Consolo na Praia

Carlos  Drummond de Andrade

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te – de vez – nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

luoghi-surreali-001

 

Vampiro de Charles Baudelaire

VAMPIRO

Tu que, como uma punhalada
Invadiste meu coração triste,
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar o leito ao ascendente,
– Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,

Como a seu jogo o jogador,
Como à garrafa o beberrão,
Como aos vermes a podridão
– Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz
Dar-me a liberdade, um dia,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.

Mas não! O veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeiro
“Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro

Ah! imbecil – de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!”

A-Dança-dos-Vampiros-1967-4
A Dança dos Vampiros de Roman Polanski com Sharon Tate e Jack MacGowran como o Prof. Abronsius

 

O Corvo

Edgar Allan Poe traduzido por Machado de Assis

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: “Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais.”

Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: “Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais.”
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
“Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais.”

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: “O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: “Nunca mais”.

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: “Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora.”
E o corvo disse: “Nunca mais!”

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
“Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: “Nunca mais”.

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: “Nunca mais”.

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: “Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: “Nunca mais.”

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

anoika09.

Tripping

Aparentemente o início dessa música de Robbie Williams é uma citação de uma frase de Mahatma Gandhi.

Tripping                                                              Tropeçando

 

First they ignore you                                   Primeiro eles te ignoram

Then laugh at you and hate you               Então eles riem de você e te odeiam

Then they fight you – then you win         Então eles brigam com você – aí você ganha

When the truth dies                                     Quando a verdade morre

Very bad things happen                               Muitas coisas ruins acontecem.

They’re being heartless again                   Eles estão sendo cruéis de novo.

 

I know it’s coming                                          Eu sei que está vindo

There’s going to be violence                      e vai ser violento

I’ve taken as much                                         Eu consegui bastante

As I’m willing to take                                     como estou disposto a mais

Why do you think                                           Porque você pensa

We should suffer in silence                        que nós devíamos sofrer no silêncio

When a heart is broken                                Quando um coração está partido

There’s nothing to break                             não há nada para partir

 

 

(Chorus Backing Vocal:                               (Refrão dos “Backing Vocal”:

Want you to love me                                    Quero que você me ame

Want you to be                                                 Quero que você seja

The heavens above me                                   O céu acima de mim

Eternally)                                                           Eternamente)

 

You’ve been mixing                                       Você tem estado misturado

With some very heavy faces                     com algumas caras bem difíceis

The boys have done a bit of bird             Os meninos tem enganado uma parte das meninas

They don’t kill their own                              Eles não se matam

And they all love their mothers                               e todos eles amam suas mães

But you’re out of your depth son            Mas você está fora de sua profundidade filho

Have a word                                                     Fale alguma coisa.

 

 

I know it’s coming                                          Eu sei que está vindo

There’s going to be violence                      e vai ser violento

I’ve taken as much                                         Eu consegui bastante

As I’m willing to take                                     como estou disposto a mais

Why do you think                                           Porque você pensa

We should suffer in silence                        que nós devíamos sofrer no silêncio

The heart is broken                                       O coração está partido

There’s nothing to break                             não há nada para partir

 

 

All is wonderful in past lives                       Tudo é maravilhoso nas vidas passadas

Dreaming of the sun she warms              Sonhando com o sol que a esquenta

You should see me in the afterlife          Você deveria me ver na vida após a morte

Picking up the sons of dust                        Apanhando os restos mortais

 

When you think we’re lost                         Quando você pensa que estamos perdidos

We’re exploring                                              Estamos explorando

What you think is worthless                      O que você pensa que é inútil

I’m adoring                                                        Eu adoro

You don’t want the truth                            Você não quer a verdade

Truth is boring                                                 A verdade é chata

I got this fever need to                                Eu peguei essa febre de

Leave the house leave the car                  Deixar a casa deixar o carro

Leave the bad men where they are       Deixar os homens maus onde eles estão

Leave a few shells in my gun                     deixar algumas balas na minha arma

Stop me staring at the sun                         Parar de encarar o sol

 

 

I know it’s coming                                          Eu sei que está vindo

There’s going to be violence                      e vai ser violento

I’ve taken as much                                         Eu consegui bastante

As I’m willing to take                                     como estou disposto a mais

Why do you say                                                              Porque você pensa

We should suffer in silence                        que nós devíamos sofrer no silêncio

My heart is broken                                        O coração está partido

There’s nothing to break                             não há nada para partir

 

“Lista” dos dez livros mais difíceis do “Mundo” ignora o Oriente

Listas sobre os livros mais relevantes do século, os mais criativos, os melhores do ano e os mais importantes de se ler antes de morrer. As relações são infinitas, embora muitas vezes bastante duvidosas, mas sempre populares no mercado editorial.
A mais recente foi divulgada esta semana pelo jornal britânico The Guardian. O site literário independente The Millions elegeu, após uma pesquisa de três anos, as dez obras consideradas por eles como as mais difíceis do mundo.
Para chegar a essa relação, o site teve como critério livros complicados de ler por conta de sua extensão, ou pelo estilo ou estranheza estrutural do texto, pela experimentação, além da abstração da linguagem.
Na lista, nada de Guerra e Paz, de Liev Tolstói, nem o tão aclamado Ulysses, de James Joyce. O autor irlandês até aparece, mas desta vez com Finnegans Wake. A escritora inglesa Virginia Woolf também está na relação. Desta vez, não foi citada pela brilhante (e difícil) obra A Viagem, por exemplo. Mas está na lista do The Millions com Ao Farol (título original To the Lighthouse).
No geral, apenas trabalhos europeus e norte-americanos foram relacionados. As outras obras consideradas como as mais difíceis do mundo, segundo o website, foram: Nightwood, da escritora norte-americana Djuna Barnes; A Tale of a Tub, de Jonathan Swift; A Fenomenologia do Espírito, de Hegel; Clarissa, de Samuel Richardson; Ser e Tempo, do filósofo alemão Martin Heidegger; The Faerie Queene, do inglês Edmund Spenser; The Making of Americans, de Gertrude Stein; e Women and Men, de Joseph McElroy.
Os organizadores da lista ignoraram totalmente obras monumentais como o Mahabarata dificílima quer por sua extensão,  quer pelas diferenças culturais, distanciamento temporal e significado esotérico. “A Grande História dos Bharatas”, como se traduz seu título, é o principal épico religioso da civilização indiana – e também o maior poema de todos os tempos, com cerca de 200 000 versos. Só para ter uma ideia, isso equivale a sete vezes a soma da Ilíada com a Odisseia, os dois épicos atribuídos ao poeta grego Homero que inauguraram a literatura ocidental.
Kurukshetra
Insira uma legenda

Manuscrito ilustrado da batalha de Kurukshetra, onde se vê o deus Krishna manejando o carro de combate do arqueiro pandava Arjuna, que dispara suas flechas contra os Kuravas

Homenagem ao dia das Mães

À minha amada mãe: Rosa Boccuzzi de Godoy

Eu gostaria de ter como amigo o filho que nunca resistiu às lágrimas de sua mãe. (Lacretalle)

Um beijo de mãe fez de mim um pintor. (Benjamin West)

Minha mãe foi a mulher mais bela que jamais conheci.Devo-lhe tudo que sou. Atribuo todo meu sucesso na vida à educação moral, intelectual e física que dela recebi. (George Washington)

Todo inseto é uma gazela aos olhos da mãe. (Provérbio árabe)

A mão que balança o berço é a mão que governa o mundo. (W.S. Ross)

O que a mãe nos canta junto ao berço acompanha-nos até a sepultura. (Henry Ward Beecher)

Como não podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, Deus criou as mães.(Provérbio judaico)

Quando pensou na Mãe, Deus deve ter sorrido de satisfação, e emoldurou-a imediatamente, tão rica de significado, tão divina, tão cheia de alma, poder e beleza era sua concepção.(Henry Ward Beecher)

 

 

Vinícius de Moraes

SONETO DO AMOR TOTAL

 

Rio de Janeiro, 1951

 

Amo-te tanto, meu amor… não cante

O humano coração com mais verdade…

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.

 

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

 

Amo-te como um bicho, simplesmente,

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

 

E de te amar assim muito e amiúde,

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.

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Eros e Psiquê