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Cinco poemas de Jarid Arraes para o Setembro Amarelo by Mulheres que Escrevem in Medium

https://medium.com/mulheres-que-escrevem/cinco-poemas-de-jarid-arraes-para-o-setembro-amarelo-79941d6d59c3

mão dada

observo as linhas da minha mão
correndo águas
a linha do amor do dinheiro

qual será a linha
da loucura

o rio de traços finos
falhos
tremidos
que revelam a mente sã

ensandecida

qual será a linha da loucura
na palma da minha vida

qual será a veia herdada
vendo a marca infligida

qual será a linha
louca
que corta o rio
da minha mão

da minha mãe
por quem fui
parida

doze horas em trabalho
de partida
só pra nascer
com o carimbo da mão
em linha
enlouquecida

qual será
essa
loucura
costurada
essa linha
desmedida
essa
palma
bordada

eu olho os rios da minha mão
e enlouqueço
calada

alta ajuda

dizem que são necessários
trinta dias
para que um novo hábito
se torne rotina

dizem que o problema
é a gordura que o
açúcar refinado na
verdade que todo
açúcar que as frutas
também
tudo faz mal

e dizem que yoga
e pilates
exposições gatos cães
pássaros livres e
nadar com os golfinhos
não

a natureza se desequilibra
assim como bambeamos
movidos a ansiolíticos
e cafeína

até mesmo os que dizem
que a meditação
os parques as longas
caminhadas na praia
a água de coco o óleo
de macadâmias
as escovas
elétricas e o chás
feitos das ervas
tiradas do chão fazem
bem

até mesmo os que dizem
que todas as religiões
que a tolerância o
ecumenismo as missas
de sétimo dia as velas
os filmes nacionais
os editais o apoio
do governo a importância
dos movimentos sociais

até mesmo
os que dizem que a
indústria o consumo
as leis a punição
até os que sentem
pena

até eles dizem
que trinta dias passam
mas não habituam
a vida
em quem de nada
faz questão
.


Dora

nunca esqueço de Dora
de sua paralisia
sua cegueira
sua oposição transformada
em patologia

como os homens
amam os códigos
que catalogam a loucura
feminina

e distribuem sintomas
por cima dos
hematomas
e taças de sangria

em suas camas
forradas com mentiras
e blocos de papel
onde escrevem cárceres
onde descrevem leitos
onde Dora e eu e todas
nós
devemos deitar
em espera

nunca esqueço do caso
de Dora
da coragem sufocada
por mãos livros
por páginas
escritas por homens
como ele
com números que são
camisolas
à força
e que mais cedo ou
mais tarde
acabamos por vestir

porque em seus blocos
camas poltronas
em seus estetoscópios
eles escutam a rebeldia

porque Dora e eu e todas
nós
nos fazemos
ouvir

duas cadeiras
conte para mim
sobre como tudo anda difícil
e nem a cerveja se paga
e nem a escrita se cria
me conte

sobre os imprevistos
e as curvas fechadas
sobre os livros
abandonados
as exposições vazias
de significado

me fale sobre a rotina
que esmaga
com as palavras que
sempre as mesmas
se usa

e sobre a cidade cinza
os rios espumantes
o quilo de sal
caro
que se come
me conte

sobre as temperaturas
altas e os corações
apáticos
sobre as relações
de supermercado
os produtos
políticos

eu quero ouvir
sobre as pequenas vidas
os pequenos instantes
de vida
que ainda resistem


.

contato

a mente doente
tem traços e partes
de imagens
incompletas
- dizem
e a gestalt pode
ajudar
porém
todos buscamos
a cura rápida
os comprimidos
os laudos
para que sejam
validados
os momentos piores
mais eremíticos

porque todos
estamos
jogados
ao nosso pessoal
veredicto

sentamos em poltronas
cara a cara com o incógnito
e abrimos portas que
libertam
carcaças
serpentes
formigas
na boca

somos ouvidos
e punhos suados
trocamos os olhos
pela voz embargada

não você
não queria
você não
estaria ali
se não fosse
esse buraco
bem no meio
chamativo

não se preenche
morte com
vida
e talvez não
exista conteúdo
para a mente
evacuada

mas tente sentar
responder sobre pais
divórcios sobre aquele
tio que tocou
ali onde se partiram
as louças

tente juntar as imagens
infantilmente

foi aqui
aponte onde
- nessa boneca loira
aqui aqui

segura nas cordas
vocais a vontade
de correr
a tentação carnal
de abandonar-se
...

somos ouvidos

com os punhos suados
mas nossos punhos
escrevem a verdade
do mundo
a beleza civilizatória

há ainda um pouco
que segura o peso
você pode dormir
e jogar
com os pesadelos

mas levante-se
deixe os olhos pousarem
as pernas vão chacoalhar
mas um dia
cara a cara
com um ser familiar
os tendões terão descanso

tudo será outra coisa
nada novo
mas outra estrutura

uma casa com aldavras
vedada aos tios
limpa de estilhaços
um chão onde esticar
a coluna — chorar

e isso será mais
do que fora

e isso será o mais
próximo
da cura


Jarid Arraes

Nascida em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 12 de Fevereiro de 1991, Jarid Arraes é escritora, cordelista, poeta e autora dos livros “Um buraco com meu nome“, “As Lendas de Dandara” e “Heroínas Negras Brasileiras“. Curadora do selo literário Ferina, atualmente vive em São Paulo (SP), onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Até o momento, tem mais de 60 títulos publicados em Literatura de Cordel.

Estes poemas, publicados na Mulheres que escrevem, foram escolhidos pela escritora, cordelista e poeta, Jarid Arraes, para não nos esquecermos do significado do Setembro Amarelo, mês que marca a campanha brasileira de prevenção ao suicídio, iniciada em 2015 em Brasília. É uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida, do Conselho Federal de Medicina e da Associação Brasileira de Psiquiatria. Acreditamos que a escrita e a literatura têm um papel fundamental na conscientização e debate de questões tão importantes como esta. Caso precise de ajuda, não hesite, ligue para a CVV (188) ou procure a ajuda especializada. A saúde mental é um assunto sério e deve ser tratada com respeito e atenção. Agradecemos imensamente à Jarid Arraes por sempre abordar este tema com cuidado e seriedade.

Leia mais poemas, ensaios e entrevistas com a autora aqui:
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Três poemas de Jarid Arraes
nós choramos, loucas de primeira viagem
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Uma mulher negra escrevendo em busca de casa
Resgatando um conti



Soneto 23

Soneto 23

William Shakespeare

Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,

Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro então minha eloquência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa

Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.