões, as cobras,
peçonhas esperando
mãozinhas inocentes e limpas.
Quem pode com elas?
Só eles… eles podem!
as mais maduras, pesadas,
dos altos galhos que pendem do lado
de cá da muralha intransponível.
Mas seu gosto amassado, passado
O tempo estragou!
No ladrilho vermelho,
seu sumo jaz esparramado.
As tenras e frescas,
só eles podem comer.
Dia escuro, nuvens cinza-carregadas,
Cascatas de suco rolam as escadas.
_ Com ácido, limpa-se tudo!
Asas, asas, dêem-me asas para alcançá-las.
Ah! quebrar os cacos, derrubar
o muro a machadadas,
e elas, todas aqui, assim!
15 de setembro de 1998
Perdão, padre, porque pequei!
_Perdão, padre, porque pequei!
Tive um sentimento vergonhoso,
não consigo contar.
_O que foi, minha filha?
Deus é misericordioso.
_Tive innnvejjaa.
_O quê? Inveja?
_Sim, inveja.
_De quem?
_Da cantineira de minha escola.
_Mas por quê?
_Porque ela sabe virar
panquecas no ar…
_Só isso?
_Não, também tive inveja
Das moças que dormem…
_Como?
_Sim padre, das moças que dormem.
_Só isso?
_Não, tive também dos pássaros que voam,
Dos peixes que podem ir
a lugares onde não posso estar.
Tenho inveja de tanta coisa…
Das roupas de meu amado,
Do ar que ele respira.
Nem a luz escapa.
E dos mortos todos
que talvez já saibam
de coisas que eu não sei
e talvez estejam reunidos em algum altar
aonde eu não sei quando vou chegar,
Ou talvez já não sintam mais
O mundo todo fora do lugar…
Na Palestina: O velho, a árvore, o ônibus
À Abd Al-Hasib Atta Zaloum Sobre o solo, jaz a carcaça do que um dia havia sido um ônibus. Hoje, tornou-se abrigo do velho sem moradia. As estrelas no céu velam por eles à noite. O frio passa pelas vidraças estilhaçadas, Vem sorrateiro seu rosto açoitar. Sob o sol escaldante, a sombra vem de uma árvore solitária. O ônibus à noite e a árvore de dia São todo o seu reino, como nem o rei da Jordânia tem. Assim que ficou pronta, sua antiga casa foi demolida; sua terra, por colonos, roubada. Converteram seu território em "área de segurança". Segurança pra quem, se o velho agora vive ao relento? Não é o velho, de humanos, rebento? Não necessita de segurança também? É menos humano que as crianças da escola atrás daquela muralha, já que delas só recebe desdém? Como a vida, que poderia ter tido, foi interrompida, Perdeu sua costumeira esperança e neste solo devastado só quer plantar seus olhos cansados Para não verem mais a guerra assolar o seu lar.










