Morto

de Ricardo Costa

 

Penso que nasci morto

Vivi meio que morto

No ponto morto

Me fiz de morto

Vivo-morto já é um morto

Vivo pode ser morto

Morto não pode ser morto

Mas morto é morto

Se morno não está morto

Se frio talvez quase morto

Gelado, com certeza morto

Amarelo encerado é um morto

Deitado caixão com flor é morto

Cem por cento morto

Até baralho tem morto

Que fica de lado como morto

Se joga bem pega o morto

Só então vive o morto

Desconectar da vida está morto

Na solidão você é um morto

Sozinho está morto

Morto bom é um bom morto

Seu futuro terá um morto

Você será um morto

Ninguém tem inveja de morto

Chora quando vê um morto

Morto por morto

Melhor um bem morto.

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Lawrence Olivier em Hamlet

À sua mulher antes de casar

Para quem é da área de Letras e não tem ideia para fazer um projeto de mestrado, aí vai uma sugestão: o poema da Florbela Espanca, “Para quê?” publicado anteriormente, tem uma relação de intertextualidade com o poema abaixo de Gregório da Matos. Se ela o leu ou não é preciso investigar, de qualquer maneira, certas imagens, da flor, do pó, das cinzas, do nada, a gradação do período barroco retomadas num período mais recente, nos faz lembrar da ideia de Borges sobre o espírito da poesia. As ações propostas por Florbela e Gregório diante da transitoriedade da vida, no entanto são muito diferentes: ele propõem à futura esposa desfrutar ao máximo, enquanto há tempo (O tema do carpe diem, numa atitude mais hedonista); já a autora portuguesa pensa em desistir de procurar o amor e o prazer, pois tudo é vaidade, o que nos remete ao livro bíblico, o Eclesiastes.

Gregório de Matos Guerra

 

Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh não aguardes, que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

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