Refugiados

Você, que é tão erudito,

recite-me versos suaves, por piedade,

para recuperar de viver a vontade!

 

Você, que é tão ajuizado,

Por misericórdia me dite os santos escritos

Nos templos ouvidos,

Para alimentar desgraçados proscritos!

 

Você, que é tão são,

por compaixão, reze-me uma oração

para alentar a quem vive ao relento;

a quem se negou a terra de onde tirar o sustento;

a quem nunca recuperou seu pródigo rebento.

Thaís GM

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Meus olhos

 

Aainy, meus olhos!

Aainy, meu amado!

Meu olho d’água num deserto de humanidade!

Minha devoção, feito cachoeira, transborda e cai dos meus olhos,

Em você, meu lago translúcido, no oásis em que sempre vou beber,

Depois de atravessar estes ermos.

Beba, então, também estas águas

Porque elas o refrescarão do seu deserto.

Depois vamos rir juntos de tudo;

Vamos rir como só são capazes os loucos.

Não porque desconhecemos o mal,

E somos ingênuos, imaginando que tudo está certo,

Mas sim porque, em meio a girassóis e miosótis, estamos um no outro.

 

Feliz aniversário, Fernando!

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Cântico negro

Cântico negro

José Régio

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

 

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

 

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

 

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

 

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Pressagiando

Thaís GM

Encontro fúnebre entre o Sim e o Não.

Não tarda a chacina dos lírios do campo.

Não tarda o terremoto a aplanar

A montanha do sermão.

 

Tranquilamente se torce a trama,

Caretas transidas de compaixão.

Treme e trança a turba agora enfurecida

Em espasmos convulsos e roucos.

Barafunda de iagos pisoteados

Por manada de unicórnios prata.

Sarabanda sacrossanta e temerária.

 

Queres ver os estilhaços dos vasos

Salpicados de esperanças?

Sabes que a prisão dá vida

Àquele que não tem para onde ir?

Nos prados, as presas dos gatos

Dominam o mundo pressagiando.

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“Corrupt” de Salvador Dali, ilustração da divina Comédia de Dante

 

Santa Maria

Santa Maria, cheia de desgraças,

O horror é convosco.

Maldita sois vós dentre as cidades?

Vossas chamas nos consomem.

Os benditos frutos do vosso

Ventre tombaram prematuros.

 

Santa Maria, não rogueis por aqueles

Que zombam da ruína de vossos filhos.

Santa Maria, não rogueis por assassinos

Que desprezam a mocidade.

Santa Maria, não rogueis por carniceiros

que de sangue vivem sedentos.

 

Santa Maria, rogai por vossas mulheres

tão cheias de graça quanto vós!

Santa Maria, aplacai a dor dessas mães

na hora do beijo da morte que é agora.

Amém.

 

 

Thaís de Godoy Morais