Feliz 2019!

Mais um ano em que a Terra girou em torno do Sol.
Um ano a mais, um ano a menos.
Um ano que no cômputo geral do Universo foi só um atmo
Um sopro elíptico
Um suspiro
Menos que um suspiro

E, no entanto, mesmo sendo só mais um de tantos
Foi um ano infinito
De visões que cada ser
Teve do precipício.
Em cada cabeça, uma centelha de ilusão
Multiplicada por espelhos cheios de esperanças.

Dele agora me retiro!
Voltemos agora ao início,

Ao balé de macabros rodopios,
Andando em círculos no sempre novo,

Sempre o mesmo ano novo!

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Godoy

João de Deus, o kardecismo e a desigualdade entre os homens

Caridade x justiça social

Hum Historiador

Delegado diz que João de Deus utilizava a fé para cometer abusos sexuais

Sem querer me estender muito em toda essa patifaria ligada ao caso do charlatão que se autodenominou João de Deus, gostaria de compartilhar por aqui breves reflexões que me fizeram relembrar o tempo em que eu estudei de perto o espiritismo kardecista e, na sequência, engatei numa pós-graduação em teologia com alguns professores jesuítas.

Sem rodeios e indo direto ao ponto, a reaparição do João de Deus na TV me fez recordar de uma discussão que havia feito com alguns colegas no começo dos anos 2000 sobre a relação entre CARIDADE e DESIGUALDADE entre os homens. Já naquele tempo, antes mesmo de ter cursado faculdade de Ciências Humanas, defendia ser possível classificar qualquer doutrina/religião cujo fundamento principal é a caridade como sendo fortemente vinculada a valores da DIREITA. Depois de ter cursado História e, sobretudo, lido as reflexões sobre Direita e Esquerda de Norberto Bobbio, fiquei ainda mais convicto disso.

Antes…

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Mito e realidade

Mircea Eliade: mito, ontofania, hierofania e teofania

Νεκρομαντεῖον

Do site Νεκρομαντεῖον

https://oleniski.blogspot.com/2018/01/mircea-eliade-mito-ontofania-hierofania.html?spref=fb&m=1

Toda religião, mesmo a mais elementar, é uma ontologia: ela revela o ser das coisas sagradas e das Figuras divinas, ela mostra aquilo que realmente é. E, ao fazê-lo, funda um Mundo que não é mais evanescente e incompreensível como ele é nos pesadelos, como ele se torna cada vez que a existência é ameaçada de afundar no ‘Caos’ da relatividade total, quando nenhum ‘Centro’ emerge para assegurar uma orientação.”
MIRCEA ELIADE, Mythes, Rêves et Mystères, p. 16 (tradução própria do original em francês)
“E tomando pão, e havendo dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim’.”
LUCAS 22, 19 (tradução João Ferreira de Almeida)
O mito, segundo o historiador da religião romeno Mircea Eliade (1907-1986), é um relato de um evento real, atemporal e exemplar. Real porque o mito é uma ontofania, uma manifestação/revelação do Ser, isto é, ele revela o nascimento e o lugar das coisas no esquema mais geral da realidade. Por essa razão, todo mito é uma instância do mito cosmogônico que conta a origem do próprio mundo.
Quando o poeta grego Hesíodo, na Teogonia, atribui ao titã Prometheus o roubo do fogo dos deuses e o faz entregá-lo aos homens, ele expressa aí a origem da cultura e da civilização humanas. O relato da origem de algo não difere do relato da origem de tudo na medida em que é o que é relatado é a vinda ao Ser de algo que não existia. Em certo sentido, todo mito de origem é uma pequena cosmogonia que imita a grande origem do mundo.
O mito, portanto, é uma ontologia, uma metafísica que revela a estrutura mais íntima da realidade. É a manifestação de uma unidade última do mundo a despeito da multiplicidade de todos os eventos que se dão em seu seio. O relato mítico situa o homem no âmago do Real e, por conseguinte, determina seu lugar e seus deveres na economia das coisas.
Mas a mensagem mítica não é um relato acerca da origem temporal de algo ou do mundo. É um relato atemporal, in illo tempore, do que se dá no início. Os mitos não são História, são o seu oposto. A História é uma sucessão de acontecimentos singulares e irrepetíveis que não apontam para nada além deles mesmos. O acontecimento mítico não está no tempo histórico, não se deu aqui, ali ou acolá em um momento determinado.
Por essa razão, o mito é exemplar. O mito conta a origem de algo, seja do mundo, de um ser vivo qualquer, de um objeto, de uma estrutura social, de um comportamento ou de uma prática. Essa origem, sendo atemporal, não está submetida ao câmbio do tempo. Ela é o eixo fixo da realidade em torno do qual as coisas giram. O homem, para aproximar-se dessa estabilidade, imita temporalmente os eventos atemporais do mito.
Os agentes dos eventos míticos são os deuses, os heróis, os espíritos e outros entes semelhantes. O homem imita os atos divinos porque são atos reais no sentido mais estrito da palavra. Se um ser divino deu aos homens a agricultura no início, eles dedicar-se-ão a imitá-lo fielmente em seus procedimentos, mantendo uma tradição imemorial. O divino é o objeto de imitação par excellence.
Sendo o mito o relato atemporal dos atos dos entes divinos, segue-se que o mito é, ao mesmo tempo, hierofania e teofania, pois nele revelam-se o sagrado e os deuses. O homem imita os atos divinos porque deseja fixar-se no permanente e naquilo que é real. O divino manifesta o realissimum. Consequentemente, o sagrado é o maximamente imitável.
O homem que vive sob o mito entende todas as suas atividades, cotidianas ou rituais. como imitações dos atos divinos atemporais e exemplares. E, justamente por serem imitações da Realidade, essas atividades humanas assumem realidade. Lá onde não há modelo atemporal, há o não-ser, o ilusório, o nada.
O mito faculta ao homem o acesso ao estrato metafísico da realidade, bem como ao universal. A árvore sagrada já não é mais a árvore comum, mas significa a totalidade cósmica enquanto “eixo do mundo”. Permanecendo exteriormente a mesma, torna-se outra de imensurável significado. Torna-se o ponto de convergência e o sustentáculo absoluto de todas as coisas.
Assim, para o homem que vive o mito, assevera Eliade,”é a experiência religiosa que funda o Mundo” e são os ritos, os espaços e os tempos sagrados que o orientam na realidade. O mito é assumido pelo ser total do homem, não somente por seu intelecto ou por sua imaginação. Toda a sua vida reveste-se de significado graças ao relato mítico.
Alceu de Metilene
William-Adolphe_Bouguereau(1825-1905); “The Youth of Bacchus”(1884)

Soneto 23

Soneto 23

William Shakespeare

Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,

Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro então minha eloquência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa

Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.