Autor: Godoy
Cantiga de amigo
Arte e amanhã
Sem querer, o nosso abrigo
Transformou-se em artimanha
Para eu estar contigo
Ou você estar comigo,
Ainda outro amanhã.
Sem querer, estas palavras
Se combinam. Tanto faz
qual verdade lhe apraz
Definir tudo é maçante.
Só amigos sabem ouvir e aplicar a própria vida
Sem querer, meu amigo
Deixo que pense
Deixo que fale
Deixo que sinta
que você é o mais forte
e, por mim, carregue minha bagagem
Sem querer, o tempo todo,
Nem podia imaginar:
Que seu anseio era antigo,
Meu eterno e bom amigo!
Maria, Marias

- Paisagem Imaginante. Pintura feita em 1941 por Guignard, é uma das emblemáticas composições do artista em que nuvens se fundem a montanhas e igrejas, numa versão de ‘mundo flutuante’ em que estabelece um diálogo artístico com o Oriente
Maria, Maria sem dons nem magias
Só uma pobre qualquer
Que carece de alegrias,
Mas hoje vou cantá-la
nos meus versos mais pobres ainda
Para fazer-lhe jus, esse poema
Não destoa a forma do seu tema.
Maria, Marias, quantas poesias
Já escreveram em tua homenagem?
Incontáveis, eu já sabia!
Mas essa Maria não é aquela
A quem todos dizem amém.
É uma que conheci em uma
Longínqua paisagem.
Onde as Marias e as poesias
Nascem, vivem, morrem
Sem que o restante do mundo
Se dê conta de que na terra
Elas estiveram de passagem.
“Paisagem imaginante” de Alberto da Veiga Guignard
Alegria!?
Aos índios Kaiowás
Quando a “indesejada das gentes”
Passa a não ser tão indesejada assim?
Há um momento em que o cansaço
Vence o entusiasmo e essa entidade
Passa a ser almejada até por povos inteiros!
Gente como a menina que deveria estudar,
trancada no quarto, ao invés de se enforcar.
Ou gente que vive agora
Na miséria mais degradante,
Que se esquece, num rompante,
De seus filhos a alimentar!
Gente como os índios Kaiowás
Dos quais, talvez, irão se lembrar
Apenas por algum nome de lugar:
Mogi, Itaboraí, Itaipava.
Num contexto mais funesto,
Vivem sem lei, sem rei e sem fé
que os protejam e abriguem tudo o que eles têm.
A “civilização” os extinguirá?
Horripilantemente, em museus de raros
espécimes, os conservará?
Mas há também gente assaz inocente
que, contra todas as expectativas,
Contra todas as probabilidades,
Resiste à insuportabilidade da vida.
Gente que canta, vive e sorri
E, nesse decrépito mundo,
Ainda encontra a Alegria!
Thaís de Godoy
Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o governo e Justiça do Brasil
Nós (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.
Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay. Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.
Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados.
Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.
Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.
Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.
Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay
Com Adital e Cimi
O operário que sonhava em ser poeta – parte I – In memoriam de Manir de Godoy

Era uma vez um menino meio nômade,
Que vivia entre o interior e a cidade grande.
O pai morrera de gangrena.
A mãe costureira sustentava com esforço seis filhos: Eupídio, Cássio, Dirce, Tó, Manir e Iracema.
Vendedor de doces no cinema, engraxate,
Chegou a operário de fábrica de chocolate.
Nada fantástica era a vida desse guri,
Que vivia em um cortiço no Pari.
Mas tudo mudou no dia em que encontrou
As letrinhas de metal jogadas na calçada,
Que formaram o primeiro poema do menino sentado no meio fio.
As letrinhas graciosas eram seu único brinquedo nas horas vagas.
Um dia, o dono das letras o viu
E chamou para trabalhar.
Ali, sua formação interrompida continuaria.
O menino-operário da tipografia,
Montava admirado textos de poetas, de romancistas e de aspirantes a artistas;
Panfletos dos primeiros socialistas.
Aprendia tudo de todos que viviam a sua volta.
Com muito esforço, lia de Lobato e Verne ao Príncipe Valente e Flash Gordon,
Assim foi se alfabetizando.
No cortiço, sua mãe temerária
Não levava desaforo pra casa!
Com ela aprendeu a ser valente.
Engajado na causa operária,
Começou a ler obras mais sisudas
Do que as que lera numa escola em Bragança Paulista.
Era taxado de comunista!
Admirava o “cavaleiro da esperança”…
Por isso, aos 16, fugiu de casa e fundou o PC em São João da Boa Vista.
Lá, via filmes do Mazzaropi,
Dormia em carros alheios,
Tocava violino na praça…
Thaís de Godoy, 12-04-2012.
Elia Kazan – Clamor do Sexo


Elia Kazan é um dos maiores diretores norte-americanos de todos os tempos, suas obras são magníficas, abordando sempre temas polêmicos e relevantes. Citando alguns de seus melhores trabalhos, “A Luz é Para Todos” aborda o anti-semitismo, trazendo Gregory Peck como um jornalista que se passa por um judeu; “Sindicato de Ladrões” tem um tema político, estrelando Marlon Brando como um ex-boxeador que luta contra um sindicato de corruptos; “Vidas Amargas” retrata o drama de um jovem (James Dean) e sua dificuldade de relacionamento com o pai e “Uma Rua Chamada Pecado”, com certeza o seu filme com o maior peso dramático, é a película com aspectos bastante semelhantes ao filme criticado aqui, sexualmente falando.
“Clamor do Sexo”, depois de “Uma Rua”, é o filme mais polêmico de Kazan. Os belíssimos Bud (Warren Beatty) e Deani (Natalie Wood) são jovens que formam um casal apaixonado no final dos anos 20, um ano antes da Grande Depressão. Bud é herdeiro de uma grande companhia de petróleo, já Deani é filha de um doceiro, mas a diferença econômica não é nem de longe o principal fator que vai interferir em seu relacionamento. E qual é então o fator principal? O simples e puro desejo sexual. Ora, estamos falando dos anos 20, uma época em que uma garota ‘de família’ não podia nem cogitar a idéia de transar com seu namorado antes do casamento, por mais que o desejo aflorasse. Na verdade, o desejo da mulher tinha que ser totalmente reprimido, como diz a mãe de Deani à filha: – Só fazemos essas coisas para satisfazer os nossos maridos, para reprodução. A mulher não sente tanta vontade quanto o homem. Com esse diálogo, vemos que realmente muita coisa mudou em menos de cem anos, e a década de 20 seria o ponto de partida para as grandes mudanças ocorridas nesse século….
Trecho do texto de Gian Luca para ler o texto completo acesso o link – Clamor do Sexo
Poema de Wordsworth declamado por Deani no fim do filme:
“What though the radiance which was once so bright Be now for ever taken from my sight, Though nothing can bring back the hour Of splendour in the grass, of glory in the flower; We will grieve not, rather find Strength in what remains behind”
Tradução.
“O que de esplendor outrora tão brilhante agora seja tomado de minha vista para sempre. Apesar de que nada pode trazer de volta a hora de esplendor na relva, de glória numa flor, não nos afligiremos. Encontraremos forças no que ficou para trás.” Wordsworth
Olhos II

Lá fora o frio fere a alma,
Mas dentro padece
com o calor opresso.
Nos cumes de montes remotos,
O branco reluz seu lume.
E o universo todo, pela distância,
Tenta caber na moldura de uma janela.
Mas os olhos sabem
Que nessa messe
Só dentro deles
a vida inteira cabe.
Duelo dos Deuses
Eros fere até as Erínias!
Atena merece ser mais amada que Afrodite!
contudo regras para o querer, não há quem dite!
Nem todo o ciúme de Juno bastou para conter, de Zeus, o anseio.
Nem a forja, o fogo e o ferro de Hefesto
Bastaram para frear Afrodite,
Porque o martelo do marido fez a flecha que feriu a deusa,
Vítima do próprio amor!
Há um único preceito: é que o Amor não pode o amor recusar.
Assim, puderam os deuses todos a perdoar.
Como reles mortais, a viver na dor, pretendem privar-se
de um pouco desse clamor?
12-11-2012
Sonâmbulos
Você não sente
Que o que arranha
A lousa fria e dela arranca faísca
Não é nenhuma artimanha?
Você não sente
Que à noite sonâmbulos executam
Uma peregrinação errante?
Que na ausência da mente,
Só seus corpos exatos acertam
o caminho que aspiram, enfim?
Você não pressente
Que numa noite qualquer,
Esquecida do mundo e de mim
Por esse mesmo caminho
serei friamente conduzida,
Até chegar a um país
Que me aliene mais ainda,
Já que lá esta ossada não mente?
Vladimir Nabokov e Lolita
Vladimir Nabokov e Lolita: “Em português, na tradução de Jorio Dauster (Companhia das Letras e depois Folha de São Paulo), está: “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo.Li.Ta.”” trecho do texto de Paula Fernandes
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