Bares, cafés e clubes, a partir do século XIX, não eram apenas um ambiente para a happy hour. Eles foram o cenário onde questões políticas, filosóficas, movimentos artísticos revolucionários se espalharam. O propósito deste site é o mesmo: criar um espaço virtual para expressão livre de ideais, reflexões e sentimentos, com espírito crítico em relação a nossa Cultura.
Autor: Godoy
Autora d'"O Livro das Mil e uma Noites em Jorge Luis Borges"
Recomendo essa matéria sobre os contos de fadas, em suas versões originais, nas quais se basearam os irmãos Grimm, postada no blog Cultura no Prato. Sugiro também a matéria da Revista Bravo de José Geraldo Couto, Infância Apimentada sobre o livro: Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos, de Jacob e Wilhelm Grimm. Tradução de Christine Röhrig. Ilustrações de J. Borges. Editora Cosac Naify.
Fiquei pasmo e absorto quando soube o verdadeiro desfecho do conto infantil do ‘sapo que vira príncipe’. Onde já se viu tamanha audácia em uma narrativa destinada às crianças, pensei com meus botões. Esses irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), nascidos na Alemanha, bem que tentaram radicalizar, mas tiveram suas histórias amenizadas por outros escritores. Por conta disso, hoje conhecemos Branca de Neve, A Bela Adormecida, João e Maria, Rapunzel em edições ‘light’, que ganharam até animações na Disney.
No entanto, eis que as páginas do recém-lançado Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos, com tradução de Christine Röhrig e introdução do professor de Teoria Literária na Universidade de São Paulo, Marcus Mazzari, chegaram para botar os pingos nos ‘is’. Não, não era como a gente imaginava, a Rapunzel tentou esconder sua gravidez de gêmeos enquanto o tal sapo não foi beijado para…
Quando ela passa: – a veste desgrenhada,
O cabelo revolto em desalinho,
No seu olhar feroz eu adivinho
O mistério da dor que a traz penada.
Moça, tão moça e já desventurada;
Da desdita ferida pelo espinho,
Vai morta em vida assim pelo caminho,
No sudário de mágoa sepultada.
Eu sei a sua história. – Em seu passado
Houve um drama d’amor misterioso
– O segredo d’um peito torturado –
E hoje, para guardar a mágoa oculta,
Canta, soluça – coração saudoso,
Chora, gargalha, a desgraçada estulta.
………………………………………………………………………………………………………..
O morcego
Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
“Vou mandar levantar outra parede…”
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!