Às avessas

 

 

 

 

 

 

Queria ser como os discípulos de Sócrates

que eram incentivados a nutrir um amor

platônico por seu amado mestre,

para com ele aprender melhor.

Queria ver o que seus olhos viram.

Queria tocar o que suas mãos tocaram.

Queria ouvir as confissões

E as cantigas ciganas

Que seus ouvidos ouviram.

Sentir dentro de mim o que você sentiu.

Ler nas cartas o destino dos homens.

 

Eu te  quero pelos sons,

Pelos sabores,

Pelos odores

Que você já experimentou,

E conheceu plenamente!

O meu querer é intelectual

É bem-querer para conhecer.

Jacareí, 21 de junho de 2012.

 

Augusto dos Anjos

VERSOS ÍNTIMOS

Vês?!  Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo.  Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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A obsessão do sangue

Acordou, vendo sangue… — Horrível! O osso
Frontal em fogo… Ia talvez morrer,
Disse. olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! certamente não podia ser!

Levantou-se. E eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!

No inferno da visão alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu vísceras vermelhas pelo chão …

E amou, com um berro bárbaro de gozo,
o monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhidão!

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Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos …

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Lealdade

Hoje, não a alguém

Ou a alguma coisa

Ou a palavra empenhada

Ou a documentos e papéis.

Contratos orais ou escritos.

Não a ideais

Nem aos princípios nem fins,

Só às sensações corporais,

Ao próprio bem-estar,

Ao gozo egoísta.

Um dia, talvez, ao encantamento,

Ao bater do coração.

Privar-se apenas do desamor,

do desafeto, do desumano.

Trair a ambição desmedida,

Trair a frieza e a maldade,

Trair a avareza de amor.

01-11-2012

Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos
Augusto dos Anjos (Photo credit: Wikipedia)

A louca


A Dias Paredes

Quando ela passa: – a veste desgrenhada,
O cabelo revolto em desalinho,
No seu olhar feroz eu adivinho
O mistério da dor que a traz penada.

Moça, tão moça e já desventurada;
Da desdita ferida pelo espinho,
Vai morta em vida assim pelo caminho,
No sudário de mágoa sepultada.

Eu sei a sua história. – Em seu passado
Houve um drama d’amor misterioso
– O segredo d’um peito torturado –

E hoje, para guardar a mágoa oculta,
Canta, soluça – coração saudoso,
Chora, gargalha, a desgraçada estulta.

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O morcego

Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede…”
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

Augusto dos Anjos

Esta noite ainda não acabou

O espectro da moça esmagada

Não me persegue mais.

Agora é você, meu fantasma,

A me obsedar o sono.

“O Remorso de Orestes” de William Adolphe Bouguereau (1825-1905)

 

 

 

É o resquício da ira,

São as Fúrias a corroer meu crânio.

Das paixões todas

Essa é a mais voraz.

Seu fogo custa a se esgotar.

Mas como entender

que em um mesmo peito

possa se abrigar

Esse rancor e um amor verdadeiro?

24-10-2012

Mais uma vez é noite!

Penso novamente naquela noite

da qual nunca mais acordarei

Cada vez mais sinto que não sou eu que escrevo.

A poesia se escreve por si e vira um poema.

Se forma em algum lugar dentro de mim.

Esse lugar, a que eu não tenho acesso,

de dentro, transborda e invade o mundo e me domina.

Tanto que minto!

Lá fora não é noite ainda

mas no meu mundo o sol já declina.

É Noite novamente

Futurismo, Giacomo Balla, Poste e Iluminação, 1909

Na mesma janela,

Agora à luz da lua embaçada,

Ouço os mesmos seres noturnos,

Meus companheiros.

A memória da moça esmagada

Contra o poste aqui enfrente

Vem perturbar minha calma.

As ondas dos gritos aflitos

Ecoam no infinito.

Como se aquele momento

Continuasse existindo.

Disseram-me que o tempo

Não existe para a alma.

Mas, se os tempos são plurais

E se são mesmo um labirinto,

Em algum de seus corredores

Ela realmente passeia pela estrada,

Nesta e noutras noites banais.

Por isso ainda agora eu a sinto?

É noite

De longe vem o som

Das pequenas criaturas

da noite, meus irmãos.

Aos ouvidos chega com muito esforço

O canto sombrio de um pássaro

Que sai de seu repouso.

Solitários um sapo e um grilo conversam,

enquanto dormem seus iguais.

Luzes ao longe parecem piscar,

Mas é só o vento

que balança as árvores

que ora escondem

ora revelam o brilho

de pirilampos urbanos.

Esta noite tão agradável

Evoca outra noite

Mais duradoura!

Como o silêncio e a calma

que antecipam a tempestade.

O mar recua tanto,

que o seu solo se vê

antes de uma onda gigante.

Por um instante,

O silêncio total do quebrar

na areia da praia.

E depois o engolfar de todo o mundo…

Agora também o calar de todas

as vozes longínquas noturnas

Congela o coração,

Porque ele parece

Entender que esse

É o seu destino.

Antes até de seu dono

Ter tempo para pensar

e de fazer uma prece

Por seu estacar repentino.